Paradoxo americano


Luís Naves,

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A rebelião populista que alastra um pouco por todas as democracias avançadas contém um paradoxo: os eleitores estão descontentes com a impotência dos políticos, mas recusam qualquer proposta que lhes pareça demasiado ligada à capacidade de intervir.

Os políticos contemporâneos são incapazes de resolver os problemas causados pela crise financeira, de aumento das desigualdades, estratificação da sociedade, crescente rigidez na disposição das classes sociais. Eles parecem alheados dos problemas quotidianos dos eleitores, da fragilidade no emprego, endividamento e aparente empobrecimento, tensão na ordem urbana, percepção do crime, sensação geral de instabilidade.

De forma contraditória, os eleitorados são sensíveis à aparência de força e rejeitam todas as propostas associadas à capacidade de decisão. Veja-se a insurreição eleitoral nos EUA, onde Hillary Clinton é acusada de ser a personificação do poder, havendo forte desconfiança em relação à sua óbvia capacidade de agir. As sondagens indicam que na super terça-feira, 1 de Março, a candidata vai ter um bom resultado em vários estados de certa dimensão, mas Hillary não se livra de um susto, pois o argumento do anti-sistema convenceu numerosos eleitores, sobretudo independentes e brancos. Agora, com a votação étnica e de democratas pobres, Hillary deverá vencer folgadamente em estados  do sul, como Geórgia, Texas, Virgínia, correndo depois para uma nomeação mais folgada.

Do outro lado estará com toda a probabilidade um candidato populista, talvez Donald Trump, milionário com fama de neurótico. A eleição do nomeado republicano está difícil e a direita americana parece ter mergulhado no mesmo paradoxo: queremos alguém exterior ao sistema, que diga coisas simples e tenha pouca força, mas que ao mesmo tempo seja capaz de resolver todos os problemas.

É uma escolha estranha, mas devemos habituar-nos: a política americana antecipa a nossa.

0 comentários em “Paradoxo americano”

  1. Não estou nada de acordo.
    Claro que o povo quer participar e decidir.
    O que acontece é que nunca algum regime lhe deu essa possibilidade efetiva.
    A democracia ocidental também não: apenas é mais cínica e hipócrita.

  2. Mais uma vez uma caracterização errada do que se passa.

    A classe político-jornalista não é impotente para aquilo que quer fazer. A maior parte do que querem fazer está a ser feito, a próxima será a tentativa de acabar com o dinheiro físico, no máximo só permitir transacções muito baixas.

    Isto é a continuação da expansão do managerial state https://en.wikipedia.org/wiki/James_Burnham com Entidades Estatais com extensos poderes ataca muitos americanos com uma burocracia infinita que vai de aspectos raciais a sexuais onde só os que têm contactos políticos e recursos se podem mexer.

    Na nossa versão de Managerial State por cá temos o grau de Autoridade dado a várias organizações do Estado com muito poucos protestos e sem perceberem sequer o crescimento de poderes que a designação de Autoridade implica.

    No entanto esta mesma classe político-jornalista está contra leis que existem, e fomenta a sua violação. As leis da imigração para começar. Violadas em todo o Ocidente com conivência de Políticos e Jornalistas.
    Nos EUA esta classe está ainda contra várias emendas Constitucionais e querem acabar com elas mas como é óbvio não querem uma Convenção Constitucional.

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