Não consegui pensar num título sem palavrões…


Luís Naves,

Se dependesse deste tipo de argumento, a direita estava tramada. Soma-se o número de pensões (como se fosse o número de pensionistas) com o de desempregados, funcionários públicos e cronistas políticos, chega-se ao número de seis milhões e conclui-se que Portugal depende do Estado e quem depende do Estado vota à esquerda, enquanto quem não tiver nada a ver com o Estado, se quiser defender os interesses pessoais, votará à direita. Considera-se que as pessoas não têm famílias, casam dentro do seu sector social e não têm pais pensionistas. O delírio e a lógica da batata vai por ali fora, a começar no título do artigo, O Partido do Estado (como se houvesse algum partido exterior, a flutuar no limbo).

Há só seis milhões de pessoas que dependem do Estado? O número até parece pequeno, pois as empresas privadas têm esgotos, precisam de estradas, escoam os produtos pela ferrovia; os ricos vão a São Carlos e alguns trabalhadores dessas empresas não-estatais até podem ter os filhos na escola pública, precisam por vezes de ir ao hospital e a polícia faz frequentes rusgas lá no bairro para os livrar da droga. E já ninguém dispensa iluminação pública à porta, abastecimento de água camarária, até lá na barraca têm disso.

Sem mais ironias. A separação de Estado e não-Estado como se fossem esferas antagónicas não é uma leitura neo-liberal, mas neo-realista. O articulista não entendeu o problema: o Estado cresceu demasiado depressa e não há economia para o sustentar com crescimento a tal ritmo, pelo que é preciso reformar o próprio Estado e essas reformas são difíceis de fazer, pois afectam os interesses de quem depende de serviços que mais ninguém faz. E, em certos casos, toda a gente pode depender desses serviços.

Mas a parte mais irritante do artigo de João Miguel Tavares é a presunção de que um desempregado, por estar desempregado, vota à esquerda, ou a ideia peregrina de que um funcionário público, se quiser defender os seus interesses de classe, deve votar à esquerda e será um “herói” se votar à direita. Isto é escrito por um autor que certamente usa serviços do Estado e exige ser bem tratado, na sua qualidade de cidadão com plenos direitos, incluindo o de escrever imbecilidades. Levando este tipo de raciocínio ao seu corolário lógico, todos os médicos, juízes, professores, pensionistas, militares, polícias, desempregados e respectivos periquitos votam à esquerda ou devem fazê-lo se quiserem manter os seus direitos e postos de trabalho (como se alguém, excepto o autor, quisesse alterar isso). Portanto, serão heróis se votarem nos partidos da direita. Do outro lado, estão os 3,8 milhões de empregados do sector privado, cujo interesse de classe está em votar contra a esquerda. Presumo que serão ‘traidores’ os que votarem a favor. Enfim, a insistir neste tipo de argumentação alucinada, a direita não irá longe, o que talvez explique que este cronista seja tão elogiado e citado.

A queda


Luís Naves,

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Depois da estrondosa derrota na câmara dos deputados, Dilma Rousseff terá escassas hipóteses de impedir o processo de destituição; mesmo que consiga manter-se no poder, a presidente brasileira não tem condições para governar até ao fim do mandato. Estranho ‘golpe’: três em cada quatro deputados votaram a favor da saída de Dilma. A coligação que apoiava a presidente está desfeita e o descontentamento popular não permitiria mais dois anos e meio de pântano. O Brasil precisa de mudança, como disseram muitos dos deputados que votaram pela destituição na caótica, democrática e por vezes divertida sessão de voto de ontem (hoje de madrugada), que lembrava um jogo de futebol a terminar em penaltis.

Na imprensa brasileira escreve-se que Dilma e o PT cometeram erros tremendos, sobretudo ao longo do último ano e na campanha do segundo mandato (com vitória por pequena margem); a presidente hostilizou dirigentes dos partidos que a apoiavam, foi arrogante e queimou pontes, mas acima de tudo cometeu erros que acentuaram a recessão: o Brasil deverá perder 8% a 10% do PIB, o desemprego aumenta depressa, espera-se a recuperação apenas em 2018. Em Portugal, vemos notícias muito editadas, onde os apoiantes de Dilma parecem sempre melhor do que “as tias” que querem a destituição. Trata-se de uma fantasia, claro. O descontentamento popular é evidente, como foi óbvia a influência das manifestações de rua na escolha de muitos deputados. Se o avanço do processo fosse contra o desejo do povo, não tinha acontecido.

O PT está metido até ao pescoço num escândalo de corrupção sem precedentes e tentou obstruir a investigação judicial. Este partido também tentou criar um regime clientelar que se notou nas divisões da votação por estados: nos partidos hesitantes, os deputados das regiões ricas votavam contra Dilma e os das regiões pobres a favor. O país está dividido entre Norte e Sul. Na câmara, notavam-se as classes sociais, a questão racial, o voto evangélico contra Dilma, as fracturas partidárias, o caciquismo e o desespero dos deputados do PT. A crispação política parece ter ultrapassado um nível perigoso e as elites brasileiras não parecem à altura da crise. O sistema presidencial dificulta a válvula de escape de eleições antecipadas, o sistema eleitoral permite eleger deputados (geralmente chefes políticos locais) por algumas centenas de votos, o vice-presidente Michel Temer é também impopular, acusado de golpista pelos derrotados, os problemas económicos exigem medidas urgentes, mas o Brasil é demasiado grande para falhar.

