O esplêndido suicídio


Luís Naves,

Muitas pessoas inteligentes cometem erros catastróficos depois de arranjarem argumentos muito inteligentes para justificar as suas opções erradas. Com a consciência a sussurrar falta de convicção, defendem aos gritos as más escolhas que fizeram e prosseguem para o desastre, incapazes de se libertar da argumentação.

A histeria retórica de numerosos defensores da solução de governo das três esquerdas é um indício do mau caminho em que o país se está a meter. Os radicais querem a exclusão da direita do poder a todo o custo, acabar com as chamadas ‘políticas de austeridade’ e anular as reformas estruturais feitas. Não faz mal que se ignorem o voto popular e as consequências financeiras, o que interessa é garantir que triunfa a história da carochinha, rejeitada pelo eleitorado, segundo a qual todos os males recentes se devem a políticas de direita irracionais que visam eliminar o estado social. Para os que, apoiando, deixam o corpinho de fora, nunca estivemos em pré-falência e sob resgate. E, no exterior, não há credores, só há especuladores.

A fé no futuro governo do derrotado António Costa baseia-se no mito de que é possível fazer diferente do que fez o governo da coligação. No entanto, se cumprirem o Tratado Orçamental, os novos senhores do país vão desiludir aqueles que agora cantam hossanas à mudança ou vão atraiçoar os acordos que fizeram. Quanto tempo concedem os partidos da extrema-esquerda a mais do mesmo? Por outro lado, se o governo do PS não cumprir os compromissos europeus, isto dura pouco tempo, como já se adivinha nos primeiros sinais de nervosismo dos investidores. Nesse segundo cenário, teremos a fase de vitimização, depois o pânico.

O facto é que, a partir de hoje, tudo muda para o Partido Socialista e a direita poderá ocupar definitivamente o espaço eleitoral do centro, mas no imediato estamos no período dos cínicos e dos idealistas, da presunção e da água-benta. Para o choque com a realidade, conta-se com boa dose de propaganda, mas a aventura envolve riscos tremendos e depara-se com uma Europa com outros problemas mais sérios, pouco disposta a entrar em nova crise existencial. Ao fim de seis meses, será evidente que a frente das esquerdas assenta em fanfarronice e pequena intriga: o PS entrou em delírio e lança-se, aos gritos, num esplêndido suicídio.

Veia lírica


Luís Naves,

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Uma característica da política portuguesa tem sido a irrupção de episódios líricos onde as nossas elites demonstraram elevada tendência para se desligarem da realidade. Vivemos um desses momentos. A comunicação social tem reagido de forma dócil à possibilidade de haver em Portugal um governo minoritário do Partido Socialista, que perdeu as eleições e será suportado por forças que sempre combateram o próprio PS. Considerando as ambíguas informações sobre o hipotético “acordo” da frente das três esquerdas, o programa económico que os socialistas tinham apresentado aos eleitores parece já estar enterrado.

A direita, por culpa própria, não tem imprensa nem intelectuais. Erguem-se vozes isoladas a denunciar uma golpada política que seria improvável numa democracia madura, mas é tudo suave, gerando nas redes sociais vagas de insultos dos charlies de serviço. O país do facebook não tem nada que ver com o país que votou a 4 de Outubro. E quando surgir de novo a perda de credibilidade externa ou a segunda falência consecutiva, todos dirão que não tiveram nada a ver com a aventura.

A intenção do PCP nas negociações parece lógica, considerando o preceito de Napoleão de não interromper o erro crasso de um adversário. De qualquer forma, os comunistas não estarão no governo. A posição do Bloco também faz sentido, pois este partido será o provável beneficiário da futura implosão socialista. Mas, no imediato, o desrespeito pelos eleitores é descarado, embora ninguém se vá lembrar disso quando regressarem as lágrimas de crocodilo sobre o aumento da abstenção.

