O baixo valor das ambições


Luís Naves,

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A rebelião de bárbaros que alastra nos países ocidentais contra as elites políticas não devia surpreender tanto, o que verdadeiramente espanta é que esse mal-estar não seja maior. A crise de 2008 atingiu a vida de milhões de pessoas e foi provocada por erros que ainda não encontraram os seus culpados. Os super-ricos enriqueceram, fugiram aos impostos e estacionaram sem problemas o seu dinheiro em paraísos fiscais. A classe média pagou com língua de palmo: salários mais baixos em termos relativos, aumentos de impostos, serviços públicos degradados. As classes inferiores das sociedades industrializadas consideram-se as mais atingidas, pois enfrentam uma ameaça de extinção semelhante à do fim do Jurássico. Os seus postos de trabalho estão a desaparecer e acreditam que a nova classe de imigrantes deprime ainda mais os salários*.

Como se explica que vários países europeus se tenham endividado em silêncio, durante anos, não cumprindo de forma flagrante as regras da zona monetária a que pertenciam? Sabemos agora como foi o caso português: gastámos fortunas em auto-estradas de que não precisávamos, foram criados interesses especiais que beneficiavam de rendas milionárias quase eternas, os bancos arruinaram-se em negócios de regime e as empresas campeãs nacionais foram estoiradas em aventuras megalómanas. Tudo isto nos foi cuidadosamente escondido em sucessivas eleições onde votámos ingenuamente nos partidos responsáveis.

É menos flagrante, mas na Europa rica instalou-se a mesma sensação de declínio e queda. Os eleitores estão zangados. Muitos deles foram despedidos por serem velhos, não concluíram as suas carreiras e sabem que não vão ter direito a pensões decentes. E pagaram as pensões da geração anterior, com regras vantajosas que não será possível manter. Despedir um pouco antes do final da carreira, eis a melhor forma de resolver o problema das pensões futuras.

Muitos destes eleitores ficarão sem trabalho devido aos avanços tecnológicos e será muito pior com a inteligência artificial. Muitos destes eleitores não terão emprego porque o Estado já não emprega como antigamente. Muitos destes eleitores estão zangados com os resgates pagos com os seus impostos e com os custos crescentes de serviços que, no passado, eram gratuitos. Sobretudo, as pessoas tentam imaginar a sociedade futura e só encontram a parede das ameaças: dos mercados que não elegem, das dívidas que não fizeram, do emprego que será extinto amanhã, do salário que não sobe, dos impostos que nunca descem, dos cortes que não acabam, da mudança que nunca chega. “O valor de um homem é apenas tão elevado como o valor das suas ambições”, escreveu outrora o imperador romano Marco Aurélio. Talvez a frase se aplique à política de hoje e à menoridade aparente da ambição nas nossas sociedades e no nosso tempo.

 

*A questão é controversa: muitos trabalhadores olham para a vaga de imigração com desconfiança e votam de acordo com essa preocupação. Acreditam que os migrantes lhes estejam a tirar o trabalho. Não há provas de que isto seja assim, mas os defensores da imigração afirmam por seu lado que haverá vantagens económicas na vaga migratória, admitindo indirectamente o efeito potencial de depreciação de salários, pois continua a existir desemprego elevado em alguns dos países que estão a receber esses migrantes. Ou seja, a imigração vai ocupar postos de trabalho que estavam vazios por serem muito mal pagos, nem os desempregados locais os queriam por aquele salário, que se manterá assim sempre muito baixo.

No fim ganha a Alemanha


Luís Naves,

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Há uma hipocrisia sísmica nas sociedades contemporâneas, que em Portugal atinge um valor especialmente elevado na escala de Richter. Os políticos habituaram-se a ignorar com impunidade a vontade dos eleitores, mas passam o tempo a reclamar que é preciso escutar mais o povo. Os meios de comunicação destacam-se pela superficialidade e perderam a capacidade crítica, preferem o sensacionalismo e a histeria. Assim, a decisão dos eleitores britânicos de saírem da União Europeia não devia ser tão surpreendente e não admira que a cobertura do Brexit seja marcada por intervenções de tom apocalíptico.

As pessoas deixaram de acreditar em tantas promessas falhadas e catástrofes não concretizadas, preferem que os políticos as deixem em paz, o que abre caminho ao primeiro demagogo com língua de prata. Os cidadãos informados querem mudança e têm tido apenas desilusões. A opinião pública sente-se enganada e isso não é um fenómeno local. Dou apenas alguns exemplos: o presidente francês que prometia mudar o Tratado Constitucional foi o mesmo que aprovou leis laborais de direita, ou reformas estruturais, como agora se diz; o Syriza que ia partir a loiça meteu a viola no saco e é hoje um banal partido social-democrata que pratica a austeridade; a chanceler alemã que queria aceitar todos os refugiados envia-os agora para trás. Mas podia citar outros exemplos (em Portugal, Espanha) sobre a forma como os políticos em funções têm escondido a realidade, inventando fábulas convenientes que os levam ao poder, sabendo à partida que não poderão cumprir as promessas que fazem. Boris Johnson é apenas a mais recente aquisição deste pacote de vendedores de banha da cobra, (como é que ele vai descalçar a bota e evitar a saída a sério?) Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, acha que seria boa estratégia Portugal ameaçar Bruxelas com a realização de um referendo sobre a UE*. Talvez seja útil que alguns partidos de protesto e políticos demagogos consigam chegar ao poder: poderão mostrar como é que se faz e os eleitores vão fartar-se rapidamente deles. Infelizmente, isto só não é viável por causa dos estragos que fariam.

A política europeia actual é como aquele jogo táctico que vimos ontem na TV: tudo muito apertadinho e defensivo, antecipado por conversas intermináveis e o anúncio histérico de coisas sensacionais que depois se revelam uma sensaboria pegada. O que é verdadeiramente decisivo nunca se vê com clareza e aquilo que se vê é sempre elogiado pelos comentadores. Depois, surgem os peritos e explicam tudo tintim por tintim (por cada hora de futebol, há dez de explicação). Os orgulhosos vão mais cedo para casa. Isto é sobretudo para tácticos e para cínicos, exige paciência e jogo de cintura, golo no primeiro remate. A Europa continua, estejam descansados, embora seja cada vez mais complicada e sem margem de manobra. Os políticos vão continuar a vender ilusões e a culpar a sorte pelos maus resultados. Os meios de comunicação continuarão no plano inclinado da futilidade. Ah, e não resisto ao lugar comum: no fim ganha a Alemanha.

 

*A afirmação de Catarina Martins é delirante. Como mostrou o Brexit, o problema de um referendo está na possibilidade de haver uma resposta prejudicial. Portugal não tem qualquer condição para sair da UE sem cair num empobrecimento que seria sempre rápido. Como é que se pagavam os salários e pensões? Não somos uma potência como o Reino Unido, que exporta para todo o mundo, e somos muito mais pobres do que os ingleses. A afirmação pode ser radical, mas também pode ser um exemplo de bazófia lusitana: vamos lá e fazemos ameaças, pregamos um grande susto. Só que a chantagem e o bluff têm sempre o perigo do outro lado não se importar muito. A resposta mais provável seria ‘querem fazer referendo? força lá com isso’

O criador controla a sua criação


Luís Naves,

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Nas televisões nacionais, o Brexit parecia o fim do mundo. Mudávamos de canal, para estações estrangeiras, e havia um tom de seriedade e preocupação, mas sem histerias: a vida continuava. Os nossos jornais e redes sociais transbordam de catastrofismo ou de indignação. Lemos comentários a celebrar o fim inevitável da UE, essa coisa horrível que acabou com as nossas vidas e encontramos toneladas de textos sobre uma Europa que nunca existiu nem vai existir.

