O sistema


Luís Naves,

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O declínio dos velhos partidos tradicionais onde cabia toda a gente (social-democracia, socialismo ou democracia-cristã) deu origem a um sistema fragmentado, onde os não-eleitos têm um papel cada vez mais influente, por exemplo através de organizações internacionais, grupos de especialistas, corporações, comentadores, academia. As carreiras dos políticos que vencem eleições são hoje mais curtas e o exercício do poder desgasta depressa. O povo tornou-se numa entidade abstracta, cujo voto é parcialmente dispensável: a escolha de muitos eleitores pode ser ignorada e isto é considerado normal; outros usam o chamado voto útil, que não os tranquiliza, votando em alguém cuja voz pelo menos será escutada. O fenómeno é europeu e aumenta com o descontentamento. As pessoas não gostam da crispação, do excesso de retórica e da instabilidade, não gostam do desprezo e da sobranceria, mas é isso que os eleitores estão a receber em dose crescente. A bolha político-mediática desligou-se da sociedade e o movimento vai nos dois sentidos. Se a política deixa de servir os interesses da população, então serve para quê?

imagem, Night Café (IA)

Poderes paralelos


Luís Naves,

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Fala-se muito no populismo como perigo iminente para a democracia, mas o maior perigo é outro, visível um pouco por todo o lado, a colonização das instituições pelos partidos políticos, por organizações de massas a agendas tribais. Há uma teia de ligações partidárias que se estende por instituições do Estado que deviam ser neutras. Quem estiver fora desta teia não tem carreira. A contaminação invadiu toda a sociedade, sobretudo jornais e universidades, onde se instalaram activistas políticos, muitas vezes radicais, que durante décadas se dedicaram a purgas ideológicas, afastamentos compulsivos dos dissidentes, assédio moral daqueles que discordam. A meritocracia foi destruída e florescem estes pequenos sobas que abusam dos seus poderes com total impunidade. Pertencem a partidos pequenos e grandes, têm programas políticos e usam as ligações para proteger os seus feudos. Eles criam climas de medo e abusam das funções, todas as pessoas à sua volta sabem e calam. Quem não obedecer, vai para a rua.

imagem, Night Café, (IA)

O clima


Luís Naves,

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Uma das características evidentes das redes sociais é o clima de intolerância que se instalou em relação a qualquer ideia que esteja fora da realidade permitida. Existe uma narrativa convencional e segue-se o ataque feroz às transgressões, por menores que sejam. O crime pode ser uma simples frase ambígua. Nesta nova cultura, é impossível discutir racionalmente. Os argumentos transformam-se depressa em bombardeamentos radicais, rasgar de vestes, gritarias, nós contra eles. O fenómeno não é exclusivo das redes sociais e está a alastrar na política tradicional e nos velhos meios de comunicação. As pessoas têm de medir o que dizem e devem ter cuidado quando tentam criticar as verdades absolutas que se instalam no meio mediático. No passado, isto chamava-se auto-censura. Há hoje temas sobre os quais deixou de ser possível argumentar. Quem não segue as interpretações inflexíveis é excluído e, pelo contrário, quem repetir as teses permitidas será compensado. Esta é a construção do futuro: teremos um mundo mais intolerante e repleto de moralistas. Como a religião foi abandonada, isto vem tudo embrulhado em éticas cívicas e nos nossos valores, que são sempre muito melhores do que os valores dos outros.

