Andar na linha


Luís Naves,

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Os defensores de António Costa têm cada vez mais dificuldade em explicar o que está ele a fazer de diferente. Os partidos de esquerda ensaiam críticas em público, apoiam por enquanto com paciência, mas terão cada vez mais dificuldade em explicar aos seus militantes o que distingue Costa de Passos.

Começa a ser intrigante por que razão não houve bloco central, como sugeria o resultado das eleições de Outubro. O governo minoritário do PS começou por prometer anular as reformas da coligação de direita e ensaiou um pequeno conflito com Bruxelas, mas a imediata subida das taxas de juro da dívida acabou com essas veleidades. Em todos os assuntos irrelevantes há uma ruidosa e triunfal maioria de esquerda, que também parece existir na distribuição de lugares, mas quando as contas se complicarem, será o bloco central a executar as políticas impopulares exigidas pelos credores. Nos momentos difíceis, os nossos governantes são actores secundários e a soma de partidos não é linear. Quando for necessário, haverá maioria no parlamento, estabilidade para evitar o segundo resgate ou para salvar a banca, mas não será provavelmente a maioria de esquerda.

A política de hoje é um vago teatro sem ideologia, segue na mesma linha. A taxa de crescimento prometida era fantasiosa, a conjuntura externa está a piorar, as previsões económicas são cada vez mais sombrias. Não haverá falta de explicações para as medidas de austeridade, independentemente do nome que a propaganda lhes puser: azar do costume, medidas de estabilização, plano genial de salvamento dos aflitos.

0 comentários em “Andar na linha”

  1. “Em todos os assuntos irrelevantes há uma ruidosa e triunfal maioria de esquerda”

    Não são irrelevantes, pelo contrário, são essenciais para manter a narrativa.

    A narrativa transforma-se em cultura.

  2. Veremos o que faz a direita.
    No mínimo deve abster-se para que a geringonça governe na plenitude da sua ‘legitimidade democrática’.

  3. Se pouco distingue a esquerda da direita, qual deve governar? Tanto faz!
    Mas na sua lógica deve ser o partido ou coligação de que você gosta mais. Eu penso da mesma maneira, devem governar aqueles de que eu gosto mais (com a vantagem para mim de que os que eu prefiro têm maioria na Assembleia da República).

    1. Não costumo responder a comentários anónimos, mas vê-se que não compreendeu o texto. A questão não é a minha preferência, mas o respeito pelo voto popular. A maioria de esquerda não venceu, é apenas uma soma aritmética e táctica de curto prazo. Essa maioria não vai aprovar medidas de austeridade sem as quais teremos resgate financeiro do país ou da banca. Evitar o pior implica o bloco central. A cada semana que passa, Costa não se distingue de Passos, mas está no poder, apesar de ter perdido as eleições. Esta situação esquizofrénica só pode correr mal.

    2. Leia-se: “Com vantagem para mim que sou func. público e não faço um corno e gosto de viver à conta dos que têm ideias e geram dinheiro. Por isso gostei do assalto que o PS e Bloco fizeram ao poder mesmo sem representatividade popular, apenas parlamentar.”

      1. “Sem representatividade”? Mas como explica que um governo com uma moção de censura e o seu programa rejeitado poderia continuar? Com apoio militar? Se calhar na Europa de hoje isso seria difícil. Quando um governo é derrubado pela Assembleia da República não há volta a dar por muito que gostemos dele.

      2. “sem representatividade popular”. Suponho que sabe contar. Os partidos que apoiam o governo somam mais de 52% dos votos. Quantos são necessários para haver representatividade popular?

  4. Em seu texto não vi uma única fracção numérica real sobre o que possa estar a correr mal.
    Se me diz que o que pode estar a correr mal são as previsões de algumas entidades que diziam que Portugal estava no bom caminho, então, fico satisfeito porque uma vez mais concluo que eu é que estava correcto naquilo que por aqui apontei ainda durante o período ruinoso da troika interna e externa.
    Se me diz que que esses dados anulam a política do governo em matéria orçamental, então, digo-lhe que sem essas políticas Portugal estaria muito pior.

    No entanto, gostaria que me desse dados sobre o que está a derrapar internamente que justifique esse pseudo novo resgate.

    Será que pretende referir que os 14 mil milhões já injectados na banca Portuguesa foram insuficientes? Será que pretende dizer que os mais de 600 mil milhões injectados na banca europeia foram uma panaceia?

    Será que pretende dizer que o correcto era ter-se feito o que fez os EUA que foi ter usado 700 biliões de USD para comprar activos tóxicos e regularizar a situação de uma vez por todas? Se é isto, certamente confirmará que os anteriores sabiam tanto o que faziam quanto aqueles que eram seus mentores. Pois pelos vistos é isso que a Europa douta e sabedora e a troika omnisciente pretendem introduzir agora.

    Quanto à questão política, o que todos pensavam era que os preconceitos se manteriam ad eternum. Acontece que existiu uma vitória numérica parlamentar e um avanço político que derrubou preconceitos e fez com que PSD e CDS ficassem sem manobra que não aceitar fazer parte da geringonça.

    É aqui que se determina quem sabe estar. O momento é de derrube de barreiras e preconceitos e deixar falsas equações político-sociais no sítio que lhe compete, isto é, no lixo. Talvez por não se ter feito isto antes Portugal tenha caído nesse lixo que outros decretaram administrativamente, agravando ainda mais a sujeira.

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