Em Portugal, à esquerda, cresce um discurso que retrata a UE como a tropa de choque do capitalismo e do poder financeiro, promotora da destruição económica, do empobrecimento geral e de políticas que os povos rejeitam. Esta tese delirante sustenta que o voto britânico representou a recusa do neo-liberalismo ou das barreiras à imigração. A Europa será a partir de agora obrigada a reformar-se num sentido que a fará mais solidária, terminando todos os muros e a asfixia da austeridade. Há outra versão: a União Europeia é um pesadelo burocrático que não serve para nada. Quem não obedecer, leva. Os países deixaram de mandar na máquina. O criador perdeu o controlo do monstro e ele anda pelas aldeias a assustar criancinhas.

Estas duas lendas ignoram os benefícios que o País obteve ao longo dos últimos 30 anos. Portugal nunca na sua História enriqueceu tão depressa, nunca se modernizou tão rapidamente. Recebemos uma montanha de dinheiro, transformámos a economia, há justiça, liberdade e segurança, a sociedade mudou em todos os sentidos. Hoje, exportamos facilmente para um mercado de 500 milhões de consumidores, circulamos sem limitações por um espaço geográfico gigantesco, temos investimento externo como nunca antes vimos, para não falar na adopção de leis modernas e da necessidade fundamental da estabilidade política. Sem Europa, o País seria muito mais pobre. O fim da UE representaria a destruição de centenas de milhares de empregos, a falência de milhares de empresas, o regresso ao caos político e ao endividamento crónico. E, apesar de tudo isto ser tão evidente, parece que uma parte do País deseja regressar aos tempos da Primeira República e outra parte aos tempos do orgulhosamente sós.

A UE tem deficiências? Claro que tem. O Brexit mostra algumas dessas falhas, obriga a pensar sobre as reformas de que a organização carece. Como escreve Luís Menezes Leitão, em post anterior, os países defendem os seus interesses nacionais. É por isso que a política europeia converge para o mínimo denominador comum, insuficiente para alguns desses interesses, excessivo para outros. Ao contrário do que afirma Marine Le Pen ou do que pensa Pacheco Pereira, a Europa é uma construção democrática controlada pelas suas nações e pelos seus eleitores. Os benefícios da UE são evidentes: paz, prosperidade e liberdade. E os críticos evitam sempre mencionar as obrigações das alianças e até chegam a confundir saídas com permanências. Humilhados e ofendidos? É exactamente o inverso: somos mais livres, mais ricos e estamos mais seguros.

 

Em outros blogues foram publicados excelentes textos que nos ajudam a reflectir sobre um assunto tão complexo. Destaco estes: Francisco Seixas da Costa aponta para a necessidade de haver prudência na atitude portuguesa perante as alterações ao projecto europeu; João Miranda escreve com ironia sobre o mesmo tema; um texto lúcido de Luís Rocha, a explicar o carácter liberal da UE; ainda este alerta de Carlos Guimarães Pinto, com a evolução das dívidas públicas e o que isso sugere sobre o que aí vem; finalmente, dois textos bem pensados em Quarta República, de Suzana Toscano e Margarida Corrêa de Aguiar.

Não será colapso, mas mudança: reflexões sobre o Brexit


Luís Naves,

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1

Os extremistas cavalgam o descontentamento e querem o fim da Europa, mas o seu triunfo é improvável. Nigel Farage, a figura mais tóxica da política britânica, foi um dos vencedores do referendo. O efeito dominó de consultas populares é uma possibilidade, mas isso implicaria o triunfo generalizado dos populistas e radicais. A exigência de fazer referendo em outros países parte de formações de extrema-direita e de partidos populistas mais preocupados com o seu crescimento eleitoral: vão ganhar em todo o lado? É evidente que não. Como refere Pedro Correia, no post anterior, a Europa não pode sobreviver governada por Marine Le Pen, Pablo Iglesias, Frauke Petri, Gábor Vona, Beppe Grillo, Geert Wilders, Norbert Hofer, mas quem quereria viver num local assim? A única verdadeira ameaça existencial para a UE será a vitória de Marine Le Pen nas presidenciais francesas da Primavera.

2

A saída do Reino Unido da UE é um processo de negociação que se adivinha difícil para os britânicos e levará talvez meia dúzia de anos (no mínimo, dois). É provável que haja uma crise financeira imediata e efeitos a curto prazo no investimento, na banca, no crescimento e no emprego, isto dos dois lados do Canal da Mancha. Pode até haver recessão, mas por agora não há alterações legislativas de fundo. A experiência de saída é inédita e terá efeitos visíveis: se esses efeitos forem insignificantes, então a saída de mais um país não constitui uma catástrofe; se forem acentuados, o exemplo britânico dirá aos outros países “não façam o mesmo”.

3

Os eleitores britânicos votaram por dois motivos, medo da imigração descontrolada e recuperação da soberania perdida. Isto sugere que os europeus deviam endurecer as políticas de imigração e tentar fazer reformas de devolução de poderes aos parlamentos nacionais. No fundo, em ambos os casos, as opções são limitadas. A primeira situação depende do acordo com a Turquia e não há muitos poderes que possam ser devolvidos.

4

Alguns autores, como é caso de Luís Menezes Leitão, em post anterior, explicam que a Europa tem o problema de ser uma construção de burocratas sem ligação aos eleitores ou respeito pela democracia. Na minha leitura, a UE é uma organização supranacional controlada pelos Estados que nela participam. As decisões mais importantes são tomadas pelo Conselho Europeu, órgão constituído apenas por líderes eleitos, que defendem interesses nacionais, também interesses colectivos, e que por isso respondem perante os seus eleitores.

5

A UE está a construir um mercado único gigantesco e há um elemento que os defensores da saída britânica não explicaram: como é possível que o Reino Unido continue a ter acesso total a esse mercado sem pagar a sua quota e mantendo a influência legislativa? A prazo, Londres perderá poder financeiro, terá de retirar os seus funcionários de Bruxelas e acabará por ter influência limitada nas decisões. Em relação ao défice democrático, também não há soluções mágicas: eleger o Presidente da Comissão? Criar um Senado? Dar mais poderes ao Parlamento Europeu? Tudo isto retira influência aos Estados.

6

Os eleitores ingleses convenceram-se de que o seu parlamento perdia poderes. Todos os países adoptam legislação europeia e os parlamentos têm um papel cada vez menor na definição das leis nacionais, sobretudo na área económica. Será que o parlamento britânico pode recuperar a influência perdida? Se o fizer, a legislação britânica divergirá profundamente da europeia, mas isso terá um custo, a perda progressiva de acesso ao mercado único europeu. Sem convergência legislativa, as empresas terão relutância em investir, o comércio com o resto da Europa será mais complicado, haverá menos empregos com ligação ao outro lado da Mancha. Este processo será lento, mas num único sentido. O Reino Unido fica mais independente, mas terá de procurar a sua prosperidade em mercados de outras paragens.

7

A Europa tem um problema imediato para resolver: as deficiências da moeda única. Há um conflito entre países em torno do cumprimento do Tratado Orçamental, do reforço da União Bancária e da definição de elementos de união política. Este último ponto significa reforço dos poderes do Eurogrupo (que não é uma estrutura tecnocrática, antes envolve ministros das finanças eleitos, que respondem perante os seus eleitores). Terá de haver escolhas imediatas: o TO é para ser cumprido? Os países deixam definitivamente de usar a banca para gerir interesses do momento, como se faz em Portugal? O Eurogrupo vai ter mais poder? Há alterações dos Tratados na área da moeda única? Os países que não se aguentam na zona euro saem dela?

8

O Reino Unido está fora da zona euro, mas a discussão anterior é mais fácil sem os ingleses, sobretudo na parte da banca. Também é mais fácil resolver a segunda crise, Schengen, que é neste momento a grande fonte de irritação dos eleitores europeus, por causa das migrações descontroladas do ano passado. É natural que haja alterações na posição da Alemanha e concessões do Grupo de Visegrad, mas esta negociação é difícil e os países de leste mostram grande ressentimento em relação à condescendência com que foram tratados no passado. A saída dos britânicos também torna mais fácil o fim das sanções à Rússia.

