Esta minha série dos poetas esquecidos até parece ter sido descontinuada, mas não foi. Já lhe passaram por cima um Natal e várias gripes e, no momento em que escrevo, continuo refém de maléfica influenza, portanto desculpem qualquer coisinha.
Eu diria que, de todos os esquecidos, o meu preferido é Reinaldo Ferreira.
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira nasceu em Barcelona a 20 de Março de 1922 e morreu em Lourenço Marques a 30 Junho de 1959. Uns meses antes de eu nascer.
A edição de Poemas, com a chancela da Portugália, ocorrerá um ano depois, resultado de um trabalho de recolha e de ordenação do espólio, que incluía os poemas de Um Voo cego a nada, Poemas Infernais e Poemas do Natal e da Paixão de Cristo, levado a cabo por Eugénio Lisboa, Guilherme de Melo e Fernando Ferreira. José Régio escreverá o Prefácio.
Poemas, dado esse carácter de recolha, será mais uma colecção de poemas do que um livro de poesia, embora tal facto não diminua, em nada, o valor de cada texto.
Os poemas de Reinaldo Ferreira trazem uma melancólica consciência da condição humana e é muito do ser-para-a-morte heideggariano que nos surge nestes versos matizados de um fatalismo português.
O punctum ( se disso se pode falar na poesia como se pode na pintura), o punctum na obra de Reinaldo Ferreira reside numa desarmada sinceridade emotiva, diversa da sinceridade artística pessoana, e devedora de um confessionalismo em que o homem e o poeta se confundem.
Estou agora a folhear a minha velha edição da Portugália. Está cheia de notas e sublinhados. Alguns, já nem sei por que razão os fiz. Escolher só um poema é difícil, mas convém não arrastar o post:
Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos, dancemos
Já que temos a valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
Dum par
Que paga sem falar;
Eu nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh …
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une – é estar ausentes.

foi assim, há muitos anos atrás, que conheci esse poema e ouvi falar do reinaldo ferreira, através do fausto:
http://www.youtube.com/watch?v=klyN7plOO JM
Sim, alguns dos poemas do RF estão musicados.
O curto poema que lhe serviu de epitáfio é das sínteses mais profundas e complexas da angustia de existir:
“Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto”
ou ainda:
“Quanto mistério na semente
Que ergue ao Sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério.”
Estudava em Moçambique quando Reinaldo Fereira faleceu, leio-o desde então e, para mim, é um poeta sempre novo, uma permanente descoberta.
Para algum possível interessado seguem dois links onde se encontram quase todos os poemas de R.F., bem como notas biográficas:
http://www.astormentas.com/reinaldo.htm
http://alfarrabio.di.uminho.pt/reinaldo/i ndex.html
Descubram-no.
E, no entanto, um estudo apurado e mais completo ainda está por fazer. O prefácio de Régio à edição e Poemas é muito bom, mas já poderia existir mais bibliografia.
Obrigada pelo comentário.
Poderia e deveria.
Reinaldo Ferreira é (os poetas nunca morrem) um poeta muito complexo e multifacetado, um poeta que só tinha “dado um ar de sua graça”. Era ainda um poeta a haver. Escreveu frivolidades como “Uma casa portuguesa” e letras para canções que João Maria Tudela cantou, mas deixou-nos, ainda que de forma dispersa, a poesia que, postumamente, veio a ser coligida sob o título “Poemas” e que é de grande complexidade, profundidade e qualidade.
Tive uma primeira edição, comprada na livraria Clássica, da Beira, que se perdeu ao longo de mais de cinco décadas após a compra (Kokwana quer dizer “velho” em Changane ), mas tive a sorte de encontrar há muitos anos, talvez trinta e cinco, uma única edição que se fez em Portugal e que guardo ciosamente.
Reinaldo Ferreira é um poeta injustamente relegado para o esquecimento. Não sou homem de letras, mas nunca me cansei de tentar dar a conhecer a sua poesia.
Bem haja por ressuscitar Reinaldo Ferreira.
Em boa hora retomaste esta excelente série, Ivone. Tal como tu, também elejo Reinaldo Ferreira entre os poetas esquecidos – injustamente esquecido, neste caso. Tal como tu, também tenho um velho exemplar da recolha da Portugália já muito lido e anotado, mas nem por isso menos estimado. Tal como tu, também destaco este poema entre tantos outros de que gosto muito e trago há longos anos decorados e recito com gosto para mim próprio nas mais diversas ocasiões, faça chuva ou faça sol.
Pelos vistos, só discordamos n’ Os Descendentes :))
Uma andorinha não faz a Primavera. Boas melhoras. Beijinho.
Gosto muito, muito do Reinaldo Ferreira. E também tenho o livro, que guardo e releio muitas vezes. É um poeta genial a que não fizeram grande justiça em vida, como afinal tantos outros. Paciência, mesmo não sendo o típico herói… serve-se morto!
Só agora vim aqui. Gosto tanto de Reinaldo Ferreira. Há poemas dele que fazem parte da minha sinalética, sendo indissociáveis de várias etapas da minha vida. O que tu destacaste é um deles. Mas também na caixa de comentários encontrei vestígios de versos muito meus 🙂
Quem gosta de RF tem sempre um verso ou um poema dele a acompanhar uma volta qualquer da vida.
Nem mais.
É isso mesmo, meninas. Também eu faço essas ligações, é inevitável. A poesia dele é profunda e muito abrangente, como é sempre a grande Poesia.
Não fizeram em vida e continuam a não fazer depois de morto.