Lápis L-Azuli


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Hoje lemos: Molière, ” O Misantropo”

Passagem a L-Azular: “Pode perceber-se claramente o traidor através da sua máscara; é bem conhecido em todos os lugares pelas suas verdadeiras cores; os seus olhos revirados e o seu tom melífluo enganam apenas a quem não o conhece. As pessoas estão cientes de que esse sujeito de raça inferior, que merece ser ridicularizado, fez o seu caminho no mundo com os trabalhos mais reles e que a posição esplêndida que adquiriu faz o mérito lamentar e a virtude corar. No entanto, quaisquer que sejam os epítetos desonrosos lançados contra ele em qualquer lugar, ninguém defende a sua miserável honra. Chame-se-lhe malandro, um miserável infame, ou um canalha confuso se quiser, todos dirão “sim” e ninguém sequer contradiz. Mas, apesar de tudo, as suas reverências e sibilos são bem-vindos em qualquer lugar. É recebido, sorrido e infiltra-se em todos os tipos de sociedade e, se qualquer nomeação for garantida por meio de intrigas, é garantido que vencerá um homem de grande valor. Apre! Essas são punhaladas mortais para mim, ver o vício negociado, e às vezes sinto-me repentinamente inclinado a voar para um deserto longe da proximidade dos homens.”

Eu conheço pessoas assim. Muitas mais do que gostaria. Batalhei muitos destes sanguessugas de acções e sentimentos. Ganhei algumas batalhas, mas souberam sempre a pouco, porque gente desta laia é como as carraças, infiltram-se nos locais mais insuspeitos e de pequenos e ridículos que são ninguém espera um veneno tão poderoso, capaz de aniquilar uma vida  na verdadeira acepção da palavra. 

Olhando o país no geral, garanto que os conhecemos, aos “traidores”, melhores do que gostaríamos.

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Hoje lemos: Ernest Hemingway, ” O Velho e o Mar”

Passagem a L-Azular: “Recordou-se da vez em que apanhara um espadarte, de um casal de espadartes. O macho deixava sempre a fêmea alimentar-se primeiro, e a fêmea, apanhada no anzol, lutou feroz e desesperadamente, tomada de pânico, e depressa ficara exausta; e durante todo esse tempo o macho estivera junto a ela, cruzando a linha e dando voltas à superfície. Andara por tão perto, que o velho temera que ele cortasse a linha, com a cauda afiada como uma foice e quase do mesmo tamanho e forma. Quando o velho a agarrara com o croque e lhe dera uma marretada, segurando o estoque e batendo-lhe no alto da cabeça até que a cor do peixe se tornara quase igual ao estanho dos espelhos, e depois, com o auxílio do rapaz, a içara para bordo, o macho ficara ao lado do barco. E então, enquanto o velho desenredava as linhas e preparava o arpão, o macho saltara muito alto fora de água, ao pé do barco, para ver onde estava a fêmea, e mergulhara profundamente, com as suas asas cor de alfazema, que eram as barbatanas peitorais desfraldadas e todas as listras cor de alfazema a brilhar. Era belo, recordava o velho, e tinha ficado.
“Foi a coisa mais triste que já vi em peixes, pensou.”

O peixe é um animal. Os animais não têm sentimentos, não amam, não cuidam, não sofrem. Quem sabe nem existem, porque se não sentem, não podem pensar. Um peixe preocupado com a fêmea é coisa de livros, não é? Nem poderia ser de outro modo, senão não tarda nada ainda entra em voga a teoria de que os animais têm alma!

É impensável um peixe comportar-se como um homem que tenta proteger a sua mulher. Ou até melhor do que um homem porque, sabendo-se de antemão derrotado, ficou.

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Hoje lemos: Franz Kafka, ” Metamorfose”

Passagem a L-Azular: “Certa manhã, quando Gregor Samsa acordou de sonhos inquietos, viu-se deitado na sua cama, transformado em um inseto gigantesco. Estava deitado de costas, duras como se fossem blindadas, e quando levantou um pouco a cabeça, pôde ver sua barriga castanha, abobadada e dividida em segmentos arqueados e rígidos em cima dos quais a colcha da cama mal se conseguia manter e estava a deslizar completamente. As suas pernas numerosas, que eram lamentavelmente finas em comparação com o resto de seu corpo, balançavam impotentes diante de seus olhos.” Demonstra falta de cultura.

Sabendo como sabemos que um dos poucos animais a sobreviver incólume a uma guerra nuclear é a barata, não há por que ficar apavorado! Alimentar-se de dejectos e ser o paradigma da sobrevivência deveria ser a ambição de todo e qualquer ser pensante. Na realidade a metamorfose já começou porque na verdade o sangue de barata deslavado é de circulação predominante na manada dos seguidores e permissores do culto da maioria ruidosa.

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Hoje lemos: John Green “A Culpa é das Estrelas”

 

Passagem a L-Azular: “Há infinitos números entre 0 e 1. Há 0,1 e 0,12 e 0,112 e uma coleção infinita de outros. Claro, existe um conjunto infinito maior de números entre 0 e 2, ou entre 0 e um milhão. Alguns infinitos são maiores que outros infinitos… Nem sei dizer o quanto sou grato pelo nosso pequeno infinito. Deste-me um para sempre, dentro dos dias contados, e eu sou grato por tê-lo.”

Se pensarmos que cada um de nós, criados das poeiras das estrelas e que possuimos a mesma composição do universo, poderia ser um infinito próprio, ligado a outros e outros infinitos num insondável e infindável caminho de energia e luz, que se recria e cria mundos, podemos acreditar ser infima parte da humilde poeira da criação. Cada braçada no charco primordial leva-nos mais e mais perto, ao encontro de Deus.

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Hoje lemos: “A Profecia dos Papas”, compilado pelo monge Arnold Wion

Passagem a L-Azular: Todas, especialmente a última que se refere ao 112.° Papa, que recebeu o nome criptico de “Petrus Romanus” e que segundo os investigadores será o último Papa , o Papa do Apocalipse.

Esta compilação do monge Beneditino ocupa as trinta e seis  páginas do livro e trata de identificar cada um dos 112 Papas com a sua divisa pessoal em 112 frases explicativas, e, como em todas as profecias, dadas às mais diversas interpretações de modo a que consigam ajustar-se à previsão na maior das  perfeições. É de leitura interessante e deixa transparecer algum temor fanático.

A cereja no topo do livro é a afirmação do santo profeta de que o sucessor de “Gloria oliuæ”, o cardeal que antes de ser papa era o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em cujo brasão havia um ramo de oliveira, neste caso Bento XVI, seria “Petrus Romanus, qui pascet oves in multis tribulatiónibus; quibus transáctis, civitas septicóllis diruétur, et ludex treméndus iudicábit pópulum. Finis” (Pedro, o Romano, que apascentará as ovelhas em meio de muitas tribulações. Passadas estas, será destruída a cidade das sete colinas e o Tremendo Juiz julgará o Seu povo. Fim) . 

Não acredito em profecias, como não acredito em bruxas, mas …

Em sendo sequer concebível, se  o Papa Francisco é o último Papa, vou ficar-me por uma velha frase de Mateus 20:16, que diz que “os últimos serão os primeiros”. Se há um Rei entre reis, também há um Papa entre Papas, e este é e será sem sombra de dúvida o Papa Francisco.

 

P.S. Considerando que cerca de 35% da população mundial é cristã com todas as suas práticas, incluindo a Católica Apostólica Romana, o resto do mundo não cristão, com todas as suas crenças e profecias próprias, deverá também preparar-se para o fim dos dias?

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Hoje lemos: Milan Kundera “A Imortalidade”

Passagem a L-Azular: “Penso, logo existo é a afirmação de um intelectual que subestima as dores de dentes. Eu sinto, logo existo é uma verdade muito mais válida universalmente e que se aplica a tudo que está vivo. O meu eu não difere substancialmente do teu em termos de pensamento. Muitas pessoas, poucas ideias: todos pensamos mais ou menos o mesmo, trocamos, pedimos emprestados, roubamos os  pensamentos uns dos outros. Porém, quando alguém me pisa num pé, só eu sinto a dor. A base do eu não é o pensamento, mas o sofrimento, que é o mais fundamental de todos os sentimentos. Enquanto sofre, nem mesmo um gato pode duvidar do seu eu único e inalterável. No sofrimento intenso o mundo desaparece e cada um de nós fica sozinho consigo mesmo. O sofrimento é a universidade do egocentrismo.”

Calhou em cair-me no goto, esta passagem. Nem L-Azulo, apenas penso nela, pode ser que lhe encontre a razão da existência. 