O lirismo destas soluções de regresso ao passado é quase patético, como se a economia estivesse pujante, como se não houvesse desemprego de longa duração em larga escala, como se a devolução dos cortes provocasse mágico crescimento, sem levar a desequilíbrio externo ou défice orçamental. E Portugal não tem o luxo do tempo, como tinha a Grécia quando negociou com os credores. A um país que se financia nos mercados, o garrote aperta depressa: perda de credibilidade, degradação do rating da dívida, BCE sem possibilidade de intervir, aumento das taxas de juro. Um governo sem legitimidade política, apoiado apenas por dois partidos que passarão o tempo a afiar as facas ou a fazer chantagem, terá apenas a ilusão de governar e de bater o pé aos credores. Haverá muitos sonetos épicos, chinfrineira e bravata, mas o país já antes viveu filmes como este: no fim da monarquia, no estertor da primeira república, no apodrecimento do estado novo, no gonçalvismo.

 

Como existe vida para além do défice, convido os leitores a visitarem este sítio.

O pântano de Costa


Luís Naves,

António Costa criou um pântano e acha que o conseguirá gerir. Na realidade, o PREC light que se anuncia implica desenvolver uma crispação que nada tem a ver com o país. Utilizará agressividade retórica e postiça, tomará por reféns os eleitores e a economia, vai minar a autoridade das instituições democráticas e ameaça transformar o debate político numa gritaria tola, como já se vê nas redes sociais.

O novo poder será precário, mas tentará usar a seu favor a reacção negativa dos credores europeus e dos mercados, levando a super-minoria do PS à segunda fase do plano: imitação do Syriza, com vitimização patriótica. Após seis meses de caos e de lusitânica bazófia, os socialistas tentarão culpar os outros pelo seu falhanço, fazendo-se eleger sobre ruínas. O plano parece perfeito, embora exija atirar borda fora a extrema-esquerda, algures num momento de maior drama, o que parece difícil, pois conta demasiado com a estupidez alheia.

Quatro anos de sacrifícios serão também malbaratados em poucos meses. Tudo isto revela irresponsabilidade e desejo infantil de vingança. Provavelmente, a corrida para o precipício terminará da pior maneira, com o PS irrelevante e cortado às postas, a economia de rastos, o país cansado da xaropada, talvez até com o segundo resgate à porta, o menu dos novos sacrifícios a ser lido, com ar severo, por uma troika qualquer. A ingenuidade de alguns, a cínica ambição de outros, a complacência e o espírito tribal conjugam-se desta forma perversa para lançar Portugal numa transição para nenhum futuro.

Vivemos num tempo de hipocrisia e adoração do efémero, onde os valores se esgotaram e já não passam de palavras esvaziadas, ao serviço de perdedores profissionais com sede de poder, que assim atraiçoam milhões de eleitores, devidamente aplaudidos pelos fracos de espírito e pelas claques devoradoras.

Os partidos iliberais


Luís Naves,

O José Navarro de Andrade levanta no excelente texto “Quando a Música Parar”, um pouco mais abaixo, um problema interessante e concordo no essencial com o que ele escreve. No entanto, ao usar a expressão “democracia liberal”, torna-se mais difícil compreender este fenómeno dos desafios à ordem instituída. Qual a razão de usarmos tantas vezes a expressão “democracia liberal” quando falamos das democracias europeias? O modelo europeu é essencialmente social-democrata, com muita participação conservadora. É liberal no sentido de universalizar as liberdades de mercado, de pensamento, de religião, os direitos cívicos, mas nada disto é posto em causa pelos partidos “iliberais” que o post regista.

Enfim, nenhum dos eurocépticos quer acabar com a democracia no seu país, com o voto livre no seu país, nem sequer com a liberdade religiosa das suas minorias (desde que não se reze na rua). Os partidos iliberais da direita (os que têm algum sucesso) desejam restringir a imigração; os da esquerda pretendem taxar os ricos e a banca, controlar os mercados; por vezes, os da direita também querem refrear o sistema capitalista, mas não consigo referir nenhum partido europeu de peso que defenda o fim da democracia representativa, o fecho das bolsas, o encerramento dos parlamentos ou restrições à liberdade de expressão.

Nos anos 30, as frágeis democracias europeias criadas no final da Primeira Guerra Mundial foram lentamente sufocadas por partidos anti-parlamentaristas que criaram regimes ditatoriais e que defendiam em campanha a ideia de abolir a democracia. Tirando franjas lunáticas, julgo que isto hoje não existe.