A fraqueza dos presidentes


Luís Naves,

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As transições dos presidentes americanos bem sucedidos costumam corresponder a tempos um pouco mais instáveis. O último ano de Barack Obama não está a fugir a esta regra, muito visível desde o fim da Guerra Fria, mas que já se verificava nos ciclos anteriores. No seu oitavo ano de poder, o presidente não pode ser reeleito e é politicamente débil. Muitos congressistas também vão a eleições e estas viragens de ciclo costumam fazer muitas vítimas, pelo que ninguém quer correr riscos. Claro que o primeiro ano do novo presidente também pode ser instável, mas os líderes populares tendem a encurtar esse período problemático.

O fenómeno talvez possa explicar parte dos desafios que estão a surgir à liderança americana do mundo, por exemplo a aparente agressividade russa no Báltico, os ensaios de mísseis da Coreia do Norte, o aumento das rivalidades no Mar da China, o interesse de Moscovo no Médio Oriente. Neste último, o verdadeiro motivo será a tentativa de limitar a produção de petróleo, sem ligação aos ciclos americanos.

Com a América menos envolvida em questões externas e mais atenta às suas próprias eleições, é natural que os poderes rivais tentem fazer testes de vontade política. O próximo presidente será provavelmente Hillary Clinton, com grande experiência internacional, o que contribuirá para uma rápida acalmia, mas existe a possibilidade de  tudo correr de forma diferente. Os outros três candidatos com possibilidades (Donald Trump, Ted Cruz e Bernie Sanders) são populistas com ideias que levarão ao isolamento da América e ao recuo da sua política externa. Trump representa um fenómeno novo e fez promessas eleitorais que darão origem a conflitos com aliados e a mudanças estratégicas imprevisíveis. Se vencer, será testado sem quartel por todos os poderes que contestam a hegemonia americana. Veremos mísseis a voar, incidentes de fronteira e retórica bélica.

Andar na linha


Luís Naves,

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Os defensores de António Costa têm cada vez mais dificuldade em explicar o que está ele a fazer de diferente. Os partidos de esquerda ensaiam críticas em público, apoiam por enquanto com paciência, mas terão cada vez mais dificuldade em explicar aos seus militantes o que distingue Costa de Passos.

Começa a ser intrigante por que razão não houve bloco central, como sugeria o resultado das eleições de Outubro. O governo minoritário do PS começou por prometer anular as reformas da coligação de direita e ensaiou um pequeno conflito com Bruxelas, mas a imediata subida das taxas de juro da dívida acabou com essas veleidades. Em todos os assuntos irrelevantes há uma ruidosa e triunfal maioria de esquerda, que também parece existir na distribuição de lugares, mas quando as contas se complicarem, será o bloco central a executar as políticas impopulares exigidas pelos credores. Nos momentos difíceis, os nossos governantes são actores secundários e a soma de partidos não é linear. Quando for necessário, haverá maioria no parlamento, estabilidade para evitar o segundo resgate ou para salvar a banca, mas não será provavelmente a maioria de esquerda.

A política de hoje é um vago teatro sem ideologia, segue na mesma linha. A taxa de crescimento prometida era fantasiosa, a conjuntura externa está a piorar, as previsões económicas são cada vez mais sombrias. Não haverá falta de explicações para as medidas de austeridade, independentemente do nome que a propaganda lhes puser: azar do costume, medidas de estabilização, plano genial de salvamento dos aflitos.

O naufrágio


Luís Naves,

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Conheço jornalistas desempregados que davam para fazer duas redacções de alta qualidade. Há comentadores na blogosfera que, de borla, escrevem textos sem as banalidades que infestam as páginas dos jornais pagos. Cresce o divórcio entre os órgãos de comunicação e o público. Como refere Pedro Correia, neste texto, não há estabilidade na vida dos directores, sem tempo para influenciar as publicações que dirigem. Podemos prosseguir o raciocínio: não há estabilidade na vida dos jornalistas que restam na profissão. Eles temem pela perda dos seus empregos, trabalham horas a fio em burocracias mal geridas, mal pagos e sem incentivos, sem perspectivas de futuro, ultrapassados por vedetas bem relacionadas.

Portugal é um país onde a hipocrisia compensa. De repente, deixámos de ouvir falar dos horrores do desemprego e da emigração forçada, as histórias recorrentes no jornalismo do ano passado. A crise desapareceu. A profunda indignação das corporações disto e daquilo também desapareceu. Os jornais discutem minuciosamente temas fracturantes que interessam a meia dúzia, desviam as notícias embaraçosas para as páginas pares, insistem nas opiniões inócuas dos comentadores que falharam todas as suas previsões nos últimos cinco anos e que continuam a debitar de cátedra.

A comunicação social é um negócio da credibilidade. O divórcio entre público e órgãos de comunicação tem causas económicas profundas, por exemplo, a perda de receitas de publicidade e de leitores para a internet. No entanto, sem a erosão da credibilidade, o sector não estaria em situação tão calamitosa. Gastaram-se fortunas em modernizações tecnológicas, havia boas relações com o poder político, formaram-se grupos inafundáveis. Agora, estão quase todos falidos e perdem leitores, numa hemorragia sem fim. A comunicação social é um assunto tabu que nunca é debatido pela própria comunicação social. Em Portugal, fala-se de tudo, menos disto; e quando se fala, é com paninhos quentes. As publicações de referência correm sérios riscos de extinção e não se percebe quem as vai substituir. Os jornalistas, desempregados ou proletarizados, perderam a influência que tinham e o público desconfia do que lê ou lhe é transmitido. E, no entanto, este não é um sector como os outros. Não falamos do desaparecimento das mercearias de bairro, mas da morte de outro património, esse mais vital: a nossa visão do mundo, parte da nossa identidade e alma.