imagem, Dall-e

Crise da democracia


Luís Naves,

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Há duas teses opostas sobre a crise das democracias. Alguns estudiosos e comentadores julgam que o povo não sabe votar e que as maiorias criadas pelo voto tentam limitar os mecanismos de controlo (funcionários, instituições não governamentais, académicos, juízes, jornalistas). Quando a direita vence eleições, procura conter os poderes destes grupos não eleitos que se auto-intitulam liberais. Como se reclamam da defesa das liberdades, estas entidades resistem, acusando o poder de ser populista. As palavras populista e liberal são apenas rótulos simplificados, mas os governos diabolizados consideram que a resistência vem de elites que não querem respeitar o veredicto popular. Alguns chamam aos não-eleitos “o estado profundo”. Isto é visível, por exemplo, nos poderes da União Europeia, que parece cada vez mais afastada dos interesses dos países que representa. Também é visível na influência de causas ultra-minoritárias, como nos direitos trans e outros. Os intelectuais da direita dizem que a esquerda se apoderou das instituições não-eleitas. A mesma esquerda ataca ferozmente todas as organizações que não controla, como é o caso das Igrejas. Lentamente, a ideia de que a democracia não se esgota nas eleições vai evoluindo para a ideia de que as eleições não contam, o mais importante é a mobilização, a denúncia permanente e, se for preciso, a desordem.

imagem, Dall-e (IA)

O génio saiu da lâmpada


Luís Naves,

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O artista alemão Boris Eldagsen venceu um prémio de fotografia com uma imagem concebida por Inteligência Artificial (IA). O objectivo da sua candidatura foi demonstrar que existe um problema e que é impossível detectar o uso destas tecnologias. As IA podem conceber imagens novas, produzir ensaios e escrever contos de ficção científica. Esta história, por exemplo, é deliciosa. Existem muitos avisos sobre os perigos das IA e já ninguém tem dúvidas de que isto vai mudar as nossas vidas. Muitas profissões serão talvez extintas. Ao longo da próxima década, haverá profundas alterações económicas. Já é possível automatizar tarefas que até agora eram do domínio das elites, mas a mudança levará alguns anos. Terá de se alterar tudo, o trabalho, as pensões, a segurança social, o lazer e o tempo disponível. Em breve, estes programas vão solucionar problemas e criar coisas novas, como invenções e descobertas científicas, farão propostas de inovações sociais e poderão melhorar a vida de populações de regiões remotas, pois pequenas comunidades passam a ter acesso a professores e médicos de topo, ainda por cima baratos, pacientes e sempre disponíveis. Haverá pequenas revoluções em muitos sectores. O génio saiu da lâmpada, é improvável que se deixe aprisionar. E temos direito a três desejos.

Imagem criada por IA, Night Café

Os bairros pobres


Luís Naves,

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As pessoas pobres são mais afectadas pela inflação e devemos estar atentos ao que sucede em bairros menos afortunados das cidades ou nas regiões onde o poder de compra é limitado. Os efeitos do aumento dos preços já são visíveis em certas zonas, com sinais de degradação no comércio e falta de compradores ou nos sacos que saem das lojas demasiado leves. Não é fácil gerir um orçamento familiar quando aumentam as hipotecas e rendas, a factura da comida e os preços da energia, ao mesmo tempo que o salário fica na mesma. Há notícias de que isto está controlado, é usada uma linguagem optimista (quando se diz por exemplo que a inflação baixou). Devia dizer-se que está a aumentar mais devagar e bem acima da taxa de crescimento económico: para o ano, os aumentos salariais não podem compensar a subida dos preços de agora. Inflação com crescimento baixo é uma mistura explosiva nas zonas pobres. Depois, virá o fecho de lojas e a redução da produção nas fábricas. Quem estiver endividado, vai passar um mau bocado. A crise que agora começa é mais complexa do que se imagina e os seus efeitos negativos serão rápidos.

imagem Night Café (IA)