Nos meios de comunicação, sobretudo ocidentais, há certa confusão sobre o “iliberalismo” nos países de leste, daí a inclusão do ‘Caso Orbán” na lista do texto. Tenho tentado explicar aos leitores do Delito que, sendo iliberal, o primeiro-ministro húngaro não deixa de ser democrata. Não quero maçar os leitores, mas por razões históricas, relacionadas com o colapso do regime comunista, os raciocínios que vemos aplicados no Ocidente não são aplicáveis no leste, como veremos também no caso polaco.

A Polónia vota amanhã e os conservadores do Partido da Lei e Justiça (PiS) deverão vencer com folga, embora sem maioria absoluta. É possível que os conservadores façam uma coligação com pequenos partidos populistas ou centristas, mas alguns à esquerda falam na possibilidade de ser criada uma maioria negativa semelhante à que se desenha em Portugal, ou seja, o vencedor das eleições seria afastado do poder através de uma super-coligação pós-eleitoral de partidos muito diferentes entre si.

 

Julgo que acabará por não acontecer, mas fala-se. A “esquerda”, ou aquilo que aqui interpretamos como esquerda (SLD, pós-comunistas) arrisca-se a nem entrar no parlamento; de qualquer forma, terá um resultado inferior a 10%; os centristas da Plataforma (PO, liberais e europeístas, no poder) devem perder as eleições e a sequência dos acontecimentos dependerá da diferença que existir entre os dois maiores partidos. Uma diferença grande facilita a coligação liderada pelos conservadores; a diferença pequena pode levar a certa instabilidade.

Tudo indica, pois, que a Polónia terá um novo poder semelhante ao húngaro, com “má imprensa” no exterior, desconfiado em relação à Europa, mas neste caso bastante mais hostil em relação à Alemanha. A “democracia liberal” perde para a “democracia conservadora, nacionalista e ultra-católica” e, se a diferença for pequena, podemos ver um aumento da crispação política, isto se persistir a tentação de se criar a tal maioria negativa de curta duração. De qualquer forma, acentua-se o fosso crescente entre as “democracias liberais” da UE ocidental e as “democracias iliberais” da UE de leste, que os meios de comunicação dos países ricos gostam de descrever como ainda selvagens e trauliteiras, em oposição à ordeira Europa intergovernamental da “liberal merkolândia”.

O que conduz à minha explicação para este problema do desafio à ordem instituída: quando os eleitores dos pequenos países não são ouvidos, há tendência para surgirem partidos de protesto com algum êxito; quando uma parte do eleitorado é excluída (os vossos votos não interessam), existe tendência para aparecerem partidos populistas; quando as elites ignoram as ansiedades sociais, reforça-se o nacionalismo.

 

O acordês


Luís Naves,

Serve esta pequena nota para contestar o texto mais abaixo de José António Abreu, numa crítica que estendo aos comentadores que o elogiaram.

A indignação com o acordês tem momentos que lembram os debates sobre bola que tomaram conta das televisões e cuja agressividade é já quase cómica, de tão artificial. Esses debates parecem ser sobre futebol, mas tratam de assuntos laterais, como o gosto ou a cor das gravatas. O caso do acordês é semelhante, ninguém discute as questões minúsculas da escrita, mas a conversa entra de imediato nos terrenos da qualidade literária e do estilo, o que me parece bizarro.

O meu companheiro de blogue não lê uma revista de literatura (onde já publiquei um texto) por ela ser escrita numa ortografia que lhe é desagradável e, seguindo o critério, o José António arrisca-se um dia a não ler coisa alguma, nem jornais, nem ficção. O que andará a perder?

Também não gosto do acordo ortográfico, não percebo a sua relevância, mas essa ignorância e essa sensibilidade jamais me levariam a deixar de ler literatura ou qualquer jornal e revista. Escrevo geralmente na ortografia antiga, que conheço melhor, mas isso não me parece importante para a escrita: tenho a sorte de compreender obras de ficção em várias línguas e nunca me incomodou a ortografia de cada uma delas. Já li brasileiros publicados na ortografia original, o que nunca me incomodou. Leio sem dificuldade jornais estrangeiros, brasileiros ou escritos em acordês, algo em que deixo de reparar ao fim de cinco minutos.

Em cada texto de 500 palavras, o acordês envolve a alteração de uma ou duas. Façam a experiência com este texto de 400 palavras.

A questão, naturalmente, não está na ortografia, mas no conteúdo e na qualidade. Quando falamos de literatura, falamos na densidade do texto e das personagens, na forma e originalidade, no fluxo, na riqueza do vocabulário, nos cenários, no estilo, na intensidade poética, nas emoções e na sinceridade do autor. O tema certo não é a convenção que nos desagrada, mas a boa literatura supera a língua em que foi escrita, o tempo e a sociedade em que foi escrita, é mais interessante do que o próprio autor que a escreveu. A arte original tem ritmos próprios, profundidade, superação do tempo, universalidade, funciona em qualquer língua e em regras codificadas que, lidas em cada dia, se tornam invisíveis. Deixar de ler por tão pouco?

Tauromaquia política


Luís Naves,

Já não há paciência para esta tauromaquia política. Não sei se é teatro ou realidade, mas parece uma brincadeira irresponsável que tem por refém a vida dos outros. Quatro anos de sacrifícios podem ter servido para pouco e só apetece sair disto tudo, fugir da prisão dos factos, desta tristeza brutal em que vivemos, entre a impossibilidade e o tormento. O desrespeito pelo voto, o escárnio que merece o trabalho de décadas, o triunfo dos medíocres. A sociedade portuguesa, pelo menos na sua versão partidária, arrasta-se numa espécie de desesperança e vácuo, numa inaturável retórica de poder que repete com alegria os erros do passado e ignora parvamente as circunstâncias do presente. As negociações falhadas são manobras, dizem os peritos, mas as consequências batem à porta de cada um de nós. O juízo da classe política durou pouco tempo e regressam a instabilidade e a má liderança.

Se António Costa está a tourear a extrema-esquerda, dando falsas esperanças de querer formar um governo de ruptura com a austeridade imposta pela Europa, haverá no final do processo um milhão de eleitores com fortes razões de queixa. Se os socialistas estão a tourear a direita, o eleitorado do centro deixará de ter qualquer confiança num partido que foi crucial na construção da democracia portuguesa e que será irrelevante no futuro. Seja qual for o final da história, já perdemos, mas perderemos ainda mais com um hipotético governo de esquerda que pretende conciliar uma via europeia impossível, juntando na mesma equação a ruptura e a continuidade.

O lirismo nacional


Luís Naves,

O lirismo nacional acabou frequentemente em falta de bom senso e espero que não seja o caso do hipotético governo de esquerda que nos levaria com toda a probabilidade ao segundo resgate. Lendo o que se escreve, teme-se o pior. Como Talleyrand disse dos Bourbon, alguns sectores da esquerda não aprenderam nada e não esqueceram nada.

O país mudou, mas as suas elites continuam medíocres como sempre. A pequena táctica sobrepõe-se ao interesse nacional e os líderes parecem prisioneiros de cálculos de curto prazo. O mais preocupante é esta incapacidade de ver o óbvio: os mercados reagirão de forma impiedosa a cada novo sinal de alucinação. Legitimidade constitucional? Isso existe. Mas para que serve um governo de esquerda liderado por um partido que quer cumprir o tratado orçamental europeu e que inclui (ou é apoiado por) dois partidos que contestam esse tratado?

Se não estivermos perante uma manobra ilusória (cada vez mais difícil de desfazer), a tentação de criar uma frente de esquerda terá implicações na relação com a Europa. Os radicais terão de abdicar das suas ideias ou não haverá esperança de controlar as contas públicas e cumprir as metas que nos foram impostas. A confiança dissipa-se em poucas semanas, com efeitos no investimento, no crescimento e no emprego. Na melhor das hipóteses, a estabilidade política será intermitente e a esquerda do PS vai dedicar-se à táctica do salame, cortando às postas o eleitorado socialista.

