A engrenagem da insatisfação


Luís Naves,

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A crise teve um efeito devastador na insatisfação dos eleitores. Nas sucessivas eleições, começa a ser evidente que o eleitorado tem dificuldade na escolha e está indignado com as maquinarias políticas e os privilégios das elites. Nos Estados Unidos, os partidos tradicionais foram assaltados por rebeliões. O sistema da máquina republicana foi derrotado pela insurreição de Donald Trump e as elites democratas quase soçobraram aos ataques de um populista de esquerda, Bernie Sanders. Na Europa, estamos a assistir a votações com divisões ao meio, entre desafios populistas e sistema tradicional: nas presidenciais austríacas, o candidato da extrema-direita perdeu por 30 mil votos; em Espanha, que vota no domingo, o Podemos de Pablo Iglesias poderá obter um resultado que lhe permitirá formar governo; os populistas estão à beira de vencer a câmara de Roma; e quem ganhar o referendo britânico terá um punhado de votos a mais, insuficiente para o lado que sair derrotado.

Os eleitores andam zangados com a política do costume, mas não querem aventuras, pelo menos não as desejam com convicção. Isso é claro no caso britânico, onde a votação não será sobre a UE, mas sobre questões emocionais de identidade. As pessoas defendem mudanças, mas não querem revoluções. Os políticos tornaram-se irritantes e deixou de existir a alternância de antigamente, pois os chefes da oposição moderada têm agora a mesma carga negativa. O centro entrou em declínio. As pessoas sentem que é necessário fazer alguma coisa, mas ninguém sabe exactamente o quê, embora a ameaça dos partidos extremistas (à direita e à esquerda) não seja a solução mais viável, pois estes sectores não passam habitualmente de um quarto a um terço do eleitorado.

Os defensores do statu quo e os políticos experientes começam a ter dificuldades em ganhar eleições: a ligação ao poder tornou-se uma desvantagem. Emerge assim um padrão preocupante na Europa contemporânea: os empobrecidos querem rupturas, os jovens votam ao contrário dos idosos, as mulheres são ligeiramente mais à esquerda que os homens, há fragmentação do eleitorado em grupos complexos e homogéneos. Parece que a sociedade se transforma progressivamente numa auto-estrada com maior número de faixas. Na mais rápida, circulam os beneficiários da nova economia, mas há faixas para funcionários públicos, eleitorados rurais e urbanos, com velocidades diferentes para cada classe social, aliás, velocidades cada vez mais diferentes, a ponto de ser difícil ou quase impossível mudar de faixa. Na zona que devia ser apenas a mais lenta, o trânsito tornou-se infernal e passou a circular-se em contramão. Ali, as coisas estão em declínio e as pessoas sentem-se excluídas, sem emprego ou voz activa. Por isso, cada vez mais os descontentes desprezam as elites que os governam, mostrando sinais de certa raiva, sabendo que, para eles, isto começa a não ter saída.

0 comentários em “A engrenagem da insatisfação”

  1. O Luís Naves usa, por duas vezes neste post, de forma disparatada o termo ( que aliás pouco ou nada significa) “populista”. Bernie Sanders não é um populista, ele é um respeitável idoso senador de um dos estados dos EUA que defende que esse país se torne um pouco mais similar à Europa. E a câmara de Roma foi ganha não por uma populista, mas por uma respeitável advogada cujo programa eleitoral se centra em combater a corrupção e o compadrio nessa cidade – causas respeitáveis em qualquer parte do mundo.

    1. “Ele é um respeitável idoso senador de um dos estados dos EUA que defende que esse país se torne um pouco mais similar à Europa”

      O populismo não escolhe idades. Alias, se ele não fosse populista não teria arrastado consigo o eleitorado que arrasto. É tão populista que vende a ideia de um país similar à Europa, esquecendo-se que na Europa o estado social, a paz, e todas as maravilhas que este defende são pagas e alicerçadas no livre comércio e não no proteccionismo que esse POPULISTA defende. O populismo é fazer omeletes sem ovos enquanto se aponta o dedo a quem as sabe fazer, insossas talvez, mas com ovos. Populista quando se diz anti-establishment mas sem o qual este não viveria, não tinha nem ordenado nem causa. Podia continuar por aí em diante. Os padrões entre ele, Trump e outras estrelas pelo mundo fora que enchem os jornais é sempre o mesmo, vender ideais falidos e já há muito esquecidos a crianças que não quiserem nem querem saber da história e das lições consequentes.

