Acho que foram os primeiros versos que decorei, de saia vermelha com peitilho e blusa branca de mangas tufadas, e repetia na frente do meu pai que acompanhava de mão no ar, qual batuta de maestro:
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho,
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho …
O meu pai decidiu, pelos meus quatro anos, ensinar-me a ler a escrever. Discutível opção que dava outro post. Do ensinamento fazia parte o exercício da memorização. Coisa blasfema para os ouvidos de um pedagogo actual, sei bem, mas a mim não me fez mal. A memória, ginasticada de tenrinha, sempre meu deu um jeito dos diabos ao longo da vida.
Claro que decorar aquelas coisas e repeti-las, sem tropeçar, era um gozo que me dava. E, atrás desse, veio o gozo de ler sem repetir, de cor, o que tinha lido, o gozo do silêncio, a só com os textos. As minhas tias, nos fins-de-semana em casa dos meus avós, reprovavam aquela educação. Mulheres práticas, não conseguiam pôr-me a coser um botão. “Esta mocinha não sabe fazer nada.”, diziam. A Lucinda, herança de outros tempos e que, naquela altura já só vinha aos sábados para ajudar nos almoços, reclamava : “Ah, meninas! Não gosto nada de ouvir dizer isso. Ela escreve tão bem uma cartinha.”
Fiquei, assim, com poucas prendas das que são realmente úteis. E, também, muito desarrumada, defeito esse que está a contaminar este post, pois não era de mim que ia falar mas de Augusto Gil.
Augusto César Ferreira Gil nasceu em Lordelo do Ouro em 1873 e morreu em Lisboa em 1929. O Simbolismo, de que já falei a propósito de Eugénio de Castro, marca os seus textos, mas o Parnasianismo ainda mais. É uma poesia de rigoroso apuro formal, ritmada num tom de toada, que entra no ouvido. Os teóricos englobam na designação de pós-românticos um grupo, no qual Augusto Gil se insere, que vai de Abel Botelho a Wenceslau de Moraes, juntando, como facilmente se vê, poéticas de matrizes diversas e de diferentes linguagens. Estou em crer, todavia, que a poesia finissecular portuguesa é precisamente isso, uma tessitura de diferente cores, com um ou outro traço mais vincado, o Simbolismo, o Parnasianismo, o neo-romantismo nacionalista de António Nobre. De todos eles, Augusto Gil recebeu inspiração que frutificou.
Queria, antes de um poema, deixar aqui um excerto de uma, já de si, curta autobiografia, escrita em 1926. Peço-vos uma leitura benevolente, sem juízos moralistas. O zeigeist pode muito sobre o espírito de um homem.
Tive sarampo em menino. De então para cá, a minha atabalhoada existência foi sempre lamentavelmente e variavelmente patológica. Quanto a dores morais, boa dose também. […] Mas, em contrapartida, guardo na memória também, com gratidão, vários instantes saborosos. Exemplo: o primeiro beijo de amor, ou como deva chamar-se-lhe. Deu-mo a nossa criada Miquelina. Era de Fornos de Algodres e tinha uma belida na vista esquerda. Ainda assim, uma alva e atraente mulheraça com seios de tão elástica rijeza que, sob a cobertura do chambre, pareciam mesmo dois toiros marrando à porta do curro. Já faleceu, coitadinha.
Outro prazer, que me deixou a transbordar de narcisado enlevo, senti-o na manhã em que um jornalista amigo botou do alto do hebdomadário provinciano, onde pontificava, esta descarada e generosa falsidade: ser uma pessoa de talento. Tão tontinho me pôs a leitura da gazeta – que até acreditei! Breve se me esvaiu essa ilusão. Por mais busque no meu passado e rebusque no meu presente, não há maneira de apurar meia dúzia de acontecimentos merecedores de projecção pública e capazes de embandeirarem-me a autobiografia. Não os encontro. Não os há …. A frase que melhor me qualifica é daqueles anúncio do Diário de Notícias em que as criadas de segunda ordem inculcam a sua aptidão: “o trivial”.
Que devo acrescentar? Fiz asneiras abundantes e a maioria delas em verso rimado. Versejar na época recorrente é ridículo, é vexatório, é indecência fóssil. Todavia, há pechas mais degradantes: ser pederasta, ou rufião – ou ministro …. Perdoem-me o emprego desta palavra obscena.
