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A esquerda intelectual insiste na tese de que os problemas europeus se devem ao crescimento de forças fascistas, explícita neste texto de Rui Tavares, no Público. A ideia surge sob formas menos sofisticadas em muitos comentários e até informação que passa por noticiário. Os tais fascistas são os suspeitos do costume, chefes de governos de leste ou líderes partidários de democracias estabelecidas, misturando-se conservadores e populistas, extrema-direita e uma legião internacional que inclui islâmicos otomanos e nostálgicos da ditadura militar brasileira.
Esta amálgama tem um problema de base: no fundo, trata-se de mais uma tese negacionista, pois se alguns destes dirigentes são fascistas, então, pensarão os distraídos, o verdadeiro fascismo não foi assim tão grave. Na lista de Tavares há políticos que aceitam resultados eleitorais, estão habituados à oposição, gostam de ir a votos, não usam uniformes, não defendem a ideia de partido único, expansões coloniais ou genocídios. Um dos exemplos apontados ganhou (se não me engano) treze eleições consecutivas, no poder e na oposição; outro é católico.
O autor mistura coisas diferentes, para concluir “que o fascismo está aí de novo, com novos nomes e caras”. Na sua opinião, há forças demagógicas e autoritárias que apostam no “colapso da democracia” e do projecto europeu, pervertendo o “jogo democrático” e promovendo interesses “que são os do poder, do egoísmo e do ódio”. Concordo no que respeita ao eventual fim do projecto europeu: será uma calamidade, mas julgo que a maneira mais rápida de destruir a Europa é conseguir diabolizar as escolhas legítimas do eleitorado ou criar patamares de correcção política. A União Europeia é uma aliança de nações e a soberania nacional está na sua base, muito mais do que ideias de moralidade sobre a latitude dessa soberania.
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A ascensão de partidos populistas e nacionalistas é um sintoma de mudança no estado de espírito de uma parte do eleitorado, dependendo a respectiva fatia do impacto social que a Grande Recessão e a Crise Migratória tiveram em cada país. Os partidos burgueses do centro tradicional não parecem ter respostas convincentes para a estagnação económica e para a saída desta crise sem fim, mas a esquerda populista também não tem, como mostra a Grécia. Há uma reacção nervosa de muitos europeus aos efeitos negativos da globalização, ao poder da finança, ao desemprego, a um fluxo migratório descontrolado onde uma parte do público vê ameaças que as elites se recusam a ver.
A nova economia atinge sobretudo trabalhadores pouco qualificados, num efeito cada vez mais rápido. Para constatar isto, basta olhar de forma crítica para as estatísticas nacionais sobre emprego, outra conversa contaminada, pois em Portugal, por milagre, o desemprego desapareceu de repente (era uma desgraça, povo que lavas no rio as tábuas do teu caixão, hoje já não interessa).
A tese do reaparecimento do fascismo não nega apenas os horrores dessa ideologia totalitária, mas no fundo tenta descrever os eleitores contemporâneos como idiotas: a direita vem do fundo dos infernos, a esquerda é moralmente superior. Rapidamente chegaremos à ideia de que uma pessoa que vote nos populistas será um mau cidadão ou que a democracia deve proibir certos votos e certos partidos.
Em Portugal, no final de 1974, quando começou o processo de radicalização revolucionária, muitos defendiam que as eleições deviam realizar-se apenas depois da reeducação política do povo. Os jornais estavam cheios de textos a lamentar que os ‘partidos fascistas‘ exigissem eleições; havia artigos onde se escrevia que o povo era reaccionário e, portanto, não devia votar antes de se garantir que votasse na revolução. Se a reacção votaria sempre no ‘fascismo’, então para quê votar? Assistimos agora a uma tese semelhante, da necessidade de reeducar o povo europeu, que tem pouco discernimento em relação à Europa futura: a UE de amanhã terá patriotismos bons e maus, o populismo da esquerda será moralmente aceitável. Fazer com que os bancos paguem a crise passa a ser proibido a governos de direita, mas desejável do outro lado. Os países membros de menor dimensão deverão submeter-se à vontade das potências, mas apenas quando esta vontade for nobre. Teremos menos burocracia e papel, mas os não-eleitos de Bruxelas poderão rectificar parlamentos eleitos. O moralmente correcto (definido pelas redes sociais) estará acima da vontade dos povos e haverá eleições e eleições.


Por sorte nossa, vozes de burro não chegam ao céu.
Tanta prosa sobre os malefícios de muitos na UE , apesar de ser um entretimento idêntico ao de dizer mal do cavaco, devia merecer ponderação dos tudologos de pacotilha.
Escolhas legítimas do eleitorado?!
Na Europa simplesmente não há escolhas, nem legítimas, nem ilegítimas.
O liberalismo selvagem pura e simplesmente sequestrou a democracia.
Ponto.
João de Brito
Paga-se 50% ou mais de impostos e o Brito diz que estamos no Liberalismo. Patético.
És uma personagem do 1984, um produto do newspeak? Ou “simplesmente” um marxista desonesto? passe o pleonasmo.