Há uns líricos de direita que acham esta perspectiva positiva, pois no fim terão maioria absoluta, mas tal como os outros, subestimam os custos da aventura. As fantasias pagam-se caro e estas ilusões surgem no pior momento. A Europa está metida numa crise de refugiados de efeitos imprevisíveis e haverá escassa tolerância em relação a tontinhos que queiram agitar o barco: as notícias sobre as eleições de dia 4 eram sobretudo breves a referir a vitória da coligação de centro-direita, sem menção de qualquer sombra de crise. Agora, sem aviso, surge um bando de poetas a declamar maus sonetos, que os europeus não tencionam ouvir.

Fantasia perigosa


Luís Naves,

O inaturável provincianismo e a tradicional bazófia lusitana conspiram para uma interpretação malabarista dos resultados eleitorais. Os vencedores, afinal, não venceram. A comunicação social, sempre atenta ao irrelevante e resistente à lógica, alinha nesta perigosa fantasia.

Um governo que reunisse as duas esquerdas teria de resolver o problema genético de uma sua parte ser contra o Tratado Orçamental europeu e outra parte a favor. Um governo de esquerda que revogasse as reformas que a troika impôs nos últimos quatro anos estaria a comprometer no imediato a confiança dos credores, secando o financiamento externo do país e levando em poucas semanas à formação de filas nas caixas multibanco.

O Tratado Orçamental estabelece o limite de défice estrutural de 0,5% do PIB e, caso sejam cumpridas as metas deste ano (2,7%), faltam cerca de dois pontos percentuais, 3 mil milhões de euros, que podem ser obtidos sobretudo através de crescimento económico e receita de impostos nos próximos três anos. Num contexto de crise europeia, surge esta tentação de ignorar a vontade popular e destruir o que foi feito. Ela leva-nos a instabilidade política, a uma nova situação de pré-falência e a um segundo resgate, ainda mais duro que o anterior. Não há espaço para loucuras e mesmo os nostálgicos dos governos de cinco minutos da Primeira República deviam entender que as elites fracas afundam países e que os naufrágios, no mundo contemporâneo, são demasiado rápidos.

O que a imprensa portuguesa ainda não compreendeu sobre a crise dos refugiados


Luís Naves,

Em relação à crise de refugiados, a imprensa portuguesa continua a não perceber duas coisas: a rota e a quantidade. Hoje, na rádio, uma jornalista colocava na mesma frase as ideias contraditórias de que a fronteira húngara estava “fechada a sete chaves” e de que ontem “entraram na Hungria 10 mil pessoas”. Aliás, nos últimos seis dias, entraram na Hungria mais de 40 mil migrantes, transportados das fronteiras croata e sérvia para campos de refugiados em território húngaro e para a fronteira austríaca. É portanto estranho que frases como aquela continuem a surgir nos noticiários: ou a fronteira não está fechada a sete chaves ou não entraram dez mil pessoas.

O arrastão mediático de indignações e superioridade moral impede que seja compreendida a vedação que o governo húngaro construiu na sua fronteira com a Sérvia. Ao travar a passagem a salto de pessoas indocumentadas (de acordo com a sua interpretação da lei internacional), o governo húngaro forçou a Sérvia a registar todos os refugiados. Aliás, Budapeste continua a dizer que a responsabilidade pelo registo cabe aos gregos. Embora tenha sido acusado de não cumprir o Acordo de Schengen ou de o ter posto em causa, o primeiro-ministro húngaro, o famigerado Viktor Orbán, pode ter evitado o colapso desse acordo.

O que a imprensa portuguesa ainda não compreendeu é que TODOS OS REFUGIADOS PASSAM PELA HUNGRIA E TODOS PASSAM PELA ÁUSTRIA; a rota balcânica tem de atravessar forçosamente aqueles dois países, só que agora os contrabandistas já não controlam o processo e os refugiados fizeram nos países anteriores o registo obrigatório, que inclui identificação da pessoa. O registo dá-lhes o direito a livre circulação no espaço Schengen. A Hungria está inclusivamente a comprar tendas resistentes ao frio intenso (isto não vai parar no Inverno) e é agora um país de trânsito semelhante à Áustria, embora mais pobre, mas a lidar diariamente com as mesmas enormes quantidades de migrantes, que carecem de tratamento, alimentação, transporte.

