«Um sonho, um ideal , é tantas vezes quanto basta para poder mover montanhas. Tempo sofrido pela busca do sonho de liberdade, pela procura do ideal de democracia, tempo de carência, tempo de luta.
Vencer. Subir o degrau de acesso ao patamar olímpico que faz os homens grandiosos e fixa os seus nomes na memória do mundo e na boca dos outros homens.
E de repente nada vira tudo. A fome vira fartura. A impotência vira poder.
O poder corrompe. Poder tudo corrompe sempre.
Já nem interessa a luta. Para quê lutar para vencer, quando já se é invencível?
Cavalgar o meteoro que sobe veloz e ver como tudo acontece lá em baixo, onde os seres minúsculos continuam a labutar como formigas, rodeado do brilho envolvente das estrelas, tão distantes, sempre tão fantásticas e inacessíveis e agora ali, dentro do circulo de luz onde só os que podem entram.
O deslumbre, o fascínio da opulência que só o poder pode.
Os homens são apenas homens, são fracos e mortais. Que exultação poder ter, poder dar, poder enfim ser.
O poder é extravagante e pede sempre por mais e mais poder, até não poder mais.
E o ideal é uma sombra e o sonho é agora dourado demais para querer acordar dele.
A percepção da realidade pode tardar, mas nunca falha. E a violenta ressaca do acordar do sonho lindo pesa como grilhetas em brasa forjadas no reflexo do facilitismo que quem pode tem.
Perder. Equilibrar-se num limbo dúbio, preso por dourados fios de ar e incerteza.
Quisera poder voar.»
Da nossa leitora Maria Dulce Gonçalves. A propósito deste meu postal.
