
O nome dela era Suzanne Yvonne Henriette Marie Galopet. Actriz, escolhera o stage name de Suzanne Gabriello. Foi para ela que Jacques Brel gritou Ne quitte pas.
Mas, ah, os mitos! ao contrário do que a letra deixa supor, foi Brel quem a deixou. Suzanne estava grávida e o cantor não queria reconhecer a futura paternidade. Ela acabaria por abortar no meio de uma profunda crise depressiva.
Mais tarde, Brel diria que Ne me quitte pas não era uma canção de amor, mas sim uma canção sobre a cobardia do homem.
Suzanne morreu de cancro em 92 e, por esta altura, já devem saldado todas as contas.
Lembro-me de ter lido uma entrevista na qual uma das filhas de Jacques Brel dizia que o pai era igual aos bourgeois que vilipendiava nas canções.
Por estas e por outras, hei-de preferir sempre a obra ao autor. Gosto de que leio, vejo e ouço. O resto, je m’en fous.
Ne me quitte pas pode ser canção de amar ou de rastejar (e ninguém diga desta água não beberei …), mas é sobretudo uma belíssima canção.
Postas assim as coisas, melhor, cantadas assim, eu teria ficado. Nem que fosse para me ir embora no dia seguinte.

Realmente o Jacques Brel é mais o do ‘L’aventure c’est l’aventure’ do que qualquer idealização beatífica que dele se faça (aliás, se lermos os seus poemas, ficamos a perceber isso). Eu nunca vi o ‘Ne me quittes pas’ como uma canção de amor modelar, típico, é realmente abjecto o que transmite… O que está, sim, é soberbamente dito e a música é um assombro. Mas os meus must de Brel são o Amsterdam e o Plat Pays, não há remédio.
E o “L’emmerdeur”, viste? É uma das minhas comédias de eleição, o Brel está genial.
Vi, claro 🙂 Mas o L’aventure c’est l’aventure é fenomenal. Jamais me sairá da cabeça aquela cena genial dos 4 engatatões castigadores sucedendo-se em fila e a estalar os dedos… quelle charge! Hilariante 🙂
Sim, essa cena é inesquecível. Hilariante, como dizes.
Sim, Le Plat Pays, claro.
Pois a questão é essa: “está soberbamente dito” Eu diria, até, perigosamente bem dito.
“Por estas e por outras, hei-de preferir sempre a obra ao autor.”
Ora bem! Eu cá fujo de conhecer autores a sete pés.
Compreendo-a.
Na “mouche” minha cara! Não vale a pena estarmos a discutir o homem, nem olhar a obra, vista pelos olhos de hoje, deste século XXI avançado, que eu não digo que é melhor ou pior, mas é diferente. Que é uma belíssima canção e com uma música inesquecível, isso é! Mas isso pode ser apenas a impressão de alguém que é só mais velha uns 6 anos que a canção!
Eu até faço um esforço não perceber as letras das canções inglesas quanto mais como os autores se comportaram ou comportam.
:))
Muito me contas, Yvonne. Eu sempre achei que tinha sido ela a deixá-lo, e agora vejo que aquela maravilha de poema rastejante (quem disse que o amor é sempre bonitinho e justo?) foi ditado pelo remorso, ou, o que é ainda mais provável, pelo arrependimento de uma chantagem emocional que não resultou como se esperava… hellàs, j’adore Mr. Brel: o poeta, o cantor e o actor. O homem? Não o conheci pessoalmente, mas não vou dizer “ainda bem”. Há sempre alguma coisa que nos atrai nos génios. Ah, e eu também teria ficado. Resistir a ser “coberta de pérolas de chuva vindas de países onde não chove” nunca foi o meu forte…
Pois, Ana, hellàs …
Claro, já as pérolas são o que são, ainda por cima a combinar com a invenção de “mots insensés que tu comprendras” é a desgraça.
O significante tem um poder dos diabos!
Se tem!
Não posso estar mais de acordo, Ivone. Tantas vezes tenho pensado o mesmo: prefiro a obra ao autor. Há excepções, claro. Mas são só isso: excepções. Um dia destes falarei numa dessas excepções aqui.
Então, conta-nos, Pedro.
Correndo o risco de vos desiludir, ou talvez não, não gosto de Brel. Regra geral também prefiro a obra ao autor, embora nalguns casos goste dos autores e da obra, mas são raros.
Desiludes nada, Leonor! Tu és raparigas de outras letras, eu sei. 🙂
Será disso? Também não gosto de Leonard Cohen, acho-os parecidos 🙂
Valha-me Deus, Leonor que isto dava caracteres para muitos comentários.