A outra incompreensão tem a ver com os números desta migração em larga escala. A Comissão Europeia já procedeu a duas distribuições de refugiados, somando 160 mil pessoas (Portugal receberá 4500), mas as chegadas diárias à Europa Central continuam a aumentar depressa e, em breve, podemos estar perante números muito superiores, não me admirava que fossem cinco e dez vezes maiores. Se temos uma quota de 3%, é fazer as contas. Os números alemães também já não batem certo: estão à espera de um milhão de pessoas; sendo que a imigração normal costuma ser de 400 mil anuais, então estamos a falar de 600 mil adicionais; ora, a quota alemã foi de apenas 35 mil; é muito evidente que isto é só o começo.

Um desabafo inútil


Luís Naves,

Sei que este desabafo é inútil, mas julgo que há limites para a tolice e para a irresponsabilidade. Este texto de Francisco Sena Santos é um chorrilho de imprecisões e falsidades, servindo apenas para enganar a opinião pública. O primeiro parágrafo é inacreditável e revela a total ignorância do autor sobre o tema em causa e sobre o funcionamento da União Europeia. “Controlo administrativo sobre rádios e TVs”? “Pressões sobre juízes”? “Hostilidade com minorias étnicas”? Como explicar que não existe uma única frase verdadeira naquele parágrafo*? Como se faz para explicar ao autor que a lei que o indigna e o leva a querer acabar com a “infecção” (gosto da linguagem nada xenófoba) foi aprovada no parlamento quase por unanimidade; o Fidesz não tem maioria qualificada e a lei passou com os votos da oposição de extrema-direita, sim, mas foi também viabilizada por dois partidos da oposição de esquerda, que se abstiveram, certamente sodomizados pelo senhor Orbán.

Como explicar ao autor desta inqualificável prosa que neste momento há milhares de refugiados em território da Hungria e que por ali já passaram mais de 200 mil? Foram (e são) protegidos, alimentados, tratados, embora em Portugal o arrastão mediático faça um retrato patético. Como é que a circunstância factual de haver milhares de refugiados em território húngaro joga com a “intolerável brutalidade” do primeiro-ministro?

Viktor Orbán deve ser criticado politicamente, mas a fantasia sobre a existência de uma ditadura que não existe serve apenas os interesses da estultícia. Segundo Sena Santos, Orbán quer pôr fim a Schengen, embora a Hungria seja o único país da região que cumpriu esse acordo, tentando registar os migrantes indocumentados.

Informe-se, verá que mais de 50 mil foram registados, o que aliás provocou um pandemónio no país, com desobediência civil em massa, paralisação do sistema ferroviário, fecho de fronteiras, caos nas auto-estradas, alarme social que levou o próprio partido socialista húngaro, na oposição, a elogiar a actuação da polícia. Mas perante a ignorância do autor deste texto é impossível explicar que os migrantes que agora passaram a ser registados nos países de trânsito anteriores (Sérvia, Croácia) têm direito a livre circulação e circulam hoje de forma controlada pelo território húngaro, transportados através das zonas de trânsito até à fronteira austríaca. Há uma migração ordeira de milhares de pessoas e não podia ser de outra forma, pois quem tem documentos passa sem problemas. O transporte é gratuito e não há máfias a lucrar com o negócio da desgraça destes refugiados. Faça favor de ver a BBC, veja a CNN, informe-se, leia, estude.

 

*é pura demagogia confundir casos de polícia e discriminação social de ciganos com uma política governamental de hostilidade dessa minoria, como se entre nós não existe também o problema.

Esta crise é mais complexa


Luís Naves,

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Em poucas semanas, um fluxo diário de centenas de migrantes transformou-se numa vaga humana de milhares por dia. Como tentei explicar aqui, e tal como aconteceu na crise das dívidas soberanas, os europeus parecem incapazes de se entender sobre o cumprimento das regras que eles próprios estabeleceram, colocando-se os Estados-membros na situação de insensibilidade, se quiserem cumprir a lei, ou de estados irresponsáveis, se tentarem contorná-la.

