Escrevo antes de ser conhecido o resultado das presidenciais austríacas, mas o candidato da extrema-direita, Norbert Hofer, tem ligeira vantagem antes da decisiva contagem dos votos por correspondência, que será feita hoje. Na rádio pública, de manhã, ouvi o historiador Rui Ramos a falar sobre o tema, fazendo uma amálgama de nacionalistas e defendendo a tese de que a eventual vitória de Hofer confirma a tendência já visível em outros países. Para o autor, Hungria, Polónia ou Áustria fazem parte do mesmo movimento populista-nacionalista*.
A explicação nacionalista para este empate eleitoral é um mito confortável, que nos impede de perceber o carácter inédito da possível vitória de Hofer. Seria a primeira vez que um candidato da extrema-direita vencia uma eleição na Europa a nível nacional. Hofer já é notícia: mesmo que perca, o que é mais provável, esteve demasiado perto de vencer. A extrema-direita finlandesa (Partidos dos Finlandeses) ficou em segundo lugar e está na coligação de governo; o Partido Popular dinamarquês ficou em segundo e apoia o governo; há exemplos de partidos de extrema-direita com 10, 12, 15% dos votos, mas até agora nenhum deles venceu eleições nacionais.
Em Portugal, o jornalismo continua a não compreender que Polónia e Hungria são governadas por conservadores que já antes estiveram no poder. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán (lidera o Fidesz) não tem nada a ver com a extrema-direita, representada por um partido chamado Jobbik, que está na oposição e que Orbán mantém fora do alcance de qualquer influência. A identidade entre os dois é um erro de análise.
Felizes por não compreenderem isto, os média portugueses estão agora a alimentar um curioso mito paralelo sobre a Polónia, fazendo a amálgama entre conservadores-católicos do partido no poder (que já governou em meados da década de 2000) e a extrema-direita europeia. Polónia e a Hungria contestam ruidosamente as quotas obrigatórias de refugiados, mas invocam a lei (a regra não existe nos Tratados europeus). Os dois países são apoiados pela Eslováquia e República Checa, cujos governos de esquerda nunca foram diabolizados, embora sejam semelhantes aos seus vizinhos.
A extrema-direita europeia (por exemplo, AfD alemã, DPP dinamarquês, FN francesa, Partido da Liberdade austríaco ou Partido Popular suíço) contesta a política de imigração e o multiculturalismo, baseia a ascensão eleitoral na péssima integração das comunidades muçulmanas, mas até agora não chegou ao poder em nenhum destes países. Se Hofer vencer, será a primeira vez que a extrema-direita ganha uma eleição importante e qualquer analogia com o leste é pura ilusão de óptica.
Actualização: Hofer foi derrotado pelo candidato da esquerda, Alexander Van der Bellen, eleito presidente da Áustria por 34 mil votos. Nunca um candidato de extrema-direita esteve tão perto de ser eleito num país europeu. A coligação do Governo, um bloco central entre cristãos-democratas e social-democratas, terá dificuldade em sobreviver até ao final de 2018, quando termina a legislatura. A extrema-direita conseguiu metade dos votos e o Partido da Liberdade, FPO, a que pertence Hofer, tem condições para vencer legislativas antecipadas. Aliás, quanto mais tempo se mantiver este bloco central fragilizado, com um primeiro-ministro não eleito, mais hipóteses a extrema-direita terá de vencer.
*É outra conversa, mas não deixa de ser curioso perguntar se Angela Merkel e François Hollande não são nacionalistas? Não defendem primeiro os interesses dos seus países? Há nacionalismo bom e mau, forte e fraco? Onde está a fronteira? Aliás, de que nacionalismo se fala aqui, ou estamos a confundir o conceito com defesa da soberania? O referendo do Brexit é bom, mas se a Hungria referendar as quotas obrigatórias de refugiados, isso já é mau?


