O verdadeiro pesadelo não é o Brexit


Luís Naves,

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A publicação de sondagens que apontam para a possibilidade de Brexit sugere que a opinião pública britânica não se convenceu dos efeitos catastróficos da eventual saída do Reino Unido da União Europeia. Os defensores da permanência afirmam que o país tem muito a perder e que os efeitos na UE também seriam devastadores. É provável que tenham razão, mas não convenceram o eleitorado e o resultado do referendo é imprevisível. A possível saída britânica implica a reacção defensiva das potências da UE, que tenderiam a acelerar a sua integração. A Alemanha defenderia a criação de um núcleo duro que os países periféricos teriam ainda mais dificuldade em acompanhar. O Brexit é uma evidente ameaça para países como Portugal ou Grécia, que estão em situação frágil, mas não constitui um problema existencial para a União Europeia. Esta quererá encontrar uma solução a várias velocidades, com periferias menos ligadas a Bruxelas, talvez o avanço para uma espécie de confederação central.

A verdadeira crise existencial não será na eventual saída do Reino Unido, mas na próxima eleição presidencial francesa, na Primavera de 2017. Se as sondagens de Brexit forem confirmadas, a opção inglesa implica instabilidade económica que dará novos argumentos aos partidos extremistas em crescimento. A França é o verdadeiro ponto fraco da equação. A Frente Nacional de Marine Le Pen, excluída do sistema político, tem condições para aproveitar as várias crises simultâneas e pode facilmente ficar à frente na primeira volta das presidenciais. Se o seu adversário na segunda volta for um candidato republicano, como por exemplo Alain Juppé, o próximo presidente francês será um centrista capaz de se entender com a Alemanha. Juppé tem todas as condições para ser um óptimo presidente da França. A questão parece bem diferente se o adversário for um Bernie Sanders francês: Marine Le Pen pode vencer na segunda volta, engolindo parte do eleitorado republicano e centrista. A presidente Le Pen vai demolir o euro, contestar as políticas sobre refugiados e de integração dos muçulmanos e cumprirá a promessa de mudar o sistema político francês, de forma a que a FN não seja mais afastada do poder. A sua relação com a Alemanha será péssima e o eixo Paris-Berlim estará em perigo.

0 comentários em “O verdadeiro pesadelo não é o Brexit”

  1. ” A possível saída britânica implica a reacção defensiva das potências da UE, que tenderiam a acelerar a sua integração.” Discordo, caríssimo Naves!!
    Um eventual, mas improvável, Brexit seria, sem dúvida, a machadada final na desconstrução fenomenológica do Estado Nação. Acelerará a desconstrução da já frágil autoridade da Comissão Europeia. Devolverá ao centro dos Estados a redefinição da Europa. Apenas os mais dependentes ficarão reféns, mas sem subtilezas!!
    Quanto à França, sim, sem dúvida!! Não há Europa ou projecto Europeu sem a França!
    Sem o Reino Unido não sei se a Alemanha e a França quererão carregar o resto da Europa às costas. O efeito de corrosão da vontade será assinalável!

    1. Um filme muito tendencioso.
      Uma das “pérolas” dos defensores do brexit: “vejam-se as taxas de crescimento da China e comparem-se com as do UK, e é evidente onde preferimos estar” (!?)

  2. Analise que subscrevo; as especificidades dos bifes só aumentam e incentivam a desunião com os calinas a acharem que devem “bater” o pé ao que aprovaram nos tratados.
    Aquela do camarão, num intervalo do conselho da UE vir dar uma conferencia, não lembra ao mais hipócrita do mundo.

  3. As gerações mais experientes querem manter a sua Britânea.
    As mais novas oscialam e são o trunfo dos europeístas.
    Quanto à “integração dos muçulmanos” o futuro é a islamização da europa, graças à incultura e oportunismo fácil dos liders europeus.

  4. A saída do RU nunca será uma catástrofe para a UE ou para o RU. O RU tem a Commonwealth, um mercado alargado e gigantesco. Porém a UE não tem nada sem ela mesma.
    A questão do eixo Berlim-Paris é um fait-diver, pois não existe eixo. Existe, sim, um interesse mútuo no plano financeiro que fez com que a França, para evitar um colapso de grandes proporções no seu sistema bancário, aderisse a certas políticas alemãs que centrava seus esforços no mesmo tipo de objectivo.

    Por outro lado, a questão dos periféricos, Grécia, Portugal, Espanha e a própria França, são um factor de estabilidade para os países da Europa do norte e central que também se encontram a braços com as tensões nos Balcãs. Ignorar a importância estratégica destes países no contexto de segurança europeu é reflectir uma visão naif do panorama geopolítico que se vive.

    O federalismo é um modelo que nunca se atingirá, na medida em que as políticas futuras serão direccionadas para a defesa comum e para os equilíbrios económico-sociais que devem ser potenciados em cada país.

    A UE não passou de um ingénuo ensaio ideológico que foi controlado por interesses que emergiram com a queda do muro de Berlim. Significa isto que o discurso era bonito mas as mãos que trabalhavam nos bastidores eram bem sporcatas.
    Só líderes ingénuos, como eram os dos anteriores governos (PSD/CDS e PS de Sócrates), é que acreditavam que em tempo de seca as vacas dão leite. Quando muito dão leite em pó, mas insuficiente para ser convenientemente diluído.

  5. Não estou a ver um Sanders francês. Com as devidas adaptações, só mesmo o pobre Melenchon, que não tem a capacidade de empolgar do americano. Juppé é um forte hipótese: é popular, experiente, tem sentido de estado e poderá beneficiar das contas com ajustiça com que Sarkozy anda Às voltas.

  6. O Brexit não será o fim do mundo , o RU não faz parte do euro , não faz parte do espaço schengen e nem por isso vai deixar de existir se deixar a UE. Confederação central ? Bom….. A UE é grupo maior dentro deste grupo maior existe outro grupo que é “Zona Euro” , na qual compartilhamos o mesmo Banco na qual chamamos o Banco Central Europeu ( BCE) que dita as regras da politica económica da “Zona Euro” , por isso não só se resolve com uma “simples” reforma da UE , estamos articulados quer queiramos quer não a uma “Zona Euro” que nos impõe restrições a nível da politica económica comum a todos os países que pertencem essa “Zona Euro”.Em relação a França tenho para mim mais tarde ou mais cedo a Marine Le Pen vai ganhar é uma questão de tempo , se não é nas próximas eleições é nas próximas que houver , porque fosso em que está metido a França desde crise sociais , crise desindustrialização , desde crise da não aceitação da globalização vai se manter , a não ser que haja mudança radical na politica da UE nos próximos 4 anos , mas como não vejo isso é só esperar……

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