As sondagens indicam que o eleitorado britânico está profundamente dividido sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, pelo que o resultado do referendo de 23 de Junho é uma perfeita incógnita. Os defensores da saída tentam resistir à ideia central da campanha a favor da permanência, dizendo que o adversário agita papões e não haverá nenhuma calamidade económica se o eleitorado escolher sair. Para já, parecem ter conseguido inverter a tendência que se verificava a favor do ‘sim’, que chegou a ter uma dezena de pontos percentuais de vantagem: agora, as sondagens apontam para um empate entre as duas forças ou mesmo ligeira vantagem do ‘não’.
O Reino Unido terá provavelmente muito a perder com o Brexit: influência internacional, dificuldades no acesso ao mercado único, negócios na sua praça financeira e até a unidade britânica, pois o ‘não’ estimulará os defensores da separação escocesa. As vantagens são pouco claras, mas os defensores do Brexit contestam sobretudo os poderes não eleitos da burocracia comunitária. No fundo, dizem em volta alta aquilo que em outros países se começa a murmurar em voz baixa: o projecto comunitário está a entrar em domínios de soberania nacional onde era suposto não possuir poderes. As excepções negociadas por Londres não parecem suficientes para os políticos que se opõem à UE, embora muitos tenham a ilusão de que poderão, depois do Brexit, negociar um entendimento que lhes permita manter o filet mignon do acesso ao mercado único sem nenhum dos ossos associados, nomeadamente a complexa harmonização legislativa comunitária.
O próximo mês será de alta ansiedade. Às incertezas do Brexit junta-se uma nova fase da crise na Grécia, que estará de novo no limiar da saída da zona euro. As dificuldades gregas, onde o Governo do Syriza caminha sobre o fio da navalha (tem uma frágil maioria parlamentar), mostram que a crise financeira ficou por resolver. A própria União Europeia enfrenta uma crise existencial, consequência dos incompreensíveis erros que Berlim cometeu na crise dos refugiados. Era evidente que a Europa não podia receber 1,5 milhões de pessoas em poucos meses e que não poderá receber outro tanto este ano. Os países vão ser obrigados a fechar as fronteiras ou, se o não fizerem, terão de receber uma quantidade de migrantes impossível de gerir. A Alemanha apostou numa política moralista que visava expiar pecados do passado e criou uma fractura europeia que promete ser difícil de reparar. Em cada país afectado, engrossam as forças demagógicas, populistas ou extremistas. Isto é só o começo.