Ontem apostei com a minha mulher (que é hungara) quanto tempo vai levar entre a vitoria do Hofer (se acontecer) e a primeira noticia de ataques racistas na Austria ou que seja desenterrada a noticia do muro anti-migrantes na fronteira com a Italia. Considerando os 3/4 meses entre a vitoria do Fidesz e do PiS e o inicio da “atencao” internacional, eu aposto que menos de um mes.
Como eu o compreendo. Menos de um mês, sem dúvida. Mas se Hofer não ganhar, a questão não desaparece. Os partidos do centro, que formam a coligação no governo, têm neste momento um fraquíssimo apoio popular, enquanto o candidato do FPO ficou, no mínimo, muito perto de 50%. Falta contar 700 mil votos (14% do total) e ele tem mais de cem mil votos de avanço.
As eleições legislativas austríacas são só em 2018, mas a instabilidade da coligação é inevitável, além disso o actual primeiro-ministro nem sequer foi a votos. Esta eleição, apesar de ser presidencial, é um verdadeiro sismo político na Áustria. Nunca uma força de extrema-direita na Europa esteve tão perto da vitória e será uma questão de tempo até que uma insurreição de extrema-direita chegue ao poder.
Isso será muito diferente de haver governos de direita na Polónia ou Hungria, onde o que está em causa são os direitos dos pequenos países e dez anos de integração europeia onde o chamado ‘leste’ teve um tratamento de segunda. Budapeste e Varsóvia contestam a burocracia de Bruxelas e o poder de Berlim, recebendo em troca forte pressão política. Isto não tem a gravidade da eleição de um partido anti-sistema num país do chamado ‘ocidente’.
O Luís Naves joga com a nomenclatura porque nunca define os termos. Para ele, o partido austríaco é de extrema-direita, enquanto que os partidos húngaro e polaco são somente de direita. Muito bem, mas como se distingue a direita da extrema-direita? O Luís Naves não nos explica.
Eu por acaso, baseado nas notícias que recolho, tenho a impressão de que os partidos polaco e húngaro são mais “extremos” do que o austríaco, na medida em que este último nunca fez mênção de limitar a democracia liberal austríaca, enquanto que os dois primeiros já atentaram gravemente contra as separações de poderes nos seus países. E é isso que, para mim, distingue um partido de direita de um da extrema-direita: o primeiro respeita a democracia liberal enquanto o segundo, tendencialmente, não o faz.
não, os partidos polaco e húngaro não são mais extremos que o austríaco. Isto é um equívoco baseado em desinformação. Nenhum deles atentou gravemente contra a separação de poderes, como afirma. No caso húngaro, que conheço melhor, trata-se de uma mentira mil vezes repetida.
A questao é que como o Hofer nao vai ganhar, como bem diz, o problema continua exactamente o mesmo mas o interesse dos media internacionais desaparece.
De resto completamente de acordo com a diferença que assinala.Orban tem certamente os seus defeitos e o FIDESZ os seus escandalos. O problema das maiorias absolutas é que os partidos no poder atraem a pior especie de oportunistas e o poder certamente corrompe. Por outro lado Orban tem conseguido conter o Jobbik e cortou de vez com uma constituicao que ainda tinha como base a constituicao comunista e cuja grande modificacao foi feita com tropas sovieticas em solo Hungaro. Reforma mais do que necessaria.
O grande problema da esquerda na Hungria – um pais de “pequenos burgueses” – é a tendencia que tem de propor uma democracia sem Hungaros.
“populista-nacionalista” é mais um termo usado por certa esquerda para acusar os outros daquilo que eles próprios são.
O Luís Naves faz aqui uma distinção entre conservadores e extrema-direita que, para mim, é tudo menos clara.
Em minha opinião o partido de Hofer não é de extrema-direita. Não advoga qualquer ditadura. É apenas um partido nacionalista e xenófobo.
Os partidos polaco e húngaro, além de nacionalistas e xenófobos, têm também demonstrado uma clara tendência para eliminar o sistema de checks and balances previstos nas constituições desses países. Enquanto que o partido de Hofer, que eu saiba, nunca pôs em causa a constituição austríaca.
