O naufrágio


Luís Naves,

A-Shipwreck-Closeup.jpg

 

Conheço jornalistas desempregados que davam para fazer duas redacções de alta qualidade. Há comentadores na blogosfera que, de borla, escrevem textos sem as banalidades que infestam as páginas dos jornais pagos. Cresce o divórcio entre os órgãos de comunicação e o público. Como refere Pedro Correia, neste texto, não há estabilidade na vida dos directores, sem tempo para influenciar as publicações que dirigem. Podemos prosseguir o raciocínio: não há estabilidade na vida dos jornalistas que restam na profissão. Eles temem pela perda dos seus empregos, trabalham horas a fio em burocracias mal geridas, mal pagos e sem incentivos, sem perspectivas de futuro, ultrapassados por vedetas bem relacionadas.

Portugal é um país onde a hipocrisia compensa. De repente, deixámos de ouvir falar dos horrores do desemprego e da emigração forçada, as histórias recorrentes no jornalismo do ano passado. A crise desapareceu. A profunda indignação das corporações disto e daquilo também desapareceu. Os jornais discutem minuciosamente temas fracturantes que interessam a meia dúzia, desviam as notícias embaraçosas para as páginas pares, insistem nas opiniões inócuas dos comentadores que falharam todas as suas previsões nos últimos cinco anos e que continuam a debitar de cátedra.

A comunicação social é um negócio da credibilidade. O divórcio entre público e órgãos de comunicação tem causas económicas profundas, por exemplo, a perda de receitas de publicidade e de leitores para a internet. No entanto, sem a erosão da credibilidade, o sector não estaria em situação tão calamitosa. Gastaram-se fortunas em modernizações tecnológicas, havia boas relações com o poder político, formaram-se grupos inafundáveis. Agora, estão quase todos falidos e perdem leitores, numa hemorragia sem fim. A comunicação social é um assunto tabu que nunca é debatido pela própria comunicação social. Em Portugal, fala-se de tudo, menos disto; e quando se fala, é com paninhos quentes. As publicações de referência correm sérios riscos de extinção e não se percebe quem as vai substituir. Os jornalistas, desempregados ou proletarizados, perderam a influência que tinham e o público desconfia do que lê ou lhe é transmitido. E, no entanto, este não é um sector como os outros. Não falamos do desaparecimento das mercearias de bairro, mas da morte de outro património, esse mais vital: a nossa visão do mundo, parte da nossa identidade e alma.

0 comentários em “O naufrágio”

  1. Sinceramente, caro Luis Naves, não sei se o fenómeno é a decadência do jornalismo ou a consciência da mediocridade do jornalismo, há muito decadente!!
    O espelho de consciencia ocorre, verdadeiramente, em relação às elites da República, ou pelo menos assim consideradas pela opinião publicada. Deste modo, a opinião publicada exerce a função de reduto defensivo das elites, que a mesma opinião publicada foi criando, não com o intuito de preservação das personagens, mas como reserva própria sobre o papel que a si se atribui como opinião publicada e como fonte criadora de elites!! (A aversão da media em relação ao institucionalismo formal é disso exemplo)
    A virtude deste fenómeno, o divórcio a que a alude o caro Naves, reside no incomparável grau de exigência dos Portugueses de hoje e na sua capacidade crítica de processar a informação e pensar a realidade. Tenho uma enorme esperança numa grande parte dos meus concidadãos. Matámos mitos e falsos profetas como há muito não se via, desde os idos de orpheu, talvez, mas com a grande virtude da espontaneidade silente!! Outros mitos pouparam-nos a maçada suicidando-se em directo!!
    Um bem haja,

  2. Ter jornalismo decente também está acima das nossas possibilidades.

    Temos de parar viver acima das nossa possibilidades.

    Talvez alguns jornalistas se lembrem agora daquela frase sempre citada: “Vieram buscar os judeus, mas não sou judeu, não me importei…”

    Foi um bocado ingénuo pensar que a degradação das condições de trabalho só interessava aos trolhas e às mulheres a dias.

  3. “De repente, deixámos de ouvir falar dos horrores do desemprego e da emigração forçada, as histórias recorrentes no jornalismo do ano passado. A crise desapareceu. A profunda indignação das corporações disto e daquilo também desapareceu. Os jornais discutem minuciosamente temas fracturantes que interessam a meia dúzia, desviam as notícias embaraçosas para as páginas pares, insistem nas opiniões inócuas dos comentadores que falharam todas as suas previsões nos últimos cinco anos e que continuam a debitar de cátedra.”

    Constatação muito pertinente !…
    Porque será assim?
    Porque grande parte dos orgãos de comunicação social e dos jornalistas que neles trabalham fazem parte de uma “elite cultural urbana” que se constituiu e se afirmou nas ultimas décadas beneficiando de um modelo économico centrado num Estado cada vez mais presente e interventivo e do desenvolvimento de sectores não transaccionáveis, onde se inclui o jornalismo, à custa do atrofiamento de sectores transaccionáveis (exportações, substituição de importações, etc).
    Simplificando, pode dizer-se que a ascenção desta categoria se manifestou culturalmente através da dominação do discurso pelos “direitos sociais e colectivos” contra os valores do trabalho e da responsabilidade individual.
    O que, no que se refere ao modelo económico, se traduz na ideia de que o determinante, a causa e a origem da riqueza e do bem-estar, não é o investimento e a produção mas antes a distribuição e o consumo.
    Não admira por isso que esta “casta” tenha estado nestes anos e continue ainda na primeira linha da resistência a qualquer mudança do modelo.
    Estes são actualmente os verdadeiros reaccionários e defensores dos privilégios estabelecidos !!

  4. Nos textos sobre a Boa Nova (Evangelho) encontramos várias referências a Jesus curando os mudos. Aliás, os mudos não só eram curados para que pudessem falar como também este era um dos sinais messiânicos agregados a outros, tais como: fazer os paralíticos andar, dar visão aos cegos, libertar os oprimidos e consolar os pobres, isto é, reintegrá-los.

    Tive oportunidade de comentar por aqui que a world wide web (www) seria também a arma dos pobres. E hoje verificamos que ela quando bem usada se transforma na consumação de tão perenes sinais.
    Logo, é O sinal de poder que faltava ampliar nas tão denominadas democracias. Mas um poder nas mãos de quem também pensa e não quer deixar o seu destino nas mãos dos “predestinados” pensadores que fazem do poder um exercício de autoridade impregnado de burrice.

    Portanto, não existe nenhum divórcio entre jornalistas e público. O que ocorre é que cada individuo é um observador e um mundo de vivências que deseja partilhar.
    Para quem já fez uma “tournée” pelo mundo das publicações e do jornalismo sabe que em matéria editorial os conteúdos estão carregados de subjectividade. Mas também que este espaço intimo do individuo é invadido por interesses e cobiças com o propósito de transformar as publicações em órgãos de pressão e poder.
    É precisamente a mudança de paradigma que a internet nos oferece. E desengane-se quem pensa que os órgãos de comunicação poderão ser o que ainda são, ou, mais ainda, que poderão ser o que pretendiam que fossem.

    Assistimos hoje à morte do poder e ao início do serviço. E para que este serviço possa ser realizado com preceito nada melhor que seguir um dos conselhos da Boa Nova com que introduzi este comentário: “Tomai cuidado com vós mesmos”, isto é, com cada um de nós.

  5. Repetiria os comentários que deixei no texto do Pedro Correia e só posso acrescentar que os paninhos quentes serão, exatamente, pelo mesmo motivo que nos andam a transformar em “florzinhas de estufa”.

    Quanto a ser, mais ou menos, importante do que as mercearias, é bom que se olhe para o Futuro (o ser humano tem essa capacidade, a de conjeturar ou melhor… tinha ou passou a usa-la, só, para os resultados do futebol) porque vamos assistir a uma “financialização” de tudo, onde passaremos a ser peças dispensáveis de um Sistema automatizado e, onde, já hoje, meia dúzia de Corporações são donas de todas as outras.

    Nesta perpectiva, uma grande maioria já colabora, eficazmente, para aumentar os lucros das Corporações, onde só interessa o lucro, num Mundo onde os humanos serão substituíveis, as compras são feitas por net, onde se começam a testar as entregas ao domicílio com drones e, vão ser lançados os primeiros restaurantes totalmente robotizados e, apesar de muitos taxistas quererem bater nos motoristas da Uber, talvez não saibam que o próximo passo, serão os automóveis sem condutor. Professores, jornalistas, todo um conjunto de profissões, impensáveis que desaparecerão porque, toda a informação estará, algures, numa cloud de Informação, e o trabalho robotizado onde, nem sequer escaparão da extinção, a maioria dos funcionários da Administração Pública porque, neste caminho, ninguém estará a salvo desta concentração de poder totalitário a nível global, acompanhado com o tão “maravilhoso” avanço da tecnologia. Evolução? ou Salto Mortal… de olhos tapados? No final, quem se aproveitará disso?

    Vou ter que “engolir”, cada vez que, em vez de pessoas o atendimento é feito por máquinas… escolha a sua opção… carregue no 1, no 2 ou no 3.
    Enquanto os próprios humanos se vão amalgamando, sem país nem credo, não é de admirar, ouvir umas “sumidades” dizerem, com arrogância que, neste Planeta, há demasiada gente que, imagine-se, até a sua existência, prejudica o clima.
    O mal está nesta falta de união (ou será egoísmo?) porque, muitos, ainda acreditam que estarão a salvo das consequências… santa ingenuidade. O pior é que a mudança está quase na sua fase final. Isto de “entrar na corrente”, sem pensar, primeiro, “na altura ou na força da água”… como sempre, nunca deu bom resultado.

    Há uma boa metáfora que, agora, não me recordo por quem foi dita mas, é mais ou menos assim:
    Imaginem um rebanho e, de repente, uma ovelha chega em pânico para avisar as outras que o dono, afinal, as manda para o matadouro e até descreve o processo. As outras param de pastar, no prado verdejante, olham umas para as outras e desatam a rir e, até lhe explicam que os desaparecimentos são causados por mudanças de dono e que, apenas, foram para outras pastagens, alguma vez, um dono que lhes proporciona comida, água fresca, as protege da chuva e do calor extremo, chama o veterinário quando estão doentes, iria lá fazer uma coisa dessas… a seguir, zangadas com a persistência do alerta, seguem-se os bitaites… chamem o dono, mandem internar a doida e, claro, com todo aquele aspecto de ovelha ansiosa e preocupada que, tão bem, se destaca do rebanho, é das primeiras, a ser escolhida, para ser encaminhada para o matadouro. No dia seguinte, esquecido o incidente, continuarão a seguir para o pasto, obedecendo ao ladrar do cão e, a fazer… exatamente o mesmo.

    Pode começar no merceeiro e por todas as lojas de bairro mas, onde acabará o “desaparecimento”?
    A questão principal, somos nós que andamos a escolher alguma coisa ou algo a ser servido como inevitável?… Terá um final feliz ou andarão a vender-nos gato por lebre?
    Só faltará acrescentar aquela “máxima” dos ingénuos ou de trambiqueiros, de que “não haverá desemprego mas, empregos de outro tipo”… fiem-se na Virgem e não corram…
    A História tem demonstrado as consequências do “deixa andar” mas, desta vez, não vai haver porto de abrigo para remendar os buracos no casco do navio, desta vez, o título está muito bem escolhido, vai ser mesmo… um Naufrágio.