    2. Para o Luís Lavoura Populista é só para a Direita. Sanders é ao invés Popular.

      Sanders que escreveu que as mulheres têm o fascínio da violação – imagine-se se tivesse sido um tipo de direita a escrever tal coisa, faria parte de SIC’s, Publicos , Expressos, TVI’s – elogia o Sandinismo e diz que as filas nos países socialistas para comprar produtos essenciais são um bom sinal…

  2. Fala de tanta coisa em simultâneo que fica difícil, num comentário, “desembaraçar a meada da lã e pô-la em novelos”.

    -“A crise teve um efeito devastador na insatisfação”
    -A crise era previsível e quando se cometem erros, no meio do desespero, para despachar os queixosos e, voltar a ganhar eleições, a tendência será para cometer novos erros, aumentando a gravidade da situação e acabar sempre pior porque, nunca se pode voltar ao início “à página em branco”.
    Há possibilidade de corrigir? Talvez, se as pessoas tivessem a coragem e a disposição de, realmente, quererem mudar alguma coisa mas, basta pensarem em sacrifícios para, preferir evitar o curativo que lhes provoca dor (“As pessoas defendem mudanças, mas não querem revoluções”), mesmo que lhes expliquem que, no final, não escaparão à amputação, no fundo, querem milagres.

    -“o eleitorado tem dificuldade na escolha e está indignado com as maquinarias políticas e os privilégios das elites”
    Há uma Elite que é apenas 1% da população mundial que quer controlar o Mundo como se fossem quintarolas com rebanhos que só servem para seu benefício. Depois temos as Elites que executam o trabalho para o 1%, geralmente bem pagas pelos serviços prestados. Depois temos os chicos espertos que enriquecem, por saberem, muito bem, como se aproveitar do Sistema, basta saber como funciona para, gente sem ética, conseguir tirar partido dele.

    -“As pessoas sentem que é necessário fazer alguma coisa, mas ninguém sabe exactamente o quê”
    E com razão porque, votem onde votarem, faz tudo parte do mesmo Sistema, tudo faces da mesma moeda, porque todos acabam por obedecer às regras que aceitaram e que foram implantadas pelo 1%.
    Curiosamente, o caos provocado numa estrada com tantas vias, agrada ao 1% porque, quando o desespero for tão grande e a dor tão insuportável, a elite sabe que pode amputar à vontade e, no final, até vão aceitar tudo sem anestesia.

    Quanto a populistas e radicais, pode enfiá-los todos no mesmo saco, apenas, meras consequências do mesmo Sistema que provocou a insatisfação, uma nova onda de chicos espertos que de radicais não têm nada, nem de radical ou de verdadeira mudança, apenas um caminho rápido para chegar ao poder e se aproveitarem do mesmo Sistema. Naturalmente que as pessoas só vão ver isso, quando experimentarem o novo antibiótico e só lhes aumentar a gangrena.

    -“Os defensores do statu quo e os políticos experientes”… todos comem bem neste Sistema.

    -“os empobrecidos querem rupturas” – e ensinaram-lhes que basta ir buscar aos que, ainda, têm alguma coisa e o milagre acontece.

    -“os jovens votam ao contrário dos idosos” – os jovens não têm trabalho nem futuro, querem mudar alguma coisa mas, falta-lhes a experiência e os idosos, queixam-se mas, a maioria, não quer perder privilégios adquiridos e garantidos, só quer, no fundo, que o statu quo não lhe tire nada e se der mais um bocadinho, ainda melhor (chegam a ser hipócritas, dizendo que querem ajudar filhos e netos ou seja, dão-lhes peixe mas não querem fazer o sacrifício para que eles tenham uma cana de pesca)

    “as mulheres são ligeiramente mais à esquerda” – Bom, estas foram verdadeiramente enganadas, começaram a dizer-lhes que tinham de trabalhar fora, que isso de criar filhos era um papel menor, ter um marido que pagasse as contas era degradante portanto:
    Em vez do marido, penduraram-se no Estado que tem de ser de esquerda por ter aquela paranoia que com leis regulamentos e esmolas o Mundo fica um Paraíso mas acaba cada vez mais desigual… mas aí a explicação seriam outros quinhentos.

    O que sabemos, é que um Estado que quer controlar tudo, vai ficando cada vez maior e com mais mamões pendurados. Neste Estado obeso, convém que as mulheres trabalhem fora, pode cobrar o triplo dos impostos, na mulher, no marido e no infantário. Curiosamente, mesmo com dificuldades, o ordenado do marido chegava para todas as despesas do casal, agora trabalham os dois e, muitos ainda tentam arranjar um 2º emprego. Naturalmente, convém ao Estado, tomar posse das crianças e defender o ensino oficial porque não há nada como começar cedo, a doutrinação do rebanho.
    Um Casal se pensasse bem, como equipa, seria sempre vencedor, tanto na parte económica como na parte da educação dos filhos mas, conseguiram dividir para outro reinar… O Estado.

  3. O uso de etiquetas, como forma de desacreditar ou diminuir as posições contrárias está a ser percebido como lero lero pelos eleitores; a insistencia em chavões “vamos combater o desemprego” por actores (partidos ) que nada podem fazer e quando “criam” empregos sabemos o que nos tem custado, vão mostrando que a gestão de expectativas, a única coisa que os dirigentes politicos podem fazer, anda muito desacreditada e mal vista por excesso de propaganda barata e subida dos analistas criticos e opinadores certeiros cada vez mais lidos.

