Tive, há séculos, uma professora de História que estava apaixonada pelo David de Miguel Ângelo. Falava da estátua como quem fala do namorado que espera no café ao fundo da rua o momento da nossa chegada. Na altura, para a minha compreensão de adolescente, aquilo era uma excentricidade. Uma excentricidade engraçada, que eu era menina de devaneios e pensava que não seria de todo má ideia apaixonar-me assim por quem, de pedra, não pudesse desencantar-me e, eternamente, se detivesse num gesto sem reparo.
Aprendi, depois e com o tempo, claro, que a perfeição é a coisa mais irritante que existe. E a exibição da perfeição é insuportável.
Lembram-se do conto de Eça de Queiroz “A Perfeição”? O conto recria o episódio da Odisseia durante o qual Ulisses é retido pelo desejo de Calipso na ilha de Ogígia. Tudo na ilha, da ninfa às flores, é perfeito e imutável. Ulisses cansa-se de não se cansar e anseia o regresso às dificuldades. Zeus, então, envia Hermes à ilha. Calipso, que regressava do spa de correntes inexauríveis ao fundo da ilha, pronta para se sentar à mesa que as ninfas domésticas haviam já decorado com o tema do dia, deparou com o mensageiro divino sentado a bebericar ambrosia. “Pois é, filha, o chefe quer que te deixes de cenas. Dá lá ao homem do que necessite para se fazer ao mar e não te lamentes. Esta ilha fica na rota de quem se perde no mar, não terás a cama vazia por muito tempo.” Calipso olhou os sacos de guardanapos que mandara bordar com um U em fio de ouro e para a gruta decorada em branco e bege claro, muito zen, e suspirou. Mas as ordens de Zeus são o que são e subverter a hierarquia olímpica não era coisa que passasse pela cabeça de uma imortal que se prezasse. Eça de Queiroz não sabia grego e lera, com certeza, a Odisseia numa tradução francesa. Todavia, o ponto fulcral está lá, certíssimo, na última frase, quando diz que Ulisses partiu para a “delícia das coisas imperfeitas”. Nem mais. (Só para os marinheiros mais novos que, eventualmente, aqui aportem: o conto de Eça não tem, como é óbvio, os pormenores pós-modernos de spas e guardanapos com que polvilhei esta conversa.)
Nem a perfeição nem a imortalidade convinham a Ulisses. E se a Ulisses não convinham, a mim assustam-me. Algumas vezes, dou de caras com a exibição de uma perfeição tão ostensiva que é absolutamente aterradora. Movem-se como se nada nas mãos lhes murchasse, nenhum plano lhes saísse gorado, nenhuma amargura lhes enovelasse os fins-de-semana idílicos. Afasto-me dessa rota, cautelosamente. O nome de Calipso provém do verbo grego kalupto que significa ocultar. Calipso é a Ocultadora. Há sempre uma ilha de Ogígia para quem gostar de um décor clarinho, verde água, com energias positivas e muitos livros de auto-ajuda nas estantes. É procurá-la e aceitar o preço da imortalidade. Cá fora, onde a vida é de brocado cor de fogo, morre-se muitas vezes. Outras, apenas se desespera, mas estou convencida de que é infinitamente melhor.
(Texto já publicado não me perguntem onde: os meus ficheiros vagueiam numa desordem dantesca.)

A perfeição não tem sex-appeal 🙂
Banksy também deve ter tido uma prof.ª de História apaixonada pelo David de Miguel Ângelo. Ou não. 2.html
http://www.banksy.co.uk/indoors/3sculpts
🙂
Pois não, Teresa 🙂
Quando falou da perfeição lembrei-me do conto de Eça. E uma linha depois, lá estava ele. Falta, porém, no seu post uma alusão ao tema fulcral da e na «Perfeição» eciana: o tédio.
DE onde a ausência? Será por o gosto pela peripécia – sei que gostará de elucidar o termo – ser tão pouco feminino? E Calypso é, com o seu amor uma longa e penosa peripécia (7 anos em 9 de viagem).
Se as senhoras não pensassem lá, no fundo, que afinal Calypso não passava de uma «daquelas ninfas»…
Caro Teodósio Lopes, não era minha intenção tocar em todos os aspectos do conto de Eça. Refiro-me a ele só para ilustrar, de forma breve, o que quero dizer.
Tem toda a razão ao afirmar que o tédio é um motivo fulcral em “A perfeição”, mas eu pretendia falar de uma certa forma de perfeição ostensiva que se vê por aí e que, estou em crer, é ocultadora de muita coisa.
A caixa de comentários não é o melhor sítio para longas conversas. Não considero que o episódio na ilha de Ogígia seja uma peripécia, pelo menos no sentido que Aristóteles lhe dá na Poética. A peripécia é uma alteração substancial dos factos, altera o destino da personagem para pior. Isto, dito de forma simplista.
A longa paragem em Ogígia é uma suspensão no percurso do herói: há viagem antes, há viagem depois.
Exactamente a mesma coisa que acontece com Eneias em Cartago … bem, mas isto daria para muita conversa e eu também tenho uma viagem para fazer daqui a pouco.
Perfeito!

Eça que se acautele, pois, sob o manto diáfano da perfeição, a nudez forte de uma excelente escrita… uma Reliquia, Ivone!
Que exagero, Bartolomeu. Obrigada.
Que bem escreves tu, Ivone. Dá gosto ler-te, sempre.
Tu és muito simpática, Ana. Beijinho.