A Morte da Livraria Barata


#$&%#,

Barata.jpg

Eu lembro-me da antiga Barata – tende calma, eu não sou do tempo dos livros (semi)proibidos “debaixo do balcão” que alguns lá iam buscar, pois velho sim mas nem tanto… E lembro-me do gentil mas sempre algo soturno Senhor Barata por lá. E também da comoção que sobreveio na sua infausta morte. E mais me lembro, já bem adulto, do “frisson” lisboeta quando a Barata se renovou, ainda com o dono presente, o ar de modernidade que trouxe, livraria espaçosa, elegante, fresca, com calçada portuguesa interna (um arrojo, na época), as estantes duplas preenchidas de bons e recentes livros – e não mero depósito semi-alfarrabista. Lembro-me das horas passadas lá, em era de bons ordenados. Lembro-me ainda mais de vir de Maputo a férias, essas que não eram “a banhos” mas sim “a livros”, e de no dia seguinte à chegada já lá estarmos – até porque não havia só bons livros mas também bons livreiros, empregados que sabiam da poda e eram gentis. E da secção de discos (CDs, então) que foi crescendo em importância – a “Lisboa” sazonal era-nos família, amigos, uma ou outra refeição mais pitoresca, a roupa para a miúda sempre medrando. E livros, na Barata.

Nos últimos anos deixei de lá ir. Pois casa apinhada de livros por ler, bolsa leve, ânimo desvanecido, tudo isso… Pouco dela soube, talvez apenas que o bom do António Cabrita viera de Maputo para lá ser empurrado por um poeta mais aguerrido (mas talvez menos poeta), em estardalhaço literário que já não é dos nossos tempos… No Verão passado passado passei por lá e condoeu-me o “estado da arte”, poucos livros, escassas revistas, umas montras preguiçosas a embrulharem a amostragem das parafernálias “digitais” ali já espalhadas. Deprimi-me, senti-me tão velho como sou, fugi – e botei sobre isso.

Leio agora que a Barata acabou – a loja chinesa que ali se instala informa que continuará a respeitar o património etc e tal. Venderá as suas quinquilharias durante algum tempo, alguns anos talvez. Depois virá outro retalhista de um qualquer pechisbeque. Não condeno. Mas lamento imenso.

7 comentários em “A Morte da Livraria Barata”

  1. Também fiquei triste e nostálgico ao ver a livraria Barata a deixar de ser o que foi. Aliás como a Av.Roma. A Fnac é que vai ficar com o negócio. É claro que não é a mesma coisa, mas antes a Fnac que as lojas chinesas.

    1. A bem dizer nunca foi muito viva, nunca teve grandes espaços comerciais, a não ser o florista e o centro comercial vizinho.
      O Luanda e o Vá Vá ainda davam alguma luta, com a Alga à noite a incomodar a policia.
      Também alugueres antigos, depois escritórios de advogados a de médicos não dava para grande vivacidade.
      Ainda teve agências bancárias, poucas sapatarias e restaurantes/esplanadas (há uma que “comeu” o passeio), agora terá algum AL que é o que está a dar e chinesices.

    2. Impressiona como o tipo de desenho arquitectural da Avenida de Roma envelhece num sentido decadente que um prédio do sec XIX não.
      No entanto pode também ser uma fase a que pouca ou nenhuma arquitectura escapa.

      1. A Avenida de Roma foi construída no anos de 1950s.
        Era, e ainda será, habitada por gente fina que não passeava na rua próximo da casa.
        Alguns dos seus habitantes, uns passeavam pela Avenida da Igreja e outros pela Praça de Londres.

  2. Saudades das livrarias e comércio da Avenida de Roma… De entrar em Roma e sair em Martim Moniz e flanar pela Baixa. Um dia, de novo, talvez.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *