Poetas esquecidos (3)


convite,

Os homens do 2º Modernismo, os da geração da Presença, sempre me pareceram umas figuras sisudas e ensimesmadas. Nada de mal nisso, eu até gosto de gente ensimesmada, que fique claro. Talvez o propósito quase folião de épater le bourgeois tivesse terminado com os poetas do Orfeu e os tempos fossem, então, de outras gravidades.

Falo hoje de José Régio. De José Maria dos Reis Pereira, o poeta. Nasceu em Vila do Conde em 1901 e lá morreu em 1969. Entre as duas datas há um percurso dado às letras como poucos, um percurso que vai da dramaturgia ao ensaio, do conto à poesia, da crítica à novela. Com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca funda, em 1927, a revista Presença que será publicada até 1940 e a cujo projecto se manterá ligado. Dir-me-ão, agora, que José Régio não é um poeta esquecido. Que toda a gente conhece o “Cântico Negro” ou a “Toada de Portalegre”. Claro, mas e de Régio, lembram-se? Da solidão orgulhosa em que se comprazia, de uma certa forma de misantropia que era apenas timidez, da insatisfeita resignação com que aceitava os conflitos com si mesmo e com o mundo:

 

Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou

 

São versos da “Toada de Portalegre”, Portalegre em cujo liceu foi professor e onde morou 30 anos na “estranha casa, lá do largo de cemitério” exposta ao vento descrito pelas aliterações de que o nosso Pedro tanto gosta:

 

Toda aberta ao sol que abrasa,

Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,

 

A janela aberta da casa de Portalegre deixa ver também a dor dos outros, a “tragédia da planície” como lhe chamaria Vergílio Ferreira mais tarde:

 

( Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão…)

 

Em Régio, mais do que um registo sentido e apurado do sofrimento e da dor, há uma consciência estética da mágoa como se, sendo sua, dele saísse para ser, ao mesmo tempo, uma belíssima e excruciante companheira de viagem. Para sempre.

  

ÍCARO

  

A minha Dor, vesti-a de brocado,

Fi-la cantar um choro em melopeia,

Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,

Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

 

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,

Moendo os joelhos sobre lodo e areia.

E as multidões desceram do povoado,

Que a minha dor cantava de sereia…

 

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!

Um silêncio gelou em derredor…

E eu levantei a face, a tremer todo:

 

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!

E, misérrima e nua, a minha Dor

Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

3 comentários em “Poetas esquecidos (3)”

  1. Boa evocação do Régio, Ivone. Ele era um autor multifacetado. Mais conhecido pela poesia, distinguiu-se também na prosa de ficção (‘A Velha Casa’, ‘Histórias de Mulheres’), crítico literário, ensaista e notável polemista. Ficou célebre a polémica que travou com Álvaro Cunhal: este defendia a arte realista contra a arte “psicologista” da geração da Presença. Era tão multifacetado que chegou a ser até crítico de cinema.
    E como gostei das aliterações, deixo-te aqui este poema pouco conhecido do Régio. Um poema panfletário (sim, a Presença também se interessava por questões políticas, ao contrário do que reza a lenda):

    E o Decreto da fome é publicado

    Surge Janeiro frio e pardacento,
    Descem da serra os lobos ao povoado;
    Assentam-se os fantoches em São Bento
    E o Decreto da fome é publicado.

    Edita-se a novela do Orçamento;
    Cresce a miséria ao povo amordaçado;
    Mas os biltres do novo parlamento
    Usufruem seis contos de ordenado.

    E enquanto à fome o povo se estiola,
    Certo santo pupilo de Loyola,
    Mistura de judeu e de vilão,

    Também faz o pequeno “sacrifício”
    De trinta contos – só! – por seu ofício
    Receber, a bem dele… e da nação.

    1. 🙂
      Sim, tens razão, também há este lado na Presença. O próprio projecto presencista tem várias fases, como sabes.

      O Régio da ficção, dos passeios de domingo em Portalegre, ainda aparece em alguns manuais escolares. Agora imagina tu o que é levar adolescentes de 15 anos a tentar perceber o que queria o autor dizer quando escreve que Amância, a dos namorados, “recolhia incenso de vários turíbulos”. Um drama, o vocabulário.

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