Comissão de Serviço – XVII


modosdever,

BARBATANAS

 

Entre o fim da adolescência e os primeiros anos da idade adulta há um período, enfim, estranho em que pensar não é propriamente uma prioridade.

Foi assim que um fim de tarde, abrasado, no regresso de um passeata a Nacala, eu e mais quatro camaradas decidimos dar um mergulho na Praia das Chocas. De caminho tínhamos dado boleia a um preto.

Estávamos nós na água – sem pensar em nada – quando de repente o nosso passageiro, que preferira ficar na praia, começou aos pulos, a gritar coisas que se perdiam no ar e a apontar para trás de nós; ainda a uns bons metros, mas na nossa direcção, rasgavam o mar, discretas, duas pequenas barbatanas negras.

Há onze anos que aprendera a nadar, modalidade que exibia com vaidade. Mas naquele fim de dia troquei o estilo e as peneiras pela velocidade, e por alguma sensatez também.

Em Moçambique, a guerra colonial causou 2962 mortos entre os militares portugueses, metade em combate e a outra metade em acidentes – 234 com armas de fogo, 467 de viação e 780 por outras causas…

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

6 comentários em “Comissão de Serviço – XVII”

  1. Foi azar vosso. Tomei banho na Praia das Chocas dezenas de vezes (não como militar) e nunca me apareceram as tais barbatanas. Se eram dois, o mais provavel era serem golfinhos.
    Acerca dos números que apresenta: tem alguma ideia quantas pessoas – entre guerrilheiros e civis moçambicanos – morreram nessa guerra? Aqui terá que acrescentar a rubrica: “assassinados”.

  2. ” 2.962 militares portugueses mortos”…

    É preciso que se diga que muitos deles eram ” “pretos”… como diz!

    1. Meu caro ex-combatente, não distingui, entre os militares portugueses mortos, os de cá e os do recrutamento local, pretos ou brancos, e não vejo porque o deveria fazer uma vez que morreram sob a mesma bandeira e vítimas do mesmo regime. A distinção, muito infeliz, é sua, recuperando a designação que usei com fins completamente opostos. Pelo que gostava de ficar por aqui.

  3. Militares mortos em acidentes… Uma realidade escondida.
    A mortes anuais de militares americanos em acidentes no início dos anos 80 foram superiores à media de mortos anuais na ocupação do Iraque – que já de si incluí uma grande percentagem de acidentes. Nos anos 80 as Forças Armadas dos EUA não estavam em Guerra. Apesar de terem tido mais mortos. Acidentais logo não eram notícia.

    1. Tem mais do que razão, lucklucky. Mas neste caso os acidentes aparecem ainda a agravar o estupor da própria guerra. O caso angolano, entre 1961 e 1974, então, é espantoso: 3258 mortos, incluindo 1306 em combate e 1952 em acidentes, 860 destes de viação…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *