Da incompatibilidade dos meus sapatos com a chuva e suas consequências


convite,

Num post de ontem, no The Book Bench, um blogue do The New Yorker, Nathaniel Stein pergunta se a releitura de um livro será uma leitura melhor. Ou se, de algum modo, ela pode acrescentar alguma coisa às leituras anteriores.

É curioso como estes assuntos que merecem reflexão surgem do nada, assim ao virar da esquina, quando não se está à espera. Eu tinha pensado ocupar a hora do almoço com coisas menos elevadas, mas a chuva, que me agrada sempre muito, tem uma relação difícil com os meus sapatos. Foi só rugir um bocadinho mais alto que os meus saltos se retraíram num caprichoso “Não saímos, não saímos.” Estou calçada com dez centímetros de inutilidade, é o que é.

Para evitar guerras, sentei-me com o fito na leitura de um outro post, de Daniel Mendelshon, sobre traduções da Ilíada. A vida é assim: pensa uma pessoa que vai com um rumo e, quando se apercebe, está a seguir outro.

Stein parte do livro de Patricia Meyer Spack, On Rereading. Integrando o pensamento de Nabokov sobre esta mesma temática, atenta, sobretudo, no modo como a autora apresenta o acto de releitura, capaz de induzir no leitor um sentimento de culpa por estar a ocupar o seu tempo com mais uma leitura da mesma obra, quando, ao lado, podem estar todas as obras que mereciam ser lidas, pelo menos uma vez, e ainda não o fizemos. Não pude deixar de pensar no nosso Adolfo. (Ainda um dia te escrevo um conto : “O rapaz que queria ler o mundo”)

Ora bem, ninguém experimentará o sentimento de culpa de que fala Spack em relação a um filme ou a um quadro. Já vimos os mesmos filmes várias vezes. Já olhámos para o mesmo quadro muitas vezes. Precisámos, mesmo, de o fazer. São, todavia, experiências de fruição tidas num tempo e num espaço diversos. A leitura é uma actividade mais exigente e mais envolvente. Exige mais do leitor e das circunstâncias do leitor. Podemos admirar, calmamente, pela décima oitava vez, um quadro na parede de um museu, rodeados de japoneses de máquinas fotográficas palradoras. Está fora de questão termos um grupo de japoneses encavalitados no nosso cantinho de leitura. Teríamos de lhes dizer: “Ó se faz favor, podiam ir ver se está a chover? Arigato.*”

Voltando ao post de Stein que diz coisas muito interessantes e eu não, como está patente. Então, será a releitura uma leitura melhor? Não mudam as palavras, mas pode mudar a nossa percepção. Creio, até, que a percepção que se tem de uma obra pode mudar, ou melhorar com sucessivas releituras. Num comentário ao post, alguém diz que há livros que carecem mesmo dessas repetidas leituras para deles se apurar o entendimento.

Da apresentação que Stein faz do texto de Patricia Meyer Spack, sobressai, ainda, uma outra ideia que acho fundamental: a releitura diz sempre mais sobre a obra (este é, também, o pensamento de Nabokov), mas diz ainda mais sobre nós. Em que mudámos? Que nos aconteceu, o que é que aprendemos desde a última leitura?

Como fomos capazes de ter lido “aquilo”? Como é que não gostámos “disto” da primeira vez que o lemos?

Se Flaubert dizia: “Madame Bovary c’est moi.”, nada me impede de dizer: “Cada livro que leio sou eu.”

 

*Isto é japonês.

15 comentários em “Da incompatibilidade dos meus sapatos com a chuva e suas consequências”

  1. Nunca experimentei tal sentimento de culpa. Talvez por desde miúdo me ter habituado – por força das circunstâncias – a fazer releituras com muita regularidade.

    Poderia mencionar um ou dois livros que, quando os li, não gostei particularmente, para me surpreender na releitura. Aí, sim, fiquei com aquela sensação de não saber como não gostei daquilo à primeira. Talvez a leitura – tal como o cinema ou a música – também tenha o seu momento próprio.

    Ainda há releituras que faço com regularidade anual: “The Lord of the Rings” (os três), de Tolkien; “The Catcher in the Rye”, de Salinger; e “The Fountainhead”, de Ayn Rand. Curiosamente, cada releitura dá-me o mesmo gozo que deu a leitura original.

      1. Isso é tão verdade, Ivone. É o nosso momento próprio que condiciona a leitura. Quando chegar a minha vez, conto aqui um caso que se passou comigo e prova isso mesmo.

    1. Estou para reler o Memorial, por exemplo, mas mete-se sempre outra coisa.
      Posso fazer uma pergunta indiscreta: que andas a ler agora? Eu acabei O Filho de mil homens do valter hugo mãe. Um destes dias escrevo sobre o livro.

      1. O Memorial para mim é trabalho, como sabes. Também é um assunto interessante: os livros de que gosto e sobre os quais tenho de trabalhar.

        Estou mesmo a acabar a releitura 🙂 de A mecânica da ficção do James Wood. Em simultâneo, leio os poemas de Emily Dickinson na edição bilingue do Jorge de Sena.
        De seguida, tenho ali à espera Um mundo iluminado, H. Dreyfus e S.D. Kelly.

        1. Este vosso bate-papo dá uma excelente série no Delito. Género ‘passa-ao-outro-e-não-ao-mesmo’. Estou a (re)ler neste momento o livro X ou Y. Em cada dia, um de nós fala disso. E passa expressamente a um colega de blogue para se pronunciar no dia seguuinte sobre o mesmo assunto.
          Acham bem?

          1. A Ivone passa ao JAA, que passa ao JGA, que passa ao JMGP, que passa ao JC, etc. Convém avisarem-se por mail também: os mais distraídos escusam de dizer que não foram avisados.

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