9

Imaginemos por um momento a Europa sem a UE. O mercado único entraria rapidamente em colapso, a livre circulação seria improvável e os países ricos recusariam pagar fundos estruturais aos pobres. A política agrícola comum seria extinta e muitos agricultores iriam imediatamente à falência. Para além da perturbação de todo o comércio, talvez não fosse possível assegurar a alimentação dos europeus. Haveria conflitos cada vez mais graves em torno de comida, direitos de pescas, energia, além de conflitos industriais, limitações à exportação de certos produtos, desemprego em massa, juros impossíveis, preços exorbitantes. Progressivamente, estes conflitos alastravam a questões étnicas e surgiam movimentos de libertação, culpabilização das minorias, fragmentação de países, o regresso lento aos velhos mecanismos do equilíbrio de poder. Seria mais um suicídio europeu: fronteiras fechadas, todos mais pobres, os loucos a tomar conta do asilo. Em resumo: é impensável.

10

A saída da periferia é uma coisa, outra bem diferente é o colapso desta aliança de nações. Sem União Europeia, que se baseia na definição de cedências de soberania, os países europeus serão irrelevantes a nível global. Separada da Alemanha, a França terá a sua independência ameaçada; separada da França, a Alemanha estará isolada. O interesse vital destes países é que a UE continue. Sem os ingleses na equação, serão reforçados os laços que unem o eixo Paris-Berlim. As regras do clube vão ser mais restritivas no núcleo duro e mais flexíveis na periferia. É humano, quando um exército se encontra em perigo, cerra fileiras e sacrifica as unidades que estão mais afastadas do campo de batalha e não podem ser ajudadas. Daqui a alguns anos, a UE será provavelmente uma construção a várias velocidades, com uma vanguarda de países muito integrados, uma periferia de países mais pobres e algumas nações associadas, entre elas a Inglaterra.

Uma opinião relevante


Luís Naves,

Este é sem dúvida um dos textos portugueses mais lúcidos que encontrei sobre o referendo britânico. Deve ser lido e relido. Dizendo modestamente que não está a fazer uma análise profunda sobre o tema, Francisco Seixas da Costa elabora na realidade um resumo intelectualmente exemplar do que pode ser o ponto de vista nacional sobre o acontecimento.

No referendo britânico, as sondagens sugerem empate entre os dois lados e a votação de quinta-feira pode decidir-se por uma quantidade minúscula de votos. Tudo isto parece ser demasiado à tangente para nos tranquilizar e, qualquer que seja o resultado, a história não ficará por aqui. Se o Brexit vencer por pequena margem, a negociação de saída, que levará anos, proporciona oportunidades de recuo. Se o Remain vencer por um punhado de votos, será uma questão de tempo até que regressem as dúvidas.

No texto de Seixas da Costa, o ponto que considero mais importante (e preocupante) é o sétimo, onde o autor menciona a eventual “refundação” europeia, com “purga do euro”. Portugal teria dificuldades em acompanhar esse desenvolvimento, que parece ser uma possibilidade independente do resultado do referendo. A vitória da permanência não vai desmobilizar os críticos da Europa, dentro e fora do Reino Unido, e as elites políticas sentem forte pressão para solucionar os problemas do projecto.

Sem a UE, a Europa seria um local muito mais caótico e perigoso, mas assim não entende uma franja crescente da opinião pública, cujo descontentamento é genuíno. Mesmo em Portugal, País que teve grandes vantagens com a integração, o eurocepticismo começa lentamente a tomar conta dos debates.

A engrenagem da insatisfação


Luís Naves,

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A crise teve um efeito devastador na insatisfação dos eleitores. Nas sucessivas eleições, começa a ser evidente que o eleitorado tem dificuldade na escolha e está indignado com as maquinarias políticas e os privilégios das elites. Nos Estados Unidos, os partidos tradicionais foram assaltados por rebeliões. O sistema da máquina republicana foi derrotado pela insurreição de Donald Trump e as elites democratas quase soçobraram aos ataques de um populista de esquerda, Bernie Sanders. Na Europa, estamos a assistir a votações com divisões ao meio, entre desafios populistas e sistema tradicional: nas presidenciais austríacas, o candidato da extrema-direita perdeu por 30 mil votos; em Espanha, que vota no domingo, o Podemos de Pablo Iglesias poderá obter um resultado que lhe permitirá formar governo; os populistas estão à beira de vencer a câmara de Roma; e quem ganhar o referendo britânico terá um punhado de votos a mais, insuficiente para o lado que sair derrotado.

Os eleitores andam zangados com a política do costume, mas não querem aventuras, pelo menos não as desejam com convicção. Isso é claro no caso britânico, onde a votação não será sobre a UE, mas sobre questões emocionais de identidade. As pessoas defendem mudanças, mas não querem revoluções. Os políticos tornaram-se irritantes e deixou de existir a alternância de antigamente, pois os chefes da oposição moderada têm agora a mesma carga negativa. O centro entrou em declínio. As pessoas sentem que é necessário fazer alguma coisa, mas ninguém sabe exactamente o quê, embora a ameaça dos partidos extremistas (à direita e à esquerda) não seja a solução mais viável, pois estes sectores não passam habitualmente de um quarto a um terço do eleitorado.

Os defensores do statu quo e os políticos experientes começam a ter dificuldades em ganhar eleições: a ligação ao poder tornou-se uma desvantagem. Emerge assim um padrão preocupante na Europa contemporânea: os empobrecidos querem rupturas, os jovens votam ao contrário dos idosos, as mulheres são ligeiramente mais à esquerda que os homens, há fragmentação do eleitorado em grupos complexos e homogéneos. Parece que a sociedade se transforma progressivamente numa auto-estrada com maior número de faixas. Na mais rápida, circulam os beneficiários da nova economia, mas há faixas para funcionários públicos, eleitorados rurais e urbanos, com velocidades diferentes para cada classe social, aliás, velocidades cada vez mais diferentes, a ponto de ser difícil ou quase impossível mudar de faixa. Na zona que devia ser apenas a mais lenta, o trânsito tornou-se infernal e passou a circular-se em contramão. Ali, as coisas estão em declínio e as pessoas sentem-se excluídas, sem emprego ou voz activa. Por isso, cada vez mais os descontentes desprezam as elites que os governam, mostrando sinais de certa raiva, sabendo que, para eles, isto começa a não ter saída.

Os excluídos


Luís Naves,

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As pessoas desconfiam cada vez mais daquilo que lêem e refugiam-se nos territórios da imaginação e do irreal. Tornou-se fácil detectar informação incompleta ou distorcida, mas também é trivial encontrarmos informação manipulada ou falsa. Nas democracias avançadas, a política tornou-se crispada e as divisões da sociedade estão à mostra. Tudo piorou com a crise financeira, que estilhaçou o equilíbrio da classe média e proporcionou a explosão da retórica populista, segundo a qual a opinião pública não deve confiar na informação disponível. Assim, na actual década, cresceu o fosso entre cosmopolitas e conservadores, entre defensores e críticos da imigração, entre globalistas e tradicionalistas. Hoje, contesta-se a livre circulação de dinheiro e o poder das elites. Muitos defendem a fragmentação da sociedade em condomínios privados, em oposição aos que querem impor determinados modelos obrigatórios de liberdade. Há ainda quem queira limitar o direito de opinião e nota-se o aumento da intolerância nas críticas a teses adversárias, o triunfo da linguagem politicamente correcta ou o uso e abuso do duplo critério na análise de qualquer assunto.

A política contemporânea parece impotente para combater o descontentamento: os poderosos mentiram-nos e escaparam com impunidade, a escada social é uma fantasia, a mudança é uma impostura, ganham sempre os fortes. E, apesar de tudo, a insatisfação popular tem limites: não destruam o nosso conforto mínimo, não mexam nos nossos melhores entretenimentos e não afectem o nosso futuro na velhice. Nessas condições, haverá desconfiança sem violência; as rupturas serão, no máximo, reversíveis e hesitantes.

As pessoas desconfiam cada vez mais daquilo que lêem e algumas delas vivem nas franjas de uma sociedade que as abandona ou ignora. Uma legião de excluídos habita em universos paralelos onde não se aplica a lei da realidade. Enfim, toda a gente terá porventura pensamentos com pequenas doses homeopáticas de universo paralelo, daí não viria mal ao mundo, mas alguns desgraçados habitam nos abismos da paranóia, cercados de hostilidade, no círculo vicioso das ilusões auto-alimentadas.

Argumentos sobre a eventualidade de Brexit


Luís Naves,

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1

Na opinião nacional há duas teses em relação à eventualidade do referendo britânico decidir a saída da UE. Uma delas é evidente neste texto de Sérgio Figueiredo, no DN: a Europa deve agir com dureza em relação ao Reino Unido. No lodo oposto, estão posições como a de Pedro Braz Teixeira, autor que admite a suspensão da reciprocidade para suavizar os termos da saída. As sondagens indicam que o referendo pode ser decidido por um punhado de votos, ou seja, se vencerem os defensores da UE, o problema vai colocar-se de novo dentro de poucos anos; se o Reino Unido sair por escassa diferença e isso se revelar um problema, é natural que no próximo ciclo político surja novo impulso para o regresso.

Ambos os autores dão como garantida a calamidade em caso de Brexit. Sérgio Figueiredo culpa o egoísmo dos britânicos, Braz Teixeira atribui a culpa aos excessos da integração e afirma que a UE não cumpriu o desígnio original, “garantir a paz na Europa e conter a Alemanha”, quando foi exactamente isso que a UE conseguiu. Em relação à segunda parte da frase, como não há maneira de testar o que seria a Alemanha sem UE, convém olhar para o registo histórico: o desequilíbrio veio sempre da Alemanha demasiado forte ou demasiado fraca; a actual situação é a mais favorável de sempre no equilíbrio de poder, a Alemanha não tem potências hostis nas fronteiras e não hostiliza nenhum vizinho.

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O Brexit será sobretudo perigoso se não for respeitado o voto popular. Se os ingleses querem sair, então isso deve acontecer, como dizem os Tratados: haverá uma complexa negociação de cinco ou seis anos para acautelar os interesses de todas as partes. Não será o fim do mundo, mas o início de um processo, com efeitos negativos potenciais a curto e médio prazo: desvalorização da libra, quebra do investimento e comércio, trapalhadas legais, nervosismo nos mercados, taxas de juro negativas para a dívida alemã. Negociar é um exercício de soberania, exige maturidade democrática.

O grande argumento da dureza negocial é um não-argumento: devemos ser duros com os ingleses para impedir outras saídas, matando à nascença qualquer veleidade de descontentamento. É uma ideia que infantiliza os eleitores, que estão exactamente fartos de políticos que os subestimam. Se franceses ou alemães quiserem sair, isso será o fim da organização, mas continua a ser uma escolha legítima (por improvável que seja). A decisão pertence ao eleitorado e ninguém tem o direito de exercer chantagem. É absurdo o erro de prejudicar uma negociação de saída só para assustar eleitores descontentes com os erros habituais dos políticos.

 

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O argumento oposto sugere a necessidade de parar a integração europeia para acautelar os interesses de um país que exerce o seu direito soberano. Se deseja sair, então que saia, mas sem meia-saída. A não reciprocidade da circulação no espaço europeu seria um resultado bizarro de cedência cujo fundamento era incompreensível para a opinião pública: os ingleses podiam instalar-se no Algarve sem restrições, mas os emigrantes portugueses no Reino Unido perdiam os direitos de cidadãos comunitários. Isto não faz sentido. Outro exemplo: o mercado único europeu continuará a aprovar legislação que o Reino Unido não adopta; Londres não pode sonhar que daqui a dez anos terá acesso total a esse mercado único: precisará de negociar acordos cada vez mais complicados ou adoptar legislação que não redigiu. Este afastamento não vai consumar-se de um dia para o outro, acontecerá lentamente.

Os britânicos vão votar em referendo sem discutirem estes detalhes, mas o problema é deles. O referendo tem motivações de política interna e, caso vença o Brexit, talvez os efeitos económicos obriguem o eleitorado a repensar a decisão de dia 23. Caso ocorra uma catástrofe imediata, há soluções democráticas para ajustar as novas circunstâncias. Se nada de especial acontecer, então a separação apenas reconhece que um determinado país pretende ter uma relação diferente com o resto dos seus parceiros.

 

Andamos muito distraídos


Luís Naves,

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Instalou-se entre nós a narrativa de que vivemos numa espécie de oásis, à margem das grandes complicações europeias. A obsessão pelo futebol contribui para nos distrair um pouco mais, como é evidente na indiferença com que recebemos as notícias recentes de Espanha. Aqui, no Delito, Diogo Noivo tem escrito sobre o tema, mas destaco este texto, que, a meu ver, toca no nervo das transformações europeias: os populistas  engolem o centro, não apenas em Espanha, mas em vários países. Os radicais (à esquerda e direita) só estão preocupados com a tomada do poder e é pena que este texto não tenha sido mais lido e citado.

A descoberta da flexibilidade ideológica permite ao Podemos mudanças de rumo e de táctica que, neste caso, colocaram esta força, aliada aos comunistas, no limiar dos 25%, à frente dos socialistas. Se houver governo de esquerda, o PSOE será a força menor da coligação; se os socialistas se aliarem à direita ou viabilizarem um governo do PP, o Podemos estará na oposição, a chefiar a esquerda e a esperar a sua próxima oportunidade. Com o centro esquerda cortado às postas, os populistas poderão “assaltar o céu”, como dizem.

Na direita, em países como Áustria e França, está a ocorrer um fenómeno semelhante. Os partidos da extrema-direita deslocaram-se para o centro, suavizando a sua retórica mais tóxica e parecendo aceitáveis para a classe média. Na Áustria, foi ultrapassado esse patamar transformador e os radicais são agora maiores do que o centro. Em França, os socialistas estão em dificuldades para manter a liderança da esquerda e os republicanos são desafiados à direita. Os populistas de extrema-direita avançam na Finlândia, na Holanda, na Suécia e na Dinamarca. Os de esquerda instalam-se na Grécia, Espanha, Itália. Prepara-se a hecatombe do centro nas eleições para o Parlamento Europeu, em 2019.

A gerigonça portuguesa parece um mecanismo de oásis, mas pode ser a antecipação destes problemas. Há quem coloque no mesmo saco os três partidos que apoiam o governo de António Costa e some as intenções de voto (dá o extraordinário número de 53%) sem acrescentar que dois desses partidos estão fora do governo e que, em caso de falhanço da aliança táctica, o PS corre o risco de perder muitos votos. É mais lógico somar BE e PC, o que dá 18% nas sondagens, ou seja, não estamos longe do resultado atribuído à coligação Podemos e IU em Espanha (25%). Se isto bater outra vez na parede, o cenário espanhol é mais do que possível entre nós, é altamente provável.

Abro os jornais e já não percebo as coisas de que eles falam


Luís Naves,

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Nos textos de opinião escorrem elogios ao poder, de súbito desapareceram os incompetentes, só há craques no governo e tudo corre às mil maravilhas. As crises são lá fora, em países onde se passam horrores (nem queremos falar disso, de tão horrível). Por aqui, deixou de haver desempregados, ninguém os menciona, terão todos arranjado emprego, como aliás regressaram muitos dos 500 mil que tinham emigrado, pois agora só se fala em 250 mil. A nossa crise acabou, há retoma tímida, é oficial, no que concordam jornalistas e intelectuais que muito justamente nos convenceram de que não houve bancarrota, mas uma calamidade inútil, imposta de fora, receita de engenharia social aplicada pelo governo da troika, anti-patriótico e cínico, que professava certa cartilha ideológica.

Sim, a crise acabou e não regressa, é um facto, podemos ignorar os poderes não-eleitos de Bruxelas, começar a rasgar os Tratados e aprovar moções parlamentares exigindo à Comissão que não aplique medidas previstas em textos ratificados pela mesma assembleia que assim vota contra si própria. Que fazer, se mesmo assim houver sanções? Francamente, não se deve pensar nisso: como em muitos outros tempos de negação, o mal vem de fora, eles não nos compreendem, sejam os burocratas, as agências de notação e os estupores dos mercados.

