Sabrina, a ilha da discórdia – 1


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A décima ilha açoriana veio à tona há 200 anos, precisamente em meados de 1811. À socapa, os ingleses plantaram-lhe uma bandeira e chamaram-lhe sua. Gerou-se um conflito diplomático, mas o caso resolveu-se no mesmo ano: ainda hoje, dois séculos volvidos, os Açores continuam com nove ilhas.

 

 

Foi exactamente há dois séculos. A Corte portuguesa estava refugiada no Brasil desde 1807, corria em Portugal a Guerra Peninsular (1807–1814). Com a ajuda (interessada e interesseira) dos ingleses, o nosso país sofria desde 1810 a terceira e última das Invasões Francesas, a que procurava resistir (como resistiu).

Logo no início de 1811, foram avistados sinais de emissão de gases no mar, próximos da costa sudoeste da ilha de São Miguel, em frente da Ponta da Ferraria (freguesia dos Ginetes), acompanhados de actividade sísmica. O fenómeno deu mostras de acalmar após umas semanas, ainda antes de terminado o mês de Fevereiro, mas a agitação das profundezas voltou com mais força a partir de Maio. Houve várias casas afectadas nos Ginetes e as falésias e rochas mais elevadas da orla marítima partiram-se e ruíram.

No dia 10 de Junho, a uns dois quilómetros da costa, o sismo gerou uma fortíssima erupção submarina e, poucos dias depois, nascia uma nova ilha ao largo da Ponta da Ferraria. Começou por ser uma ilhota arredondada, que ganhou depressa cerca de dois quilómetros de perímetro e uns 90 metros de altitude no topo, aberta ao centro numa laguna (muito semelhante ao anel do ilhéu de Vila Franca do Campo, também na costa sul de São Miguel).

Por essa altura, passava pelo mar dos Açores o HMS Sabrina, um barco de guerra inglês de três mastros armado com vinte peças de artilharia. (O mesmo veleiro veio a estar destacado na defesa costeira de Portugal e Espanha entre 1812 e 1815, por causa da Guerra Peninsular.)

 

 

A 12 de Junho, com a missão de vigiar possíveis movimentações de forças napoleónicas junto do arquipélago, o Sabrina navegava em torno das ilhas sob o comando do capitão James Tillard, que avistou ao longe uma quantidade de fumo que se soltava das águas e que confundiu com um confronto naval, rumando então ao local. Só com a aproximação é que Tillard deu conta do engano. (Mais tarde, veio a descrever o cenário que encontrou num artigo publicado no anuário Philosophical Transactions of the Royal Society, em 1812, no qual referiu «uma imensa coluna de fumo subindo do oceano» que, nos intervalos das explosões, tinha «o aspecto de uma imensa nuvem circular» que se ia elevavando e distanciando das ondas muito acima do ponto máximo de projecção das cinzas vulcânicas, estendendo-se por força do vento «de forma quase horizontal, gerando relâmpagos e trombas-de-água».)

De longe, o comandante inglês e a sua guarnicão olhavam, estupefactos e incrédulos, o fenómeno que lhes era dado testemunhar. Tillard tomou uma decisão.

 

Fotos — Miradouro e farol da Ponta da Ferraria (Ginetes, São Miguel)

14 comentários em “Sabrina, a ilha da discórdia – 1”

  1. Que história interessante! Estou a ver os sisudos da Royal Society a estudar os desenhos e as descrições de Tillard, entusiasmados e bem longe das preocupações de posse do território (por sinal, grande… :-). Os desenhos são fantásticos.
    Devias mandar este artigo para a National Geographic portuguesa.

      1. Pois, tens razão, e ambos tinham “job”, segundo se conclui da história. «Jobs for the boys», está visto!

  2. Muito interessante e bem curiosa, não há dúvida de que estamos sempre a aprender.
    Só tive conhecimento desta história há 3 ou 4 dias, imagina por quem?
    Adivinho a pressa dos nossos “velhos e leais amigos” ingleses, que apareceram por cá para nos ajudar na Guerra Peninsular mal garantiram a sua segurança e, logo de seguida, o seu desalento ao ver a bandeirinha da posse, a submergir.
    Bem bonito esse farol. Faria aí um belo turismo de habitação.

    1. Um belo farol com uma óptima casa de faroleiro e uma vista soberba. A dois passos dos Ginetes, que é uma localidade muito atraente.

      Não adivinho de quem te chegou esta história.

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