Poetas esquecidos (6)


convite,

Isto de associar ideias é rodopiar que bem se conhece mas que nem sempre bem se explica. Estive, durante a tarde, a conversar sobre o romance Adoecer da Hélia Correia. Um beleza de livro, fica já aqui dito. A personagem central é Elizabeth Siddal, a conhecida pré-rafaelita que posou, entre outras coisas, para o quadro de John Everett Millais, feita Ofélia e deitada numa banheira mal aquecida com um vestido antigo recamado a fio de prata cujo peso a puxava para a pouca água e lhe provocou uma pneumonia de tão demorado ter sido o tempo de pose. Ora bem: como é sabido que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa vã imaginação, um anjo de passagem, dos que fizeram formação em blogues, segredou-me à consciência: “Olha lá, não devias voltar a falar de um poeta esquecido?” Pois é, pensei: os poetas. Depois: Ofélia. A Ofélia de Fernando Pessoa, irmã de Carlos Queirós. Será o meu poeta de hoje.

José Carlos Queirós Nunes Ribeiro nasceu em Lisboa em 1907 e morreu em Paris em 1949. Já conferi as datas, não me enganei. Felizmente, há sempre um ou outro comentador de bom coração que me vem assinalar o lapsus calami (ou de tecla, no caso vertente). Amigo de Fernando Pessoa e de Luís de Montalvor, a estética do Orfeu não deixou marcas muito visíveis na sua produção poética. Se alguma influência se quiser encontrar, será a da Presença, talvez mais de Régio, embora a poesia de Carlos Queirós assuma características muito próprias, diversas dos dois modernismos. Em vida, a sua publicação foi escassa: Desaparecido e alguns poemas em várias revistas. A publicação póstuma de Poesia Completa permitiu uma visão de conjunto sobre uma escrita de grande apuro sintáctico e formal. Eu di-lo-ia um clássico moderno e citadino, com dores de alma refreadas numa expressão contida. É um nostálgico comedido, desencantado do mundo e dos seus enganos. Uma nostalgia muito portuguesa, com metáforas de veleiros e de arrais.

 

Sempre que leio nos jornais:

«De casa de seus pais desapar’ceu…»

Embora sejam outros os sinais,

Suponho sempre que sou eu.

 

Eu, verdadeiramente jovem,

Que por caminhos meus e naturais,

Do meu veleiro, que ora os outros movem,

Pudesse ser o próprio arrais.

 

Eu, que tentasse errado norte;

Vencido, embora, por contrário vento,

Mas desprezasse, consciente e forte,

O porto do arrependimento.

 

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!

– Livre o instinto, em vez de coagido.

«De casa de seus pais desapar’ceu…»

Eu, o feliz desaparecido!

18 comentários em “Poetas esquecidos (6)”

  1. Há anos que não ouvia falar do Carlos Queiroz, poeta ‘presencista’ hoje verdadeiramente esquecido. Morreu prematuramente num ano funesto para a literatura portuguesa: 1949. O ano em que morreram dois outros escritores também demasiado cedo: Francisco Bugalho e Soeiro Pereira Gomes.
    Três anos depois, em 1952, morria – igualmente muito jovem – outro poeta hoje injustamente esquecido: Sebastião da Gama. As mortes prematuras na literatura portuguesa davam outra série, Ivone.

  2. Gosto muito da poesia do Carlos Queirós. Mas não fazia ideia de que ele era irmão da Ofelinha das cartas de amor ridículas… sempre a aprender consigo, stôra Ivone!

  3. Não sei porquê, tinha (mal) arquivado na minha cabeça uma qualquer ‘entente’ entre Carlos Queiroz e Florbela Espanca. Quase juraria, mas parece que ele afinal não fez parte da sua extensa lista de presas. E era então, sim, irmão da “almofadinha pregadeira de alfinetes” e “pombinha de leque” Ofélia… 🙂

      1. Ah, mas eu também, nem duvides 😉 No mínimo, obrigava-o a engolir os ditos alfinetes, todos… Aliás, eu tenho um problemazinho: gosto muito do Pessoa, especialmente do Caeiro. Mas este endeusamento nacional é tão ridículo como as cartas de amor. Comigo, funciona ao contrário: tal e qual como (me) acontece com o Saramago. Nem tanto ao mar…

  4. A menina Ofélia a quem o Pessoa respondeu quando foi apanhado, por ela, a beber no Martinho da Arcada:
    “apanhado em flagrante delitro”.
    Que 2012 nos traga mais “poetas esquecidos”. Bem haja pela partilha e um feliz 2012.

    1. Caro André, muito lhe agradeço o reparo. Tem, com certeza, razão. Ofélia era uma das irmãs da mãe de Queiroz, daí estar o parentesco errado. Erro muito divulgada, ao que consta, segundo me diz rigorosa fonte pessoana que acabei de consultar.
      Obrigada pela leitura atenta.

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