A rebelião


Luís Naves,

Os comentadores descobriram de repente que há uma insurreição populista na Europa e na América, mas uma coisa é medir a febre, outra coisa é tentar perceber a que se devem os sintomas. Hoje, na rádio pública, alguém comparava a crise dos refugiados com a Alemanha nazi, mas estas tolices, que desvalorizam os males do passado e iludem de forma hipócrita o esforço de alguns países, tornaram-se banais no comentário.

Por toda a parte vemos isto: os eleitores recusam a política tradicional, os arranjinhos do costume, as decisões dos burocratas, os pequenos comités instalados. O populismo é apenas o aproveitamento do descontentamento geral, no fundo trata-se de aproximar o discurso das necessidades das pessoas e dos seus problemas. A comunicação social abdicou desta função e vai perdendo a confiança da opinião pública. Claro que devemos perguntar o que provocará a rebelião anti-elitista na Europa ou na América, mas devemos também perguntar de onde vem o descontentamento que alimenta os partidos ou candidatos da contestação ao sistema.

A resposta é complexa, mas o descontentamento é natural para quem encontra trabalho mais mal pago do que aquele que existia antes; é natural para quem viu os grandes génios da gestão a estoirarem bancos e empresas sólidas, ao mesmo tempo que ganhavam milhões em bónus por efectuarem despedimentos em massa; é natural para quem empobreceu e não se adaptou às novas tecnologias; para quem perdeu empregos que foram para a China; para quem perdeu a casa e para quem vive hoje em bairros degradados, marcados pelos choques culturais da imigração que ameaça a identidade. O descontentamento é natural quando o eleitorado percebe que os políticos têm cada vez menos espaço para agir. Muitos europeus e americanos sentem uma ansiedade profunda em relação ao seu futuro económico, por causa do aumento das desigualdades, mas não apenas por isso, por ouvirem da parte dos políticos as mesmas banalidades de sempre, por ouvirem dos intelectuais as análises do costume, que culpam os eleitores por escolhas “erradas”, sem respeito pela vontade do povo.

Os europeus desta lenda são agora xenófobos sem coração, que desconfiam dos migrantes e recusam aceitar muçulmanos nas suas ruas, ou são reaccionários que criticam os óbvios benefícios do progresso ou da bondade daquilo que é decidido pelas burocracias supranacionais que ninguém elegeu. Segundo a lenda dominante, os europeus são perigosos nacionalistas agarrados aos fantasmas de impérios perdidos, recusam-se a assumir as culpas evidentes do homem branco e sobretudo votam mal, votam estupidamente, abandonam os partidos tradicionais e cedem ao canto da sereia do simplismo. O sistema parece ter entrado numa crise que não é exactamente uma ameaça à democracia, essa crise só existe por vivermos em democracia.

0 comentários em “A rebelião”

  1. Errado.
    Mais uma vez atira ao lado e continua a sua tese falsa que os outros é que são populistas. O PS ou PSD são tão Populistas como o PCP ou o UKIP.

    Lançar países para a bancarrota é populismo e extremismo, Estados que em 40 anos passaram de menos de 20% do PIB em gastos para mais de 50% do PIB é populismo e extremismo.

    Abrir fronteiras indiscriminadamente é extremismo.

    A critica é ao Fim do Estado Nação para o Povo mas a manutenção do Estado Nação para os Políticos. A adicionar ao Estado supranacional.

    É o nascimento da Democracia Totalitária. Onde fazer qualquer coisa é punida.
    Depois dizem que não sabem porque não há crescimento.

  2. ” O sistema parece ter entrado numa crise que não é exactamente uma ameaça à democracia, essa crise só existe por vivermos em democracia.”

    Melhor remate não podia haver para um texto que milagrosamente se equilibra entre a contradição aparente e a perspicácia latente!
    Além de agarrar num dos temas do dia, como convém a um blogue.

    Quanto à citação, eu diria mais, sem dizer melhor:
    – o sistema é que é uma ameaça à democracia.

  3. Não concordo com o que afirma sobre “essa crise só existe por vivermos em democracia”.

    O esboço das concessões elaboradas para satisfazer o Reino Unido vêm demonstrar que o que está em causa é a essência da democracia. Repare que os britânicos dizem ter alcançado com o acordo, entre outros, o célebre “cartão vermelho”, que permite aos parlamentos nacionais travar decisões da Comissão.

    Pergunto-lhe: considera que se tivesse sido Portugal a propor tais reformas elas seriam concedidas?
    Engana-se a respeito das intenções democráticas da Comissão. Quando a força e o poder determinam as vitórias, então, a democracia está em risco.

    1. Democracia é a ditadura da maioria ou melhor de várias maiorias. Logo claro que votam para tirar às minorias.

  4. Aconselhável uma vista de olhos ao “Tempo Contado” ( passe a “publicidade”…) de Rentes de Carvalho.
    A “coisa” torna-se imediatae perfeitamente perceptível para quem tem o privilégio da convivência com ciganos…
    E depois venham com “racismos”,”xenofobias”, “crimes de ódio” e toda a panóplia de vigarices do pulhìticamente correcto…

  5. Basta ver o que está a fazer a Alemanha, o povo em geral e muitos dos seus governantes para ver que existe um lado B, gelatinoso, mas o lado A ainda vai singrando. Nada disso isenta cada cidadão de fazer a sua analise pessoal e se responsabilizar, e ser confrontado por isso, pelos média, pelos caminhos menos certos que o seu voto possa levar os capangas politicos, a trilhar.

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