Desta vez é diferente


Luís Naves,

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Lendo jornais antigos descobrem-se pérolas de jornalismo provinciano, com títulos sobre organizações europeias em crise, dizendo que tudo ameaçava ruir por razões comerciais obscuras. Compreende o leitor contemporâneo que estes alarmes permitiam desviar a atenção das loucuras nacionais e eram escritas por jornalistas que não compreendiam a importância do projecto europeu para os países que o integravam. O facto é que as crises europeias são hoje diferentes das antigas. Escrevi, aqui e em outros locais, sobre os problemas da Europa e fui geralmente optimista. Confesso que em Setembro do ano passado mudei de perspectiva: desta vez, as divisões são mais sérias.

As intenções da Alemanha deixaram de ser claras e parece que Berlim hesita entre a construção de um núcleo duro dominado pelos alemães e a manutenção de uma Europa alargada que não controla totalmente. O euro não pode ser mantido por todos os países, mas também não pode acabar sem criar devastação económica. A crise migratória ameaça estilhaçar as sociedades europeias, mas também não é possível abandonar os refugiados sírios e deixá-los morrer às mãos dos facínoras. Para mais, há choques frontais entre soberania e solidariedade, entre os intelectuais e os seus leitores. A Rússia tenta explorar as fraquezas, as reformas económicas parecem impossíveis, os partidos extremistas continuam a crescer, o terrorismo islâmico anda à solta e a ansiedade dos trabalhadores em relação ao futuro do emprego é óbvia. As elites parecem baratas tontas e inventam metáforas assustadoras (quando os pneus da bicicleta não têm ar, o viajante não deve pendurar-se em cima dela).

Sobre isto, paira a inesperada incógnita americana. Donald Trump mais parece um pesadelo no meio do desastre. O seu isolacionismo representaria uma hecatombe para a Europa (a coisa mais suave que ele diz sobre o tema é que se a Alemanha quer protecção, então que a pague, o que significa aumentar verbas da defesa e, se é permitido o corolário, com um presidente Trump, ser membro da NATO implica pagar as quotas (pelo menos 2% do PIB). Isto muda tudo, não é assim?

Trump dificilmente vencerá Hillary Clinton, mas o isolacionismo é forte também do lado democrata, onde o candidato Bernie Sanders tem uma retórica populista em vários temas semelhante à de Trump, nomeadamente na maneira como a América deve ver o mundo, as suas alianças, o comércio livre e a circulação global dos capitais. Uma América fechada sobre si própria (basta Sanders influenciar as promessas de Hillary) representará uma Europa amedrontada, com tendência para cada um tratar de si. O genial filme de Howard Hawks Rio Bravo pode ser interpretado como uma descrição da complexa relação entre dois poderes, a Europa e América: John Wayne, o forte, e Dean Martin, que atravessa um período difícil. Era assim nos anos 50, mas podemos imaginar a sequência da história (há um conto de Mega Ferreira que o faz). Na minha versão, a personagem de Martin parou de beber, conseguiu prosperar como ajudante de xerife, chegou a ter influência na cidade, recuperou a reputação de pistoleiro, mas caiu recentemente em grande dúvida existencial, sem saber o que fazer da vida, a personalidade sob ameaça de fragmentação. E, francamente, John Wayne pode ser substituído em breve por um xerife falador, que promete uma nova política anti-índios mais alucinada, sem qualquer benefício para o equilíbrio do oeste selvagem.

0 comentários em “Desta vez é diferente”

  1. Trump dificilmente vencerá Hillary Clinton

    Acha? Eu tenho a impressão contrária – de que a Hilária terá muita dificuldade em bater Trump. Sanders seria uma aposta bem mais segura para o Partido Democrata.

  2. Alguém que está chateado porque tem de se pagar um pouco mais a própria defesa em vez de serem os americanos a pagarem a dos outros. O Horror!

    O autor será parte da “elite barata tonta”

    que

    ” inventam metáforas assustadoras “

    “Na minha versão, a personagem de Martin parou de beber, conseguiu prosperar como ajudante de xerife, chegou a ter influência na cidade, recuperou a reputação de pistoleiro, mas caiu recentemente em grande dúvida existencial, sem saber o que fazer da vida, a personalidade sob ameaça de fragmentação. E, francamente, John Wayne pode ser substituído em breve por um xerife falador, que promete uma nova política anti-índios mais alucinada, sem qualquer benefício para o equilíbrio do oeste selvagem.”

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