  6. Só sei dizer que para mim, que trabalhei para vários jornais que morreram (como o Lisboa e o Popular), está a ser tudo muito doloroso. Não consigo imaginar como será para quem está nas redacções. Ou melhor: consigo um pouco, porque o sinto em quem lá está.

  7. Provavelmente há bons e maus jornalistas como em todas as áreas.
    A este respeito, há uma questão, cuja resposta, essa sim, pode explicar muita coisa:
    – Os grandes meios de comunicação são propriedade de quem?

  8. Adoro, em particular, a evolução da Antena1, que ouço diariamente entre as 8 e as 9 da manhã. “Antes”, brincava que acordava todos os dias com um sindicalista da função pública ou com uma dirigente de uma Associação de Utentes. De há seis meses para cá, emigraram todos. A “engraçada” taxista nunca mais disse mal do poder instalado, como fazia todos os dias com o anterior poder instalado, e de terça a sexta (à segunda o Rui Ramos faz de “token black”), temos um conjunto de “subtis” cronistas que exprimem toda a riqueza de opiniões que vai entre a ala esquerda do PS e o ala ortodoxa do PCP (antes havia um eurodeputado por dia, dos 5 maiores partidos). A única coisa que não mudou foi, semana sim, semana não (nas “semanas não” opina no noticiário, para não morrermos de saudades), o ubíquo Nicolau Santos, a dar largas ao seus conhecimentos de economia (que rivalizam com os meus conhecimento de culinária… sei que gosto de comer!). Alterna com a Helena Garrido, mas não por muito tempo, pois assumo que, mais dia, menos dia, ela vá dar lugar à voz grave do ponderado Raul Vaz. Entretanto, a RTP contrata uma camioneta de socialistas da SIC, oficiais e oficiosos (a Lourenço, o Teixeira, o Adão) e um dos poucos opositores internos do líder da oposição (o mesmo Zé Eduardo que nos distraía nos matrecos da FDL). E isto tudo em seis meses…

  9. Já aqui veiculei esta ideia várias vezes, mas continua a parecer-me a melhor sintese;
    O negócio dos jornais deixou de ser vender notícias aos leitores e passou a ser vender leitores aos anunciantes. Isso tornou o conteúdo cada vez mais refém de quem anunciava e mais irrelevante para quem compra.
    Também ajuda a explicar algum enviezamento político dos media.
    A internet apenas veio exponenciar e acelerar um problema prévio.

  10. O negócio dos jornais não é vender notícias é convencer quem os lê daquilo que os jornalistas pensam.
    E como são 99% de Esquerda e de Extrema Esquerda é o lixo que temos.

    Por isso desde há 10 anos que não compro jornais. Isto quando foi um vício.

    PS: Qual foi a ultima vez que um jornalista empregou a expressão :

    Extrema Esquerda

    ?

  11. Bom texto.

    Chamo atenção para o facto de que a partir do momento em que a RTP3 tinha conseguido um painel diversificado de posições e comentaristas e já estava a destacar-se da SIC Notícias (esta em processo final de Publicozização e redução à ladaínha da esquerda caviar e do futebolês retornado-benfiquista), foi gradualmente sendo tomada de assalto por alinhados da Geringonça. Parecia ser os primeiros ratos que farejam um barco a ir ao fundo, mas não é: é uma coisa mais deliberada. Seguir-se-á a limpeza de alguns comentadores incómodos dos programas da RTP3. Fiquem atentos.

  12. Também eu, Luís, “conheço jornalistas desempregados que davam para fazer duas redacções de alta qualidade”. Sem a menor dúvida. E de acordo também com a tua conclusão: o desaparecimento de jornais não pode ser equiparado às mercearias de bairro.
    Informação e notícia não são sinónimos exactos. Informação implica formação, a montante e a jusante. Sem jornalistas continuaremos a ter notícias de todo o tipo. Mas deixaremos de ter informação.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *