Os excluídos


Luís Naves,

from-morning-to-midnight.jpg

 

As pessoas desconfiam cada vez mais daquilo que lêem e refugiam-se nos territórios da imaginação e do irreal. Tornou-se fácil detectar informação incompleta ou distorcida, mas também é trivial encontrarmos informação manipulada ou falsa. Nas democracias avançadas, a política tornou-se crispada e as divisões da sociedade estão à mostra. Tudo piorou com a crise financeira, que estilhaçou o equilíbrio da classe média e proporcionou a explosão da retórica populista, segundo a qual a opinião pública não deve confiar na informação disponível. Assim, na actual década, cresceu o fosso entre cosmopolitas e conservadores, entre defensores e críticos da imigração, entre globalistas e tradicionalistas. Hoje, contesta-se a livre circulação de dinheiro e o poder das elites. Muitos defendem a fragmentação da sociedade em condomínios privados, em oposição aos que querem impor determinados modelos obrigatórios de liberdade. Há ainda quem queira limitar o direito de opinião e nota-se o aumento da intolerância nas críticas a teses adversárias, o triunfo da linguagem politicamente correcta ou o uso e abuso do duplo critério na análise de qualquer assunto.

A política contemporânea parece impotente para combater o descontentamento: os poderosos mentiram-nos e escaparam com impunidade, a escada social é uma fantasia, a mudança é uma impostura, ganham sempre os fortes. E, apesar de tudo, a insatisfação popular tem limites: não destruam o nosso conforto mínimo, não mexam nos nossos melhores entretenimentos e não afectem o nosso futuro na velhice. Nessas condições, haverá desconfiança sem violência; as rupturas serão, no máximo, reversíveis e hesitantes.

As pessoas desconfiam cada vez mais daquilo que lêem e algumas delas vivem nas franjas de uma sociedade que as abandona ou ignora. Uma legião de excluídos habita em universos paralelos onde não se aplica a lei da realidade. Enfim, toda a gente terá porventura pensamentos com pequenas doses homeopáticas de universo paralelo, daí não viria mal ao mundo, mas alguns desgraçados habitam nos abismos da paranóia, cercados de hostilidade, no círculo vicioso das ilusões auto-alimentadas.

0 comentários em “Os excluídos”

  1. A Informação é um parque temático de sensações, que está cheio de artistas de variedades.
    Como é possível acreditar que o conceito de Democracia é exequível e soberano sobre todas as coisas, quando esse mesmo conceito é fruto de um ambiente selvagem e nojento? Somos aquilo que processamos. Se processamos mentiras e ilusões, nunca podermos ser mais do aquilo que ingerimos.

  2. “As pessoas desconfiam cada vez mais daquilo que lêem”
    e não deviam?
    Mas nem todas se refugiam
    “nos territórios da imaginação e do irreal”
    só é pena que sejam poucas, as que procuram em todas as fontes de informação, especialmente, nos documentos longos e aborrecidos, diretamente de onde ela sai.
    “o triunfo da linguagem politicamente correcta ou o uso e abuso do duplo critério na análise de qualquer assunto.”
    Aqui, concordo, totalmente consigo e, nunca foi tão descaradamente.
    “os poderosos mentiram-nos”,
    os poderosos e os servidores dos poderosos, especialmente os políticos que nos levaram para a UE, sem referendo, portanto sem debate, foi tão fácil como levar um rebanho para o redil e, já agora, que “Democracia avançada”?
    A Europa já não tem democracia ou isto das Leis virem de fora e votarmos para eleger Deputados Europeus que não podem propor nem vetar Leis, tem alguma coisa de democrático?
    Quanto a esta Globalização onde a maioria dos povos está excluída de escolher seja o que for, só fico na dúvida se concorda ou não com este Sistema Totalitário, e não democrático. Parece ser democrático mas, isto de ir votar só para fingir que ainda temos voto na matéria, só se for na matéria dos detalhes, querem a “corda da forca” em rosa, azul ou amarelo? Talvez com todas as cores do arco íris… mas nada muda em relação às Leis que vêm de fora, a espinha dorsal de toda a política nacional. Muitos sentem que há algo de errado, só não sabem o quê. Votam no A, depois no B e acaba por ficar o B C D e, muda o quê? Uns tiram os tremoços, outros dão nos tremoços e roubam nos amendoins, vira o disco e toca o mesmo.

    Quando o Pedro Correia, depois de eu ter tentado, já noutras ocasiões e, de várias formas, ter enumerado os perigos deste Sistema, desta vez, no seu poste “Navegar é preciso” me pergunta: “por que raio haveríamos de estar hoje contra a globalização?” e se tenho medo que compre um cão, só gostaria de saber a sua opinião, se a resposta que lá deixei, tem alguma “informação manipulada ou falsa” porque começa a ser uma boa altura para separar o trigo do joio, dos que não parecem ser carne nem peixe ou daquela espécie de enguias que querem agradar a Deus e ao Diabo. Portanto:
    “por que raio haveríamos de estar hoje contra a globalização?”
    A resposta está resumida no 5º Comentário que lá deixei, porque isto de resumir o que se passa neste Inferno é quase impossível, estamos a ser atacados por todos os lados, nem dá tempo para respirar quanto mais digerir tanta informação, desinformação e contra informação, tudo em doses maciças… mas, não é por acaso, é só para anestesiar as mentes e, talvez por isso, andem, por aí, políticos tão satisfeitos e sorridentes, já sabem que nos vai ser quase impossível sair desta ratoeira, especialmente, se a maioria, na europa, não acordar.

    Para nos enfiar o barrete vale tudo, até arranjar uma desculpa para interromper a campanha na Inglaterra, curiosamente, os pró europa estavam a perder… uma das tais coincidências… em que basta perceber um mínimo de psicologia aplicada para, imediatamente, cheirar a manipulação.
    Quanto aos “excluídos”… subtraindo uma minoria muito específica dos 493 milhões contabilizados na UE em 2006, somando mais uns milhões que têm entrado ultimamente, faz-me lembrar um poste do Rui Rocha, “É fazer as contas como dizia outro”… mas, os excluídos, andarão na casa dos milhões ou quererá incluir uma parcela, dos que recebem migalhas?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *