O futuro da Europa


Luís Naves,

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Enquanto aqui na parvónia se discute o número de horas de sono de Marcelo Rebelo de Sousa e se fazem profundas reformas estruturais tipo-reposição-dos-feriados, as discussões europeias são sobre o possível colapso da União Europeia, a eventual saída do Reino Unido da UE e o aparente fracasso das políticas de integração dos refugiados e imigrantes que estão a chegar à Europa em quantidades nunca antes vistas*. O artigo de Brendan Simms e Timothy Less cuja leitura proponho, publicado em Novembro na revista New Statesman, produz um pequeno arrepio na espinha e deve ser lido sem complexos e com atenção. Brendan Simms é autor de um livro que me impressionou e sobre o qual já escrevi. Julgo que entretanto foi publicado em português.

 

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A União Europeia atravessa a sua pior crise de sempre, com dois problemas aparentemente insolúveis, a instabilidade da moeda única e um fluxo migratório sem precedentes. Vários Estados mostram sinais de fragmentação interna e a periferia é uma zona de desastre, na Ucrânia por exemplo, onde se instalou uma rebelião ou guerra civil. Nos próximos meses, a UE vai negociar um entendimento com o Reino Unido, que pode incluir alterações nos tratados, mas se houver acordo e o Brexit for evitado, as questões não vão desaparecer e outros países tentarão negociar excepções. Talvez essas reformas possam adiar a eventual fragmentação da UE, mas os precedentes austro-húngaro ou jugoslavo continuarão a surgir nas discussões, sobretudo se os populistas chegarem ao poder em algum dos países de maior dimensão. Imagine-se a vitória de Marine Le Pen nas presidenciais francesas do próximo ano: o fim da UE seria quase inevitável.

Portugal, como é evidente, não tem plano B para situações de catástrofe. Após graves incidentes em Colónia, a opinião pública alemã mudou de um dia para o outro sobre a questão dos refugiados, mas em Portugal estas notícias são chutadas para canto. O fracasso das elites europeias estimulou o avanço de forças populistas um pouco por toda a parte, a crise financeira mundial pode ter uma terceira vaga que destruirá os melhores planos de recuperação económica, mas em Portugal a discussão é sobre a magia do estímulo económico que trará o fim da sobretaxa.

As elites das instituições comunitárias foram porventura demasiado longe na apropriação de poderes nacionais, contra o desejo dos eleitorados, que desconfiam destas burocracias não eleitas. Os dirigentes subestimaram a insegurança económica e até física que muitos europeus sentem; os incidentes de Colónia não deixam de ilustrar isso mesmo. De repente, a sociedade alemã absorveu centenas de milhares de pessoas provenientes de uma cultura muito sexista, que despreza os valores dos anfitriões. Isto não podia ser mais simbólico: segundo o mito a Europa foi raptada e violada. No fundo, é como se alguém dissesse: ‘obrigado pela ajuda, mas as vossas mulheres são umas prostitutas’. Como é que se faz a integração de pessoas que pensam desta maneira?

 

 

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Por aqui, tudo vai bem, temos uma visão mítica do assunto, embora as lições dos últimos anos estejam já devidamente esquecidas. Quando estão em dificuldades, os países mais fortes tendem a impor a sua vontade aos mais pequenos, e foi a isso que a Alemanha fez nas quotas de refugiados e durante a crise das dívidas soberanas, impondo políticas que podiam ter sido mais suaves e graduais. Portugal, um país que cumpriu o que lhe foi imposto e assim obteve crédito nos mercados, prepara-se agora para seguir o caminho inverso. Caso falhem as promessas mais ilusórias do novo poder socialista, a Alemanha terá três opções para lidar com os portugueses: ou deixa deslizar o défice orçamental e o euro perde credibilidade ou obriga o governo português a cumprir e criará uma crise política que levará a novas eleições. A terceira hipótese é a definição de reformas profundas na zona euro, criando um sistema a várias velocidades com moedas nacionais e câmbios fixos, algo para o qual falta vontade política ou tempo.

Se a Europa continuar com esta incapacidade, talvez Portugal tenha outra vez o escudo e os nacionalistas dominem o leste; os partidos de extrema-direita farão uma festa com cada incidente envolvendo refugiados; os eurocépticos reclamarão a devolução de poderes; os secessionistas serão mais poderosos na Escócia, na Flandres ou na Catalunha; os Balcãs e a Ucrânia podem mergulhar no caos. O terrorismo acabará com Schengen, estamos em crise há sete anos, cresce a paralisia institucional, já não existem territórios homogéneos, a identidade dissolve-se numa amálgama, as elites andam surdas.

 

* uso a expressão refugiados e imigrantes porque é disso que se trata: metade da multidão é de refugidos, a outra metade de imigrantes económicos. Tem havido sugestões de que estas designações foram sempre usadas politicamente e não são inocentes. Geralmente, trata-se de contestar o uso da palavra ‘migrantes’, mas não vejo onde está a ilegitimidade, já que muitos ‘refugiados’ não terão direito a asilo, pois são provenientes de países sem conflitos generalizados, como Irão, Egipto, Sudão, Nigéria, Kosovo, entre outros.

 

Três faces do poder


Luís Naves,

Existe uma ligação íntima entre cultura, economia e política. As três esferas parecem independentes, mas são faces do mesmo poder. A cultura oficial tem hoje sobretudo uma expressão mediática; os intelectuais dependem inteiramente da visibilidade e esta é concedida apenas às visões conformistas do mundo. Quem se move na política e na economia tem de saber usar uma linguagem codificada e empobrecida que, sem nunca dizer o que deve, não tolera desvios. Se quiserem ter carreira, os políticos precisam de compreender as regras do compromisso, os negócios dependem por seu lado das necessidades da política e o êxito cultural da obediência ao princípio da massa crítica, ou seja, da popularidade máxima. A aparência domina o poder contemporâneo, triunfa a percepção visual e a superfície da pele, o que de alguma forma deve explicar a mediocridade que nos rodeia.

A próxima ruptura europeia


Luís Naves,

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As crises europeias quase parecem provocadas por um desejo de mudar, ignorando tratados e reduzindo a actual complexidade. Não é segredo que muitos dirigentes comunitários desejam que os ingleses saiam, que os ‘irresponsáveis’ do sul saiam e que o alargamento seja revertido. É uma visão trágica, mas os países do Sul têm sido tratados com desprezo, os de Leste com uma inaturável condescendência e os ingleses, esses, diz-se que continuam ao serviço da América.

O texto cuja leitura proponho é extenso, está em duas partes, infelizmente apenas em inglês, mas convém fazer a sua leitura, para se perceber o grau de frustração que se instalou nos chamados países de Leste, onde a atitude em relação à Alemanha começa a ser um desalentado ‘eles arrastam-nos estupidamente para os maiores sarilhos e depois abandonam-nos na latrina’. Aqui está a primeira parte e aqui está a segunda parte. A historiadora Maria Schmidt é pró-Fidesz e, portanto, próxima do líder húngaro, Viktor Orbán. Não recomendo a leitura a alminhas sensíveis, mas o texto é um vislumbre raro daquilo que pensam os intelectuais de uma corrente que tem tido escassas oportunidades para se manifestar.

Do ponto de vista ocidental, sendo impossível ‘disciplinar’ estes países, o melhor caminho será o da ruptura. Nos meios de comunicação, a história unilateral está a ser contada segundo um guião previsível: de um lado, há governos autoritários de extrema-direita e, do outro, os que defendem a concórdia no mundo. Países como Hungria e Polónia estão a ser diabolizados sem perdão, acusados de derivas neo-fascistas e ultra-nacionalistas, de atropelos imaginários e muros ilegais. O arrastão mediático é evidente e todos os argumentos servem, dos delírios de aproximação a Moscovo às invenções anti-semitas. Nestas interpretações ignoram-se as centenas de ataques que se registaram em países ocidentais contra os refugiados (mostrando que a integração dentes será difícil), ignora-se que a crise migratória foi uma imposição alemã aos seus vizinhos, que os tratados não incluem decisões colectivas sobre políticas de imigração, ignora-se ainda que o governo húngaro recusou obedecer a um programa de ajustamento do FMI e mandou a factura da crise aos bancos (sobretudo austríacos e alemães) e que o novo governo polaco se prepara para passar uma factura semelhante, que é o sonho do Bloco de Esquerda. A ideia de que estamos perante regimes não-democráticos, apesar de falsa, foi tão repetida que já parece autêntica. A ruptura será mais fácil se pensarmos nestes países como pré-ditaduras, sem liberdades e onde os regimes se fazem eleger através de chapeladas eleitorais. A vontade dos povos está a ser ignorada, sem dúvida, mas é pelas interpretações jornalísticas.

A crise europeia é hoje, acima de tudo, um desfasamento entre os partidos tradicionais que fizeram a UE e a rebelião eleitoral que alastra no Sul e Leste, com contestações populistas, de esquerda nos primeiros países e de aparência direitista nos segundos*. A Alemanha, a grande vencedora desta crise, terá de escolher entre apagar fogos nos pequenos Estados ou aproveitar a contestação para quebrar as amarras e avançar para um núcleo duro europeu onde caberão poucos membros da actual UE (França, Itália, Holanda, Áustria, Bélgica e talvez Espanha) e onde os alemães serão ainda mais inflexíveis e dominadores. A tentação de acabar com a UE que conhecemos parece irresistível.

 

* Uso a palavra ‘aparência’ porque o Leste funciona como a imagem ao espelho do ocidente: os pós-comunistas chamam-se socialistas e querem manter o máximo da ordem política anterior, sendo portanto conservadores; a direita conservadora é na realidade reformista, pois deseja mudar todas as estruturas políticas. Essa mudança, que na Hungria está consumada, é vista pelos media ocidentais como exemplo do horror, por razões que Schmidt procura explicar no texto.

Um ano difícil


Luís Naves,

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O próximo ano não será fácil para Portugal. No final de 2015, houve uma acumulação de tensões políticas como não se via desde os anos 80. Temos agora a bizarra situação de um partido de governo que perdeu as eleições, com apenas 32% dos votos, e que em certas votações cruciais para a credibilidade externa do país necessitará do apoio de um partido rival com mais deputados ou, alternando, do apoio de duas formações da esquerda radical. O PS vai governar de forma precária, toureando à vez, à esquerda e à direita, conforme o tema. As trapalhadas serão constantes, as surpresas inevitáveis, e nem o apoio automático de uma comunicação social desligada da realidade poderá esconder as sucessivas crises.

As promessas da esquerda ameaçam inverter o que foi conseguido na redução da despesa pública e nas contas externas. As incertezas políticas podem reflectir-se no crédito da república e esbanjar a rara oportunidade do petróleo barato e do financiamento a juros baixos. E, no entanto, é perfeitamente possível que a transição pantanosa dure mais de um ano, pois será punido nas urnas quem derrubar este governo minoritário antes que sejam visíveis os seus estragos.

As bolhas das elites políticas, empresariais, culturais e jornalísticas estão a rebentar, pondo fim às ilusões em que todos viveram. Os bancos serão comprados por bancos estrangeiros maiores e esse processo talvez já seja visível em 2016. Os jornais perdem leitores e abraçam a cultura da banalização do superficial. A economia é pouco competitiva, o desemprego elevadíssimo, as empresas precisam de capital e a credibilidade externa do país depende de decisões que não controlamos, tomadas por burocratas da Comissão ou do BCE e por tecnocratas anónimos das agências de notação.

Dentro de semanas, nas eleições presidenciais, o país terá de fazer uma escolha entre estabilização e agravamento da instabilidade, sendo mais provável a primeira opção, com a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa à primeira volta. Marcelo é o candidato que está em melhores condições de conseguir introduzir algum bom senso nesta complexa equação política.

A Europa de hoje


Luís Naves,

Fala-se muito em populismo e na tensão que o fenómeno está a criar na integração europeia, mas o termo não é definido.

Os populistas tendem a ignorar rótulos ideológicos e procuram simplificar as ideias simples do homem da rua. Em textos anteriores, separei populismo de esquerda e de direita, mas em boa verdade as distinções não são evidentes. O populismo desconfia dos capitalistas, da banca e dos especuladores financeiros, detesta as instituições internacionais e as potências. No caso europeu, há forte retórica eurocéptica e críticas duras aos Estados Unidos e Alemanha, sobretudo quando a opinião pública fica com a percepção de que houve interferência nos assuntos internos. A resistência fictícia ou real a essas pressões garante ganhos imediatos de votos. Podia dar muitos exemplos, mas basta referir que ao longo dos últimos anos a esquerda portuguesa sempre se referiu ao anterior governo como subserviente dos interesses alemães, uma das ideias mais persistentes e negativas que a direita enfrentou.

Os populistas esperneiam antes de aceitar o inevitável, como fez a Grécia, mas acima de tudo seguem uma agenda nacional, são adversários da globalização, preocupam-se com os perdedores deste processo, querem reforçar as funções do estado e as companhias de bandeira, tentam interpretar a todo o momento a sensibilidade do povo, distanciam-se da opinião publicada. Os populistas da direita, por exemplo, erguem trincheiras contra a imigração em massa e o que isso implica de perigos (reais ou imaginários) para a identidade nacional ou para os salários futuros. Os populistas governam por sondagens e desconfiam das elites mediáticas e dos partidos tradicionais, embrulham-se na bandeira, gostam de feiras de enchidos, enchem a boca com as palavras valores e tradição, combatem os privilégios dos ricos e assumem-se como defensores dos mais fracos e como opositores dos piores aspectos das culturas forasteiras.

O discurso é iliberal, repleto de adjectivos e entra facilmente na linguagem. As versões radicais desta estratégia de poder serão suavizadas, para não prejudicar os interesses dos países. É por isso que a ascensão do populismo dificilmente destruirá a União Europeia ou deixará a Alemanha num limbo de isolamento onde esta teria de procurar o seu próprio caminho. E, no entanto, está a ser ultrapassado um ponto de não retorno neste processo de mudança que acabará por criar um mundo diferente.

A crise da Imprensa


Luís Naves,

Patrícia Reis cita Fernando Dacosta, segundo o qual as redacções perderam os seus escritores. Diria de outra forma: as redacções perderam os seus intelectuais.

A crise dos jornais tem uma explicação, a tese da tempestade perfeita, que juntou globalização, custos salariais elevados e perda de leitores e de receitas de publicidade. E, no entanto, isto não esclarece totalmente o fenómeno da morte dos jornais. Nos últimos vinte anos, as redacções perderam metade dos jornalistas, como se tivessem perdido um dos seus braços. Tornaram-se locais onde se trabalha por rotina, com chefias burocráticas, inflexíveis, muito politizadas e dependentes. Perdeu-se a camaradagem e as diferenças salariais são escandalosas. Isto dá origem a produtos previsíveis, que pouco adiantam à vida das pessoas.

No seu longo declínio de vinte anos, os jornais perderam sobretudo a criatividade. Eles transformaram-se em simples retratos do tempo, em vez de interpretações. São pouco pensados, mudam regularmente o aspecto gráfico e pioram constantemente o conteúdo escrito. É cada vez mais difícil encontrar autores que pensem pela sua cabeça, com sentido de humor e coragem para desafiar convenções ou para recusar a linguagem codificada do politicamente correcto. Nos jornais, encontramos páginas e páginas com pequena intriga, não há rasgo, acredita-se ainda que o estilo pedante e sentimental é o correcto para as reportagens.

Ao longo de uma geração, os jornais perderam progressivamente a crónica e a narrativa, dedicando-se ainda mais à notícia e opinião, dois tipos de texto que a globalização banalizou, com a agravante dos jornais tradicionais recusarem assumir as tendências políticas que obviamente possuem. Em breve, as notícias serão redigidas por máquinas, de onde se conclui que, perante as dificuldades financeiras, os donos dos jornais fizeram o inverso do que deviam ter feito, apostando erradamente nas formas jornalísticas que a internet já tornara quase universais. Ao deixarem sair os jornalistas mais experientes e de melhor qualidade, os jornais perderam memória e independência, condenaram-se à morte lenta, dando de bandeja a discussão da sociedade a meios gratuitos que têm sustentação económica oposta. No processo, os intelectuais desapareceram da paisagem e a própria palavra ganhou toque de ironia. É por isso que o país não tem debates nem circulação de ideias, por isso papagueamos banalidades em mau inglês e dependemos cada vez mais das interpretações que outras nações e culturas fazem do mundo.

