Hoje, um grupo de adolescentes escrevia um, digamos, requerimento no qual se dirigiam a entidade que lhes era hierarquicamente superior, dizendo que vinham “pedir a V. Exª que … “. Interrompi-lhes a redacção. Havia que substituir “pedir” por “solicitar”. Grande e clamorosa oposição. Ora essa, diziam, pois então não eram sinónimos? Sim, na substância, porém a carga semântica era diferente. Se fosse a entidade a querer alguma coisa deles, diria “peço que”. Na prática: solicita-se para cima, pede-se para baixo.
Em redor do imberbe grupo, quatro ou cinco pessoas que já não são imberbes há mais de 40 anos resolveram fazer coro. Que só eu tinha estas esquisitices, que só eu olhava para estas coisas, que só eu assim e assado.
A rebelião crescia, mas como a redacção do papelucho estava sob a minha responsabilidade, decidi-me por um argumento de autoridade. Mandei que fosse escrito : “. .. vêm, respeitosamente, solicitar a V. Exª se digne autorizar …”
Sou uma ditadora. Fora de moda, ainda por cima.

Ser-me-á permitida a liberdade de solicitar que ache por bem autorizar-me a concordar com Vossa Senhoria?
🙂
Não é ditadora. Ensina, ponto.
Quando me deixam. Quando não deixam …
Ihihih, saltou-te a tampa, Ivone! E no entanto… sabes? Podes não concordar (refiro-me ao ‘respeitosamente’), mas as fórmulas reverenciais foram abolidas há quase 2 décadas da linguagem oficial da administração pública, através de uma das muitas – e notavelmente equilibradas – ‘Recomendações’ do SMA (Secretariado para a Modernização Administrativa). Para provar que nada se institui por decreto, persistem. Até porque a questão continua a ter uma dificuldade básica: o adequado domínio da língua (naturalmente que não era o teu caso!) Isto é, encontrar fórmulas que afastem o tom de submissão e mantenham a necessária cortesia.
Ahahah! Mas o acrescento do “respeitosamente” foi mesmo porque já a tampa ameaçava saltar-me.
O “solicitar” já colocava os requerentes no seu devido lugar.
Eu sofro muito com situações destas, nem imaginas.
Oh se imagino! E mereceram a agravante do respeitosamente, considerando que só vão absorver metade…. 🙂
Eu acho estas fórmulas de cortesia já um pouco ” naftalínicas ” mas mesmo assim, com os protestos da minha mais elevada consideração, creiam-me V.Exªs, atento, venerador e obrigado.
(ah e também me lembro da declaração de fidelidade ao espírito da Constituição de 1933…)
🙂
«Solicita-se para cima, pede-se para baixo». Ensinaste muito bem, porque é assim mesmo.
Pois, João, para mim sempre foi assim.
Muito bem! Assim sendo, ‘peço-te’ então que ‘solicites’ à divisão de trânsito uma placa ou um semáforo para pôr alguma ordem nisto. Doutro modo, isto é uma balbúrdia que ninguém sabe quem vai a subir e quem vai a descer. Por outras palavras, ninguém sabe quando tem de solicitar ou de pedir.
Já agora, só mais uma pequena dúvida: nós ‘pedimos’ dinheiro à troika ou ‘solicitamos’ dinheiro à troika? É que seria de toda a conveniência sabermos, de uma vez por todas, se ela está por cima ou por baixo de nós.
Mais nada, Ivone. Às vezes tem de ser assim.
Tu bem sabes, Leonor.
Se sei. Ainda hoje deixei uma aventura lá n´a Curva.
Faltou o “A BEM DA NAÇÃO”
Já seria de mais 🙂
Aprendi hoje uma coisa contigo. Vês? Sempre foi bom saltar-te a tampa com os teus alunos.
E dá-me particular gozo que “pedir”, sem eufemismos “solicitantes”, seja de cima para baixo e não o contrário! 😉
Tu és tão engraçada, Ana 🙂
Solicito que Vossa Excelência se digne lavrar em acta o meu profundo apreço pela solução adoptada. Inclino-me respeitosamente perante tão douto critério.
:)) Boa, devia tê-los obrigado ao V.Exª por extenso. Não me lembrei disso.
Se eu fosse Excelência, Pierre, não lavrava, mandava lavrar. Assim …
Ivone, para a próxima tens de os pôr a escrever ‘à maneira’: rogo a V. Exa se digne…. Assim é que é. E no fim, o incontornável: Pede deferimento… 😉
Ah, mas desde que lhes ensinei a escrever, em vez de Pede deferimento, E. D. , assim bem centrado na página, não querem outra coisa. Acham-me mais finos …
Errata: onde está “acham-me” leia-se “acham-se” 🙂