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Hoje lemos: J.M. Coetzee “O Homem Lento”.

Passagem a L-Azular: “Se houvesse uma maneira de acabar consigo  por algum ato puramente mental, ele acabaria consigo  de uma vez, sem mais delongas. A sua mente está cheia de histórias de pessoas que procuram o fim – que metodicamente pagam contas, escrevem bilhetes de despedida, queimam velhas cartas de amor, rotulam chaves e, depois que tudo está em ordem, vestem sua melhor roupa de domingo e engolem os comprimidos que guardaram para a ocasião, acomodam-se nas suas camas bem arrumadas e iniciam o percurso para o esquecimento. Heróis todos eles, não cantados, não elogiados. Estou decidido a não causar nenhum problema”. Deveria ler-se: “Cobardes, todos eles. Fracos. E dos fracos não reza a história.”

Será o suicídio o último recurso? É frequente ler-se que A ou B, pessoas conhecidas até, sofrerem de depressão grave e apenas encontrarem no suicídio o escape ao tormento em que vivem. Mas não tomam comprimidos e adormecem para não voltar a acordar. Será essa a saída cobarde? Fechar os olhos e deixar-se ir? 

Tive depressão pós-parto e não foi pera doce. Entendo o sofrimento por proxy, entendo a luta. Não experimentei a derrota, mas creio-a avassaladora. Estripou-me o optimismo inato e rotinou-me numa procura diária pelo bem estar com o mundo e principalmente comigo própria. 

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Hoje lemos: Charles Bukovski, “Correios”.

Passagem a L-Azular: “Deus ou alguém continua a criar as mulheres e a atirá-las às ruas. O traseiro  desta é muito grande e os peitos daquela são muito pequenos, e esta é doida e aquela é doida e aquela outra é religiosa e aquela ainda, lê folhas de chá e esta aqui não consegue controlar o flato, e aquela ali tem um nariz grande, e aquela tem pernas ossudas… criatura sexual, uma maldição, o fim de tudo.”

Deveria ler-se: “Quem desdenha, quer comprar. As mulheres felizmente não nasceram de qualquer costela masculina como insistem os criacionistas, os mesmos que peroram que o mundo é tão quadrado quanto ou seus escassos neurónios, ou não seriam as fêmeas inteligentes, multifacetadas e quase perfeitas. E belas. Sobretudo belas. O problemas dos machos, até mesmo “aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”, é o de cada vez mais preferirem outras companhias, mais activas e estimulantes em vez do real deal.

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Hoje lemos: José Luis Borges, “Ficções”.

Passagem a L-Azular: “Funes discernia continuamente os calmos avanços da corrupção, das cáries, do cansaço. Podia sentir o progresso da morte, da umidade. Era ele o espectador solitário e lúcido de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso. Babilônia, Londres e Nova York dominaram a imaginação dos homens com feroz esplendor; ninguém, nas suas torres lotadas ou nas suas avenidas urgentes, sentiu o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como aquela que dia e noite convergia para o infeliz Ireneo, no seu pobre subúrbio sul-americano. Era muito difícil para ele dormir. Dormir é uma distração do mundo; Funes, de costas no catre, nas sombras, imaginava cada fresta e cada moldura das casas precisas que o cercavam. (Repito que a menos importante de suas memórias era mais detalhada e mais vívida do que nossa percepção de gozo  ou tormento físico.) A leste, num trecho não bloqueado, havia casas novas e desconhecidas. Funes imaginou-as negras, compactas, feitas de escuridão homogênea; naquela direção  virou o rosto para dormir.  Costumava também  imaginar-se no fundo do rio balançando,  anulado pela correnteza.”

É intolerável imaginar o inimaginável, principalmente para quem nunca conheceu o verdadeiro sofrimento e para quem o tormento dos outros não passa de ficção. “Dormir é uma distracção do mundo”, tantas vezes a única para quem pode e um inalcançável graal para quem procura, a miragem da paz que poucos conseguem alcançar. 

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Hoje lemos: Haruki Murakami, “Norwegian Wood”

Passagem a L-Azular: “Se apenas lês os livros que todos lêem, só podes pensar o que todos pensam.” Evidencia estupidez. Deveria ler-se: “Se leres com atenção, tirarás as tuas próprias ilações do conteúdo que te propuseste ler, porque és um ser pensante e não tens mentalidade de rebanho.”

Se nos propusermos a leituras motivacionais por exemplo, iremos pensar ter encontrado nesta ou naquela passagem, o nosso Shangri-la? Pode até ser! E quem sabe até o encontramos. Cada um poderá encontrar o Shangri-la que necessita para retemperar a sua existência, desde que não caia em falácias tendenciosas, porque cada escritor motivacional é um criador de tendências, que concebe à sua imagem e semelhança.

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Hoje lemos:  Douglas Adams, “A Longa e Sombria Hora do Chá da Alma”.

Passagem a L-Azular: “Posso não ter ido aonde pretendia ir, mas acho que acabei onde precisava estar.” Mistérios da vida. Deveria ler-se: “Misteriosos são os caminhos da vida, que rumam ao grande oceano do oblívio, na passagem para o desconhecido.”

A vida é assim mesmo. Dê as voltas que der, imponha todos atalhos e veredas que impuser, no fim, acabamos sempre onde precisamos estar. O que importa é que a vivência tenha sido generosa e que a passagem seja breve.

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Hoje lemos:  J.R.R. Tolkien, “O Hobbit”. 

Passagem a L-Azular: “Não há nada como procurar, se se quiser encontrar algo. É certo que geralmente se encontra alguma coisa, se procurar bem, mas o que se encontra nem sempre é exatamente o que se procurava.” Subentende maus presságios.

Deveria ler-se: “Quando nos lançamos na procura, temos de ter a noção de que o diabo está sempre atrás da porta e que, por isso mesmo, nem todas as portas se devem abrir.”

Não sei o que será pior, se estar consciente de que uma porta fechada pode ser a nossa Caixa de Pandora ou ficar para sempre no desconhecimento do que poderia ter sido. Abrir ou não, enfrentar o que está do outro lado não é decisão fácil, mas para mim o conhecimento será sempre renovação, mesmo que venha acompanhado de arrependimento. 

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Hoje lemos: Alberto Manguel, “Um Diário de Leituras” 

Passagem a L-Azular: “Talvez seja por isso que lemos e nos momentos de escuridão voltamos aos livros: para encontrar palavras para o que já sabemos.” Mostra Ignorância. Deveria ler-se: “Ler não é procurar pelo que já sabemos. Ler é procurar  conhecimento  que permita que nos tornemos mais sábios.”

Quantas vezes procuramos conforto na leitura das palavras que conhecemos e que sempre nos acarinharam em momentos menos bons das nossas vidas? Quantas vezes voltamos aos mesmos livros, porque sabemos que vamos encontrar segurança e ânimo naquelas palavras que parece que alguém escreveu a pensar em nós? Os livros aos quais voltamos, aqueles que relemos regularmente apenas porque sim, são um permanente lembrete das consistências ou incongruências da nossa realidade.

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Hoje lemos: Margaret Atwood, ” A História de uma Serva”.

Passagem a L-Azular: “Nós éramos as pessoas que não apareciam nos jornais. Vivíamos nos espaços em branco nas margens da impressão. Isso deu-nos mais liberdade. Vivíamos nas lacunas entre as histórias.”

Tempo verbal incorrecto. Deveria ler-se: “Nós somos as pessoas que não aparecem nos jornais. Vivemos nos espaços em branco nas margens da impressão. Isso dá-nos mais liberdade. Vivemos nas lacunas entre as histórias dos outros.”

Este é um conceito de liberdade aparente. Podemos viver nos espaços em branco por dentre as histórias dos que têm palco, mas não somos livres. Quem  faz  uma pesquisa num qualquer motor de busca na Internet e passa a receber via e-mail, SMS, FB ou Instagram, etc., vinda do nada, divulgação publicitária sobre assuntos que se poderão relacionar com as pesquisas efectuadas, entenderá perfeitamente onde quero chegar. Não sou teórica da conspiração nem creio em bruxas, mas que as há…

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Hoje lemos: Harper Lee, ” Mataram a Cotovia”.

Passagem a L-Azular: “Eu queria que visses o que é a verdadeira coragem, em vez de ficares com a ideia de que coragem é um homem com uma arma na mão. A verdadeira coragem é saberes que estás derrotado antes de começar, mas começas de qualquer modo e vais até o fim, seja como for.  Raramente ganhas, mas por vezes podes ganhar.” Conduz ao desânimo.