Eu não sei como é que o Luís Naves distingue “conservador” de “extrema-direita”. Para mim, um partido de extrema-direita é um partido que afronta a democracia liberal, é um partido que afirma a supremacia do poder executivo sobre os poderes legislativo e judicial, é um partido que distingue entre os cidadãos com base na etnia. Um partido conservador não faz nada disso. E parece-me que o FPOe austríaco não o faz. Já dos partidos polaco e húngaro não tenho tanta certeza.
Este comentário, como outro da sua autoria, mais atrás, mostra alguma desinformação. Na Hungria, o partido no poder (que é conservador, de base democrata-cristã, membro do PPE) ganhou as eleições de 2010 com maioria qualificada, pelo que redigiu uma nova Constituição. Tinha total legitimidade para o fazer e parece-me absurdo escrever que destruiu os mecanismos de checks and balances da Constituição, já que redigiu o documento. A anterior fora concebida na era comunista, a actual foi redigida por um parlamento eleito.
o partido no poder (que é conservador, de base democrata-cristã, membro do PPE)
Acredito que seja tudo isso. Mas além disso é xenófobo e etnicista. Pretende fomentar a imigração para a Hungria de cidadãos de outros países que são de etnia húngara e rejeita a imigração de pessoas de outras etnias. Valha a verdade que não é o único a fazê-lo. Mas não é bonito.
ganhou as eleições de 2010 com maioria qualificada, pelo que redigiu uma nova Constituição. Tinha total legitimidade para o fazer
Legitimidade teria sem dúvida. Lá se uma constituição redigida por um
unico partido terá ficado muito bem redigida, já tenho dúvidas.
parece-me absurdo escrever que destruiu os mecanismos de checks and balances da Constituição, já que redigiu o documento
Eu o que ouvi dizer (ainda este fim de semana, na Antena 1, pelo voz do antigo eurodeputado Rui Tavares, que sem dúvida é uma pessoa bem informada e que considero honesto) é que a constituição húngara (não sei qual delas, se a antiga se a redigida pelo Fidesz) era considerada um modelo de constrituição democrática-liberal, uma das melhores da Europa, mas que foi subvertida mediante, em particular, a eliminação dos poderes judiciais de verificação da constitucionalidade.
Que a constituição anterior fosse um modelo democrático-liberal é uma afirmação que só dá vontade de rir, pois ela permitiu um regime totalitário. A anterior constituição foi feita por um regime comunista e estava certamente recheada de lindos artigos de carácter liberal-democrático. Não ouvi as afirmações de Rui Tavares, mas se ele disse isto, está errado e muito mal informado. Pior, está a fazer um mau serviço à opinião pública.
Em relação à política de imigração, trata-se de um direito de cada Estado-membro da UE. Países como Hungria e Polónia têm fortes comunidades da sua cultura em outros países vizinhos e essa imigração não é apenas uma política deliberada, é um facto da vida. Os eslovacos e romenos de etnia húngara estão a emigrar para a Hungria, têm qualificações e arranjam emprego com facilidade. Não precisam de ser integrados nem de aprender a língua. Dizer que isto é xenofobia é ridículo. São cidadãos europeus, podem deslocar-se, beneficiando dos direitos de livre circulação de que eu também beneficio.
Eu pessoalmente nao confio no Rui Tavares para uma opiniao equilibrada sobre Portugal quanto mais da Hungria…
A imagem está errada. “A face com que fita, é Portugal”, disse o Pessoa, e aqui só vejo um homenzinho encolhido e encostado a Espanha, com ar de quem tem medo de se afogar se der um passo em frente. 🙂
Ainda por cima está de costas para Espanha, a imagem está talvez desactualizada…
Defendo há muito que etiquetar as posições políticas é um não assunto e uma tarefa digna do maior non sense. A prosa do post diz que é de direita, que afinal não é de direita e o outro que é de esquerda afinal é quase igual ao de direita, que não quer nada com os outros que também se dizem de direita , mas são da extrema. eu que não percebo nada de política, vivo lindamente com estes lirismos. Mas os meus amigos liberais, que me dão as mais dispares definições de liberalismo, engalfinham- se entre eles a definir o neoliberalismo. Confusos? façam como eu não liguem as etiquetas, que até no super servem mais para enganar que para informar.