O melhor candidato


Luís Naves,

A crise nacional é mais funda do que parece e exige que na presidência esteja uma personalidade com indiscutível carisma e conhecimento do país. Marcelo Rebelo de Sousa é o único candidato presidencial com capacidade e autonomia para equilibrar o frágil sistema político, agora tornado ainda mais instável pela estratégia de poder do partido que perdeu as eleições. As reformas ainda não acabaram e os compromissos europeus não são algo de vago ou de retórico, mas um elemento central da nossa história dos próximos anos. Se falharmos, cairemos num patamar de menoridade, por isso estas eleições presidenciais são mais importantes do que tem sido tradicional. Marcelo é o único candidato que garante utilizar todas as ferramentas constitucionais ao seu dispor, mas também é um político reconhecidamente hábil e experiente, o que nos oferece garantias de uso inteligente desses poderes. Portugal precisa de um presidente capaz da moderação e da equidistância, precisa de alguém que dê garantias de confiança e firmeza, de um presidente colocado ao centro, capaz de negociar com as diferentes forças, proporcionando entendimentos entre elas. Portugal precisa de um presidente pragmático que conheça profundamente o sistema político e constitucional. Num período de crise, não se fazem experiências, elege-se alguém com experiência.

Intolerância e bipolarização


Luís Naves,

As últimas semanas demonstraram que a sociedade portuguesa tem no seu código genético certa tendência para a intolerância. Instalam-se a retórica de tudo ou nada, a má qualidade do debate público, a agressividade dos comentadores e um argumentário fantasista da esquerda, que vê em simples manobras tácticas grandes batalhas ideológicas. A propósito do espirro de um dirigente, tornou-se moda dizer que a direita se radicaliza; isto agora vai mudar tudo, dizem outros, vendo vastas cedências na declaração burocrática de um responsável europeu que quer tudo na mesma; vem aí a “austeridade inteligente”, afirmam certos crentes, como se a austeridade fosse “estúpida” ou “inteligente”, conforme o autor.

O sistema anterior ao resgate era insustentável e a Europa mudou. Há problemas nacionais como desemprego de longa duração, fragilidade económica, crónica falta de capital, défice de qualificações, influência excessiva de grupos de interesses, crise demográfica, enfim, todas as dificuldades tradicionais continuam em força, mostrando que as reformas impostas pelos credores foram insuficientes.

Neste contexto, a política entrou numa onda de crispação que pretende ignorar o voto de 38% do eleitorado. A direita tem um problema grave: só será poder com maioria absoluta, pois acabou de vez a solução bloco central que permitia resolver situações de impasse, como era o caso a 4 de Outubro. Se não aparecer um novo partido ao centro, CDS e PSD terão todas as razões para se entenderem em coligações pré-eleitorais, mas precisarão de 43% dos votos, o que é a fasquia mais alta da Europa para partidos tradicionalmente de poder evitarem ser oposição eterna. No futuro, independentemente do que disser antes das eleições, o PS ficará colado a parceiros que até hoje eram sobretudo partidos de protesto à sua esquerda*. Acabou a alternância dos dois grandes partidos moderados do centro, que era a base do regime. A bipolarização decidida por António Costa, criando dois campos nítidos, pouco coerentes, radicalizados e muito antagónicos, foi um erro crasso e surge numa altura em que é o pior sistema possível para um país que precisa de continuar as reformas.

 

* Embora o partido comunista tenha presença no poder autárquico, a sua vocação é claramente de protesto e o bloco, sem poder autárquico significativo, tenderá provavelmente a integrar futuros governos.

Sismo eleitoral


Luís Naves,

A Europa está a sofrer uma mudança radical. As causas são complexas, mas julgo ser claro que muitos eleitores pobres sentem alta ansiedade em relação à sua segurança económica e física. Sentem em perigo a sua identidade e têm conflitos com os vizinhos muçulmanos. Ontem, na primeira volta das eleições francesas, ocorreu um novo sismo, que deslocou um pouco mais as placas tectónicas da política europeia: a Frente Nacional, de extrema-direita, foi o partido mais votado. Um em cada três eleitores escolheu os nacionalistas. A política francesa tem agora três grandes blocos.

É difícil antever a segunda volta, por causa da abstenção elevada, mas se a direita republicana desistisse numa das regiões, isso equivalia a eleger o representante da extrema-direita. A fusão de candidaturas de esquerda com direita está afastada. Se houver muitas votações triangulares, é natural que a FN vença pelo menos em duas ou três regiões. A esquerda pode ganhar duas, os republicanos talvez seis ou sete, mas estamos à beira de algo de profundamente diferente, com possíveis consequências nas presidenciais, dentro de ano e meio. A FN é uma formação xenófoba, proteccionista e que quer limitar a emigração. Enquanto tinha 15 ou 16% dos votos, podia ser enfrentada como protesto. Com um em cada três votos, isso deixa de ser possível, daí a reacção cautelosa dos republicanos de Sarkozy e o nervosismo da esquerda, que na realidade foi trucidada.

O que se passou em França é sintoma de uma irritação mais vasta. Os conservadores eurocépticos venceram na Polónia e há sinais de rebeliões em outros países, por exemplo na Finlândia. A União Europeia sairá desta onda populista com um aspecto diferente, com escassa paciência para periferias incapazes de controlar a sua contabilidade, provavelmente a duas velocidades e com um núcleo duro que acelerará a integração. Teremos saudades dos tempos de Schauble e Merkel. Nos próximos anos, os políticos vão ouvir mais os seus eleitores ou arriscam-se a derrotas. A recente tentativa de criar uma política comum de emigração e asilo foi um erro que pode agora conduzir a reacções em que será pior a emenda que o soneto. As elites mediáticas também precisam de pensar mais nas respectivas sociedades, pois começa a ser patética a distância entre público e matéria publicada (e se as pessoas não o compram, o órgão de comunicação não existe).