Os jornalistas fazem reportagem nas redes sociais e citam-se uns aos outros. A palavra crise saiu do dicionário. O partido no poder fez um congresso que, se fosse a direita, teria sido descrito como reunião albanesa, de negação da realidade, com fracturas internas à mostra; se fosse a direita, o líder estaria por um fio e as suas intervenções tinham sido patéticas; mas não era a direita, disseram-se coisas relevantes, foi um portento de organização e o partido vai no bom caminho, arrastando consigo uma nação agradecida.

Tudo começa a fazer sentido: vamos receber milhares de refugiados sírios (eles não querem vir, ainda não chegaram e de qualquer forma não ficam) mas protestamos contra a invasão de turistas que nos incomodam nos passeios, com o seu trote encantado e bolsas recheadas, e que nos interrompem o conforto, fazendo aumentar as rendas na cidade. Os turistas invadem os restaurantes, onde deixou de haver lugar para nós? Ocorrem cenas tumultuosas em inglês nas tabernas? Por isso, é justo que se baixe o imposto, para que os restaurantes fiquem suportáveis. Nos jornais, há muitas crónicas de como isto se tornou outra vez respirável, já não há notícias negativas, conflitos ou problemas. A geringonça é como os tuk-tuk, tornou-se parte da paisagem e avança por todo o lado, lá com os seus solavancos. Deixou de haver fome ou choro nos aeroportos, entrámos no tempo da esperança e da utopia, não importa a Europa ou a força da gravidade, deslizamos vagamente num sono hipnótico.

O enigma alemão


Luís Naves,

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Um líder alemão que chegasse ao poder em 2005 e projectasse o futuro do seu país para 2020 veria algumas perspectivas desoladoras e outras sombrias: declínio demográfico e envelhecimento rápido da sociedade, complacência em casa e incertezas no flanco leste, a Europa pouco interessada em aceitar a liderança de Berlim ou o reforço da integração, problemas de competitividade no horizonte, um país com dificuldades em abrir as portas à globalização ou ao multiculturalismo. Em 2020, a Alemanha teria dependência energética de tecnologias idosas e perigosas, taxas de crescimento medíocres, sistema político instável, comunidades fechadas, em resumo, seria uma bolha em declínio.

Não sei se estes elementos conduziram a actuação de Angela Merkel, mas muito do que ela decidiu na política interna, na crise financeira, nas dívidas soberanas, no caso da guerra na Ucrânia ou na recente crise migratória pode ter partido de cálculos de médio e longo prazo baseados nestes problemas. A chanceler tem sido pouco compreensível para os seus contemporâneos. Que Europa está a construir? Este é o grande enigma.

O facto é que a Alemanha, pela primeira vez, não tem qualquer potência hostil na sua fronteira. Os políticos não se cansam de dizer que pertencem à primeira geração de alemães nascida em paz e que vai morrer em paz. A Alemanha não aumenta mais depressa o orçamento militar porque iria alarmar todos os vizinhos, caso pagasse em defesa a percentagem do PIB pedida pela NATO. A Alemanha tinha um problema demográfico e aceitou em poucos meses mais de um milhão de imigrantes e refugiados; Merkel não parece ter dúvidas em elevar a fasquia dos muçulmanos no seu país, dos mais de 5% que existiam em 2009 (segundo estimativas consideradas fiáveis) para um valor muito mais elevado que, em 2020, pode facilmente ser superior a 10% da população, admitindo que o fluxo migratório é travado amanhã, o que é improvável, pois a Turquia exige a abolição de vistos para impedir a passagem dos migrantes, o que resulta em mais imigração turca.

 

2

A chanceler Merkel governa por consensos, reage sem pressa, é elitista e detesta populismos, faz alianças que prejudicam os partidos com quem se alia, tem amigos em governos europeus que deixa cair sem pestanejar, impõe aos aliados medidas que sabe serem politicamente impossíveis, parece ter entre as suas preocupações a ideia de que a Alemanha precisa de ser mais forte, mas apenas se conseguir nesse processo expiar as suas culpas históricas. Merkel não suporta desafios e tende a esmagá-los sem remorsos, prefere negociar no sussurro dos gabinetes e tem uma imagem pública de austeridade na forma, de ambiguidade na palavra, de ausência de humor, em contraste com o que se diz que ela é em pessoa.

A Alemanha que Merkel imaginou para 2020 é uma potência global, com população em crescimento, mão-de-obra qualificada, tecnologicamente inovadora, no topo da pirâmide de poder mundial. Isso implica uma Europa alemã que terá menos parecenças com Roma imperial e mais com a Grécia clássica; talvez seja uma gigantesca Suíça ou um mercado de vinho que passa a ser de cerveja, com muita variedade, mas de um produto tão simples que parece uniforme quando vamos além do rótulo. A Alemanha ficará rodeada de potências próximas: França, Itália e Polónia, acompanhadas por um punhado de pequenos países com direitos razoáveis, além de vários protectorados. As periferias do núcleo duro não serão importantes, a estabilidade representará o essencial, a NATO terá papel secundário, a rivalidade com a Rússia tornar-se-á intermitente, marcada por episódios regulares de abrandamento. Os Estados terão menos importância, as regiões serão a base da integração acelerada, sob liderança alemã: discreta, burocrática e pacifista.

O verdadeiro pesadelo não é o Brexit


Luís Naves,

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A publicação de sondagens que apontam para a possibilidade de Brexit sugere que a opinião pública britânica não se convenceu dos efeitos catastróficos da eventual saída do Reino Unido da União Europeia. Os defensores da permanência afirmam que o país tem muito a perder e que os efeitos na UE também seriam devastadores. É provável que tenham razão, mas não convenceram o eleitorado e o resultado do referendo é imprevisível. A possível saída britânica implica a reacção defensiva das potências da UE, que tenderiam a acelerar a sua integração. A Alemanha defenderia a criação de um núcleo duro que os países periféricos teriam ainda mais dificuldade em acompanhar. O Brexit é uma evidente ameaça para países como Portugal ou Grécia, que estão em situação frágil, mas não constitui um problema existencial para a União Europeia. Esta quererá encontrar uma solução a várias velocidades, com periferias menos ligadas a Bruxelas, talvez o avanço para uma espécie de confederação central.

A verdadeira crise existencial não será na eventual saída do Reino Unido, mas na próxima eleição presidencial francesa, na Primavera de 2017. Se as sondagens de Brexit forem confirmadas, a opção inglesa implica instabilidade económica que dará novos argumentos aos partidos extremistas em crescimento. A França é o verdadeiro ponto fraco da equação. A Frente Nacional de Marine Le Pen, excluída do sistema político, tem condições para aproveitar as várias crises simultâneas e pode facilmente ficar à frente na primeira volta das presidenciais. Se o seu adversário na segunda volta for um candidato republicano, como por exemplo Alain Juppé, o próximo presidente francês será um centrista capaz de se entender com a Alemanha. Juppé tem todas as condições para ser um óptimo presidente da França. A questão parece bem diferente se o adversário for um Bernie Sanders francês: Marine Le Pen pode vencer na segunda volta, engolindo parte do eleitorado republicano e centrista. A presidente Le Pen vai demolir o euro, contestar as políticas sobre refugiados e de integração dos muçulmanos e cumprirá a promessa de mudar o sistema político francês, de forma a que a FN não seja mais afastada do poder. A sua relação com a Alemanha será péssima e o eixo Paris-Berlim estará em perigo.

Ilusão de óptica


Luís Naves,

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Escrevo antes de ser conhecido o resultado das presidenciais austríacas, mas o candidato da extrema-direita, Norbert Hofer, tem ligeira vantagem antes da decisiva contagem dos votos por correspondência, que será feita hoje. Na rádio pública, de manhã, ouvi o historiador Rui Ramos a falar sobre o tema, fazendo uma amálgama de nacionalistas e defendendo a tese de que a eventual vitória de Hofer confirma a tendência já visível em outros países. Para o autor, Hungria, Polónia ou Áustria fazem parte do mesmo movimento populista-nacionalista*.

