A queda


Luís Naves,

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Depois da estrondosa derrota na câmara dos deputados, Dilma Rousseff terá escassas hipóteses de impedir o processo de destituição; mesmo que consiga manter-se no poder, a presidente brasileira não tem condições para governar até ao fim do mandato. Estranho ‘golpe’: três em cada quatro deputados votaram a favor da saída de Dilma. A coligação que apoiava a presidente está desfeita e o descontentamento popular não permitiria mais dois anos e meio de pântano. O Brasil precisa de mudança, como disseram muitos dos deputados que votaram pela destituição na caótica, democrática e por vezes divertida sessão de voto de ontem (hoje de madrugada), que lembrava um jogo de futebol a terminar em penaltis.

Na imprensa brasileira escreve-se que Dilma e o PT cometeram erros tremendos, sobretudo ao longo do último ano e na campanha do segundo mandato (com vitória por pequena margem); a presidente hostilizou dirigentes dos partidos que a apoiavam, foi arrogante e queimou pontes, mas acima de tudo cometeu erros que acentuaram a recessão: o Brasil deverá perder 8% a 10% do PIB, o desemprego aumenta depressa, espera-se a recuperação apenas em 2018. Em Portugal, vemos notícias muito editadas, onde os apoiantes de Dilma parecem sempre melhor do que “as tias” que querem a destituição. Trata-se de uma fantasia, claro. O descontentamento popular é evidente, como foi óbvia a influência das manifestações de rua na escolha de muitos deputados. Se o avanço do processo fosse contra o desejo do povo, não tinha acontecido.

O PT está metido até ao pescoço num escândalo de corrupção sem precedentes e tentou obstruir a investigação judicial. Este partido também tentou criar um regime clientelar que se notou nas divisões da votação por estados: nos partidos hesitantes, os deputados das regiões ricas votavam contra Dilma e os das regiões pobres a favor. O país está dividido entre Norte e Sul. Na câmara, notavam-se as classes sociais, a questão racial, o voto evangélico contra Dilma, as fracturas partidárias, o caciquismo e o desespero dos deputados do PT. A crispação política parece ter ultrapassado um nível perigoso e as elites brasileiras não parecem à altura da crise. O sistema presidencial dificulta a válvula de escape de eleições antecipadas, o sistema eleitoral permite eleger deputados (geralmente chefes políticos locais) por algumas centenas de votos, o vice-presidente Michel Temer é também impopular, acusado de golpista pelos derrotados, os problemas económicos exigem medidas urgentes, mas o Brasil é demasiado grande para falhar.

0 comentários em “A queda”

  1. Ironia do destino, os corruptos conseguiram pôr fora, a pessoa que não tem um processo em Tribunal. Ironia do destino, vai ser Presidente, um corrupto que tem vários processos em Tribunal por corrupção. Ironia do destino, o analfabetismo do povo brasileiro dá votos. Ironia do destino, quase todos os deputados brasileiros também são uns analfabetos políticos que não sabem o que estão a fazer porque também eles só sabem corromper e ser corrompidos. Malfadado destino, o do povo brasileiro!…

  2. O DN e o Publico apresentam capas com a posição do PT. Com a palavra Golpe bem exposta.

    Mostra onde estão.

  3. A DEMOCRACIA É uma forma de dotar o contribuinte/consumidor de algum poder negocial…mas, todavia, no entanto, esse poder negocial deverá ser aprofundado (ver Exemplo 1, e Exemplo 2).
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    De facto, apontar ‘isto ou aquilo’ é insuficiente… há que combater os parolizadores de contribuintes… isto é, ou seja, há que reivindicar/criar:
    – MAIS CAPACIDADE NEGOCIAL PARA OS CONTRIBUINTES/CONSUMIDORES!
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    Quando alguém proclama «o país precisa de alguém que faça isto e aquilo»… a resposta só pode ser: “apanha-se mais depressa um parolizador de contribuintes do que um coxo”!
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    Ora, de facto, o contribuinte não pode ir atrás da conversa dos parolizadores de contribuintes – estes, ao mesmo tempo que se armam em ‘arautos/milagreiros’ em economia etc ) – por outro lado, procuram retirar capacidade negocial ao contribuinte [isto é, querem que os contribuintes passem carta branca aos políticos… para que estes possam fazer as mais variadas negociatas com os mais variados lobbys ].
    —» EXPLICANDO MELHOR: um político não se pode limitar a apresentar propostas (promessas) eleitorais… tem também de referir que possui a capacidade de apresentar as suas mais variadas ideias de governação em condições aonde o contribuinte/consumidor esteja dotado de um elevado poder negocial!
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    EXEMPLO 1:
    O CONTRIBUINTE TEM QUE SE DAR AO TRABALHO!!!
    -» Leia-se: o contribuinte tem de ajudar no combate aos lobbys que se consideram os donos da democracia!
    —»»» Democracia Semi-Directa «««—
    -» Isto é, votar em políticos não é (não pode ser) passar um cheque em branco isto é, ou seja, os políticos e os lobbys pró-despesa/endividamento poderão discutir à vontade a utilização de dinheiros públicos… só que depois… a ‘coisa’ terá que passar pelo crivo de quem paga (vulgo contribuinte).
    -» Leia-se: deve existir o DIREITO AO VETO de quem paga!!!
    [ver blog « http://fimcidadaniainfantil.blogspot.pt/ »]
    .
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    EXEMPLO 2:
    CONCORRÊNCIA A SÉRIO!!!
    Não há necessidade do Estado possuir negócios do tipo cafés etc ), porque é fácil a um privado quebrar uma cartelização… agora, em produtos de primeira necessidade (sectores estratégicos) – que implicam um investimento inicial de muitos milhões – só a concorrência de empresas públicas é que permitirá COMBATER EFICAZMENTE A CARTELIZAÇÃO privada.
    [ver blog « http://concorrenciaaserio.blogspot.pt/ »]

  4. Se o PCP e BE deixarem de apoiar o Governo PS também será um Golpe?

    “os problemas económicos exigem medidas urgentes, mas o Brasil é demasiado grande para falhar.”

