A minha linha de pensamento é a do pessimismo moderado. Eu diria, até, bastante moderado. Acontece que uma tremenda constipação, ou gripe ou qualquer coisa do género, vem sempre acentuar, com escuro e sombra, a minha weltanschauung.
A coisa torna-se tão complicada que, em adormecendo, é fatal sonhar com Böcklin. Estão a ver aquele quadro de Arnold Böcklin, A Ilha dos Mortos? (Tenho de aprender a colocar aqui imagens). Sonho sempre com esse quadro, em qualquer uma das suas versões. E sou eu quem vai embrulhada numa mortalha pelas águas do esquecimento a caminho da morte. Provavelmente, isto terá cura, bastará ir ao médico e perceber o que me atinge quando uma constipação me atinge. Eu acho os médicos excelentes companhias para se beber um café e conversar um pouco, agora visitá-los no exercício da sua profissão já é coisa que evito. São demasiado generosos: a pessoa chega lá com uma dor e eles, solícitos, descobrem logo mais umas quantas nas zonas adjacentes. Adiante. Ontem, fui assolada numa constipação galopante.
A meio da tarde, toca a campainha. Eram umas senhoras de uma religião qualquer. Na semana anterior tinham passado por cá a querer dar-me conta de todos os motivos que existem para a felicidade e para a esperança. Procuro sempre ser diplomática nestas questões. Disse-lhes que estava ocupada e que na próxima semana, talvez, as pudesse ouvir. Pontuais, voltaram ontem. Eu continuei ocupada, e ocupada por uma constipação que não me deixava espaço para teologias.
Final da tarde, supermercado. Precisava de fruta e queria passar pela livraria adjacente em demanda da tradução, numa edição bilingue, de poemas de Emily Dickinson feita por Jorge de Sena que já vira por lá. Pois é, só que até chegar onde pretendia, atravessei corredores e estantes cheios de livros cujos títulos queriam obrigar-me a ser optimista, a olhar a vida com olhos esperançosos, a despertar energias positivas e outras bizarrias do género.
Saio de lá e encontro uma amiga que, rapidamente, diagnostica que estou muito em baixo. Claro: eu, já no meu estado normal, não sou nada que se aproveite quanto mais de nariz fungante, olhos lacrimejantes e olheiras indisfarçáveis. Nem me deu tempo de lhe chamar a atenção para o meu estado clínico, de imediato, levantou voo numa prelecção sobre a importância do pensamento fofinho num mundo desumanizado, ou qualquer outra coisa dentro dessa linha, porque, a certa altura, deixei de a ouvir.
Consegui, finalmente, chegar junto dos dióspiros enquanto tentava encetar um raciocínio. Há uma agressão permanente, feita de forma pouco subtil, ao ser pessimista. No meu caso, enfim, há um pessimismo transitório. Um pessimismo que, quer parecer-me porque também não sei tudo a meu respeito, vive das circunstâncias, mormente da minha apetência pela exposição às correntes de ar porque o fresquinho sabe tão bem. Mas, e quem é intrinsecamente pessimista? Não terá direito à fruição da descrença e da amargura sem ser permanentemente questionado pelos teóricos do vamos-ser-todos-felizes, armados de frases feitas?

Eu sou optimista e alegre por natureza e tenho o mesmo problema que a Ivone. Nem imagina a quantidade de pessoas que me querem levar para uma dessas capelinhas. É uma seca. Desejo-lhe paciência e as melhoras.
Obrigada.