Eleições em França


Luís Naves,

A Frente Nacional de Marine Le Pen deverá ter hoje um resultado histórico na primeira volta das eleições regionais francesas. O centro-direita liderado pelos republicanos é favorito em sete das 13 regiões, mas a extrema-direita pode conquistar pelo menos uma região, isto pela primeira vez (a segunda volta será dia 13). Ostracizada durante décadas, a FN é agora uma das três maiores forças partidárias, provavelmente a segunda. Usando feroz demagogia, este e outros grupos nacionalistas estão a transformar a paisagem política da própria Europa.

Em Portugal, é ainda mal compreendido o descontentamento dos eleitores europeus, a islamofobia e a sensação de crescente divórcio que tantos franceses sentem em relação às suas elites políticas e mediáticas. Os votantes da FN pensam que os líderes da França vivem numa realidade paralela. Muitos destes eleitores descontentes enfrentam diariamente choques culturais com vizinhos muçulmanos, consideram que o país tem um grave problema de identidade e que a linguagem política se transformou numa forma de negação. O avanço da extrema-direita é sintoma de mudanças mais profundas a decorrer em toda a Europa, em reacção ao fosso entre eleitores e eleitos criado pela União Europeia. Este distanciamento é reconhecido por todos, mas não parece ter soluções pragmáticas, o que acentua a ideia de cinismo dos dirigentes.

A recente crise das migrações dividiu ainda mais a UE e está a radicalizar o discurso dos populistas. Políticos e comentadores aderiram rapidamente à ideia de abertura de fronteiras, classificando as cautelas como xenofobia, mas os média não viram as próprias reportagens, onde se relatava que dois terços dos migrantes não eram refugiados, que a proporção de famílias era baixa, que as regras de segurança europeias não estavam a ser cumpridas nas fronteiras externas. A crise migratória acentuou a ansiedade dos descontentes, sobretudo nos países com maiores comunidades muçulmanas. Segundo indicam as sondagens, a FN pode igualmente ter subido mais de quatro pontos percentuais após os ataques terroristas de Paris.

Era impensável


Luís Naves,

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Se estivesse em 1915 a tentar imaginar o mundo do século seguinte, teria provavelmente uma perspectiva pessimista do futuro. Em 1915, as pessoas morriam cedo, em média com pouco mais de 40 anos: a mortalidade infantil atingia valores astronómicos, as mulheres morriam de parto e eram raros os casais que não perdiam filhos ou os velhos que passavam de 65 anos, geralmente com problemas que tornavam o prolongamento dessas vida num inferno de dor, sofrimento e pobreza.

Havia tempo para ler e amar e talvez se possa afirmar que as pessoas eram mais felizes, mas encontramos muitos relatos estranhos desse tempo: os jornais estão cheios de cenas de pancadaria e notícias de crimes passionais. O mundo rural era violento, as pessoas viviam com dificuldade e trabalhavam muito, por pouco dinheiro e sem rede social. Não havia apoios à velhice nem medicina gratuita; os poderosos tinham mais direitos e os pobres analfabetos obedeciam. Temos tendência para mitificar a vida quotidiana do passado e a nossa imagem de 1915 vem dos relatos de uma burguesia com privilégios, que vivia em certo conforto luminoso e protegido. As classes baixas, sobretudo os camponeses, tinham na realidade uma existência de pouco alimento e muita doença. As suas vidas eram curtas e as oportunidades raras. Nas décadas anteriores, a emigração permitira a abundância dos “brasileiros”, mas por cada aventureiro que fez fortuna, morreram dezenas, de febres e fome.

Em 1915 havia uma guerra mundial cujos efeitos devastadores tinham sido previstos por alguns visionários e futuristas: sonhava-se com máquinas voadoras e houve os primeiros bombardeamentos aéreos; o mundo entrara na era do aço, na modernidade industrial a sério, com produção em massa e nações em armas, exércitos de milhões e guerras tridimensionais. Eram impensáveis as ideologias totalitárias, mas o primeiro grande genocídio foi nesse ano. Foi também o ano da relatividade, os impérios europeus dominavam o mundo e era difícil prever os conflitos imperiais que iriam durar até 1989. Eram certamente impensáveis o Holocausto e a bomba atómica, o computador e os antibióticos, os aviões a jacto e o módulo lunar. E como será daqui a cem anos?

A longa crise


Luís Naves,

A economia brasileira está em queda livre e paira sobre o mundo o espectro de uma terceira vaga da crise financeira, desta vez iniciada num país emergente. A Turquia e a Rússia, dois outros candidatos a epicentro desse possível sismo, estão envolvidas num perigoso duelo em torno da guerra civil da Síria.

A Europa entrou em crise há sete anos. Na primeira fase, foi vítima do quase colapso do sistema financeiro mundial. Depois, enfrentou problemas internos que quase levaram ao fim da sua moeda única. Neste momento, está em causa o espaço de livre circulação de pessoas: a fragmentação do Islão produziu um vasto arco de instabilidade que vai da Nigéria ao Cáucaso, do Afeganistão à Argélia, da Somália ao Curdistão. A guerra civil na Síria e no Iraque provocou pelo menos sete milhões de deslocados e quatro milhões de refugiados, muitos dos quais procuram chegar à Europa. Cada país de recepção teve uma abordagem que ignorava os vizinhos e parceiros, instalando-se uma situação caótica que parece já não ter remédio.