Deveria ler-se: ” Não é cobarde desistir. Cobarde é mascarar as indignidades com capa de vitória para produzir a aparente bem-aventurança dos nossos dias.”

Antigamente as tintas para sapatos produziam o efeito da realização pessoal a quem tinha furos nas solas e os tapava com folhas de jornal. A aparência sempre foi o grande motor do fortuito ilusório dos homens.

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Hoje lemos: Miguel Cervantes, ” D. Quixote”.

Passagem a L-Azular: “A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”. Implica beneplácito. Deveria ler-se: “Os homens fazem a história no presente sem ligar ao passado nem pensar no futuro.”

O homem moderno procura incessantemente o seu lugar ao sol, a ribalta, os minutos que o darão a conhecer ao mundo como alguém excepcional em quem a vulgaridade não assenta.

Muitos conseguem, poucos mantêm. O reconhecimento nos dias que correm não acontece infelizmente pelas melhores razões. É mais fácil um facínora ter projecção mediática do que aqueles que dizimou e que para o que interessa realmente,  serão sempre e apenas “as vítimas”.

A história repete-se todos os dias. Nem sempre com os mesmos protagonistas, mas quase sempre com idêntico desfecho.

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Hoje lemos: Gabriel Garcia Marquez, “Amor nos Tempos de Cólera”.

Passagem a L-Azular: “Ele ainda era muito jovem para saber que a memória do coração elimina o mal e engrandece o bem, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado.” Deveria ler-se: “Ele nunca deveria acreditar que existem outras memórias que não as do coração.  Viveria sempre numa bolha de felicidade onde não entrava o negativismo e a maldade.”

Na verdade nós os humanos possuímos a estranheza de nos agarrarmos a memórias felizes, porque sem dúvida as temos, e mesmo sem pozinhos de perlimpimpim conseguimos elevar os espíritos e voar para além do saco de ossos que nos prende à terra. É isso que nos faz crescer como pessoas, ter a capacidade de regressar ao nosso eu e recuperar a perseverança.

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Hoje lemos: José Saramago, “Cadernos de Lanzarote”.

Passagem a L-Azular: “Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.”

Deveria ler-se: “Privatize-se principalmente e sempre a TAP e pague-se constantes indemnizações milionárias para voltar a nacionalizar a companhia  que sem dúvida voltará a ser privatizada para o gáudio de que quem se tem sempre enchido e bem à conta da transportadora nacional.”

De resto no ensino, na saúde, na alimentação, nos transportes, etc., já muito foi “internacionalizado”. 

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Hoje lemos: Victor Hugo, ” O Homem que Ri”

Passagem a L-Azular: “Por que existem os malfeitores? Pergunta pungente, que o sonhador sempre se faz e a que o pensador jamais responde. Por isso, os olhos tristes dos filósofos estão sempre pousados sobre essa montanha de trevas que é o destino, e de seu cume o colossal espectro do mal deixa cair sobre a terra punhados de serpentes.” Infere desilusão, conformismo, talvez?

Deveria ler-se: “Se aceitas que o destino é imutável, nunca conseguirás ultrapassar a malevolência instituída e atingir os teus objectivos de vida. Pode acontecer nunca conseguires alcançá-los, mas não poderás dizer que nunca tentaste.”

Antigamente dizia-se que quem porfia, mata caça. Este provérbio, que estará seguramente na lista negra das correcções instituídas, continua a ser muito acertado. É um excelente mantra para a posteridade. Nada consegue superar a obsessiva passividade de uma personalidade formada osmoticamente. 

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Hoje lemos: Alberto Moravia, “O Desprezo” 

Passagem a L-Azular: “Dizem que, se conseguimos viver sem muito esforço, é inteiramente devido ao automatismo que nos torna inconscientes de grande parte de nossos movimentos. Ao que parece, para dar um único passo deslocamos uma infinidade de músculos e, no entanto, graças a esse automatismo, não nos damos conta disso. A mesma coisa acontece com as nossas relações com outras pessoas.” Induz à apatia. Deveria ler-se: “A actividade não se resume a corridas, caminhadas ou exercícios com PTs em ginásios. A actividade também inclui a capacidade de interagir com as pessoas do nosso dia a dia.”

Ser-se activo e ser uma ostra fechada em si mesma, não conjuga bem. Que prazer poderemos tirar em viver uma vida de reclusão no meio da multidão de almas com que nos cruzamos todos os dias? 

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