  4. Naturalmente que, num comentário, ficou muito por dizer, aqui poderia acrescentar os que tenho deixado ou até os dois últimos, no poste do Pedro Correia “O comentário da semana” de 19.06.16, no fundo, todos servem para tentar desembaraçar a meada mas, tudo gira à volta do mesmo, Dinheiro e Poder.

    Um Poder cada vez mais concentrado e totalitário, ditado por uma Oligarquia e aqui, como há diferentes interpretações, digamos que será um “pequeno grupo que controla as políticas sociais e económicas em benefício de interesses próprios… A palavra oligarquia indica o “governo” (archein) “de poucos” (oligos). Aristóteles foi o primeiro a usar esta palavra como sinónimo do governo pelos ricos, embora o termo exato neste caso seja plutocracia.”

    Neste caso, nem sequer é um governo pelos ricos mas, pelos “super ricos”, um “grupinho” que monopoliza o mercado financeiro, económico, político e cultural e, são aqueles que já têm mais de 70% da riqueza do Planeta e, mais do que dinheiro, a sua falta de empatia pelos outros seres humanos, do Poder pelo Poder e o gozo que isso lhes dá, já deve entrar no campo da doença mental. Nem precisam mexer uma palha porque, apenas têm de escolher e pagar bem a quem lhes faça o trabalho sujo e, esses, vão delegando ordens noutros que, em muitos casos, farão o mesmo e, nem desconfiam de onde vêm, realmente, as primeiras ordens, uma espécie de Mafia legalizada.

    Dentro deste Sistema onde, sem debate e de olhos tapados, nos enfiaram, onde nunca houve transparência, a confusão só podia aumentar porque, isto de deslocar o poder de decisão para fora dos países, longe do cidadão comum e, dos seus problemas, sem explicar as consequências negativas, uma espécie de entrada no Paraíso, a verdade é como o azeite, podem juntar muita água, mexer e remexer mas acaba, sempre, por vir ao de cima mas, os estragos são irreversíveis.

    Dentro da engrenagem, mais cedo ou mais tarde, sentiriam as consequências, como a do seu voto já não contar para nada e, com tantas leis, regras, normas… que parecem vir de outro Planeta, deixaram de poder controlar a sua própria vida e, realmente, para o cidadão comum, isto “começa a não ter saída”, uma sensação semelhante à dos hamsters, a girar numa roda e, por muito que andem, nunca conseguem sair do mesmo sítio, girando cada vez mais depressa mas, sempre, dentro da mesma gaiola.

    Portanto, para se conseguir resolver, seja o que for, no mínimo, as pessoas teriam de saber onde está o problema mas, a única coisa que lhes dão é mais confusão para nunca conseguirem descobrir onde está a origem da sua insatisfação.

    Quem, neste momento, sofre mais com este sistema, são os espíritos livres, jovens e menos jovens que tentam sair do colete de forças, tentando estilos de vida alternativos, entre “Van Life”, “tiny houses” ou “Off-the-grid”, a verdadeira Liberdade vai fugindo, num sistema, cada vez, mais autoritário e asfixiante, onde tudo é controlado, regulado, proibido, uma coação não só física como mental mas, a caminho de cortar todas as alternativas para quem queira fugir do sistema e, o mais assustador, ser a nível global.

    A ninguém será permitido sair do Sistema. Poderia dar muitos exemplos de como estão a trabalhar para isso. Quanto maior for o número de Leis, regulamentos, licenças, proibições, mais facilmente a minoria controla a maioria, tudo, muito ao gosto da esquerda que, apesar de ser contra o capital e muito blá blá blá que o Estado tem de meter o bedelho em tudo, acabam por ajudar o 1%, portanto, se não sabem, deviam saber que é precisamente, o que deseja o 1%, tratar os adultos como crianças ou uns incapazes que, mal nasçam, passem para a tutela do Estado, ou seja, uma prisão Orwelliana. Mas não pensem que a Direita que temos, queira desobedecer ao Sistema, acaba por fazer o resto que a esquerda deixa por fazer. Apenas, duas faces da mesma moeda que passou a ser propriedade do 1%.

    Naturalmente que, para aqueles que sobem, temporariamente, ao posto de “inspetores e executores do sistema”, com o poder de dar ou retirar benesses, sentem-se muito importantes, são só sorrisos mas, continuam a vender, a retalho, a nossa Liberdade e, por muito bem pagos que sejam, também eles nunca passarão de escravos e, tudo, em troca de possuírem mais umas tralhas, bugigangas e afins.

  5. Qualquer que seja o resultado eleitoral do Brexit em curso no RU, o resultado será o mesmo. Uma vitória do “out” corresponderá apenas a um iniciar do desmantelar desta Euro/Germânia mais cedo.
    Quem está satisfeito com esta engrenagem ?.

    1. Você quer dar mais poder aos Sócrates, Passos e Costas e às máquinas partidárias e corporações afectas para imprimirem Euros.

      Ou já faz parte do esquema ou então…

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