Em sete anos de crise nos países industrializados, a prosperidade das elites mistura-se cada vez mais com o descontentamento e a sensação de crescente insegurança. A resposta tem sido o aumento regular das propostas populistas de esquerda ou de direita, que tipicamente atraem um terço do eleitorado em cada país. Esta ansiedade em relação ao futuro baseia-se na frustração que muitos europeus sentem: diluiu-se a protecção do Estado, mas não se concretizou a hipótese da abundância, pelo contrário, o europeu típico teme pelo seu emprego e receia cair na pobreza. As democracias são vulneráveis. Para mais, num mundo multipolar e perigoso, as grandes potências tentam encostar os rivais às cordas, relutantes em cooperar contra os seus inimigos comuns: as ideologias do apocalipse e a linguagem do terror.

Os custos do populismo de esquerda


Luís Naves,

As torneiras do dinheiro público serão abertas e, nos primeiros meses, haverá dinheiro para tudo. O populismo de esquerda tem custos elevados. Os sindicatos defendem os privilégios de alguns trabalhadores e tentarão destruir as reformas impostas pelo FMI. A imprensa estende a passadeira vermelha ao governo minoritário do PS e já começaram as pequenas mentiras, tipo “afinal, os cofres estavam vazios” e “há estagnação económica”. Na realidade, o novo governo recebeu um país com crescimento (modesto), contas externas positivas, criação de emprego e facilidade na obtenção de crédito nos mercados. O governo beneficiará também de bons ventos ocasionais, como petróleo barato e intervenções do BCE, mas não devia ter sido esquecida tão depressa a herança que a direita recebeu em 2011: programa de ajustamento mal negociado, economia em colapso, falência iminente do Estado, perda de soberania, sistema financeiro à beira da ruína, desemprego galopante e dívida insustentável.

Nos primeiros meses do novo ciclo político não existe qualquer ameaça interna, pois os partidos que apoiam o governo não cairão na tentação de o derrubar: quem o fizer abre as portas à direita e será punido. A maior ameaça vem do exterior, pois os credores europeus dificilmente permitirão o descontrolo das contas públicas. Quando chegar a factura, talvez já em meados de 2016, as novas medidas de austeridade implicarão o rompimento dos acordos de esquerda ou o não cumprimento dos compromissos externos, hipóteses que os mercados financeiros não perdoam. O PS tentará eleições antes deste desfecho, enquanto ainda forem visíveis os efeitos da sua generosidade. E haverá entretanto outras incógnitas, da atitude do futuro presidente ao grau de paciência da extrema-esquerda. E à direita, que acontecerá? Vão surgir novos partidos ao centro? Podemos esperar mudanças nas cúpulas partidárias?

É fácil culpar a Europa e o euro pelos nossos problemas, mas esta crise política promete ser longa. As dificuldades ainda não acabaram e mantém-se a fragilidade económica, nomeadamente o endividamento e a falta de poupança. As reformas de que o país continua a necessitar estão congeladas ou abandonadas de vez. Há demasiadas pessoas no desemprego, mas esta esquerda começou pelas causas fracturantes e pelos exames da quarta classe.

Novembro


Luís Naves,

No final de 1975, Portugal era controlado pelo Conselho da Revolução, uma junta militar de onde tinham sido afastados, em Março, todos os membros conservadores. Em Abril desse ano, nas primeiras eleições livres, e contra as expectativas da esquerda revolucionária, o país votara nos partidos burgueses, mas o conteúdo político da nova Assembleia Constituinte não se reflectia nos governos provisórios que o Conselho da Revolução escolhia. Sob o quinto governo provisório (radicalizado e sem ministros do Partido Socialista, que vencera as eleições) a economia portuguesa estava essencialmente nacionalizada e os revolucionários, usando assembleias populares fáceis de controlar, tentavam apoderar-se das empresas, do aparelho de estado e de todas as instituições civis, incluindo os órgãos de comunicação. No início de Novembro, a Assembleia Constituinte foi cercada, numa evidente humilhação dos deputados eleitos, e um novo governo menos radical estava à beira de ser derrubado na rua. O país enfrentava três cenários: triunfava a democracia, havia guerra civil ou a revolução evoluía para um processo soviético de tomada de poder.

O golpe militar de 25 de Novembro de 1975 permitiu o triunfo da democracia, mas a elite que beneficiou do regime resultante tem hoje vergonha do que aconteceu naquele dia. Ao pôr fim ao chamado “Verão Quente”, o 25 de Novembro representou o triunfo da facção militar democrática que mais tarde devolveria o poder aos partidos que tinham vencido as primeiras eleições livres e de sufrágio universal. Graças ao 25 de Novembro, Portugal teve uma nova Constituição em 1976, curiosamente hoje defendida sobretudo pelos mesmos partidos que procuraram destruí-la à nascença. Sem o 25 de Novembro, Portugal não seria hoje uma democracia ou teria um regime com mais feridas por cicatrizar. É por isso estranho ver agora os três antagonistas de ontem a tentarem disfarçar as duas trincheiras de 1975: de um lado estava o PS, que liderou com coragem a resistência à tomada de poder pelos radicais; do outro lado, os comunistas e a extrema-esquerda, tentando apoderar-se de um país que os rejeitava ou não compreendia.

Insegurança


Luís Naves,

Perante a vulnerabilidade externa e a fragilidade social nos subúrbios das suas capitais, a Europa terá de abandonar o caminho sonâmbulo rumo ao apagamento. A crise das dívidas soberanas foi grave por haver países que não cumpriram as regras de uma zona monetária que tinha escasso conteúdo político. Em resposta, os europeus decidiram reforçar as instituições de controlo da zona euro.

