Conto de Natal. Memória baça


convite,

Se quer que lhe conte a história,  sente-se aí e não desista, bem sei que se faz tarde e ainda nem comecei e isto é coisa para muita volta. Se acrescento? Oh, quantas vezes, e fique a saber que quem conta deixa sempre a memória para trás, porque a memória é um peso, está a ver? Bem mais fácil de levar é a imaginação, é portátil e arruma-se em qualquer lado. E sempre lhe quero dizer, essa sua pretensão de verdade é uma birra como outra qualquer. Não queira assim tanto a verdade, há nevoeiros de onde não saem cavalos brancos nem convém, mais vale ficar tudo num embaciamento duradouro. Veja só, quando fecharam a casa deixaram tudo como estava, exactamente, penso até que nem levantaram os pratos e os restos de comida perderam-se por lá a ganhar bolor e as almofadas onde dava em cheio o sol durante a tarde foram descorando cada vez mais pálidas e dois ou três casacos ficaram caídos sobre a cadeira de espaldar. Uma natureza morta sem flores mas com alguns frutos e bolor, tanto bolor que era o que fazia mais impressão. O bolor parecia a lava do Vesúvio a fixar para sempre um último gesto, até a colher caída no chão, e lembro-me bem de a ter deixado cair, tinha sido presa naquele abraço esbranquiçado e vi-a logo quando entrei embora não me lembre muito bem se foi antes ou depois, por isso mais vale imaginar que a deixei cair quando começaram os gritos, não acha, criança assustada que eu era. Mas deixe-me lá começar isto bem: o meu tio Jorge, o irmão mais novo da minha mãe, chegava sempre atrasado. Dos natais que lembro, a campainha tocava sempre já estávamos na sobremesa e a minha irmã gritava Pai Natal, Pai Natal. Para o efeito era a mesma coisa, os melhores presentes vinham com ele e ainda hoje não percebo como em tal distância lhe faziam chegar os nossos desejos previamente refreados, claro. O meu tio chegava com muitos abraços, mano que bom ver-te, a tia Teresinha dava um jeito no cabelo e durante muito tempo pensei que ela tinha ido ter com ele depois daquilo, mas não sei, está a ver, é a imaginação a ganhar à memória. Os adultos fascinavam-me nessa altura, eu queria fumar cachimbo como o meu tio, embora não quisesse o torcer desesperado das mãos do meu pai quando iam conversar para junto da janela do fundo. O Natal abria-nos uma abundância muito esperada na mesa, soube depois que o meu tio mandava um cheque nas semanas anteriores e minha mãe doseava amêijoas e farófias e parecia que tudo corria bem. Eu estava a dizer que o meu tio tinha chegado tarde, não era? Pois chegou e andámos os dois a cabriolar em volta dele e a tia Teresinha ajeitou o cabelo como era hábito. Queres uma água das pedras, dizia a minha mãe para o fundo do corredor, lembro-me agora que o meu pai tinha saído da sala e depois ela gritou. A minha mãe nunca gritava e eu estava a comer farófias e a fazer um puzzle em cima da mesa pequena e fiquei com uma peça no ar e ainda a tinha na mão quando o meu tio nos sentou no banco de trás do carro sem casaco nem cachecol. Para que é que quer tanto a verdade? A verdade ganha bolor como todas as coisas, acredite em mim. Até a memória ganha bolor, o que vale é que temos a imaginação para clarear tudo.

 

(Fiz três contos de Natal, três para combinar com os Reis Magos, mas não vieram da Andaluzia, vieram do teclado do meu computador; está outro aqui e outro ali. E Boas Festas para todos.)

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