Epidemia de dança


Luís Naves,

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A politização da justiça está a causar crises inesperadas. Os partidos religiosos de Israel queixam-se dos tribunais laicos e exigem uma reforma que obrigue os juízes a obedecerem ao poder político; um ex-presidente americano vai a tribunal por crimes menores, para escândalo de metade do país e júbilo da outra metade. Estes são apenas dois exemplos de histórias no seu início, que revelam tensão entre elites e povo, ou entre eleitos e não-eleitos. Há outros exemplos de politização acelerada em sistemas menos relevantes, como universidades, comunicação social ou entretenimento, nos quais se propagam sinais de entropia. A imprensa concentra-se em poucos grupos cujo financiamento nem sempre é transparente; as séries de TV, sobretudo no streaming, são hoje veículos de activismo militante, também pouco transparente. Às tantas, ninguém confia em coisa alguma. As pessoas deixam de acreditar na justiça e nas notícias, desconfiam de tudo, dos intelectuais e magistrados, dos jornalistas, da própria ficção. Na Europa medieval houve vários surtos de uma mania de dança que envolvia centenas ou até milhares de pessoas. Estas multidões não conseguiam parar de se mover; muitas vítimas caíam para o lado e morriam de cansaço. A população andava assustada com o repentino alvoroço. Foi histeria colectiva ou doença infecciosa? Ninguém sabe, mas há alturas em que toda a gente parece mover-se ao mesmo tempo, cada um para seu lado, numa agitação doida cujo único propósito é apenas o movimento. É nestes tempos de bailes alucinados que se multiplicam os falsos profetas.

imagem Night Café (IA)

A verdade e a mentira


Luís Naves,

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O Presidente francês está a ser criticado pelo que disse sobre as relações da França com a China. Nos dias que correm, isso significa que ficou subitamente no lado errado da força. Do ponto de vista de Paris, a visita à China foi um êxito diplomático, mas Washington não terá gostado de frases com linguagem semelhante à dos chineses, por exemplo, a defesa do “mundo multipolar” ou a contestação da “mentalidade da Guerra Fria”. Numa entrevista, já no regresso a Paris, Macron atreveu-se a dizer que Taiwan não é um problema da Europa e que os europeus devem evitar tornar-se “vassalos” da América. Frases mais explícitas terão sido retiradas a tempo, antes da publicação.

The Economist não gostou. O New York Times condenou Macron sem reservas, num texto onde Ursula von der Leyen surgia como uma heroína da resistência, colocada no pedestal do bom comportamento. A líder da Comissão saiu da China pela porta pequena, após ter ofendido os mandarins. O PM polaco também mandou recados a Macron, insinuando que havia líderes europeus a “sonhar” que podiam “cooperar com a Rússia e alguns poderes da Ásia”, leia-se com a China, leia-se também que a Polónia se encarregará de travar essas ambições.

Afinal, quem manda hoje na Europa? O eixo franco-alemão, como nos habituámos a ver, ou os dirigentes que se dão muito bem com a América? O facto é que já não é possível disfarçar as divisões na UE, sobretudo com a estratégia na guerra da Ucrânia. Lembram-se das reportagens sobre os migrantes que a Bielorrússia despejou para a Polónia? Os polacos responderam à provocação com uma barreira que provocou um clamor nas redacções. Na altura, o governo polaco era quase fascista, agora é exemplar na luta contra a tirania.

A guerra da Ucrânia matou dezenas de milhares de pessoas, mas também se combate na opinião pública ocidental. Há assuntos de que não se fala: a corrupção do lado ucraniano e os desvios de dinheiro e armas, as elevadas baixas ou a perseguição religiosa e linguística. Um tenente-coronel ucraniano que esteve meses na frente de batalha dizia recentemente, citado pelo New York Times: “A guerra de informação é tão intensa, que já não conseguimos saber o que é verdade e o que é mentira”. Excelente resumo.

imagem: Night Café (IA)

Descontentamento


Luís Naves,

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Emerge na Europa um padrão de descontentamento que se reflecte em eleições, sondagens e protestos, como se uma comichão se apoderasse das sociedades. Em França, a maioria parlamentar que sustenta o poder é mínima e os inquéritos de opinião sugerem a possibilidade de um sismo político, caso haja novas eleições. Há outros casos recentes, incluindo a subida da direita em Espanha, o progresso dos populistas na Finlândia, Bulgária, Suécia e Holanda, as dificuldades de vários governos, incluindo em Portugal. O que estará a suceder? Não há explicações inteiramente convincentes, mas o fim das ideologias, as mudanças tecnológicas e o aumento das desigualdades económicas são os suspeitos mais prováveis. O socialismo abandonou a luta de classes e defende causas de identidade, o liberalismo criou perdedores, os movimentos populistas engolem o conservadorismo, o centro é um lugar vazio. Os partidos deixaram de escutar os eleitores. Enfim, a política está fragmentada, enquanto a opinião pública é submersa por um turbilhão de futilidades.