A insegurança europeia tem motivos semelhantes e deverá ter uma solução parecida: os atentados de Paris revelaram uma zona de livre circulação de pessoas onde se movem livremente jihadistas dispostos a fazer-se explodir no meio de centenas de inocentes. Tudo indica que os terroristas de Paris combateram na Síria e regressaram impunemente à Europa, aproveitando o caos que se instalou nas fronteiras externas da zona Schengen. Pressionados pela opinião pública, sobretudo em Agosto e Setembro, os governos europeus foram incapazes de controlar o fluxo migratório, falhando na identificação de milhares de migrantes e permitindo a entrada de combatentes que se misturaram com a multidão. Poucos na altura compreenderam que a crise humanitária era também uma crise de segurança.

Nas últimas décadas, a Europa foi incapaz de conciliar segurança interna com liberdade religiosa. Nos bairros degradados, centenas de imãs fundamentalistas difundem versões do Islão que, na prática, constituem um apelo à destruição dos valores e tradições do Ocidente. Os radicais não têm hipótese de impor a sua versão, mas sustentam a guerra santa em redes clandestinas que tornaram a vida dos europeus num inferno. A loucura do fanatismo religioso exigirá maior cooperação europeia nas áreas de informações, polícia e defesa. E se quiser manter a sua forma de vida, a Europa precisará de criar estruturas de segurança colectiva com maior capacidade para combater estes radicais, onde quer que eles estejam.

Perturbação


Luís Naves,

É nos momentos de perturbação e choque frontal com a realidade que vemos com maior nitidez a desagregação das sociedades contemporâneas. A degradação da política, por exemplo, e o declínio das ideologias, dois fenómenos paralelos que explicam o triunfo do cinismo e a ascensão das propostas populistas. Estabeleceu-se nos últimos vinte anos o curioso mito de haver uma ligação inevitável entre liberdade económica e prosperidade, mas a realidade é mais amarga: a globalização criou Estados falhados e, no mundo industrializado, trouxe sobretudo a ansiedade dos trabalhadores, que temem pela extinção dos seus postos de trabalho. Como explicar a riqueza pornográfica da elite dos gestores, cuja preponderância contraria os próprios princípios do capitalismo? E como explicar o trabalho não remunerado, literalmente absurdo, disfarçado de aprendizagem?

O capitalismo vive uma das suas piores crises, com o empobrecimento de parte da classe média, a morte das indústrias, a alta instabilidade dos mercados e o desemprego crónico elevado. Mas o mundo contemporâneo revela também uma profunda crise do Estado. Muitas profissões lutam hoje pela sobrevivência e estarão amanhã extintas. As democracias afogam-se em impotência e retórica. Pode vir por aí nova vaga de colapsos, desta vez nas economias emergentes, e serão mais uma vez os pobres a pagar as dívidas.

O mandarinato atraiçoa o povo. É incompreensível a eleição sistemática de políticos cada vez mais fracos. As elites mediáticas habitam o mundo da lua, com a sua linguagem de fachada ridicularizando os valores tradicionais e negando o passado. A nossa identidade está a ser perseguida e estilhaçada. Os intelectuais desapareceram ou foram silenciados. A cultura transformou-se na busca do insignificante e a arte tornou-se uma xaropada sentimental que cultiva a bela frase vazia e a lágrima ao canto do olho.

E o país ainda a combater a guerra anterior


Luís Naves,

Enquanto as CNN’s discutem as questões estratégicas e de segurança que se colocam à Europa, a provinciana comunicação social portuguesa está ainda na guerra anterior e discute xenofobia e direitos humanos das minorias radicalizadas. Afinal, que direitos humanos tiveram as 139 vítimas mortais da barbárie terrorista e os mais de 300 feridos dos atentados de Paris? Ou as outras vítimas, por exemplo, os ‘cruzados’ a bordo do avião russo derrubado, que vinham da praia?

O Delito de Opinião foi dos primeiros sítios nacionais a descrever a situação descontrolada que se viveu nas fronteiras externas de Schengen em Agosto e Setembro. Estes textos foram recebidos com indiferença, prevalecendo a ideia de ignorar as regras europeias perante a emergência humanitária. As pessoas convenceram-se de que um governo de ‘extrema-direita’ agia contra os valores europeus e que era preciso abrir o espaço de livre circulação. As tentativas de explicar a realidade esbarraram no muro dos mitos mediáticos. Durante semanas, sob intensa pressão da opinião pública, o fluxo migratório foi descontrolado e podem ter entrado na Europa centenas de jihadistas, misturados com as multidões. Era preciso tempo para controlar as pessoas que nos batiam à porta.

O perigo do Estado Islâmico (chamem-lhe assim ou de outra forma) foi subestimado. A Europa terá de se coordenar com americanos, russos, turcos, curdos, iranianos e com as milícias xiitas libanesas e com os xiitas iraquianos, com os rebeldes sírios, talvez até com Bachar al-Assad, que ao sufocar à nascença a ‘primavera árabe’ contribuiu para a extrema violência da guerra civil. Será preciso reprimir os contrabandistas de petróleo e de outros recursos do Estado Islâmico (fosfatos, algodão, obras de arte), será preciso eliminar as fontes de financiamento da organização (qual o papel dos sauditas?). Isto é um choque de civilizações e o califado constitui um aperfeiçoamento da Al-Qaeda, com centralização, território, população, leis, orçamento, exército. Os europeus terão de reprimir os seus radicais, num equilíbrio difícil com os princípios da liberdade religiosa.