Eu, entre Brel e Cohen “mon coeur balance”…
Não é da letra, não. Tu estás imaginar o Brel a dizer “Because of a few songs in which I spoke of their beauty, women have been kind to my old age”?
Pois, vês? É que nem um nem outro. Nostalgia a mais para meu gosto. E outra coisa engraçada, são os dois a preto e branco. Não tenho remédio.
Tu, a preto e branco, só gostas lá das minhas personagens do Gosford Park.
Adoro 🙂 E gosto de fotografia a preto e branco. A vida detesto.
Gostei de saber, gostei da história, gostei de ler e gostei das tuas conclusões, a que me vergo.
E eu gostei que tivesses gostado, John. 🙂
Não podia estar mais de acordo, Ivone. Podiamos estar aqui o resto da noite a enumerar artistas, sejam cantores, escritores, pintores, etc. que nos encantam com as suas obras, e na sua vida privada são verdadeiros mentecaptos, por isso convem separar a obra do autor.
Ninguem, especialmente quem faz parte das gerações de 50 ou 60, fica indiferente a uma canção como “Ne me quittes pas”, embora eu a tenha achado sempre um pouco “lamechas”; confesso que preferi sempre a sua versão em ingles e que se chama ” I put a spell on you”, em qualquer das suas intrepretações.
Pois é, Alexandre.
Aquilo não é lamechice, é desespero. 🙂
Esta é para o nosso amigo Alexandre: a versão em anglo-americano de ‘Ne me quitte pas’ intitula-se ‘If you go away’.
Sim : ” … but if you stay, I’ll make you a night as no night as been or will be again”.
Continuo a preferir “des mots insensés”. Podem ser ditos à noite, claro. 🙂
E eu continuo a preferir as perles de pluie, nem que seja para um dancing in the rain.
Tem toda a razão, Pedro. Estava equivocado.
Chapeau, madame, adorei o seu poste. E sim, também já estou vacinada contra os autores das obras que me encantam. Melhor mesmo é nem chegar perto. A desilusão é quase certa.
Pois… eu sei que têm razão em muitas das coisas que disseram. E a pessoa e o autor estão por vezes tão longe que, se não soubéssemos que habitam o mesmo corpo, diríamos que são dois. Mas Brel nunca foi mais que humano. E com muitos defeitos. Apontam-lhe alguma misoginia. Atribui-se-lhe a expressão “todas umas cabras”, quando se fala de mulheres. Mas as suas canções não eram hipócritas. Em muitas as mulheres não saíam a ganhar. Humano, portanto, com tantos defeitos e erros. O episódio que é aqui retratado é infeliz. Claro que sim. Mas desconhecendo em pormenor as razões não o devemos julgar. (E eu acho que Suzanne Gabriello morreu em 1992).
Georges Brassens terá dito a propósito de Brel: “um tipo que fala das mulheres com tanta cólera é porque lhes pertence inteiramente”. Podia não ser assim, mas é uma bonita frase.
Já perceberam que eu gosto de Brel, não é? 🙂
Já percebemos, Ana. E eu estou contigo inteiramente. Brel era uma alma atormentada (pelas mulheres e não só) mas, talvez por isso mesmo, um grande poeta.
Como parece que são todos os grandes poetas… 🙂
Oh, Ana, obrigada: já corrigi. Quando reli o post continuei a ler 92 e não 62.
Eu não quero julgar Brel, de todo. Gosto muitíssimo dele como se percebe.
Acredito que Brassens não estará longe da verdade, apesar de a frase poder ter mais sonoridade do que conteúdo. No fundo, talvez ele ambicionasse o desdém dos marinheiros “sur le port d’Amsterdam”, os que “pissent comme je pleure sur les femmes infidèles” e, não sendo capaz de o sentir, fazia-se de misógino. E é sempre muito bom, ouvi-lo, não é?
Pelo que já li, claro que acredito que a intenção não era julgar. Eu falei em termos gerais. 🙂 E ouvi-lo há-de ser sempre muito bom, Ivone. 🙂
eu não sei se voces ja perceberam que o Brel tinha mais medo de envelhecer do que da morte. Já perceberam que a maioria de suas músicas falam sobre a morte? J’Arrive, me impressiona imensamente. Le moribound, Le tango fúnebre, mas o que mais me impressiona é mesmo J’Arrive, quando ele diz no final ” NÃO FOI VOCÊ QUE SE ATRASOU, FUI EU QUE ME ADIANTEI”.