A explicação nacionalista para este empate eleitoral é um mito confortável, que nos impede de perceber o carácter inédito da possível vitória de Hofer. Seria a primeira vez que um candidato da extrema-direita vencia uma eleição na Europa a nível nacional. Hofer já é notícia: mesmo que perca, o que é mais provável, esteve demasiado perto de vencer. A extrema-direita finlandesa (Partidos dos Finlandeses) ficou em segundo lugar e está na coligação de governo; o Partido Popular dinamarquês ficou em segundo e apoia o governo; há exemplos de partidos de extrema-direita com 10, 12, 15% dos votos, mas até agora nenhum deles venceu eleições nacionais.

Em Portugal, o jornalismo continua a não compreender que Polónia e Hungria são governadas por conservadores que já antes estiveram no poder. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán (lidera o Fidesz) não tem nada a ver com a extrema-direita, representada por um partido chamado Jobbik, que está na oposição e que Orbán mantém fora do alcance de qualquer influência. A identidade entre os dois é um erro de análise.

Felizes por não compreenderem isto, os média portugueses estão agora a alimentar um curioso mito paralelo sobre a Polónia, fazendo a amálgama entre conservadores-católicos do partido no poder (que já governou em meados da década de 2000) e a extrema-direita europeia. Polónia e a Hungria contestam ruidosamente as quotas obrigatórias de refugiados, mas invocam a lei (a regra não existe nos Tratados europeus). Os dois países são apoiados pela Eslováquia e República Checa, cujos governos de esquerda nunca foram diabolizados, embora sejam semelhantes aos seus vizinhos.

A extrema-direita europeia (por exemplo, AfD alemã, DPP dinamarquês, FN francesa, Partido da Liberdade austríaco ou Partido Popular suíço) contesta a política de imigração e o multiculturalismo, baseia a ascensão eleitoral na péssima integração das comunidades muçulmanas, mas até agora não chegou ao poder em nenhum destes países. Se Hofer vencer, será a primeira vez que a extrema-direita ganha uma eleição importante e qualquer analogia com o leste é pura ilusão de óptica.

 

Actualização: Hofer foi derrotado pelo candidato da esquerda, Alexander Van der Bellen, eleito presidente da Áustria por 34 mil votos. Nunca um candidato de extrema-direita esteve tão perto de ser eleito num país europeu. A coligação do Governo, um bloco central entre cristãos-democratas e social-democratas, terá dificuldade em sobreviver até ao final de 2018, quando termina a legislatura. A extrema-direita conseguiu metade dos votos e o Partido da Liberdade, FPO, a que pertence Hofer, tem condições para vencer legislativas antecipadas. Aliás, quanto mais tempo se mantiver este bloco central fragilizado, com um primeiro-ministro não eleito, mais hipóteses a extrema-direita terá de vencer.  

 

*É outra conversa, mas não deixa de ser curioso perguntar se Angela Merkel e François Hollande não são nacionalistas? Não defendem primeiro os interesses dos seus países? Há nacionalismo bom e mau, forte e fraco? Onde está a fronteira? Aliás, de que nacionalismo se fala aqui, ou estamos a confundir o conceito com defesa da soberania? O referendo do Brexit é bom, mas se a Hungria referendar as quotas obrigatórias de refugiados, isso já é mau?

Fora de série (2)


Luís Naves,

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Vi pela primeira vez a série britânica Espaço 1999 a preto e branco e depois vi-a a cores, o que alterava muitos dos elementos visuais e a tornava (digamos assim) ainda mais espectacular. A primeira série de episódios era melhor do que a segunda e a minha visão juvenil, mais ingénua, é distinta da adulta. Não fixei os pormenores das histórias, mas lembro-me que alguns episódios agarravam ideias que lera nos pequenos volumes da colecção Argonauta. Sim, julgo que havia ali umas imitações. Claro que A Quinta Dimensão é muito melhor, Star Trek tem mais fama e vence na caracterização das personagens, nunca vi Outer Limits, dizem que é fantástica, e os alemães já tinham feito uma coisa parecida com a série inglesa, Orion, a Patrulha do Espaço, que só conheço do youtube. A velhinha ficção-científica de televisão tem muito que se lhe diga.

A questão das personagens é importante. Não há grande pachorra para o comandante Koenig e para a sua namorada, a doutora já-não-lembro-do-nome, não há paciência para o moralismo de algumas histórias, onde vemos Koenig a destruir civilizações inteiras em nome do politicamente correcto da época — não me refiro a 1999, mas a 1974. Aliás, em matéria de personagens, sempre preferi a Tania, que se não me engano fala pela primeira vez no episódio 8, para dizer, com forte pronúncia da Turíngia Ocidental: “Comandante, estamos a ser invadidos”. É uma das melhores deixas da televisão daquele tempo.

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Tania (no centro da imagem) é muito gira e fica bem naqueles fatinhos anos 70, com calças à boca-de-sino e as elegantes faixas coloridas no braço esquerdo; o vermelho fica-lhe a matar. Infelizmente, os produtores não tiveram dinheiro para lhe dar um papel mais relevante e ela desapareceu nos confins daquele universo. Esta minha visão de adulto cheio de carências afectivas não coincide com a minha observação a preto e branco, onde, confesso, a personagem Tania não existe. Sem cor, Espaço 1999 era uma boa ideia de princípio: uma base inteira, colocada na Lua, projectada para o exterior devido a uma explosão acidental que alterava a órbita do nosso satélite. As naves espaciais pareciam fantásticas e julgo que se mantêm possíveis como veículos lunares. Em princípio, a base talvez sobrevivesse a um problema daqueles, mas teria sido melhor uma fuga antes que a distância aumentasse.

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Do ponto de vista científico, a Lua não poderia viajar pelo espaço até outros sistemas (as distâncias são tão vastas, que levaria séculos, a aceleração não era suficiente sequer para o abandono do sistema solar), mas entretanto descobriu-se que poderá haver muitos planetas solitários, ejectados dos respectivos sistemas, que vagueiam pelo espaço vazio: talvez um deles tenha uma base Alpha com habitantes que, presos àquele destino solitário, ali tenham ficado a viver, mantendo frágeis estufas para produzir alimentos e oxigénio, centrais de energia e reciclagem dos seus pobres recursos. Teoricamente, é possível.

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O que não parece tão provável é a má liderança de Koenig, cujas frequentes histerias e crises místicas vão impedindo a base alpha de criar a sua própria civilização (não sei a razão, mas veio à memória este filme de Pabst, A Rainha de Atlântida), pois os habitantes da base tentariam recriar no meio do cataclismo uma vida própria, sem os laços que os ligavam ao mundo antigo, usando os territórios infinitos da imaginação e da nostalgia, ao serviço das enormes possibilidades da sobrevivência. Foi esta hipótese que me encantou e que me fez sonhar com outras histórias. E não será para isto que serve a ficção, para nos fazer inventar qualquer coisa de adicional?

Atolados


Luís Naves,

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O post de José António Abreu, mais abaixo, é claro: os números começam a ser alarmantes e não vão melhorar, pois a balança externa piorou, as exportações estão em queda e o investimento diminuiu. O crescimento do primeiro trimestre foi inferior ao esperado, apenas 0,8%, o que indica abrandamento. É só um trimestre, mas o conjunto mostra uma tendência preocupante. Perderam-se 48 mil empregos em três meses, mais de 500 por dia, e se o indicador subiu em termos homólogos, os números sugerem um repentino e severo efeito social, pois estão a ser destruídos empregos por conta própria e pouco qualificados, de trabalhadores que terão dificuldade em regressar ao mercado laboral.

Portugal parece um sonâmbulo que se junta a outra hipnotizado, a Grécia, e as taxas de juro mostram que está por um fio a frágil credibilidade que levou anos a construir. Embora esteja preso a compromissos que não pode cumprir sem entrar em conflito com os credores europeus, o Governo aumenta a despesa pública e tenta cobrir essas verbas com aumentos de impostos. A almofada que herdou já se esvaiu e o debate político continua a ignorar os problemas na base desta crise, que dura desde 2009.

Os credores vão exigir cortes na despesa e, nesse contexto, o acordo entre partidos de esquerda não tem viabilidade. A crise rebentará provavelmente na altura em que for discutido o próximo orçamento, quando o País não pode ir para eleições, pois ficaria paralisado durante meses. E como é que será aprovado um orçamento com cortes na despesa impostos pelo Eurogrupo?

Isto vai correr mal, só não sabemos exactamente quando. O PS formou um governo minoritário que tem de fazer reformas difíceis e tomar decisões inevitáveis, mais apropriadas a um bloco central. António Costa deseja eleições, para formar um Executivo estável com o PSD, que possa ser ele a liderar, aposta que prejudica os partidos da esquerda que o apoiam. Aliás, no futuro (e tal como aconteceu em Espanha com Podemos e IU), comunistas e bloquistas terão de se entender. Enfim, não há acordo que resista à contradição dos interesses do PS e dos outros dois partidos, mas sobretudo não há acordo que resista à necessidade de cortes na despesa pública. Basta ler os comentários revolucionários que se multiplicam nas redes sociais para perceber como tudo isto criou uma crispação lírica na sociedade portuguesa, que lembra (em escala menor) outros tempos. As sondagens, neste caso, também são inúteis, pois referem-se a um cenário que não existirá em eleições: após a queda do Governo e a discussão dos seus motivos, as intenções de voto serão muito diferentes.

O regresso do fascismo


Luís Naves,

 

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1

A esquerda intelectual insiste na tese de que os problemas europeus se devem ao crescimento de forças fascistas, explícita neste texto de Rui Tavares, no Público. A ideia surge sob formas menos sofisticadas em muitos comentários e até informação que passa por noticiário. Os tais fascistas são os suspeitos do costume, chefes de governos de leste ou líderes partidários de democracias estabelecidas, misturando-se conservadores e populistas, extrema-direita e uma legião internacional que inclui islâmicos otomanos e nostálgicos da ditadura militar brasileira.

Esta amálgama tem um problema de base: no fundo, trata-se de mais uma tese negacionista, pois se alguns destes dirigentes são fascistas, então, pensarão os distraídos, o verdadeiro fascismo não foi assim tão grave. Na lista de Tavares há políticos que aceitam resultados eleitorais, estão habituados à oposição, gostam de ir a votos, não usam uniformes, não defendem a ideia de partido único, expansões coloniais ou genocídios. Um dos exemplos apontados ganhou (se não me engano) treze eleições consecutivas, no poder e na oposição; outro é católico.

O autor mistura coisas diferentes, para concluir “que o fascismo está aí de novo, com novos nomes e caras”. Na sua opinião, há forças demagógicas e autoritárias que apostam no “colapso da democracia” e do projecto europeu, pervertendo o “jogo democrático” e promovendo interesses “que são os do poder, do egoísmo e do ódio”. Concordo no que respeita ao eventual fim do projecto europeu: será uma calamidade, mas julgo que a maneira mais rápida de destruir a Europa é conseguir diabolizar as escolhas legítimas do eleitorado ou criar patamares de correcção política. A União Europeia é uma aliança de nações e a soberania nacional está na sua base, muito mais do que ideias de moralidade sobre a latitude dessa soberania.

 

 

 

2

A ascensão de partidos populistas e nacionalistas é um sintoma de mudança no estado de espírito de uma parte do eleitorado, dependendo a respectiva fatia do impacto social que a Grande Recessão e a Crise Migratória tiveram em cada país. Os partidos burgueses do centro tradicional não parecem ter respostas convincentes para a estagnação económica e para a saída desta crise sem fim, mas a esquerda populista também não tem, como mostra a Grécia. Há uma reacção nervosa de muitos europeus aos efeitos negativos da globalização, ao poder da finança, ao desemprego, a um fluxo migratório descontrolado onde uma parte do público vê ameaças que as elites se recusam a ver.

A nova economia atinge sobretudo trabalhadores pouco qualificados, num efeito cada vez mais rápido. Para constatar isto, basta olhar de forma crítica para as estatísticas nacionais sobre emprego, outra conversa contaminada, pois em Portugal, por milagre, o desemprego desapareceu de repente (era uma desgraça, povo que lavas no rio as tábuas do teu caixão, hoje já não interessa).

A tese do reaparecimento do fascismo não nega apenas os horrores dessa ideologia totalitária, mas no fundo tenta descrever os eleitores contemporâneos como idiotas: a direita vem do fundo dos infernos, a esquerda é moralmente superior. Rapidamente chegaremos à ideia de que uma pessoa que vote nos populistas será um mau cidadão ou que a democracia deve proibir certos votos e certos partidos.

Em Portugal, no final de 1974, quando começou o processo de radicalização revolucionária, muitos defendiam que as eleições deviam realizar-se apenas depois da reeducação política do povo. Os jornais estavam cheios de textos a lamentar que os ‘partidos fascistas‘ exigissem eleições; havia artigos onde se escrevia que o povo era reaccionário e, portanto, não devia votar antes de se garantir que votasse na revolução. Se a reacção votaria sempre no ‘fascismo’, então para quê votar? Assistimos agora a uma tese semelhante, da necessidade de reeducar o povo europeu, que tem pouco discernimento em relação à Europa futura: a UE de amanhã terá patriotismos bons e maus, o populismo da esquerda será moralmente aceitável. Fazer com que os bancos paguem a crise passa a ser proibido a governos de direita, mas desejável do outro lado. Os países membros de menor dimensão deverão submeter-se à vontade das potências, mas apenas quando esta vontade for nobre. Teremos menos burocracia e papel, mas os não-eleitos de Bruxelas poderão rectificar parlamentos eleitos. O moralmente correcto (definido pelas redes sociais) estará acima da vontade dos povos e haverá eleições e eleições.

 

Desta vez é diferente


Luís Naves,

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Lendo jornais antigos descobrem-se pérolas de jornalismo provinciano, com títulos sobre organizações europeias em crise, dizendo que tudo ameaçava ruir por razões comerciais obscuras. Compreende o leitor contemporâneo que estes alarmes permitiam desviar a atenção das loucuras nacionais e eram escritas por jornalistas que não compreendiam a importância do projecto europeu para os países que o integravam. O facto é que as crises europeias são hoje diferentes das antigas. Escrevi, aqui e em outros locais, sobre os problemas da Europa e fui geralmente optimista. Confesso que em Setembro do ano passado mudei de perspectiva: desta vez, as divisões são mais sérias.

As intenções da Alemanha deixaram de ser claras e parece que Berlim hesita entre a construção de um núcleo duro dominado pelos alemães e a manutenção de uma Europa alargada que não controla totalmente. O euro não pode ser mantido por todos os países, mas também não pode acabar sem criar devastação económica. A crise migratória ameaça estilhaçar as sociedades europeias, mas também não é possível abandonar os refugiados sírios e deixá-los morrer às mãos dos facínoras. Para mais, há choques frontais entre soberania e solidariedade, entre os intelectuais e os seus leitores. A Rússia tenta explorar as fraquezas, as reformas económicas parecem impossíveis, os partidos extremistas continuam a crescer, o terrorismo islâmico anda à solta e a ansiedade dos trabalhadores em relação ao futuro do emprego é óbvia. As elites parecem baratas tontas e inventam metáforas assustadoras (quando os pneus da bicicleta não têm ar, o viajante não deve pendurar-se em cima dela).

Sobre isto, paira a inesperada incógnita americana. Donald Trump mais parece um pesadelo no meio do desastre. O seu isolacionismo representaria uma hecatombe para a Europa (a coisa mais suave que ele diz sobre o tema é que se a Alemanha quer protecção, então que a pague, o que significa aumentar verbas da defesa e, se é permitido o corolário, com um presidente Trump, ser membro da NATO implica pagar as quotas (pelo menos 2% do PIB). Isto muda tudo, não é assim?