E temos a narrativa da Esquerda : “Populista”
O 25 de Abril foi um acto Populista e a nossa Constituição é ferozmente Populista. O IRS é ferozmente populista.
Mas esses não levam os epítetos de Populista.
Qual a diferença entre Populista e Popular?
Mais curioso:
Há 30 anos todos eram nacionalistas-populistas, todos queriam a fronteiras
controladas. Pois é isso que faz um país.
Hoje todos os partidos tradicionais Europeus dos anos 60,70, 80 tornaram-se de extrema direita e populistas para a mais sem vergonha das profissões.
Mas se formos a África à Ásia um país que controla as fronteiras a narrativa jornalista muda: passa a ser um País orgulhoso da sua independência.
Angela Merkel e François Hollande não são nacionalistas? Não defendem primeiro os interesses dos seus países?
Sim, sem dúvida. Mas nacionalismo ou patriotismo (defender os interesses dos seus países) não podem ser confundidos com etnicismo xenófobo. Pretender aliciar cidadãos de outros países, que supostamente são da etnia do nosso, a imigrar para o nosso país, é etnicismo (foi, diga-se de passagem, uma prática criticável da República Federal da Alemanha durante muito tempo). Recusar, pelo contrário, a imigração de cidadãos de outras etnias, é xenofobia.
Tanto a França como a Alemanha acolhem milhões de pessoas de outras etnias, a quem concedem cidadania. (As seleções de futebol desses países são bons exemplos.)
Quando estive na Hungria na Páscoa, estavam a entrar cem refugiados por dia, mais ou menos por dia o mesmo número que Portugal recebeu até ao momento, num ano inteiro de crise. A fronteira está encerrada, não é verdade? A da Áustria também está, não é? Pois, a Áustria tem 90 mil refugiados. O facto é que os migrantes, entre eles muitos refugiados, continuam a passar por estas fronteiras “fechadas” da rota dos Balcãs. Acampam durante alguns dias no lado de lá da fronteira, numa espécie de terra de ninguém, passam a conta-gotas através de uma porta na cerca de arame, fazem o registo obrigatório, são alimentados e tratados, permanecem durante pelo menos uma semana à espera da papelada e seguem para a Alemanha. Os que tentam passar a salto, se forem apanhados, são julgados de forma expedita e condenados à expulsão; como ninguém os aceita de volta na Sérvia, seguem para a Alemanha após a conclusão do processo, com proibição de regresso a território húngaro no prazo de dois anos; de qualquer forma, conseguem o que pretendem, que é seguir para a Alemanha, embora o “cadastro” obtido na Hungria possa ser um problema para os seus papéis alemães de asilo. Enfim, isto é um pouco mais complicado do que diz a mitologia, não é?
Luís, não conheço a fundo os casos e não vou comparar o meu conhecimento deles com o que tu tens. Faço apenas uma ressalva: por toda a Europa esses “mitos”, “mentiras” e “desinformações” acerca da Hungria de Orban e da Polónia de Kaczyński vão sendo repetidas por todo o tipo de media. Leio a Economist todas as semanas (um jornal que nem sequer pode ser acusado de estar muito próximo de mim ideologicamente) e vejo constantemente repetidos os receios sobre a democracia musculada dos dois. Vejo-os também frequentemente enfiados numa caixa juntamente com Le Pen, Wilders, Farrage, etc, na sua admiração por Putin. Há sempre ressalvas (não são todos iguais) mas dá-se notícia da admiração mútua entre eles.
Eslováquia e República Checa são também referidos (inclusivamente em Portugal). Com menos frequência, mas não são esquecidos.
The Economist haha! não deve existir revista mais pro establishment e capitalismo de estado….
Entretanto na Austria perto de 80% dos trabalhadores votaram no candidato da “extrema direita”
Coisa que obviamente não será dita.
Como aliás não é dito que o candidato que ganhou é da extrema esquerda.