
O declínio dos velhos partidos tradicionais onde cabia toda a gente (social-democracia, socialismo ou democracia-cristã) deu origem a um sistema fragmentado, onde os não-eleitos têm um papel cada vez mais influente, por exemplo através de organizações internacionais, grupos de especialistas, corporações, comentadores, academia. As carreiras dos políticos que vencem eleições são hoje mais curtas e o exercício do poder desgasta depressa. O povo tornou-se numa entidade abstracta, cujo voto é parcialmente dispensável: a escolha de muitos eleitores pode ser ignorada e isto é considerado normal; outros usam o chamado voto útil, que não os tranquiliza, votando em alguém cuja voz pelo menos será escutada. O fenómeno é europeu e aumenta com o descontentamento. As pessoas não gostam da crispação, do excesso de retórica e da instabilidade, não gostam do desprezo e da sobranceria, mas é isso que os eleitores estão a receber em dose crescente. A bolha político-mediática desligou-se da sociedade e o movimento vai nos dois sentidos. Se a política deixa de servir os interesses da população, então serve para quê?
imagem, Night Café (IA)
