Já me ri a bom rir com o teu texto, Ivone. Porque também eu já tive a minha clássica gripe do fim de Verão ( há 15 dias andei de mal com o mundo e sabe Deus como consegui trabalhar). E olha: eu, que sou uma pessimista congénita mas resiliente (nada de desculpas para desistir de!) digo a todos esses arautos da esperança que sim, sim, o fundamental é a atitude e o pensamento positivo. Às vezes lá tropeço num fogacho atípico de optimismo: é quando, p. ex, tomo paracetamol deseperadamente, sabendo muito bem, como sei, que a gripe não me largará senão ao fim de 7 dias, tome lá o que eu tomar ;))
Eu também sou resiliente, Laura, mas hoje estou apenas muito constipadinha.:)
Excelente! Eu não sou pessimista apesar de tudo o que tenho escrito ultimamente mas concordo com o direito à tristeza. Aquela sensação transitória de coração cinzento e mundo de neblina. Sei sempre que há-de passar e como tal não lhe ligo grande coisa mas gosto de ter esse direito. Tal como tu, dispenso pensamentos fofinhos de ursinhos e rosas.
Pois, Leonor, nem ursinhos, nem flores, nem frases bonitinhas. 🙂
Como aquela citação do Fernando Pessoa das pedras e do castelo? Blergh. Coitado do homem! Ontem apanhei no Facebook que ele tinha dito “primeiro estranha-se, depois entranha-se” sobre Marraquexe 🙂
Tens razão, a das pedras e do castelo é muito passarinhos e estrelinhas.
Uns destes dias tenho de me ligar ao Facebook. Passam o tempo a falar-me das pérolas que lá se encontram.:)
As minhas bordoadas vieram quase todas do Facebook. Aparece por lá, Ivone 🙂
Eu nunca tinha ouvido falar de pedras e castelos (só de pedreiros e catedrais, mas sem atribuição) por isso tive de ir coscuvilhar, claro. E encontrei isto que me fez rir, sobretudo o Paulo Rato de Queluz:
http://provedorpublico.blogspot.com/2007/0 5/fernando-pessoa.html
Sim, é verdade. A citação andou por aí a reproduzir-se que nem ratos, mas era muito bom de ver que não seria de Fernando Pessoa 🙂
Há três ou quatro dias, lia o “The sense of an ending” do Barnes, vi o termo – que já não via há anos – e apostei que em breve se iria ler repetidas vezes «weltanschauung» nos «blogs» e afins* (para a coisa ser completamente honesta, publiquei no FB a aposta).
Não é todos os dias que ganho apostas. Se me puder elucidar sobre como se lembrou do termo, agradecia (em caso de ter sido no livro do Barnes, ofereço-me uma ida a Londres onde não farei outra coisa senão pampering myself, mas agradeço que não me beneficie).
De resto, gosto dos seus posts. Este tem de simpático não citar Álvaro de Campos, por tão comum em resfriados, e os simbolistas, embora eu gaste do Moreau. Perdi-me entre a demanda da edição da Dickinson e os dióspiros. Posso emprestar-lhe a primeira, se desejar.
* Dizem-me que ontem a Ferreira Alves já usou, naquele programa da noite, mas sem blog, não conta.
Caro M.S., lamento desiludi-lo mas “conheci” o termo no primeiro ano da universidade, há mais de trinta anos, e, desde então, uso-o quando me parece apropriado ou quando me apetece. Sabe, alguns de nós não começaram agora.
Obrigada pela edição da ED, mas já a tenho aqui. Quanto às citações, não prometo nada, com esta chuva, que me é tão agradável, como não pensar em Verlaine e nos “sanglots longs des violons de l’ automne”?
Obrigada pelo seu comentário e, mais uma vez, lamento não lhe servir para a estatística. 🙂
Muito obrigado.
Não me desiludiu e poupa-me dinheiro.
Creia-me que não a confundi com uma “débutante”.
Quanto aos «sanglots longs», lembram-me Junho mais do que Outubro e não é aleatoriamente.
Nunca li de Verlaine mais do que meia dúzia de coisa
Estimo sinceramente as suas melhoras.
Comprendo: Verlaine fá-lo pensar no desembarque na Normandia.
Obrigada, mais dois dias e retomo o meu estado normal.
Não acredito! Um texto destes escrito em Portugal por uma portuguesa em português???? Até onde poderá ir a reivindicação da fruição da descrença e da amargura?!
Não sei, Isabel. Nunca se sabe até onde poderão ir certas coisas. 🙂