Os refugiados recusam-se a aceitar o registo obrigatório previsto no Acordo de Schengen e encaram cada país de trânsito como um território de passagem a cujas leis não obedecem. Ultrapassada pelo números, desistindo de acolher e registar os refugiados ao fim de apenas 24 horas, a Croácia (membro da UE, mas fora de Schengen) enviou ontem seis mil migrantes para a fronteira húngara, sem avisar o vizinho, incluindo um comboio repleto que passou um sinal vermelho e atravessou ilegalmente essa fronteira, levando a bordo também quatro dezenas de polícias.

Incidentes como este vão repetir-se numa crise humanitária de consequências imprevisíveis e que nem o Inverno duro dos Balcãs conseguirá travar. Na travessia do Mediterrâneo, a taxa de mortalidade dos refugiados é escandalosa, superior a 0,5%, mas estes números não incluem os que são roubados e batidos pelos contrabandistas. O acordo de Schengen está suspenso em meia dúzia de países e a Alemanha repete nesta crise tácticas que usou contra a Grécia nos momentos mais difíceis dos problemas da zona euro, fazendo ameaças veladas de cortar fundos.

 

Há demasiadas perguntas por responder. Se quer absorver um milhão de pessoas, qual a razão de a Europa não procurar directamente nos campos da Turquia, Líbano e Jordânia, onde há quatro milhões de refugiados em grande carência? É evidente que a acção na fonte, como Londres defende, é a mais sensata. O investimento em larga escala nos campos podia tirar esta migração das mãos das máfias e das redes de traficantes. Não havendo política de imigração comum, como é que os grandes países da UE pretendem impor mais integração em matérias que são de cooperação? E qual é a lógica das críticas à Hungria, o único país que tentou cumprir Schengen, ao procurar proteger a fronteira externa da UE e registar todos os migrantes que ali entraram, cerca de 200 mil? O que fazer quando os refugiados criam o maior pandemónio nos países que atravessam?

 

Esta crise rebenta numa altura em que quatro países europeus vão a votos, ou seja, num momento infeliz para a discussão de assuntos fundamentais. As quotas permanentes não vão funcionar num espaço de livre circulação e a intervenção militar na Síria com tropas no terreno parece ser exactamente o que pretende o Estado Islâmico (EI). Fala-se ainda do perigo de entrada de extremistas, mas o facto é que estes refugiados sírios são na sua maioria vítimas do califado e do regime de Bachar al-Assad; o contingente de fugitivos inclui cristãos e curdos, igualmente do Iraque, mas também afegãos de populações adversárias dos talibãs, nomeadamente Tajiques e ainda Hazaras (estes últimos, xiitas). Também se argumenta que a Alemanha tem necessidades demográficas e que Berlim viu aqui uma oportunidade, mas uma futura política comum europeia de fronteiras, asilo e imigração, sendo adequada para os países grandes (Alemanha, França ou Itália), não fará sentido para os de Visegrad, que têm minorias da sua cultura e língua em nações vizinhas.

A próxima cimeira terá de esclarecer questões imediatas: como ajudar esta gente sem pôr em causa a livre circulação na UE? Cumprir o Acordo de Schengen continua a ser uma obrigação? E se este acordo é um fracasso, como é que ainda não está a ser discutida a sua alteração? E o que se pretende, mais segurança ou mais humanidade?

 

A fotografia é minha, foi tirada dia 7, num campo de recepção de refugiados, na fronteira entre a Hungria e a Sérvia

Quando comparações históricas injustas servem para desviar do essencial


Luís Naves,

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Cada discussão que nos afasta do essencial é uma discussão a mais. Sérgio de Almeida Correia publicou aqui dois textos sobre a crise dos refugiados, com duras críticas ao governo húngaro. No primeiro, juntava vagas interpretações com meias-verdades para descrever uma espécie de regime ditatorial. É uma longa conversa, altamente contaminada e que não me interessa. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, tem defeitos: é um conservador populista com visão exagerada do seu país, tem tendência para a franqueza pouco diplomática e para o que considera ser a defesa intransigente dos interesses nacionais. Criticável? Sim, mas incompreensível sem o elemento explicativo de um partido tóxico na oposição de extrema-direita e de outra oposição de esquerda pós-comunista, que levou a Hungria à falência. Na sociedade húngara há discriminados? Sim, os ciganos. Mas é falso que o primeiro-ministro seja anti-cigano.