O blogue da semana


Luís Naves,

Pedro Rolo Duarte junta neste seu blogue textos ao sabor da pena e as crónicas que vai escrevendo em várias publicações. A crónica é um género em vias de extinção, difícil de concretizar, onde se vê com nitidez quem tem unhas para tocar guitarra. No que me diz respeito, invejo a qualidade desta escrita, a escolha dos temas, a maneira sóbria como Rolo Duarte discorre sobre a sua vida, os amigos, as embirrações e preferências. Também se abordam assuntos da sociedade, da crise de valores ao declínio da comunicação social. Por isso, esta é uma das minhas leituras regulares. Neste blogue, o autor é um flâneur com classe, daqueles que já não se fabricam, está a evoluir muito bem, cada vez mais observador e sábio.

A Turquia e a Europa


Luís Naves,

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Há crescente tendência para resumir os conflitos a histórias de bem contra mal. Isso tem sido nítido na crise dos refugiados, onde alguns protagonistas são associados ao mal e outros ao bem, sem nuances e sem que o analista faça um esforço para compreender a posição que critica ou elogia. Após um conselho europeu dramático, na semana passada, a simplificação maniqueísta começou a ser aplicada à Turquia, país descrito como autocracia feroz ou, segundo autores mais à direita, como regime islâmico intolerante. As duas caracterizações têm fundo de verdade e justificam a tese, generalizada na imprensa europeia, de que a UE deve evitar fazer um acordo com a Turquia sobre os refugiados.

Por ironia, a deriva autocrática de Ancara deve-se em parte à própria União Europeia, que abandonou a anterior política de incentivar a adesão da Turquia, algo que só podia ter um resultado: isolado, o regime endureceu. A negociação de um processo de adesão indica a direcção da normalidade democrática e as dificuldades desse processo são, neste caso, exageradas pelos analistas: nas notícias sobre a repressão de jornalistas, por exemplo, nunca se refere que o jornal Zaman pertencia a uma facção islamita mais ortodoxa do que a do presidente Recep Erdogan. O líder turco começou por ser um moderado no seu partido e venceu três eleições legislativas com ajuda dessa publicação, antes de romper, em 2013, com o dono do Zaman, Fethullah Gullen. O silenciamento do jornal é um caso condenável de ataque à liberdade de imprensa, mas surge no âmbito de um conflito mais complexo pela hegemonia do movimento conservador islâmico, numa altura em que Erdogan perde muita da popularidade que o elevou ao poder.

Sem o horizonte de eventual adesão à UE, a Turquia terá poucas hipóteses de permitir uma imprensa livre, de facilitar a reunificação de Chipre, de admitir o genocídio arménio, de reduzir o poder dos militares, de construir uma democracia normal, com a economia livre da tutela política. Alguns querem que a Turquia faça tudo isso em dois dias, para resolver um problema europeu que parece não ter solução sem os turcos*. Tendo três milhões de refugiados sírios no seu território e evidente vulnerabilidade ao terrorismo**, os turcos podem pôr esta multidão em movimento, rumo à Europa. O que os impede? Apenas a possibilidade de um acordo que garanta passagem dos refugiados com direito a asilo, a extinção do tráfico ilegal, ajuda para os sírios que ficarem nos campos da fronteira turco-síria, controlo da imigração económica. E tudo isto só é possível se houver aceleração do processo de adesão, o que terá óbvio benefício para todos os lados.

*A crise dos refugiados está a fazer importantes estragos políticos na Alemanha: CDU e SPD sofreram um forte espancamento nas eleições em três estados.

**A questão da segurança parece determinante: Ancara sofreu o segundo atentado em duas semanas.

O movimento anti-elitista


Luís Naves,

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Um comício de Donald Trump em Chicago foi ontem boicotado por centenas de manifestantes e os meios de comunicação comentavam que a culpa era da retórica agressiva do candidato anti-sistema*. Trump lidera as sondagens no Illinois, cuja votação pode resolver as primárias republicanas. Amanhã, há eleições regionais em três estados alemães e as sondagens indicam que está a ocorrer uma significativa alteração das intenções de voto, com a subida de um partido anti-sistema (AfD) que deve ultrapassar 20% num desses estados, embora seja acompanhado pelas palavras “xenófobo” e “antidemocrático” em todas as raras notícias a que tem direito.

Trump e o AfD possuem algo em comum: são reacções populistas a um sistema partidário e mediático que perdeu a confiança de largas franjas da população. A Grande Crise (há quem lhe chame a Grande Recessão) prejudicou milhões de pessoas, que perderam casas, empregos, poupanças, com tudo o que isto implicou na vida familiar das vítimas, na sua prosperidade ou na respectiva saúde. Muitos eleitores estão furiosos com os políticos, com os partidos tradicionais e com a hipocrisia dos meios de comunicação. Há  indícios que mostram a profundidade das emoções: num dos estados onde venceu, Trump surgia numa sondagem como o candidato com posições mais distintas das opiniões dos eleitores republicanos desse estado; a maioria dos votantes dizia que pensava como Marco Rubio, mas essa maioria preferiu votar no candidato que lhe pareceu exterior ao sistema. Uma esquizofrenia semelhante parece ocorrer em regiões da Alemanha (as do leste, com maior descontentamento), onde o AfD está a tirar votos aos partidos de esquerda.

Os novos populistas são acima de tudo anti-elitistas. Eles dizem que as nossas elites políticas são incapazes, as elites intelectuais mentem e as elites financeiras roubam. Há elementos de verdade no que afirmam, mas também a criação de um clima de medo, de exclusão do que vem de fora, de repúdio da globalização e do aparente fracasso do modelo económico vigente, a rejeição das migrações e dos refugiados, do comércio livre e da integração continental. As tácticas de interrupção de comícios ou hostilização mediática resultam, nestes casos, na aparente confirmação de um dos seus argumentos centrais: o campo da democracia está inclinado a favor do sistema. Este é o ponto talvez mais preocupante. As pessoas parecem acreditar cada vez mais em teorias da conspiração e, paradoxalmente, esta crença torna mais fácil a sua manipulação, não pelos meios de comunicação tradicionais, que elas recusam, mas pelos novos meios digitais, onde o fácil acesso e a diversidade convivem com a histeria e a desordem.

