A União Europeia mudou ontem de forma fundamental. Na prática, o Reino Unido garantiu o direito de não avançar com certas políticas comunitárias sem negociar contrapartidas. O primeiro-ministro David Cameron referiu-se a um “estatuto especial” para o seu país, mas já existia no jargão europeu um termo para designar o que acabou por ser adoptado: Europa à la carte.
É cedo para avaliar todos os efeitos, mas é natural que a UE se transforme gradualmente numa organização mais complexa, a várias velocidades, contendo Estados que avançam depressa na integração e outros países que preferem maiores cautelas, escolhendo as políticas mais convenientes. Com a passagem do tempo, as periferias vão afastar-se do centro, também porque o centro tem agora a liberdade de avançar mais depressa.
Para já, a Europa evitou um processo traumático de fragmentação, mas o federalismo não se aplicará a todos, o que permite lento reaparecimento das antigas rivalidades nacionais. Cameron vai agora lutar pelo “sim” no referendo sobre a manutenção do Reino Unido na UE. Será uma luta difícil, pode ainda ocorrer o Brexit (a saída do Reino Unido), mas isso é menos provável. No fundo, não existe agora nenhuma razão objectiva para os britânicos votarem a favor da saída, pois Cameron obteve cedências improváveis, desmentindo os que sempre o subestimaram, desmentindo também aqueles que afirmam não haver líderes europeus à altura dos problemas.
A União Europeia está ainda mergulhada numa situação pantanosa, com várias frentes de crise, sobretudo a financeira e das migrações, que ameaçam estilhaçar a organização. Não dispondo de uma política comum de asilo, fronteiras e de imigração, a Europa precisa de responder a uma crise humanitária sem precedentes, não podendo abandonar à sua sorte milhões de pessoas que fogem da guerra da Síria, mas também não podendo deixar que os traficantes controlem o processo. Sem condições para acolher de uma vez quatro milhões de refugiados, os europeus precisam de encontrar um meio-termo que lhes permita reduzir a crise humanitária sem dar demasiados argumentos aos partidos populistas que estão a fazer do assunto uma bandeira.


A Inglaterra que nunca esteve de alma e coração com a Europa, agora pôs-lhe a pata em cima.
Só entendo a demora de ir controlar a imigração na origem, por uma impossibilidade de chegar acordo, com tantos anti imigração.
A sra Merkl é prisioneira dos parceiros imbecis, alguns dos quais deviam, ser mais solidários com ela proṕria, que muito os ajudou
Outra forma de ver o sucedido é:
O Primeiro Ministro do Reino Unido, personagem realmente eleito por maioria do eleitorado, simplesmente disse à Alemanha e aos seus 27 muchachos, que … tirem a patinha de aqui de cima. Thank you.
Agora, continuou, vamos escrever que concordam com as 4 condições que apresentei, isso preto no branco e que tal acordo será arquivado nas Nações Unidas (!) (pois não confio no vosso bla bla bla).
Entretanto vou consultar, democraticamente em referendo, os cidadãos do meu País sobre o que pensam de este acordo.
Até lhes vou dizer que considero um bom acordo, mas a ultima palavra é do cidadão, é deles.
PS importante. O PM do Reino Unido dá liberdade aos seus Ministros para fazerem campanha pelo lado que melhor ajuizarem.
Chama-se democracia com Rei e tudo. (Rainha no caso em apreço). Qualquer semelhança …
Totalmente verdade. O Reino Unido, o “sr não da UE”, e como anterior potência naval que era, vive com pavor do continente desde sempre, e, alicerçados em alguma da ignorância que os ilhéus nutrem pelo continente, vantagens e desvantagens, cavalgaram nas ultimas 3 ou 4 décadas nesta ideia de que eles se salvaram a si próprios.
Se Tatcher ajudou a desarticular um imobilismo parasita que resistia e impedia a modernização de um país demasiado estatizado, a entrada para a CEE (anteriormente recusada pela França) deu o impulso necessário para sair daquela agonia pós FMI.
Depois, tanto o surgimento do Euro, que permite uma homogeneidade simpática para reforçar a então arcaica Libra, a abertura para leste da UE (mercado e mão de obra) e o ressurgir da Alemanha (que lhes mostrou como se fazem automóveis, comprou as marcas, e depois montou lá umas fabricas) também serviu para a fuga da anemia pós crise.
Se somarem tudo isso – coisa que quem sabe disto no Reino Unido já o fez (até o Economist pré Agnelli) – denotam que o Reino Unido será zero num eventual Brexit. Primeiro porque haverão outros países a ocupar o seu lugar na UE, a Europa irá certamente reforçar-se, e os EUA que sempre fizeram questão de dizer que o Reino Unido era o seu principal interlocutor com a Europa, irão ter de procurar outro – o namoro à Alemanha é conhecido, que nem o escândalo da NSA abalou.
O Reino Unido terá de ceder em toda a linha se quiser penetrar no mercado comum e terá, tal como uma Suíça ou Noruega, adaptar-se para se fazer valer em políticas dos Estados-membro que irão afectar directa ou indirectamente, políticas ex. comerciais, segurança, defesa, ambientais, etc. Os membros da UE mais pequenos irão aqui ter a sua oportunidade de ouro, tanto para exigirem o que sempre lhes foi recusado, como a poderem tirar proveito do vazio de contra-poder.
Numa altura que o bilateralismo perde força, o Reino Unido querer-se impor a si próprio uma posição awkward e enfraquecida parece-me um erro estratégico surreal. Contudo, parece-me que a chave para evitar isto está na Escócia. A ver vamos.
Exactamente, ilustre comentador T.
” … como anterior potência naval que era, vive com pavor do continente desde sempre, e …” vice-versa.
Sem dúvida estamos perante uma evolução. Assistimos interessados à passagem de testemunho entre uma potência naval, o Reino Unido, para a (pre)dominância de uma potência continental, a Alemanha Unida.
O problema, para o mexilhão, é destinguir entre “água da torneira e água benta”. Qual será a melhor para um sequioso espectador ?.
“Better the devil you know (than the devil you don’t) ?”. Que venha o diabo e escolha. Afinal quando o mar bate na rocha …
PS- A directiva Cavaco para acabar com as vinhas era por causa das castas Riesling ou Chardonnay ?. Abater traineiras era por causa do bacalhau ou do xixaro espanhol?. Lavar estradas com leite português lava mais branco ?. Um bom Kia é, ou não, melhor e mais barato que um Volkswagen?.