A quarta vaga


Luís Naves,

As pessoas informadas costumam deitar um olhar mais lúcido sobre o presente e este ano os peritos reunidos em Davos estão mais pessimistas do que é costume. A economia vai correr mal, diz a maioria, embora sem consenso nos motivos, o que nos leva a admitir que talvez no final haja um conjunto de factores a confirmar a profecia. Alguns destes peritos estão a dizer que o mundo atravessa já uma quarta globalização, envolvendo novas tecnologias de informação que estão ainda a nascer nos laboratórios.

Isto está além da minha compreensão, mas penso que é possível concluir o seguinte: a civilização digital e a robotização avançam em grande ritmo, a humanidade tem hoje tecnologia que lhe permite modificar a própria espécie humana, milhões de empregos vão ser substituídos por algoritmos e robôs. Além disso, a vantagem dos países ricos em relação aos pobres atingiu um grau que não se via desde meados do século XIX, quando os grandes impérios europeus começaram a dominar todo o planeta, levando as suas instituições e a sua medicina a povos que consideravam primitivos.

Como explicar então a ansiedade dos peritos em relação ao futuro imediato? Provavelmente, os novos avanços estão a criar rupturas económicas em larga escala e o fosso entre países causa uma vaga migratória sem precedentes. O mundo entrou em fluxo, em movimento rápido, e muito do que vemos na política contemporânea corresponde ao aparecimento de bolhas de resistência, de conchas duras onde se resguardam grupos de perdedores, de interesses instalados, línguas em perigo, culturas minoritárias, sociedades inteiras, facções religiosas. Há mundos em extinção que resistem e as bolsas de desobediência são apenas um estorvo temporário, que os grandes poderes financeiros da globalização gostariam de afastar do seu caminho.

0 comentários em “A quarta vaga”

  1. “Há mundos em extinção que resistem e as bolsas de desobediência são apenas um estorvo temporário, que os grandes poderes financeiros da globalização gostariam de afastar do seu caminho.”

    Esperemos que não.
    Não gostaria de saber assim escravizados os meus netos.
    Entretanto, vou fazendo o que posso, para ajudar a que todas as pessoas e todas as sociedades conquistem e garantam a sua dignidade.

  2. Como explicar então a ansiedade dos peritos em relação ao futuro imediato?

    Eles estão ansiosos em relação ao futuro imediato, não porque venham aí os robôs e a quarta revolução industrial (isso pertence a um futuro não imediato), mas porque a economia mundial está inundada em quantidades gigantescas de dívida que, mais cedo do que tarde, provocarão um colapso financeiro em grande escala.

  3. Facto: nunca os peritos acertaram nas previsões de catástrofe.
    Grandes alterações nas economias desenvolvidas devem estar para acontecer,prevejo 5 anos; a minha aposta vai na esteira do rendimento minimo garantido para todo o cidadão, trabalhe ou não, seja grande ou pequeno…vamos a ver se a minha bola de vidro fosco funciona melhor que os tudologos de carreira.

  4. Hoje já poderíamos trabalhar 4 dias por semana, mas como temos a Democracia Social cada vez mais a mover-se para Democracia Totalitária logo somos obrigados a trabalhar 5 dias por semana.
    Pois o sistema todo vive da inveja para caçar votos, punindo quem cria, inventa, prospera.

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