Confinada ao resguardo imposto por esta gripe que, estou certa, me vai deixar umas cicatrizes fortes, enrolei-me no sofá com xailes e chá muito quente. Na RTP2, Paula Moura Pinheiro entrevistava, para o Câmara Clara, Luísa Leal de Faria e Alexandra Assis Rosa a propósito dos 200 anos do nascimento de Dickens. Foi, mais uma vez, um excelente programa, sobretudo pelo vibrante entusiasmo das entrevistadas. Ouvir falar sobre aquilo que se conhece muito bem e de que muito se gosta é um prazer inexcedível. A palavra certa, medida, a precisão das expressões. Muito bom.
Depois, de sonos trocados, sentei-me aqui para ler alguns blogues e respectivos comentários. Quem lê blogues tem uma rota previamente traçada, sabe onde quer ir, quem quer ler. Houve um dia em que o Rui Bebiano disse que visitava sempre os blogues de que não gostava porque não dispensava a sua dose diária de irritação. Achei muita piada e, ontem, fiz o mesmo. Não foi grande ideia porque não estou nada necessitada de irritações e talvez tenha sido por isso que a minha tosse piorou.
Numa caixa de comentários, encontrei um, onde, em 5 linhas, havia 6 formas verbais no imperativo, ou no conjuntivo exortativo, o que vai dar ao mesmo. Assustador. Vejamos: sendo formulações directivas, não eram, todavia, ordens para cumprir mas sim vigorosos conselhos de quem, pois claro, sabe melhor o que convém ao outro do que o próprio. “Não faça isso”, “Não pense assim”, “Alegre-se”, “Saia de casa”, “Anime-se”. Uma agressividade de fugir. Ou de bater ou pé: “Faço, penso, não me alegro, não saio, não me animo. Vá dar uma curva.”
Toda a gente tem tiques de escrita, modalizações que prefere, bizantinices sintácticas que não lembram a ninguém. Um dos meus amigos diz que não conhece ninguém que, como eu, construa orações infinitivas quando está a falar de trivialidades. Também sei que abuso dos “que” causais. Hábitos, manias, predilecções. Não me parece, porém, que isto seja a mesma coisa que vergastar os olhos do pobre leitor com meia dúzia de imperativos e caladinho que eu é que sei. ( um “que” causal :))
Fico a pensar se, para além das coisas que se podem fazer com as palavras, elas desvelam ou tapam o seu autor. Quem é assim tão perdulário com os imperativos? Uma pessoa habituada a dar ordens, incapaz de se exprimir fora dessa modalização? Uma pessoa que nunca dá ordens e, uma vez colocada a máscara blogosférica, desata à espadeirada aos incautos que lhe passam ao alcance das teclas?
Sabe-se lá. Mas que assusta, assusta e muito.

Ó Ivone, só tu para me fazeres rir com essa da dose diária de irritação. A mim basta-me começar a ouvir um noticiário para entrar em depressão.
Ontem, como tu, também fiquei enrolada. Pior, andei de robe. Julgo que há já muitos anos que tal não acontecia. Quando um dos meus filhos bateu à porta ficou a olhar para mim e perguntou-me se eu estava doente. Disse-lhe que não, que estava irritada, que tinha acabado de saber que ainda me iam tirar mais dinheiro com os novos escalões de IRS.
Cautelosamente calou-se. Fez bem. Uma palavrinha qualquer sobre o assunto e o caldo entornava-se, sem que ele e eu soubéssemos bem porquê.
Enfim, todo este arrazoado, a propósito da necessidade diária, que todos temos, de alguma irritação. Mesmo os optimistas, como ainda penso ser o meu caso…
A “dose diária de irritação” é uma ideia do Rui Bebiano, não é minha :)) É um conceito interessante, é.
Abaixo os imperativos. Pim! E abaixo a gripe. Pum!
Pierre, é uma embirração que nem imaginas 🙂
In verbum veritas. Para ti: “an apple a day keeps the doctor away”.
Oh, Zé Navarro, logo eu que não morro de amores por fruta. Maçãs, então, só consigo vê-las nos quadros com representações do Éden 🙂
Maus pensamentos só agravam a gripe, qualquer fisiólogo sabe disso. Resguarda-te 🙂
Também estive a deliciar-me com o Dickens, e que bem defendido que ele foi assim no feminino! (os “que” causais também são a minha desgraça, reproduzem-se como coelhos nos meus textos. Uma desgraça.
Olha, o Zé Navarro não percebe nada de gripes. Bebe um bom conhaque e só toques em maçãs que trouxerem um Adão agarrado… 🙂
Também não gosto de conhaque, olha a minha vida.
Já passaste pel’ A Ronda? Já lá está a tua short.
Ups! Vou a correr…
A minha Valquíria, quando embirra, é pior do que odeusmelivre…

É uma impressão, dear, é só uma impressão de quem conhece os tempos verbais como poucos.
Mel, recomendo mais mel. Para a constipação e as cordas vocais, of course…
Ah, pois é, Margaridazinha: grandes embirrações, grandes afeições. Só quem é capaz de umas é que consegue sentir as outras.
Digo eu, claro, não quer dizer que seja verdade :))