Há crescente tendência para resumir os conflitos a histórias de bem contra mal. Isso tem sido nítido na crise dos refugiados, onde alguns protagonistas são associados ao mal e outros ao bem, sem nuances e sem que o analista faça um esforço para compreender a posição que critica ou elogia. Após um conselho europeu dramático, na semana passada, a simplificação maniqueísta começou a ser aplicada à Turquia, país descrito como autocracia feroz ou, segundo autores mais à direita, como regime islâmico intolerante. As duas caracterizações têm fundo de verdade e justificam a tese, generalizada na imprensa europeia, de que a UE deve evitar fazer um acordo com a Turquia sobre os refugiados.
Por ironia, a deriva autocrática de Ancara deve-se em parte à própria União Europeia, que abandonou a anterior política de incentivar a adesão da Turquia, algo que só podia ter um resultado: isolado, o regime endureceu. A negociação de um processo de adesão indica a direcção da normalidade democrática e as dificuldades desse processo são, neste caso, exageradas pelos analistas: nas notícias sobre a repressão de jornalistas, por exemplo, nunca se refere que o jornal Zaman pertencia a uma facção islamita mais ortodoxa do que a do presidente Recep Erdogan. O líder turco começou por ser um moderado no seu partido e venceu três eleições legislativas com ajuda dessa publicação, antes de romper, em 2013, com o dono do Zaman, Fethullah Gullen. O silenciamento do jornal é um caso condenável de ataque à liberdade de imprensa, mas surge no âmbito de um conflito mais complexo pela hegemonia do movimento conservador islâmico, numa altura em que Erdogan perde muita da popularidade que o elevou ao poder.
Sem o horizonte de eventual adesão à UE, a Turquia terá poucas hipóteses de permitir uma imprensa livre, de facilitar a reunificação de Chipre, de admitir o genocídio arménio, de reduzir o poder dos militares, de construir uma democracia normal, com a economia livre da tutela política. Alguns querem que a Turquia faça tudo isso em dois dias, para resolver um problema europeu que parece não ter solução sem os turcos*. Tendo três milhões de refugiados sírios no seu território e evidente vulnerabilidade ao terrorismo**, os turcos podem pôr esta multidão em movimento, rumo à Europa. O que os impede? Apenas a possibilidade de um acordo que garanta passagem dos refugiados com direito a asilo, a extinção do tráfico ilegal, ajuda para os sírios que ficarem nos campos da fronteira turco-síria, controlo da imigração económica. E tudo isto só é possível se houver aceleração do processo de adesão, o que terá óbvio benefício para todos os lados.
*A crise dos refugiados está a fazer importantes estragos políticos na Alemanha: CDU e SPD sofreram um forte espancamento nas eleições em três estados.
**A questão da segurança parece determinante: Ancara sofreu o segundo atentado em duas semanas.


Estou em crer que falha algo muito importante nesta sua perspectiva. Refiro-me naturalmente ao processo de adesão.
A Turquia cometeu um grave e imprudente erro ao ter abatido o caça russo. Abriu hostilidades com a Rússia na expectativa que a OTAN viesse em seu socorro; e ficou desapontada. Seguidamente forçou um acordo com a UE na crise dos refugiados, que resultou somente em contrapartidas financeiras.
Com a situação Síria por resolver a UE não arriscará a adesão da Turquia sabendo que poderá ser envolvida numa situação de conflito com a Rússia que lhe será prejudicial. Em particular a Alemanha no que respeita ao gás natural e à sua tentativa de ser uma influência a leste.
A UE está na fronteira de dois conflitos: O ucraniano e o sírio. E não arriscará num passo que poderá ser comprometedor.
Por outro lado, tive oportunidade de escrever aqui no DO que o futuro mostrar-nos-ia a implosão do sistema na Turquia e também na Arábia Saudita, por causa do envolvimento na Síria. Os acontecimentos que surgiram na Turquia estão em linha com este prognóstico. E a Arábia Saudita iniciará esse processo, o da implosão, com a questão petrolífera. Não adianta ter capacidade em extrair petróleo a baixo preço, é necessário vendê-lo. Como sabemos, não existe mercado tão alargado e os operadores são muitos.
Concluindo: os EUA e a UE terão de acelerar um entendimento com os Russos na questão Síria sob pena de verem estes seus dois aliados, Turquia e Arábia Saudita, de pantanas.
Actualmente, um dos graves problemas da humanidade, em particular dos políticos novos e velhos, é continuar a pensar segundo modelos indutivos, isto é, do passado, em questões que configuram um ordenamento absolutamente diverso do habitual. Mas isto também se aplica ao cidadão comum.
Faltou acrescentar a meu comentário o facto do Irão ser um dos que lhe interessará manter os preços do petróleo tão baixos quanto os actuais, para fazer vergar a política saudita e também a ocidental. Portanto, não me parece que eles aceitem por agora uma redução da produção no sentido de fazer crescer o petróleo nos mercados internacionais.
A solução parece filha do desespero. O problema do acesso de refugiados é essencialmente europeu porque é para a Europa que eles querem ir.
Não me parece que fazer outsorsing resolva alguma coisa. Parece-me antes que estamos a pagar a alguém para sujar as mãos por nós, para se poder dizer que os direitos humanos são respeitados na Europa, resumindo, uma hipocrisia.
