Desde que o nosso Pedro, há dias, trouxe para aqui uma capa de um livro de Reinaldo Ferreira que tenho andado a pensar no esquecimento. No esquecimento que vai caindo sobre prosadores e poetas, caindo cada vez mais denso até deles não restar mais do que um verbete mínimo numa história da literatura.
Posso até acreditar que o olvido exerce sobre a literatura um processo de selecção e que para a posteridade só ficam as personagens bigger than life ou os versos alados. Posso ainda pensar que quanto maior for o número de textos éditos, mais se apresentam a esse julgamento da memória e dele podem sair derrotados.
Quem lê hoje Trindade Coelho, Júlio Dinis, Ferreira de Castro, Fernando Namora, Alves Redol?
E quem lê Eugénio de Castro, António Feijó, Mário de Sá-Carneiro, Carlos de Oliveira ou a poesia de Vitorino Nemésio? Temo-los nas estantes, claro, mas iremos tirá-los de lá para abrirem uma clareira nos dias do nosso descontentamento?
Assusta-me este modo rápido de ignorar quem escreveu, quem pintou, quem disse. Assusta-me porque me sabe a fim de festa, a ruas desertas, a tristeza.
Se olharmos para o lado, para os outros com quem a Fortuna mal começou a valsa, ver-se-á que ainda são mais os esquecidos.
Hoje, resolvi trazer-vos um deles : Vítor Matos e Sá.
Pseudónimo de Victor Raul da Costa Matos, nasceu em 1926 e morreu num acidente de viação em Fevereiro de 1975. Esteve ligado aos projectos editoriais da Távola Redonda, Árvore, Cadernos do Meio-Dia e Eros e foi catedrático de Filosofia na Faculdade de Letras de Coimbra, onde está instituído um prémio de criação poética com o seu nome. O livro que aqui tenho, Poesia de Vítor Matos e Sá, editada pela Campo das Letras em 2000 com organização e prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, reúne a obra completa.
É uma poesia aristocrática e cerebral. Belíssima, na minha opinião:
Deves viver, inesperada, à beira-morte,
prendendo teus gestos na curva do silêncio,
tocando a fronte dos deuses mais altos
como tu,
branca geometria de olhos puros,
construindo rosas, indícios, e uma vaga saudade
de noiva não nascida – a única
pelos humanos esperada eternamente
à nocturna varanda dos poemas.

Excelente ideia, vou ficar atenta a esta tua série.
«E quem lê Eugénio de Castro, António Feijó, Mário de Sá-Carneiro, Carlos de Oliveira ou a poesia de Vitorino Nemésio?»
Eu leio-os a todos – O Feijó, menos – e não sou nenhum literato, mas não poetas fáceis e, que quer?, o nível cultural do país é muito baixo.
Das prosas, Namora está muito bem esquecido. De alguns dos outros, como Júlio Dinis, é pena.
Tens-me também leitora atenta, Ivone. Feijó? Viagem à infância e às declamações obrigatória da noite de 24, antes dos presentes (éramos umas crianças educadas no reich…). Acho que ainda sei de cor (será?) “Bairro elegante, e que miséria – Roto e faminto à luz sidéria – o pequenito adormeceu.- Morto de frio e de cansaço- as mãos no seio, estendido o braço – sobre os jornais que não vendeu”. Fora de moda?… Quero lá saber: lindo:)
As mãos no peito, qual seio!…
Excelente ideia para uma nova série, Ivone. Penso muito neste tema, que tem tanto a ver com Portugal: esquecemos com demasiada frequência alguns dos nossos melhores talentos. À lista que apontas poder-se-iam acrescentar muitos nomes mais: Fialho de Almeida, Guerra Junqueiro, António Nobre, Rebelo da Silva, Oliveira Martins, Raul Brandão, Irene Lisboa, José Régio, Casais Monteiro, Ruy Cinatti, Abelaira…
Leio muitos destes nomes regularmente, sobretudo os poetas. E continuo a gostar de quase todos eles, ainda que um ou outro não tenha resistido tão bem ao tempo. Júlio Dinis, por exemplo, não leio nem lerei mais (acho eu), mas também já há muitos anos me parecia uma seca…
Gosto desta série, Ivone. Avança, valente guardiã da memória dos esquecidos! 🙂