Poetas esquecidos (7)


convite,

Esta minha série dos poetas esquecidos até parece ter sido descontinuada, mas não foi.  Já lhe passaram por cima um Natal e várias gripes e, no momento em que escrevo, continuo refém de maléfica influenza, portanto desculpem qualquer coisinha.

Eu diria que, de todos os esquecidos, o meu preferido é Reinaldo Ferreira. 

Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira nasceu em Barcelona a 20 de Março de 1922 e morreu em Lourenço Marques a 30 Junho de 1959. Uns meses antes de eu nascer.

A edição de Poemas, com a chancela da Portugália, ocorrerá um ano depois, resultado de um trabalho de recolha e de ordenação do espólio, que incluía os poemas de Um Voo cego a nada, Poemas Infernais e Poemas do Natal e da Paixão de Cristo, levado a cabo por Eugénio Lisboa, Guilherme de Melo e Fernando Ferreira. José Régio escreverá o Prefácio.

Poemas, dado esse carácter de recolha, será mais uma colecção de poemas do que um livro de poesia, embora tal facto não diminua, em nada, o valor de cada texto.

Os poemas de Reinaldo Ferreira trazem uma melancólica consciência da condição humana e é muito do ser-para-a-morte heideggariano que nos surge nestes versos matizados de um fatalismo português.

O punctum ( se disso se pode falar na poesia como se pode na pintura), o punctum na obra de Reinaldo Ferreira reside numa desarmada sinceridade emotiva, diversa da sinceridade artística pessoana,  e devedora de um confessionalismo em que o homem e o poeta se confundem.

Estou agora a folhear a minha velha edição da Portugália. Está cheia de notas e sublinhados. Alguns, já nem sei por que razão os fiz. Escolher só um poema é difícil, mas convém não arrastar o post:

 

Eu,  Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia

Que partout, everywhere, em toda a parte,

A vida égale, idêntica, the same,

É sempre um esforço inútil,

Um voo cego a nada.

Mas dancemos, dancemos

Já que temos a valsa começada

E o Nada

Deve acabar-se também,

Como todas as coisas.

Tu pensas

Nas vantagens imensas

Dum par

Que paga sem falar;

Eu nauseado e grogue,

Eu penso, vê lá bem,

Em Arles e na orelha de Van Gogh …

E assim entre o que eu penso e o que tu sentes

A ponte que nos une – é estar ausentes.

14 comentários em “Poetas esquecidos (7)”

  1. O curto poema que lhe serviu de epitáfio é das sínteses mais profundas e complexas da angustia de existir:
    “Mínimo sou,
    Mas quando ao Nada empresto
    A minha elementar realidade,
    O Nada é só o resto”
    ou ainda:
    “Quanto mistério na semente
    Que ergue ao Sol o pulmão de uma folha;
    Quanto mistério em mim, que a vejo;
    E quanto mais mistério em mim,
    Que vejo nisto um mistério.”
    Estudava em Moçambique quando Reinaldo Fereira faleceu, leio-o desde então e, para mim, é um poeta sempre novo, uma permanente descoberta.
    Para algum possível interessado seguem dois links onde se encontram quase todos os poemas de R.F., bem como notas biográficas:

    http://www.astormentas.com/reinaldo.htm

    http://alfarrabio.di.uminho.pt/reinaldo/index.html
    Descubram-no.

      1. Poderia e deveria.
        Reinaldo Ferreira é (os poetas nunca morrem) um poeta muito complexo e multifacetado, um poeta que só tinha “dado um ar de sua graça”. Era ainda um poeta a haver. Escreveu frivolidades como “Uma casa portuguesa” e letras para canções que João Maria Tudela cantou, mas deixou-nos, ainda que de forma dispersa, a poesia que, postumamente, veio a ser coligida sob o título “Poemas” e que é de grande complexidade, profundidade e qualidade.
        Tive uma primeira edição, comprada na livraria Clássica, da Beira, que se perdeu ao longo de mais de cinco décadas após a compra (Kokwana quer dizer “velho” em Changane ), mas tive a sorte de encontrar há muitos anos, talvez trinta e cinco, uma única edição que se fez em Portugal e que guardo ciosamente.
        Reinaldo Ferreira é um poeta injustamente relegado para o esquecimento. Não sou homem de letras, mas nunca me cansei de tentar dar a conhecer a sua poesia.
        Bem haja por ressuscitar Reinaldo Ferreira.

  2. Em boa hora retomaste esta excelente série, Ivone. Tal como tu, também elejo Reinaldo Ferreira entre os poetas esquecidos – injustamente esquecido, neste caso. Tal como tu, também tenho um velho exemplar da recolha da Portugália já muito lido e anotado, mas nem por isso menos estimado. Tal como tu, também destaco este poema entre tantos outros de que gosto muito e trago há longos anos decorados e recito com gosto para mim próprio nas mais diversas ocasiões, faça chuva ou faça sol.

  3. Gosto muito, muito do Reinaldo Ferreira. E também tenho o livro, que guardo e releio muitas vezes. É um poeta genial a que não fizeram grande justiça em vida, como afinal tantos outros. Paciência, mesmo não sendo o típico herói… serve-se morto!

    1. Só agora vim aqui. Gosto tanto de Reinaldo Ferreira. Há poemas dele que fazem parte da minha sinalética, sendo indissociáveis de várias etapas da minha vida. O que tu destacaste é um deles. Mas também na caixa de comentários encontrei vestígios de versos muito meus 🙂

          1. É isso mesmo, meninas. Também eu faço essas ligações, é inevitável. A poesia dele é profunda e muito abrangente, como é sempre a grande Poesia.

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