Não vai correr-me bem ter plasmado aqui este texto, mas adiante que dos poetas quer-se a poesia e aqui fica este, sobre um artigo do Código Civil que, entretanto, foi alterado:
Art. 1056º do Código Civil
Oiça, vizinha, o melhor
É combinarmos o modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.
Passo os meus dias a vê-la
Bordar ao pé da sacada,
Não me tiro da janela,
Não leio, não faço nada …
O seu trabalho é mais brando,
Não lhe prende o pensamento,
Vai conversando, bordando
E acirrando o meu tormento …
O meu não: abro um artigo
Da lei, mas nunca o acabo,
Pois dou de caras consigo
E mando as leis ao diabo.
Ao diabo mando as leis
Com excepção de um artigo:
O mil e cinquenta e seis …
Quer conhecê-lo? Eu lho digo:
“Casamento é um contrato
Perpétuo.” Este adjectivo
Transmuta o mais lindo pacto
No assunto mais repulsivo.
“Perpétuo!” Repare bem,
Que artigo cheio de puas.
Ainda se não fosse além
Duma semana, ou duas …
Olhe: tivesse eu mandato
De legislar e poria:
Casamento é um contrato
Duma hora – até um dia …
Mas não tenho. É pois melhor
Combinarmos algum modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.

Boa, Ivone. A Lucinda estava cheia de razão. 🙂 Esta versalhada fez-me lembrar aqueles outros versos apimentados
« – Ó minha descaradona
Tire a roupa da janela!
Que essa camisa sem dona
Lembra-me a dona sem ela…»
O Augusto Gil está representado na Antologia da Poesia Erótico e Satírica da Natália Correia. Não ponho aqui versos porque há senhoras.
Até desarrumada a tua escrita tem graça 🙂
Isso dizes tu porque és simpática 🙂
Também aprendi a ler aos quatro anos de forma algo semelhante àquela que recordas aqui, com o meu pai (deformação profissional) a fazer de professor. Serviu-me, desde logo, de extraordinário exercício de memória – o que felizmente me tem sido muito útil ao longo dos anos, sobretudo na actividade profissional.
Sei de cor largas dezenas de poemas. A ‘Balada da Neve’, claro, é um desses poemas. De vez em quando faço um teste a mim próprio: será que ainda não esqueci estrofe nenhuma? E lá começo a desfiar a versalhada: «Batem leve, levemente…»
E segue tudo, sem hesitações, até “… e cai no meu coração.”
O meu pai não era professor, mas decidiu começar a ensinar-me a ler antes que se fizesse tarde. Quando cheguei à escola sabia as coisas que os meninos de terceira classe estavam a aprender. Enfim.
Também sei poemas e textos inteiros de cor. Ginástica de muitos anos, de muita gramática latina e grega.
A memória é uma coisa cuja utilidade foi desvalorizada. E mal, a meu ver.
Penso o mesmo, Ivone. E não é de agora: é de há muito.
A Balada da Neve foi (acho eu) o primeiro poema que decorei inteiro. Ainda o sei (acho eu).
Estes teus posts estão a ficar viciantes, Ivone! (acho eu)
🙂
😉
E no entanto este célebre poema contém um erro de sintaxe igualmente famoso. Nesta estrofe (cito de cor):
«E descalcinhos, doridos,
A neve deixa inda vê-los.
Primeiro, bem definidos;
Depois, em sulcos compridos
Que não podia erguê-los.»
Não podia erguer os sulcos? Mestre Gil (este, não o quinhentista) cometeu aqui delito de lesa-gramática…
Eu sei da fama, mas não estou certa de que a mereça, porquanto me parece que o “que” não é, aqui, pronome relativo mas sim conjunção causal. “… em sulcos compridos/ Porque não podia erguê-los”.
Camões faz isso amiúde : “Cesse tudo o que a Musa antiga canta/ Que outro valor mais alto se alevanta.”
Até eu, bicho da terra tão pequeno, uso o “que” na acepção causal muitas vezes: “Vou deitar-me que tenho sono.”
Gostei muito! Parabéns e obrigado pela lembrança. Até fiz um post inspirado neste …
http://empresaportuguesa.blogspot.co.at/2 013/04/cuidado-com-lingua-ou-com-os-dedo s.html