 

* Em Portugal, houve o fenómeno das grandoladas, que se mantêm úteis em lançamentos de livros de direita. As palavras “austeridade” e “crise”, que apareciam em todas as notícias, deixaram de ser pronunciadas. Os desempregados desapareceram e já não são tópico de conversa.

O populista contra o sistema


Luís Naves,

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A insurreição populista de esquerda, protagonizada na América por Bernie Sanders, deverá acabar já nos próximos dias, com a provável derrota na Carolina de Sul, onde o candidato socialista não consegue seduzir o eleitorado negro, e logo a seguir na super-terça-feira da próxima semana, quando votarem os estados de maior dimensão, sobretudo do sul dos EUA, onde terá vantagem a máquina política de Hillary Clinton. Se no campo democrata as sondagens permitem prever a vitória de uma facção tradicional, a agenda populista parece ter conquistado o Partido Republicano: há três candidatos ainda com hipóteses, mas um deles já se destaca, o milionário Donald Trump. Veremos na próxima semana com maior clareza, mas tudo indica que só um erro crasso o separa da nomeação pelo seu partido.

Assim, a eleição de Novembro será entre um populista radical e uma das figuras mais destacadas do establishment político americano, do sistema, o que promete criar um debate entre demagogia e conteúdo, entre seriedade e delírio, entre oligarquia e interesse nacional. Será uma campanha complicada, recheada de discussões absurdas em torno de pequenos assuntos domésticos transformados em escândalos de proporções bíblicas. As derivas imprevisíveis de Trump podem até criar, nas semanas finais, um cenário de implosão da sua candidatura.

Do ponto de vista europeu, será a votação de todos os perigos. A vitória de Hillary Clinton significa uma América forte, capaz de intervir no exterior e de defender os seus aliados. A vitória de Donald Trump seria um salto no escuro, representaria uma América isolacionista, quezilenta e em plena decadência, perfeitamente capaz de lançar acções desastrosas. Teríamos uma América liderada por um lunático, tomada pelo dinheiro, paralisada pela falta de visão, a pensar exclusivamente a curto prazo, enfim, sem inclinação para liderar o mundo.

Equívocos sobre o Brexit


Luís Naves,

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O referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia promete ser um evento dramático e perigoso. Da luta pela liderança no Partido Conservador pode resultar uma crise política interna. Por isso, vamos ouvir argumentos tontos, emotivos, parciais e demagógicos, mas o grande risco é que a campanha se transforme numa simplificação exagerada da complexa relação entre o Reino Unido e a União Europeia, levando o eleitorado britânico, geralmente lúcido, a dar um improvável tiro no pé.

O Brexit é uma perspectiva de pesadelo que introduz incertezas económicas para o Reino Unido e que teria um impacto devastador na economia europeia. Fora da UE, o Reino Unido teria menos comércio externo, uma moeda mais fraca, uma praça financeira mais irrelevante, e seria uma potência mundial de segunda classe. Os defensores da saída usam argumentos vagos e dizem que o Reino Unido pode permanecer no mercado único (ninguém será tão louco para dizer que isso não interessa), mas a ideia não passa de uma ilusão, pois Londres teria de aceitar a legislação comunitária sem participar na sua definição, situação bem pior do que a existente. A alternativa, não aceitar a legislação da UE, equivale a dizer que se está fora do mercado único.

Em caso de Brexit, a Escócia aproveitava para sair do Reino Unido e Londres teria de negociar uma rede de novos tratados comerciais com dezenas de países, dos quais beneficia por pertencer à UE. As complicações legais seriam assombrosas, por exemplo, para os dois milhões de britânicos que vivem em países da União Europeia e cujos interesses não podiam ser negociados caso a caso. Concluindo um tratado de saída, o Reino Unido poderia dispensar políticas comuns, por exemplo, na agricultura ou pescas, evitando legislação de segurança, ou social, ambiental, de energia, mas a negociação tem tudo para correr mal, pois esse eventual tratado exigiria a unanimidade dos 27 países que se mantinham na UE. O exemplo da Islândia, Noruega ou Suíça deveria fazer pensar os defensores da saída: estes países têm de aceitar legislação comunitária que não negoceiam, mas o seu estatuto só existe por serem pequenos, além de que manter a relação actual será cada vez mais difícil, devido ao tempo que demora a transposição das directivas e à irritação que isto causa em Bruxelas.

A luta pela flexibilidade


Luís Naves,

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A União Europeia mudou ontem de forma fundamental. Na prática, o Reino Unido garantiu o direito de não avançar com certas políticas comunitárias sem negociar contrapartidas. O primeiro-ministro David Cameron referiu-se a um “estatuto especial” para o seu país, mas já existia no jargão europeu um termo para designar o que acabou por ser adoptado: Europa à la carte.

É cedo para avaliar todos os efeitos, mas é natural que a UE se transforme gradualmente numa organização mais complexa, a várias velocidades, contendo Estados que avançam depressa na integração e outros países que preferem maiores cautelas, escolhendo as políticas mais convenientes. Com a passagem do tempo, as periferias vão afastar-se do centro, também porque o centro tem agora a liberdade de avançar mais depressa.