Blogue da Semana


Luís Naves,

Será possível escrever um blogue de ficção, como se fosse um romance fragmentado, com várias hipóteses de leitura? É pouco provável que isso tenha interesse para um público que prefere discussões imediatas e agrestes, mas aqui está uma experiência: este diário foi escrito no século XXII, em 2115. Chama-se Lisboa em 2100 e tem várias histórias paralelas. O autor é meu homónimo e a ideia já foi tentada antes, aliás sem êxito. A dificuldade é a de conseguir o equilíbrio entre coerência, compreensão e concisão, mas trata-se no fundo de estimular a imaginação do leitor. Destina-se sobretudo a jovens. Cada etiqueta corresponde a uma linha de leitura, as personagens são construídas de forma progressiva, o objectivo é discutir questões contemporâneas, mas como qualquer diário, está recheado de historietas e banalidades.

A vulnerabilidade da Europa


Luís Naves,

Os fanáticos religiosos do Estado Islâmico não podem destruir a Civilização Ocidental, mas podem transformá-la. Ontem, em Paris, a barbárie homicida dos terroristas atacou o nosso estilo de vida, a cultura, a segurança, atingiu o coração inocente das nossas liberdades. A vulnerabilidade da Europa é gritante.

Depois da crise do euro, da impotência na Ucrânia, das divisões amargas, instala-se agora a insegurança crónica, provavelmente agravada pela recente crise dos refugiados. O problema dessa crise, que muitos não entenderam, não era a emergência humanitária, mas a urgência em controlar um fluxo migratório descontrolado. O facto é que não sabemos quantos militantes entraram na Europa misturados com as multidões que genuinamente precisavam de protecção.

Em Agosto e Setembro, era preciso guardar as fronteiras externas do espaço Schengen e cumprir os rigores previstos na zona de livre circulação, identificando os migrantes que tinham direito a refúgio. Isso não foi feito, houve mesmo séria resistência ao cumprimento das regras europeias, rigor esse que era confundido com insensibilidade. O mal está feito.

Em vários países europeus há infra-estruturas jihadistas que vão utilizar fanáticos treinados na guerra da Síria e do Iraque para ataques mortíferos low tech. Isto é apenas o início. A Europa pode receber um milhão de pessoas? Claro que pode, mas não em três meses e sem controlo. Fomos ingénuos e os partidos xenófobos de extrema-direita vão aproveitar-se da emoção com os atentados de Paris para pedir novas limitações à nossa liberdade. É fácil caminhar na direcção da intolerância e do medo. O excessivo entusiasmo humanitário dará provavelmente origem ao seu exacto inverso, tudo errado de novo.

O Governo de Cinco Minutos


Luís Naves,

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O Pedro Correia fez referência, mais abaixo, a um episódio da Primeira República, o governo de cinco minutos, e não resisto a publicar aqui um excerto de um texto que escrevi há dois anos (e que não publiquei antes) sobre este estranho acontecimento. O chefe de governo, Francisco Fernandes Costa (1857-1925), na imagem, foi nomeado pelo presidente e estava a realizar a primeira reunião com os ministros que escolhera quando uma turba excitada interrompeu os trabalhos. Sob ameaça, Fernandes Costa apresentou imediatamente a sua demissão. A situação política era volátil, o país estava em crise financeira e os radicais dificultavam a participação da direita no poder, neste caso de um especialista em finanças. O que provocou o protesto foi a inclusão de ministros ‘sidonistas’, ligados ao presidente Sidónio Pais, que fora assassinado meses antes. O texto baseia-se na leitura dos jornais do dia.

 

“Gastou-se demais. Gasta-se demais. Esta é, com efeito, a verdade incontroversa”, assim escrevia o editorialista do Diário de Notícias, na edição de 16 de Janeiro de 1920. Na véspera, 15 de Janeiro, Lisboa vivera um dia memorável, com a nomeação de um novo governo, chefiado por Francisco Fernandes Costa e que manifestações ruidosas forçaram a demitir-se mesmo antes de tomar posse, no que ficou conhecido como o episódio do “governo dos cinco minutos”. Vivia-se um período de grande instabilidade política, a ponto de nessa manhã terem corrido boatos sobre “nutrido tiroteio” na zona da Rotunda. Fora afinal um falso alarme, as descargas do motor de um automóvel avariado na Avenida da Liberdade.

Os partidos tinham organizado um governo liderado pela facção liberal dos republicanos, à direita, mas havia grupos que reclamavam um “gabinete nacional”, ou seja, sem sidonistas (partidários do falecido presidente Sidónio Pais). Apesar das fortes medidas de segurança, o presidente António José de Almeida perdeu o controlo da situação. Conhecido o elenco do governo, logo se organizaram comícios na Praça do Comércio e desfiles pela cidade, até ao Rossio, com cenas de pancadaria e até o atropelamento acidental de um pobre mendigo, que segundo o Diário de Notícias ficou muito maltratado nas pernas.

Os ministros reuniram pela primeira e última vez no gabinete do chefe do governo, na Junta de Crédito Público*. Segundo contou o próprio Fernandes Costa, na sua carta de demissão, “o edifício foi invadido, em tumulto, por muitas pessoas, enquanto muitas mais se aglomeravam nas portas do edifício, as quais, em altas invectivas contra o referido ministério, protestavam contra a sua constituição, reclamando a formação de um ministério nacional”. Foi assim inviabilizada à força a solução Fernandes Costa. O governo anterior, demissionário, de Sá Cardoso, manteve-se até Março de 1920, quando foi formado um gabinete independente, o 23º da Primeira República (descontando juntas revolucionárias e governos provisórios). Por sua vez, esse governo independente duraria três meses, o que era uma eternidade, em comparação ao efémero 22º, o mais curto de sempre”.

 

* O actual edifício do Ministério das Finanças