Comboios


Luís Naves,

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Milhares de portugueses estão a ser prejudicados pela greve nos comboios mas, olhando para os meios de comunicação, o assunto nem sequer existe. O pequeno período de férias foi perturbado e, no fim-de-semana da Páscoa, os turistas que se aventuraram para Sintra ou Cascais viajaram em condições dignas de uma república das bananas. Horários suprimidos, o caos nas estações, os passageiros sem informação, as raras composições tão repletas como comboios indianos. O fenómeno é nacional. As greves estendem-se por semanas, o prejuízo é incalculável, a sabotagem económica evidente: os sindicatos ligados ao PCP sabem que não terão os aumentos que exigem, o governo sabe que não vai tomar nenhuma decisão que atinja os grevistas, a oposição finge que não vê. Os cidadãos afectados são aqueles que não têm carro e precisam do comboio, os turistas que desistem de fazer turismo, os comerciantes que perdem negócio, enfim, são também aqueles que, pagando os seus impostos, deixam de ter os serviços que pagaram. Existe direito à greve, mas esta luta não é mais do que chantagem. Veremos os efeitos políticos no eleitorado dos bairros suburbanos a desviar-se da esquerda directamente para a extrema-direita. A vida dos habitantes destas zonas tornou-se um inferno quotidiano e a bolha político-mediática está-se nas tintas.

imagem: Night Café

Ordem mundial


Luís Naves,

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A História parece avançar em grandes ciclos, geralmente com duração de uma geração. Cada ciclo tem fases semelhantes às de uma vida humana: infância, adolescência, maturidade, declínio e velhice. Entre Ialta e a queda do muro de Berlim decorreram 44 anos, sendo este período marcado pela Guerra Fria, competição entre super-potências, corrida espacial, o triunfo da América, mas também por mudanças económicas que abriram o caminho para a fase seguinte. O ciclo em que vivemos foi abundante em liberalismo e desigualdade, abertura de fronteiras, globalização do comércio, desordem, desindustrialização do Ocidente e digitalização do trabalho. Embrionário antes de 1989, durou até agora 34 anos, mas entrou na sua fase de velhice e vai terminar em breve. A próxima ordem internacional deverá começar em meados da década e terá elementos contrários, que já são visíveis: regimes conservadores, nacionalismo, reforço militar, tecnologia de inteligência artificial, retracção do comércio internacional, costumes mais puritanos. Cada ciclo reage ao anterior. É como nas famílias, a civilização é a mesma, mas as gerações mudaram.

imagem IA Night Café

Natureza morta


Luís Naves,

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“Considero jornalismo tudo o que amanhã será menos interessante do que é hoje”. A frase foi tirada do diário de André Gide, de uma lista de “folhinhas”, aforismos a fechar o ano de 1921. Gosto de diários, sobretudo de autores que escreviam para a gaveta e faziam literatura, falando das suas vidas e da sua arte, sem preocupação com o que seria publicado. Os diários são registos domésticos; estão para a literatura como as naturezas mortas, as paisagens e os retratos estão para a pintura. Nas datas famosas encontramos textos sobre os acontecimentos, mas seriam ridículos no jornal do dia. Por curiosidade, ao lermos os jornais antigos em datas vulgares, pouco percebemos dos editoriais, escritos para um público que conhecia os factos, entretanto esquecidos. Um exemplo simples: um artigo sobre o actual governo não pode explicar o assunto no seus detalhes, as pessoas sabem do que se trata, mas daqui a vinte anos os leitores desse velho artigo serão outros e, dada a falta de referências, ficarão confusos. As prosas de 1921 sobre a espuma do dia foram tremendas enquanto a tinta secava, mas hoje parecem obscuras. Os leitores têm uma exigência, querem textos fáceis de compreender hoje e rejeitam tudo o que procura ser mais interessante amanhã.

imagem night café

Look, man


Luís Naves,

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Alguns economistas famosos (Nouriel Roubini, Peter Schiff, entre outros) estão a fazer avisos sérios sobre a vulnerabilidade do sector bancário americano e a ameaça iminente de uma crise financeira, cujos efeitos provavelmente já estamos a sentir. O primeiro destes gurus fala em “crise de dívida estagflacionária”, ou seja, forte recessão com inflação, com os países endividados em dificuldades cada vez maiores, presos num pântano de areias movediças, onde se afunda o crédito, o consumo e a economia real. Nesse cenário, Portugal pode ter problemas. Os pessimistas mencionam a possibilidade de repetição da crise de 2008, mas numa versão de filme de terror, e há académicos a dizer que centenas de bancos americanos estão em dificuldades. Isto surge na pior altura: no meio de um conflito político interno nos EUA, de uma guerra na Europa e de enorme tensão com a China. A crise interna é profunda (até o New York Times critica os termos da acusação a Trump, “the rule of the circus”) e as dificuldades económicas prometem durar. Em 1960, a economia americana representava 40% da economia mundial; agora, a fatia é de 24%. Se houver colapso financeiro, os historiadores do futuro poderão dizer que a América tinha a hegemonia mundial e a moeda de referência do planeta e que, após uma sucessão de cinco péssimos presidentes, ocorreu um declínio rápido destas vantagens. Joe Biden ficará na História como o pior presidente americano, o velhinho dos gelados que perdeu a Rússia (Truman perdeu a China) e que, no plano económico, conseguiu até ser pior que Herbert Hoover.

imagem: Night Café

O caso TAP


Luís Naves,

A comissão de inquérito parlamentar sobre a TAP permitiu vislumbrar a péssima política a que temos direito; dito de outra forma, conseguimos ver a cozinha de um restaurante muito tóxico. Baratas a circular entre a comida, uns cozinheiros pouco recomendáveis, o prato absolutamente intragável. As revelações da comissão mostram governantes a dispor de uma empresa nacionalizada como se esta fosse um feudo onde todas as interferências eram e são possíveis, um governo a agir com impunidade e uma estranha infantilidade. Os socialistas sentem-se donos daquilo que controlam. Houve decisões tomadas em cima do joelho. Um secretário de Estado pediu para mudar um voo com uma ladainha sobre política interna. Esta é uma história de descoordenação entre ministros, falta de sentido de estado, reuniões embaraçosas, indemnizações amigas, desrespeito pelos eleitores e despedimentos injustos. Como é que um governo com maioria absoluta chegou a este ponto de degradação em apenas um ano? E quanto dinheiro é que estas trapalhadas vão ainda custar aos contribuintes? Isto parece ser apenas o princípio de um lavar de roupa suja que vai envergonhar o país, talvez acabe com estrondo e eleições.

Revolução cultural


Luís Naves,

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Está a crescer um movimento de demolição da cultura, que visa erguer uma nova cultura sobre as ruínas da anterior. Os ateus dizem como deve ser a missa, minorias agressivas não deixam falar mais ninguém, visões estreitas tapam as restantes. Há uma revolução em curso que manipula a linguagem num processo digno de Orwell. Por exemplo, pratica-se a omissão de informação em nome da perseguição da desinformação e munições de guerra são compradas com dinheiro do Mecanismo Europeu de Apoio à Paz. Quando as empresas falam em crescimento pessoal significa que os empregados vão trabalhar mais horas por menos dinheiro. Além da nova língua, existe o cancelamento, que suprime vozes incómodas e persegue as opiniões divergentes. Até a literatura do passado está a ser revista, pois à maneira de 1984 quem controla o passado controla o futuro. A triunfante cultura popular valoriza o feio, a agressividade e a violência gratuita. Nas universidades, limita-se a livre circulação de ideias e os meios de comunicação estendem a passadeira vermelha a todos os grupos que contestem instituições e nações antigas, tradição, heterossexualidade e família.

