Há um submundo assustador a viver nas caixas de comentários dos jornais online. Não têm nome, apenas nicks pouco recomendáveis e um perverso gosto pelo anonimato. Escrevem em maiúsculas, com a morfossintaxe de um Átila e a coprolalia de um paciente de Tourette no grau máximo.
Os outros são todos, no mínimo, gatunos, uma corja, quando aparece algum mais letrado a exprimir-se. Eles, os comentadores, são honestos, sérios e clarividentes.
Só é pena que não saibam escrever.
(*Parece que foi ela quem disse Se não têm pão, comam brioches e não Maria Antonieta. Guilhotina, também, que os tempos não estavam para conversas.)

Tem razão, madame la princesse. Essas caixas de comentários atraem a escória mais frustrada e delirante do país, sempre pronta a assassinar alguém à pedrada, por qualquer coisa. É um fenómeno sociológico a estudar dentro de alguns anos. Onde andará essa gente na vida real? Que medo.
Sabes o que me assusta? É que, na vida real, podem ser o vizinho do lado, o senhor que te cumprimenta delicadamente no café. Chegados ali, invisíveis, deixam extravasar uma natureza que esconderam, habilmente, do mundo.
Também acho que são mangas de alpaca aparentemente pacíficos e inofensivos. Antes tinham a estrada para se transfigurarem, agora têm as caixas de comentários. Menos mal, apesar de tudo parece-me mais seguro.
Não posso estar mais de acordo contigo, Ivone. Em breve tenciono abordar também este tema. Julgo que uma parte da perda de credibilidade dos chamados ‘jornais de referência’ passa também por aqui. É tempo de deixarmos de assistir em silêncio à transformação das ‘caixas de comentários’ desses jornais em máquinas de execução pública, disparadas por mentes demenciais (anónimas, todas elas).
Não tenho por hábito passar pelas referidas caixas. Fi-lo, hoje, por acaso. Um pavor.
Eu recebo todas as manhãs um resumo de links para as principais notícias do dia. Também não costumo ler as caixas de comentários mas hoje fui lá de propósito, para ver quais eram as regras definidas pelos jornais. Escolhi um ao acaso – o JN – que diz isto na sua caixa de comentários: “Nota: Os comentários deste site são publicados sem edição prévia e são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Consulte a Conduta do Utilizador, prevista nos Termos de Uso e Política de Privacidade. O JN reserva-se ao direito de apagar os comentários que não cumpram estas regras.” Dei-me ao trabalho de ler os comentários e lá estão os trolls do costume, a dizer todo o género de obscenidades. Além de reservar-se “ao direito”, pelos vistos quem controla a caixa de comentários do JN tem um estranho critério de selecção.
Ivone: tens a certeza de que não foi guilhotinada por usar os termos “morfossintaxe” e “coprolalia” na mesma frase? 😉 (For the record, eu até acho excitante.)
Ah, e quanto à substância do teu post: totalmente de acordo.
Foi um exagero, tens razão.
(Just for the record: achas excitante a morfossintaxe ou a coprolalia?
)
Eu acho excitante uma mulher usar termos como “morfossintaxe” e “coprolalia”. Mas leio que há muita gente que se excita bastante com a coprolalia. Já em relação à morfossintaxe não tenho referências; talvez um ou outro nerd.
🙂