Também acho um pouco hipócrita considerar que o atentado à liberdade de expressão é menos grave se for contra as pessoas de quem discordamos. Por esse processo todos os governantes são bons, basta fazer o que eles querem…
Já faz uns anitos que a Grécia aderiu à UE. Isso não lhe garantiu ajuda para resolver o problema dos refugiados que chegam às suas costas. Nem vai garantir à Turquia.
O interesse da UE é que a Turquia fique com os refugiados e fique fora da UE. Só assim se poderá fazer vista grossa a atitudes “musculadas” que não respeitem os direitos humanos.
E é isso que se está a negociar.
o processo de adesão […] terá óbvio benefício para todos os lados
Após a adesão, os migrantes iranianos e afegãos passarão a entrar na União Europeia através das montanhas do Curdistão. Os refugiados sírios entrarão na União Europeia com ainda mais facilidade que agora. Os crimes de honra deixarão de ser um problema apenas por entre as minorias paquistanesas do Reino Unido e passarão a ser um problema muito mais vasto, em toda uma região da União Europeia. Terá óbvios benefícios para a União Europeia ter nela um país asiático.
“E tudo isto só é possível se houver aceleração do processo de adesão, o que terá óbvio benefício para todos os lados.” – Luís Naves
A adesão à União Europeia não pode ser a solução para tudo, sob risco de a UE se tornar tudo e coisa nenhuma.
Há uns dias li um comentário extremamente interessante sobre o referendo britânico. Dizia mais ou menos assim (tradução minha):
“Percebo que para os britânicos, Brexit seja a mais pura estupidez. Mas, como europeu continental, gostaria de os ver sair. Embora me preocupe o impacto económico de curto prazo, sinto que a Europa ficaria melhor sem eles.
“Explico porquê: desde Tatcher que o RU se considera extraordinariamente especial, o que o leva a exigir tratamento especial. Este tratamento especial, o afastamento da UE e dos seus objectivos, mina o processo de unificação e está a enfraquecer a Europa.
“O RU precisa de acordar e compreender que têm de deixar de ser um fantoche dos EUA. Enquanto isso não acontecer, prefiro não os ter connosco. O patriotismo estilo ‘Rule, Britannia!’ que alimenta o sentimento Brexit está deslocado, e sobreestima grandemente a importância do RU no mundo.”
Sentimento geral dos comentadores britânicos do forum?
“Como inglês, acho este comentário ofensivo e certeiro.”
A UE não é a ONU, a NATO ou a WTO. A UE para funcionar como união de estados precisa de coesão interna. A Turquia não vai acrescentar coesão à UE. A UE tem 500M de habitantes de 28 países cuja única característica unificadora é serem de tradição cristã (católica, protestante, ortodoxa: 72%; agnósticos, ateus: 23%; muçulmanos 2%). Há 28 países, 24 línguas oficiais (mais 5 semi-oficiais), 3 alfabetos distintos. Adicionar um país muçulmano de 80 milhões de habitantes é prudente?
Isto não é xenofobia. É (e.g.) sempre ter defendido a nossa afinidade ibérica, dizendo que somos mais parecidos do que eles são entre eles e ver agora Espanha a desmembrar-se. Neste contexto, no contexto dum referendo escocês que acabou por ser renhido, dum referendo britânico imprevisível, defender a integração da Turquia parece-me absurdo, a não ser que o objectivo seja fazer um reboot, andar 25 anos para trás e tentar tudo de novo, com consequências imprevisíveis.
“Por ironia, a deriva autocrática de Ancara deve-se em parte à própria União Europeia, que abandonou a anterior política de incentivar a adesão da Turquia, algo que só podia ter um resultado: isolado, o regime endureceu.”
Esta opinião é um belo exemplo do racismo, xenofobia mas que é aceite pela cultura marxista dominante: do Corbyn ao Marcelo, do Publico à TVI.
Porque coloca o ónus na civilização ocidental.
Ou seja para os turcos serem democratas precisam do incentivo do homem branco. Sem o homem branco claro não têm responsabilidade por o não ser.
Pois a responsabilidade está toda no homem ocidental.
Só para partilhar uma curiosidade sobre a ” adesão da Turquia á UE”.
Não me recordo da data, mas a Guerra dos Balcãs tinha terminado á muito pouco tempo. Uns amigos convidaram-me para participar numa actividade do Conselho da Europa em Budapeste. Aquilo parecia uma coisa tipo “Congresso Internacional de Estudantes” com estudantes e recém-licenciados de vários Países Europeus. O objectivo era “meter” os jovens a discutir não só a UE mas toda a Europa.
Lembro-me que um dos assuntos em debate foi a “adesão da Turquia” á UE. Os alemães e os Austríacos tinham ideias bem definidas sobre o assunto e eram maioritariamente contra. Eu ? Bem…eu nem sabia bem onde ficava a Turquia e já estava farto daquilo. Só queria acabasse para poder ir até á Vorosmarty ter no fim da Vaci utca e ver as húngaras a passar pela Café Gerbeaud. Turcos? Queria eu lá saber disso…
“eu nem sabia bem onde ficava a Turquia”. Não admira, para quem não conhece o verbo haver é muito pedir que saiba o que é isso de turquia e otomanos ainda menos. Para não falar de seldjúcidas.