 

Imagem concebida pela ferramenta de IA Dall-e, com instruções minhas

Meio capitalismo


Luís Naves,

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O ‘liberalismo’ das nossas instituições, nomeadamente em Bruxelas, consiste em acabar com a concorrência e criar grandes grupos económicos. Esta é a história dos últimos vinte anos, mas vai acelerar. Será subsidiada a produção de chips (um exemplo), canalizando dinheiro dos contribuintes para empresas multinacionais lucrativas, que depois vendem os chips para aumentarem os seus lucros. Isto é feito em nome da segurança das nações e em violação do mercado único. Uma espécie de socialismo só com a parte dos subsídios. A transição verde também está a ser subsidiada, para depois as empresas (por exemplo, de hidrogénio verde) venderem energia ao preço de mercado. No fundo, será socialismo na fase de arranque, liberalismo na segunda fase. Nem é preciso referir o caso do salvamento dos bancos, dos investimentos nas indústrias militares ou da concentração empresarial no sector da aviação. O que se está a passar no capitalismo é estranho, trata-se de acabar com os pequeninos, subsidiar fortemente os fortes, criar um sistema de rendas.

imagem criada por Dall-e, com instruções mínimas

Riscos


Luís Naves,

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A adoração do dinheiro é a mola da sociedade contemporânea. Estão a ser publicados numerosos artigos sobre o que se sabe das novas tecnologias de inteligência artificial (IA) e é citado um estudo segundo o qual 10% dos cientistas envolvidos no desenvolvimento da IA consideravam possível que estes programas acabassem por destruir a humanidade. No New York Times, um autor (David Wallace-Wells) colocava a seguinte questão: quantas pessoas embarcariam num avião se soubessem que tinham 10% de probabilidades de morrer? O que sabe é que a tecnologia digital está a ampliar as diferenças de rendimento e há receios de que a IA provoque uma calamidade nos empregos ligados ao conhecimento. Um estudo da Goldman Sachs dizia que 18% do trabalho pode ser automatizado, o que implica 300 milhões de trabalhadores redundantes. Há ainda avisos como este, com Elon Musk entre os signatários. O que leva empresas a investir numa tecnologia tão arriscada? Isso talvez seja explicado pela natureza humana. Estamos dispostos a apostar a própria existência e, no entanto, para além dos perigos, isto tem possibilidades fantásticas: a ilustração em cima foi feita por uma IA, Dall-e, com escassas instruções.

Um conflito do futuro


Luís Naves,

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O combate às alterações climáticas tem um alvo evidente no sector agrícola. Será um dos conflitos dos próximos anos. Sob pressão das organizações ambientalistas, os governos querem reduzir o número de cabeças de gado e de explorações, criar um sistema de agricultura em extensão, com menor utilização de fertilizantes, nomeadamente de azoto (baseados em amoníaco, que combina azoto e hidrogénio, sendo sintetizado a altas temperaturas e cujas matérias-primas são gás natural e ar). Isto está tudo ligado: para obter este efeito, é preciso reduzir para metade, até 2030, o consumo de carne e de lacticínios, mexer com a alimentação de cada pessoa. Haverá impostos sobre as emissões de metano, o que vai limitar a pecuária. As palavras de ordem são menos carne, queijo, leite, terra arável, menor dimensão das quintas e produção de alimentos reduzida. Na Holanda, onde as emissões de azoto são quatro vezes maiores do que a média europeia, a reacção às medidas do governo deu origem a um movimento populista. Na Finlândia decorre o mesmo debate, mundo rural contra elites urbanas. A experiência foi tentada pela ONU no Sri Lanka e causou uma crise alimentar em larga escala, seguindo-se um colapso político.

(imagem Dall-e)