Para já, a Europa evitou um processo traumático de fragmentação, mas o federalismo não se aplicará a todos, o que permite lento reaparecimento das antigas rivalidades nacionais. Cameron vai agora lutar pelo “sim” no referendo sobre a manutenção do Reino Unido na UE. Será uma luta difícil, pode ainda ocorrer o Brexit (a saída do Reino Unido), mas isso é menos provável. No fundo, não existe agora nenhuma razão objectiva para os britânicos votarem a favor da saída, pois Cameron obteve cedências improváveis, desmentindo os que sempre o subestimaram, desmentindo também aqueles que afirmam não haver líderes europeus à altura dos problemas.

A União Europeia está ainda mergulhada numa situação pantanosa, com várias frentes de crise, sobretudo a financeira e das migrações, que ameaçam estilhaçar a organização. Não dispondo de uma política comum de asilo, fronteiras e de imigração, a Europa precisa de responder a uma crise humanitária sem precedentes, não podendo abandonar à sua sorte milhões de pessoas que fogem da guerra da Síria, mas também não podendo deixar que os traficantes controlem o processo. Sem condições para acolher de uma vez quatro milhões de refugiados, os europeus precisam de encontrar um meio-termo que lhes permita reduzir a crise humanitária sem dar demasiados argumentos aos partidos populistas que estão a fazer do assunto uma bandeira.

O telegrama judeu


Luís Naves,

Num artigo do New York Times sobre as tensões internas da UE, nomeadamente entre países de leste e ocidentais, era citada a história do telegrama judeu, anedota divertida, que se resume a isto: “Começa a preocupar-te, pormenores seguem mais tarde”.

Não reencontrei o artigo (pouco importa, não era interessante), mas julgo que a ideia da frase se aplica de forma perfeita à actualidade. Sentimos que se prepara alguma coisa má, mas não sabemos exactamente o quê. Os mercados andam nervosos e os economistas explicam esse nervosismo como algo um pouco no ar, que tem a ver com preços de petróleo, instabilidade dos bancos, lucros em queda, abrandamento na China, dívidas monstruosas, pequenos pânicos bolsistas.

Começa a preocupar-te, os detalhes seguem depois, aplica-se muito bem à situação geral, sobretudo nos países avançados, onde alastra um descontentamento difuso. Os eleitores estão furiosos com os efeitos de uma crise interminável, mas sobretudo com a impotência das elites e a arrogância dos intelectuais, a língua de pau dos burocratas e a indiferença dos poderosos. As classes altas instalaram-se numa torre de marfim e o homem da rua perdeu a sensação de mobilidade social. Aprofundam-se as desigualdades, mas o poder nunca defendeu tanto a igualdade a todo o custo.

Esta ansiedade junta-se à opinião, cada vez mais espalhada, de que os pequenos não contam (proprietários, lojistas, empresas, países) e que só a dimensão garante influência. Os mais líricos dizem que não há partidos à sua imagem, como se houvesse um partido para cada um de nós ou alguém impedisse a formação de novos partidos. Estas tiradas demagógicas apenas abrem o caminho ao corolário de não valer a pena participar, que cada voto não conta, que o homem simples não risca nada. É isso que anuncia o telegrama judeu: a história mal contada conduz a medos imprecisos e, mais tarde, ao receio cínico de fazer alguma coisa contra os pormenores que não tardam.

Paradoxo americano


Luís Naves,

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A rebelião populista que alastra um pouco por todas as democracias avançadas contém um paradoxo: os eleitores estão descontentes com a impotência dos políticos, mas recusam qualquer proposta que lhes pareça demasiado ligada à capacidade de intervir.

Os políticos contemporâneos são incapazes de resolver os problemas causados pela crise financeira, de aumento das desigualdades, estratificação da sociedade, crescente rigidez na disposição das classes sociais. Eles parecem alheados dos problemas quotidianos dos eleitores, da fragilidade no emprego, endividamento e aparente empobrecimento, tensão na ordem urbana, percepção do crime, sensação geral de instabilidade.

De forma contraditória, os eleitorados são sensíveis à aparência de força e rejeitam todas as propostas associadas à capacidade de decisão. Veja-se a insurreição eleitoral nos EUA, onde Hillary Clinton é acusada de ser a personificação do poder, havendo forte desconfiança em relação à sua óbvia capacidade de agir. As sondagens indicam que na super terça-feira, 1 de Março, a candidata vai ter um bom resultado em vários estados de certa dimensão, mas Hillary não se livra de um susto, pois o argumento do anti-sistema convenceu numerosos eleitores, sobretudo independentes e brancos. Agora, com a votação étnica e de democratas pobres, Hillary deverá vencer folgadamente em estados  do sul, como Geórgia, Texas, Virgínia, correndo depois para uma nomeação mais folgada.

Do outro lado estará com toda a probabilidade um candidato populista, talvez Donald Trump, milionário com fama de neurótico. A eleição do nomeado republicano está difícil e a direita americana parece ter mergulhado no mesmo paradoxo: queremos alguém exterior ao sistema, que diga coisas simples e tenha pouca força, mas que ao mesmo tempo seja capaz de resolver todos os problemas.

É uma escolha estranha, mas devemos habituar-nos: a política americana antecipa a nossa.

A rebelião


Luís Naves,

Os comentadores descobriram de repente que há uma insurreição populista na Europa e na América, mas uma coisa é medir a febre, outra coisa é tentar perceber a que se devem os sintomas. Hoje, na rádio pública, alguém comparava a crise dos refugiados com a Alemanha nazi, mas estas tolices, que desvalorizam os males do passado e iludem de forma hipócrita o esforço de alguns países, tornaram-se banais no comentário.

Por toda a parte vemos isto: os eleitores recusam a política tradicional, os arranjinhos do costume, as decisões dos burocratas, os pequenos comités instalados. O populismo é apenas o aproveitamento do descontentamento geral, no fundo trata-se de aproximar o discurso das necessidades das pessoas e dos seus problemas. A comunicação social abdicou desta função e vai perdendo a confiança da opinião pública. Claro que devemos perguntar o que provocará a rebelião anti-elitista na Europa ou na América, mas devemos também perguntar de onde vem o descontentamento que alimenta os partidos ou candidatos da contestação ao sistema.

