Em Lolita, Nabokov colocou o professor Humbert Humbert a suspirar: Eu, pelo meu lado, era tão ingénuo como só um pervertido pode ser. Trata-se de uma frase que tantas vezes me parece não fazer qualquer sentido quantas as que me surge cristalinamente óbvia. Esta incapacidade para manter uma posição perturba-me – não por poder expor insuficiências nas minhas capacidades de interpretação do mundo e dos seus coloridos habitantes mas por me fazer recear que, nas ocasiões em que lhe nego o sentido, esteja precisamente a demonstrar uma insuperável ingenuidade.
Ingenuidade e perversão
escafandro,

A frase é boa, mas quanto a mim porque espelha a autocomplacência dos pervertidos. Humbert Humbert ingénuo? Não me parece.
Pois – não sei, Teresa. Parece-me que há em muitos pervertidos (e não me peças para definir o conceito) uma incapacidade para resitir às pulsões que é uma espécie de fragilidade. Eles não conseguem deixar de usar uma faceta que, nos humanos “normais” – se aparecer por aí um psicólogo ou um psiquiatra vai dar cabo de mim -, é inexistente (será?) ou encontra-se recalcada. No caso específico de Humbert, apesar de todo o seu cinismo, ele está consciente de que tudo pode acabar mal mas é incapaz de largar a obsessão; manobra mas, especialmente a partir de certa altura, também é manobrado – e muito facilmente. Um pervertido é um viciado que fará tudo pela próxima dose, tendo noção de que pratica um acto condenável. Isto faz com que deva sofrer todas as consequências legais pelos seus actos mas, pelo menos num certo sentido, talvez valide a frase de Humbert.
Lá pelas Russias do Vladimir, não sei; até pode ser que assim seja. Por cá, a ingenuidade, parece-me ser cultivada e aprefeiçoada, aprimorada, de modo a capear na perfeição, as múltiplas preversões…
Ou seja, uma ingenuidade muito pouco ingénua? Hipocrisia? Ou uma mistura de hipocrisia e da auto-complacência de que fala a Teresa no primero comentário? Talvez.
(Mas por que raio escrevo posts destes que depois me obrigam a pensar?)