    Toda a lógica do sistema de Governo no Ocidente se transforma cada vez mais na dependência social e empresarial do Estado.
    É a excessiva politização de tudo o que mexe e o crescente totalitarismo das Democracias.

    Esta politização foi pedida pela grande maioria -cá do PCP ao CDS-
    Agora vão todos receber a “recompensa”.
    O totalitarismo e o jornalismo que promove o totalitarismo tornam o sistema irreformável. Depois há demasiada gente dependente/corrompida pelo sistema.

    Só mudarão após continuada decadência como aquando da queda da URSS em que já ninguém acredita em coisa alguma. Mas ainda há alguns anos de vida na coisa, ainda se pode viver alguns anos a prometer ir buscar dinheiro aos ricos e a puni-los em autos de fé.

  5. Até a o lavar dos cestos é vindima. Mas convém adicionar a este seu texto uma retrospectiva dos escândalos no Brasil.
    http://www.revistaforum.com.br/2013/11/22/psdb-sofre-com-crise-moral-de-suas-principais-liderancas-em-sao-paulo/
    http://www.revistaforum.com.br/2013/11/21/ex-diretor-da-siemens-afirma-que-cupula-do-psdb-recebia-propina-para-caixa-2/

    https://www.publico.pt/mundo/noticia/investigacoes-judiciais-lancam-o-caos-na-politica-do-brasil-1702396

    http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/15/politica/1450174193_907881.html

    Há um golpe, sim, que aproveita-se das investigações em curso e do descontentamento popular agravado pela recessão brasileira que pretende fazer esquecer o passado, pois a memória é curta, e transformar Dilma numa espécie de lebre com os galgos correndo no seu encalço.

    Acontece que o voto de ontem nada significa. Este simplesmente conduz o processo para a Câmara Alta e esta decidirá, simplesmente, se Dilma deve ou não ser julgada. Havendo julgamento, será necessário provar que Dilma fez parte de alguma “pedalada”.

    Portanto, estou de cordo consigo no que respeita ao facto de as elites políticas brasileiras reflectirem o estado caótico desta nação.

    Temer certamente não escapa às criticas de diversos sectores da sociedade brasileira:
    http://g1.globo.com/politica/processo-de-impeachment-de-dilma/noticia/2016/04/manifestantes-pro-e-contra-governo-rejeitam-temer-e-cunha-diz-datafolha.html

    Já agora:
    http://g1.globo.com/politica/politico/michel-temer.html

    Mas aconteça o que acontecer o PT sairá reforçado com a figura de Lula a surgir como um novo encantamento da política brasileira.

    Quanto à questão da economia, a propaganda a que se assistiu em Portugal nos últimos 4 anos indicava que tudo estava bem e recomendava-se; mais ainda, o contexto internacional era de tal forma favorável que as grandes refundações e reformas estruturais dariam seus frutos. Agora que os podres vêm à tona nada melhor que atribuí-los ao executivo em funções, pois, revertendo tudo, parece que influenciou a economia mundial e mais um tanto.

    O Brasil está na situação que era previsível estar – para quem quer ser previdente – e o resto do mundo não foge à equação. Acontece que a recessão a que se assiste também se deve às grandes refundações e reestruturações que se foram operando um pouco por cada continente, ainda que os EUA tenham sido os mais expeditos a reequilibrarem as contas. Mas também sofrerão.

    Ainda vou ler que a quebra na China e a recessão angolana e o brexit e mais não sei das quantas foi provocada pelo Costa e sua geringonça; e o PT também não ficará de fora deste processo, claro!.
    Veja bem que o ajuste que agora será necessário fazer no orçamento rectificativo português se deve não à situação da banca, que foi oculta durante uns tempos, mas por causa da reversão. Isto é que há por cá com cada geringonça!

  6. “O Brasil precisa de mudança, como disseram muitos dos deputados que votaram pela destituição na caótica, democrática e por vezes divertida sessão de voto de ontem (hoje de madrugada), que lembrava um jogo de futebol a terminar em penaltis.”

    Partes divertidas incluíram o deputado que, pouco antes de invocar Deus, louvou um oficial que torturou uma prisioneira indefesa numa ditadura, e a deputada que elogiou o marido incorruptível que foi preso hoje por corrupção.

    Embora a corrupção do PT não me agrade de todo, o que vi ontem foi um dos espectáculos mais degradantes que uma democracia alguma vez ofereceu ao mundo. Eu nem quero imaginar o que o mundo ocidental, a ver tais imagens, estará a pensar dos brasileiros; sem dúvida muitos estarão a ver confirmados os seus preconceitos de que o país ainda está num estágio antigo da civilização.

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