A resposta é complexa, mas o descontentamento é natural para quem encontra trabalho mais mal pago do que aquele que existia antes; é natural para quem viu os grandes génios da gestão a estoirarem bancos e empresas sólidas, ao mesmo tempo que ganhavam milhões em bónus por efectuarem despedimentos em massa; é natural para quem empobreceu e não se adaptou às novas tecnologias; para quem perdeu empregos que foram para a China; para quem perdeu a casa e para quem vive hoje em bairros degradados, marcados pelos choques culturais da imigração que ameaça a identidade. O descontentamento é natural quando o eleitorado percebe que os políticos têm cada vez menos espaço para agir. Muitos europeus e americanos sentem uma ansiedade profunda em relação ao seu futuro económico, por causa do aumento das desigualdades, mas não apenas por isso, por ouvirem da parte dos políticos as mesmas banalidades de sempre, por ouvirem dos intelectuais as análises do costume, que culpam os eleitores por escolhas “erradas”, sem respeito pela vontade do povo.

Os europeus desta lenda são agora xenófobos sem coração, que desconfiam dos migrantes e recusam aceitar muçulmanos nas suas ruas, ou são reaccionários que criticam os óbvios benefícios do progresso ou da bondade daquilo que é decidido pelas burocracias supranacionais que ninguém elegeu. Segundo a lenda dominante, os europeus são perigosos nacionalistas agarrados aos fantasmas de impérios perdidos, recusam-se a assumir as culpas evidentes do homem branco e sobretudo votam mal, votam estupidamente, abandonam os partidos tradicionais e cedem ao canto da sereia do simplismo. O sistema parece ter entrado numa crise que não é exactamente uma ameaça à democracia, essa crise só existe por vivermos em democracia.

Primárias americanas


Luís Naves,

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Começa amanhã no irrelevante estado do Iowa o ciclo frenético das primárias americanas, cujo momento decisivo (pelo menos no caso dos democratas) deverá ocorrer no início de Março, na chamada super-terça-feira. No Verão, haverá convenções partidárias e a votação presidencial realiza-se em Novembro.

As sondagens indicam que, do lado republicano, o milionário Donald Trump tem vantagem, só não se sabe quais serão os rivais capazes de aguentar até Abril ou de dar luta até à convenção (talvez Marco Rubio ou Ted Cruz). Do lado democrata, apesar da subida do esquerdista Bernie Sanders, a eleição parece ao alcance de Hillary Clinton. Mesmo que sofra contratempos no Iowa ou em New Hampshire, Hillary tem vantagem nos estados do Sul que votam na super-terça-feira e já garantiu a maioria dos delegados institucionais do partido.

As eleições americanas baseiam-se num mecanismo arcaico do século XIX que convive mal com a sociedade mediatizada do século XXI. Este paradoxo favorece um sistema oligárquico, dependente de quantidades impressionantes de dinheiro, e produz campanhas que afunilam os temas, discutidos com extrema demagogia. A política americana está a tornar-se mais populista e virada para dentro, incapaz de ter um olhar sobre o mundo. Os candidatos precisam de ter cuidado com temas tóxicos (imigração, armas, aborto) e nunca perdem tempo com assuntos complexos, que não interessem à televisão.

A América é um império relutante, que ao longo da sua História manteve políticas de isolamento, sobretudo após intervenções externas. Na pré-campanha, Trump já radicalizou o partido republicano, que parece aderir a um isolacionismo patológico. Do lado democrata, a favorita Hillary Clinton foi chefe da diplomacia americana, mas aí está também a sua vulnerabilidade. Com a política externa submetida a discussões de política interna, a América tenderá a desinteressar-se pelos conflitos mundiais, o que implicará eventual abandono de aliados, acções a meio-gás, paralisação institucional, hesitação ou até incapacidade de agir.

A criança problemática


Luís Naves,

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Os defensores da frente de esquerda subestimam as dificuldades da sua estratégia populista. O Governo parece cercado por duas opções incompatíveis: continua a consolidação orçamental ou perde a confiança dos mercados. Dito de outra forma: o País cai em crise política ou as taxas de juro sobem. A questão não está apenas nas exigências de Bruxelas, que teme os efeitos da súbita perda de credibilidade portuguesa, mas na percepção dos investidores e na ilusão de que será possível convencer os credores de que esta é uma luta entre bem e mal.

O Governo ignora os sinais da realidade. O problema das migrações transformou-se na crise mais séria da última década na Europa. Um grupo de países de Leste (com os mesmos votos que a França) uniu-se em rebelião contra os poderes da Alemanha, e talvez mais do que isso. A banca italiana pode necessitar de um resgate gigantesco. A UE entrou numa difícil negociação sobre reformas internas, visando manter o Reino Unido nas instituições; sem mudanças profundas, algumas difíceis de concretizar, os ingleses poderão abandonar a organização.

Estas negociações decorrem num ambiente inquinado pela ascensão dos populistas de direita. A Frente Nacional, em França, ultrapassou um patamar eleitoral que ameaça o regime da Quinta República; outro partido, Alternativa para a Alemanha, conquistou parte do eleitorado da CDU da chanceler Angela Merkel; o governo minoritário dinamarquês (liberal) terá de aplicar uma lei injusta que confisca os refugiados, demonstrando que os populistas de direita (Partido do Povo, DF), fora do governo, mexem todos os cordelinhos; o fenómeno do crescimento de formações que contestam o sistema tradicional estende-se ainda à Suécia, Finlândia e Holanda. Todos estes países receberam multidões de refugiados, pelo que parece pura hipocrisia o tom das críticas em Portugal. E como se resolve isto? Suspende-se a democracia? Entretanto, a zona euro não estabiliza e a Espanha entrou numa crise política que talvez só tenha solução em Maio.

Nem é preciso alargar o palco para se perceber que 2016 será um ano de instabilidade. Ao contrário do que escrevi, o populista Donald Trump tem mesmo hipóteses de ser nomeado candidato republicano às eleições presidenciais americanas de Novembro de 2016. Esse pesadelo não é impossível, nem sequer improvável. Para piorar os cenários, o petróleo barato pode não durar muito tempo, sobretudo se tiverem êxito as tentativas russas de negociar cortes na produção; a alternativa é o inevitável estoiro de economias emergentes, o que pode provocar uma nova vaga na crise financeira mundial.

Talvez António Costa acredite ser possível passar entre as gotas desta chuva torrencial, mas parece insensato apostar em travessia tão arriscada. Convinha ter prudência, pois com tantos problemas entre mãos, os nossos credores tentarão matar à nascença qualquer veleidade de insubordinação da “criança problemática”.

Expulsões


Luís Naves,

Na crise migratória europeia não há apenas refugiados. Alguns comentadores resistiram ao uso da palavra ‘migrantes’, dizendo que tinha carga ideológica. São refugiados, dizia-se, por isso deve ser usada apenas essa palavra. Ontem, a Suécia decidiu expulsar 60 mil a 80 mil migrantes, tendo rejeitado quase metade dos pedidos de asilo recebidos em 2015, e algumas notícias mostram que entre nós o fenómeno não é compreendido, escrevendo-se por exemplo que estão a ser expulsos refugiados, algo que seria crime. A Suécia não deixou de cumprir as leis internacionais e expulsa pessoas que não têm direito a asilo, com origem em países que não estão em guerra.

A opinião pública portuguesa foi submetida a uma versão da crise migratória que torna difícil assimilar alguns dos problemas criados. A proporção de refugiados é metade do total de pessoas que entraram nas fronteiras europeias e a expatriação dos migrantes que não têm direito a asilo terá custos adicionais. A crise migratória coloca questões de segurança e ameaça alterar a própria identidade europeia, tendo criado graves divisões, com um grupo de países de leste a recusar a ideia de uma política comum de imigração e asilo. Neste momento, está em perigo o próprio espaço de livre circulação de Schengen, que permite uma das liberdades essenciais na União Europeia, mas a animosidade entre governos pode já ter ultrapassado o ponto de não retorno. O número elevado de migrantes e refugiados provocou reacções de descontentamento em países como Alemanha, Dinamarca ou Suécia, o que beneficia partidos populistas que exigem limites. Entretanto, apesar do Inverno, os números continuam a crescer.

Em 2015, a Europa recebeu mais de 1 milhão de pessoas, que têm de ser alojadas, alimentadas e integradas na sociedade. Este é o problema político mais grave que a Europa enfrentou nos últimos dez anos, mas em Portugal pairam as teses politicamente correctas, sobretudo a ideia simplista de que a Europa está a falhar por falta de generosidade, quando ocorre o caso inverso, ela parece incapaz de enfrentar esta quantidade de refugiados, para mais havendo a perspectiva de multidões que se podem pôr em movimento (2 a 3 milhões de refugiados sírios na Turquia) e a dificuldade em integrar altas percentagens de gente com uma cultura distinta. É evidente que a Suécia não pode receber em cada ano 150 mil pessoas (1,5% da sua população) e a rejeição dos migrantes económicos era uma mera questão de tempo.

A quarta vaga


Luís Naves,

As pessoas informadas costumam deitar um olhar mais lúcido sobre o presente e este ano os peritos reunidos em Davos estão mais pessimistas do que é costume. A economia vai correr mal, diz a maioria, embora sem consenso nos motivos, o que nos leva a admitir que talvez no final haja um conjunto de factores a confirmar a profecia. Alguns destes peritos estão a dizer que o mundo atravessa já uma quarta globalização, envolvendo novas tecnologias de informação que estão ainda a nascer nos laboratórios.

Isto está além da minha compreensão, mas penso que é possível concluir o seguinte: a civilização digital e a robotização avançam em grande ritmo, a humanidade tem hoje tecnologia que lhe permite modificar a própria espécie humana, milhões de empregos vão ser substituídos por algoritmos e robôs. Além disso, a vantagem dos países ricos em relação aos pobres atingiu um grau que não se via desde meados do século XIX, quando os grandes impérios europeus começaram a dominar todo o planeta, levando as suas instituições e a sua medicina a povos que consideravam primitivos.

Como explicar então a ansiedade dos peritos em relação ao futuro imediato? Provavelmente, os novos avanços estão a criar rupturas económicas em larga escala e o fosso entre países causa uma vaga migratória sem precedentes. O mundo entrou em fluxo, em movimento rápido, e muito do que vemos na política contemporânea corresponde ao aparecimento de bolhas de resistência, de conchas duras onde se resguardam grupos de perdedores, de interesses instalados, línguas em perigo, culturas minoritárias, sociedades inteiras, facções religiosas. Há mundos em extinção que resistem e as bolsas de desobediência são apenas um estorvo temporário, que os grandes poderes financeiros da globalização gostariam de afastar do seu caminho.

O mundo novo


Luís Naves,

As notícias deviam preocupar a classe política, mas julgo que a retórica vazia vai continuar mais ou menos na mesma. A economia mundial está em situação péssima e acumulam-se sinais de que a crise não acabou. Segundo a Oxfam, um grupo de apenas 62 pessoas tem rendimento semelhante a metade da riqueza mundial (em 2010, o número era de 338). Uma tal acumulação, acompanhada do empobrecimento efectivo de parte da população mundial, terá necessariamente consequências políticas, por exemplo, tornam-se mais aliciantes todas as críticas ao processo de globalização. O facto é que os economistas já não conseguem explicar muito bem as razões da estagnação geral, como não conseguem explicar o nervosismo dos mercados, o petróleo barato, a falta de crédito, os problemas do sistema financeiro, as dificuldades da China e a irritação da classe média.

Em ambientes voláteis e de pânico, quem se põe a jeito torna-se alvo fácil e Portugal pode já estar a pagar a factura pelos sinais que enviou para o exterior de querer acabar com a estratégia de credibilidade e prudência que nos foi imposta durante o ajustamento. Vem aí uma nova vaga de colapsos financeiros e, com a crise migratória, a Europa entrou numa divisão interna, entre leste e ocidente, que pode ser pior do que o anterior conflito das dívidas soberanas (que, aliás, não está resolvido). O contexto em que Portugal se move ainda piora se tivermos em conta que a Espanha parece ingovernável. A nossa dependência é demasiado grande para nos tranquilizarem as cenas de delírio dos vizinhos. Em El-Rei Junot, um livro brutal sobre o falhanço das nossa elites, Raul Brandão escrevia que “a realidade é a força imensa que engendra o mundo novo”. Esta não era uma referência ao mundo novo das utopias lunares ou dos tempos imaginários de candidatos presidenciais cheios de palavreado obeso, era o mundo novo concreto em que teremos de viver e que pede juízo a quem decide.

No centenário de Vergílio Ferreira


Luís Naves,

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No parágrafo final do romance Para Sempre, de Vergílio Ferreira, consta a seguinte extraordinária frase: “Pensa com a grandeza que pode haver na humildade”. Se houvesse uma definição do escritor, eu escolhia esta.

Vergílio Ferreira era um extraordinário autor de frases, mas sobretudo um escritor de águas profundas, cujos romances vão perdurar. Quando os historiadores de arte da próxima geração olharem para a literatura do século XX, é provável que descubram nele uma das figuras máximas deste período. Muito influenciado pelo existencialismo, o autor desenvolveu uma voz única, pela perfeição da prosa, coerência de pensamento, inovação estética e, no entanto, a sua influência parece diluir-se numa espécie de injusta amnésia temporária, pelo menos na generalidade dos meios de comunicação. Vergílio Ferreira continua a ser vítima do preconceito, daquilo que alguns dizem ter sido o mau-feitio, vítima certamente de o terem considerado conservador e da forma corajosa como criticou os excessos revolucionários, não embarcando nas capelinhas literárias do seu tempo e sempre crítico das facilidades do neo-realismo, que abandonou nos anos 40.

Como romancista, Vergílio Ferreira foi certamente inovador e original. É, apesar disso, lembrado por um texto mais tradicional, Manhã Submersa (1953). O próprio espantava-se com o êxito desse livro, que foi adaptado ao cinema. Trata-se de um encantador pequeno romance ou novela, com detalhes autobiográficos e história bem desenhada; também é um livro diferente da restante obra, que inclui ensaio filosófico, conto, romance e diário. Nesse conjunto inesgotável, não faltam trabalhos literariamente sólidos, que progressivamente se instalarão na memória, por exemplo, Aparição (1959), Alegria Breve (1965) ou Em Nome da Terra (1990), para citar três dos melhores; Mudança (1949) será talvez considerado no futuro como um importante livro de ruptura, com aspectos revolucionários na época em que foi escrito, mesmo a nível europeu.

Para Sempre (1983) será a sua obra-prima, é essa a minha opinião. Gosto também imenso de Estrela Polar (1962) e de Rápida, a Sombra (1974), dois livros que costumam ser menos referidos, mas que têm estrutura notável, usando (diria de maneira expressionista) o cenário exterior naquilo a que o autor chamava ‘o tom’ do romance. Estes dois livros falham parcialmente devido à definição menos conseguida das personagens dos narradores, ou seriam igualmente obras-primas.

Até ao Fim (1987) é outro livro que parece muito à frente do seu tempo e o mesmo se pode dizer de Pensar (1992), colecção de pequenos textos que podiam constar de um blogue inimitável, se na época já existissem blogues. O diário literário Conta-Corrente tem páginas imortais e é um fabuloso documento, mas vale sobretudo pela densidade de pensamento, a grandeza da visão poética e ali não faltam (ao contrário da lenda) momentos de humor e fina ironia, de mistura com observações do quotidiano, crónica e reflexões sobre escrita. Ao longo das suas páginas, a personagem do autor permanece um enigma.

Vergílio Ferreira estava obcecado com a percepção pública dos seus textos e tinha embirrações estéticas, por exemplo ele considerava que o enredo era um defeito e queria escrever romances de ideias, o que não é frequente na tradição da literatura portuguesa, tirando casos como Raul Brandão e, nas correntes contemporâneas, Gonçalo M. Tavares. O romance de ideias tem execução difícil e exige uma enorme bagagem cultural, pois no esqueleto da obra não está necessariamente uma história, mas uma inquietação filosófica. Vergílio Ferreira tinha essa cultura invulgar, mas que nunca exibia com pedantismo. Isso permitiu-lhe escrever com clareza de estilo, o que talvez explique a inegável influência sobre os actuais prosadores nacionais.

No próximo dia 28 comemoram-se cem anos do nascimento de Vergílio Ferreira, que faleceu em Março de 1996. Tive a sorte de poder contribuir para uma recolha de frases da sua autoria, num livro que deverá sair por estes dias editado pela Quetzal e que, espero, possa ser um pequeno contributo para que os leitores não esqueçam este enorme escritor português.