Trump dificilmente vencerá Hillary Clinton, mas o isolacionismo é forte também do lado democrata, onde o candidato Bernie Sanders tem uma retórica populista em vários temas semelhante à de Trump, nomeadamente na maneira como a América deve ver o mundo, as suas alianças, o comércio livre e a circulação global dos capitais. Uma América fechada sobre si própria (basta Sanders influenciar as promessas de Hillary) representará uma Europa amedrontada, com tendência para cada um tratar de si. O genial filme de Howard Hawks Rio Bravo pode ser interpretado como uma descrição da complexa relação entre dois poderes, a Europa e América: John Wayne, o forte, e Dean Martin, que atravessa um período difícil. Era assim nos anos 50, mas podemos imaginar a sequência da história (há um conto de Mega Ferreira que o faz). Na minha versão, a personagem de Martin parou de beber, conseguiu prosperar como ajudante de xerife, chegou a ter influência na cidade, recuperou a reputação de pistoleiro, mas caiu recentemente em grande dúvida existencial, sem saber o que fazer da vida, a personalidade sob ameaça de fragmentação. E, francamente, John Wayne pode ser substituído em breve por um xerife falador, que promete uma nova política anti-índios mais alucinada, sem qualquer benefício para o equilíbrio do oeste selvagem.

Exercício de imaginação felizmente especulativo


Luís Naves,

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Querido diário: 1 de Agosto de 2016
Os britânicos votaram a favor do Brexit e as negociações de saída estão complicadas. O Eurogrupo entrou em ruptura com a Grécia e o governo grego foi incapaz de impor medidas adicionais de austeridade, sendo inevitável o incumprimento, eleições antecipadas e saída do euro. A Grécia está por estas semanas a ser pressionada por uma nova vaga de refugiados, dezenas de milhares, que a Turquia deixa passar de forma cínica, na sequência do fracasso do acordo com a União Europeia: sem facilidades nos vistos e sem o dinheiro prometido, Erdogan perdeu a paciência e responde assim às críticas dos líderes europeus, abrindo a torneira dos campos e ameaçando largar três milhões de pessoas em direcção à Europa.
A Itália também enfrenta uma inesperada vaga de migrantes vindos do norte de África, sobretudo da Líbia, com a melhoria do tempo a permitir perigosas travessias do Mediterrâneo. Os rumores de problemas na banca italiana estão a provocar perturbações. Apesar de ser Agosto, os mercados andam nervosos. A Áustria está a ser muito criticada, por eleger um presidente de extrema-direita, e a Polónia (imitando a Hungria) anunciou um referendo sobre quotas obrigatórias de refugiados, parecendo imune às ameaças de expulsão. A Comissão Europeia concretizou as suas propostas de impor multas a países de menor dimensão, começando a retirar fundos comunitários, usando pretextos como a não solidariedade, isto num clima em que cada um ergue barreiras físicas na fronteira, para impedir a passagem dos migrantes. Ah, já me esquecia: a Espanha não consegue formar governo, a segunda votação foi igual à primeira.
Num único país, Portugal, tudo vai bem, com a geringonça a carburar, maravilhosamente oleada por uma liderança visionária e apoiada por uma imprensa disciplinada. Num único oásis europeu há discussões relevantes sobre futebol, liberalismo, cartões de cidadão, inaugurações, como bater o pé à Europa, austeridade substituída por restrições, coisas a sério, nada provincianas.

Aumentam as incertezas


Luís Naves,

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As sondagens indicam que o eleitorado britânico está profundamente dividido sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, pelo que o resultado do referendo de 23 de Junho é uma perfeita incógnita. Os defensores da saída tentam resistir à ideia central da campanha a favor da permanência, dizendo que o adversário agita papões e não haverá nenhuma calamidade económica se o eleitorado escolher sair. Para já, parecem ter conseguido inverter a tendência que se verificava a favor do ‘sim’, que chegou a ter uma dezena de pontos percentuais de vantagem: agora, as sondagens apontam para um empate entre as duas forças ou mesmo ligeira vantagem do ‘não’.

O Reino Unido terá provavelmente muito a perder com o Brexit: influência internacional, dificuldades no acesso ao mercado único, negócios na sua praça financeira e até a unidade britânica, pois o ‘não’ estimulará os defensores da separação escocesa. As vantagens são pouco claras, mas os defensores do Brexit contestam sobretudo os poderes não eleitos da burocracia comunitária. No fundo, dizem em volta alta aquilo que em outros países se começa a murmurar em voz baixa: o projecto comunitário está a entrar em domínios de soberania nacional onde era suposto não possuir poderes. As excepções negociadas por Londres não parecem suficientes para os políticos que se opõem à UE, embora muitos tenham a ilusão de que poderão, depois do Brexit, negociar um entendimento que lhes permita manter o filet mignon do acesso ao mercado único sem nenhum dos ossos associados, nomeadamente a complexa harmonização legislativa comunitária.

O próximo mês será de alta ansiedade. Às incertezas do Brexit junta-se uma nova fase da crise na Grécia, que estará de novo no limiar da saída da zona euro. As dificuldades gregas, onde o Governo do Syriza caminha sobre o fio da navalha (tem uma frágil maioria parlamentar), mostram que a crise financeira ficou por resolver. A própria União Europeia enfrenta uma crise existencial, consequência dos incompreensíveis erros que Berlim cometeu na crise dos refugiados. Era evidente que a Europa não podia receber 1,5 milhões de pessoas em poucos meses e que não poderá receber outro tanto este ano. Os países vão ser obrigados a fechar as fronteiras ou, se o não fizerem, terão de receber uma quantidade de migrantes impossível de gerir. A Alemanha apostou numa política moralista que visava expiar pecados do passado e criou uma fractura europeia que promete ser difícil de reparar. Em cada país afectado, engrossam as forças demagógicas, populistas ou extremistas. Isto é só o começo.

Pesada factura


Luís Naves,

Tendo em conta o resultado da primeira volta das presidenciais austríacas, a crise dos refugiados promete fazer muitas vítimas na política europeia. O vencedor da votação foi Norbert Hofer, com 36%, candidato apoiado pelo maior partido de extrema-direita (FPO) e que cavalgou o descontentamento popular com as hesitações governamentais na questão migratória. O seu adversário na segunda volta será um independente apoiado pelos Verdes, Alexander van der Bellen, que conseguiu 20%. A grande coligação de governo, semelhante à alemã (social-democratas e democratas-cristãos), foi humilhada: juntos, os candidatos do SPO e OVP somaram uns meros 22%.

Um sismo político já tinha atingido a Eslováquia a 5 de Março. A campanha das legislativas foi dominada pela questão dos refugiados, mas apesar de ser contra quotas europeias, o primeiro-ministro Robert Fico esteve perto de ser derrubado, por não ter uma posição suficientemente radical contra Bruxelas. O maior partido de centro-esquerda perdeu 18 pontos percentuais e foi forçado a organizar uma coligação instável. Uma formação tóxica de extrema-direita teve 8%. Somado este voto ao dos ultra-nacionalistas e populistas, o eleitorado eurocéptico representa um quarto do total e um dos três partidos anti-europeus entrou no executivo.

A irritação popular é evidente. Muitos eleitores pensam que não foram respeitadas as suas opiniões na crise dos refugiados, como não têm sido respeitadas as suas opiniões em relação aos efeitos negativos da globalização. Os populistas estão a avançar em cada nova sondagem ou eleição e assistimos ao aparecimento de figuras radicais. Infelizmente, em Portugal continua a pensar-se que estes países já não são democracias, basta ler as lamentáveis fantasias que se escrevem sobre Hungria ou Polónia, numa discussão que usa apenas argumentos de moralidade, que é a melhor maneira de encerrar qualquer debate logo de início. A Europa Central sentiu a crise de refugiados como nós não sentimos. Os eleitores austríacos concordaram com a tese de que a entrada súbita de dezenas de milhares de migrantes será uma catástrofe social, pois não há maneira de integrar tanta gente, “meio mundo” na propaganda de Hofer. As elites ignoraram os avisos, quiseram pôr-se do “lado certo da história” e, perante uma realidade em descontrolo, fizeram emendas piores que o soneto. Agora, chega a factura política e continuaremos a ler belas análises sobre como ignorar o óbvio “erro” dos eleitores.