
Hoje lemos: Milan Kundera “A Imortalidade”
Passagem a L-Azular: “Penso, logo existo é a afirmação de um intelectual que subestima as dores de dentes. Eu sinto, logo existo é uma verdade muito mais válida universalmente e que se aplica a tudo que está vivo. O meu eu não difere substancialmente do teu em termos de pensamento. Muitas pessoas, poucas ideias: todos pensamos mais ou menos o mesmo, trocamos, pedimos emprestados, roubamos os pensamentos uns dos outros. Porém, quando alguém me pisa num pé, só eu sinto a dor. A base do eu não é o pensamento, mas o sofrimento, que é o mais fundamental de todos os sentimentos. Enquanto sofre, nem mesmo um gato pode duvidar do seu eu único e inalterável. No sofrimento intenso o mundo desaparece e cada um de nós fica sozinho consigo mesmo. O sofrimento é a universidade do egocentrismo.”
Calhou em cair-me no goto, esta passagem. Nem L-Azulo, apenas penso nela, pode ser que lhe encontre a razão da existência.
(Imagem Google)

Que coincidência, tenho um postal sobre este “A Imortalidade” para amanhã – viva Kundera!
Apoiado!
nem o António Damásio diria melhor.terá sido em Kundera que se inspirou para “O Erro de Descartes”?
Penso, escrevo, logo erro?
Existo, logo penso.
António Damásio mostrou como a afirmação ‘penso, logo existo’ de Descartes era um erro, ou seja o nosso comportamento não é apenas resultado do nosso pensamento ou razão mas também das nossas emoções e trouxe uma nova luz sobre a relação entre pensamento, emoção e corpo (sic).
Existo , logo erro é muito mais acertado. Pensar da muito trabalho.
“O sofrimento é a universidade do egocentrismo.”
Eu imagino o sofrimento dos insensíveis congénitos por não poderem frequentar a universidade do egocentrismo.
É só discriminações. Gostava de saber se isso fosse ao contrário.
Ser( logo existir) insensível congénito é muito rebuscado, até porque bem pensado e comparado com egocentrista , podem ser expressões com igual significado.
Creio que Kundera tem aí um erro de lógica. Com “Je pense, donc je suis” Descartes está a caracterizar o homem, como ser pensante. Com “sinto, logo existo” Kundera faz equivaler homens a animais e, pelo que hoje se sabe, até a plantas. Confundir o conjunto “humanidade” com o conjunto “seres vivos” é um erro de lógica.
Sentem-se as sensações que nos trazem os sentidos e também os sentimentos da alma. Serão as formas de sentir que diferenciam a humanidade em geral e os animais dos outros seres vivos?
À terceira, melhorou. Mas aqui apenas relevam as sensações (dos sentidos). Kundera fala em dor de dentes e em pisadela no pé. Nada a ver com sentimentos.
Mas não pode negar que se sentem e bem! São sofrimentos do corpo e o sofrimento é um sentimento forte.
Continuam a ser coisas diferentes, que se podem confundir no final. Inicialmente a dor é meramente física, nada a tem a ver com sentimentos. E será comum a homens e animais. Depois os homens podem elaborar pensamentos analíticos ou abstractos sobre essa dor. Tipicamente podem desenvolver sentimentos de raiva ou ódio por quem causou a dor ou, adquirida a consciência de que a dor ficará crónica, sentimentos de desânimo ou depressivos. Estas análises ou tomadas de consciência, já não existem no reino animal.
À terceira lá melhorou. Mas aqui o que releva são as sensações (dos sentidos). Kundera falou em dor de dentes e pisadela no pé. Nada a ver com sentimentos.
Creio indiscutível que os animais – e não sei se as plantas ou algumas delas – têm sentimentos. O que diferencia os homens dos animais são a razão – que é o que Descartes chamou pensamento – e a alma, que se situa fora da razão e que, neste sentido extra-religioso,, também se pode chamar espiritualidade.