Podia tentar refutar as questões levantadas no primeiro texto, por exemplo sobre os juízes (existe explicação, mas é complexa) ou sobre a liberdade de imprensa, mas o post a bater no líder húngaro está cheio de preconceitos e não vou convencer o autor. A interpretação política é dele e, para mais, a discussão é lateral, pois na realidade estamos perante uma crise de refugiados sem precedentes e o que está verdadeiramente em causa, do ponto de vista dos europeus, é se cumprem as regras que eles próprios escreveram.

 

O segundo texto do Sérgio é injusto, pois faz um paralelo histórico que só se aplica num contexto de grande hipocrisia. A Hungria já recebeu 200 mil refugiados este ano, sobretudo nas últimas semanas, e tem, neste momento, milhares no seu território. Está a fazer muito mais do que Portugal.

Budapeste esteve mergulhada no maior caos, com grandes quantidades de refugiados a recusarem cumprir a lei, a fugirem em massa ao registo obrigatório previsto no Acordo de Schengen. Nas fronteiras, houve fugas organizadas por traficantes, os quais controlam a passagem suave de toda a massa humana pelos Balcãs. Por causa desta guerrilha, o país ficou isolado, sem comboios, com auto-estradas interrompidas e acampamentos em estações. Será porventura preferível que as máfias do tráfico humano controlem esta migração? A comparação com 56, insinuando a insensibilidade e a ingratidão dos húngaros, revela a tese sentada no conforto do camarote.

 

E já nos desviámos bastante do assunto. O que não se percebe nas críticas do meu parceiro de blogue é o seguinte: o que devia ter feito a Hungria? Se não fechasse a fronteira, os migrantes passavam sem controlo; se fechasse, estava a ser insensível. O Acordo de Schengen é para cumprir ou para ignorar? Há soluções colectivas para a crise ou os países da linha da frente são abandonados à sua sorte? Aliás, a Hungria não se considera na linha da frente, acha que o registo tem de ser feito na Grécia; as autoridades europeias discordam, sendo isto que está a ser negociado. E há outras perguntas: entra toda a gente na Europa ou apenas os refugiados provenientes de países em guerra? E os países europeus têm o direito de proteger as fronteiras ou estas devem ser uma responsabilidade colectiva?

Por azar, quatro países europeus estão à beira de eleições, é natural que ninguém queira discutir estes problemas. No final, a Hungria parece ter sido o único país a tentar cumprir o Acordo de Schengen, procedendo ao registo obrigatório dos migrantes, o que implica a recolha de impressões digitais e permanência de vários dias em campos sub-financiados. O Governo húngaro diz que gastou 200 milhões de euros e que recebeu apenas 7 milhões da Europa. Muitos migrantes resistiam, com milhares a desafiarem as ordens da polícia. E como interpretar um episódio em que uma multidão assalta à pedrada uma fronteira internacional, tentando passar essa fronteira à força e dizendo que só pretende chegar à Alemanha? Passam todos sem restrições? Podem não cumprir as leis locais? A fronteira não existe? Aquele espaço é de livre circulação? Foi simples desespero de uma multidão sem opções ou um desafio à soberania de um país? Difícil responder.

Em resumo, esta crise é semelhante à crise da zona euro, mas bem mais grave do ponto de vista humanitário. A Grécia não cumpriu as regras da moeda única, elegendo um governo que tentou desafiar as exigências em vigor e que foi forçado a cumpri-las. Na altura, elogiou-se Atenas e criticou-se a Europa. Agora, estamos perante um governo que tentou aplicar o Acordo de Schengen, protegendo as fronteiras e registando os migrantes, mas esse  governo está a ser execrado e a Europa, que não se entende sobre as regras a aplicar no caso, é muito elogiada por não existir.

 

Foto minha, de um motim de migrantes que recusavam registo, em Roszke, na fronteira com a Sérvia

Era melhor deixar os traficantes a controlar o processo?


Luís Naves,

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Um leitor escandalizado com os meus textos achava que os refugiados são escorraçados na fronteira da Hungria e que a barreira de arame farpado serve para impedir a sua entrada. Esta ideia falsa circula nas redes sociais. Como podia isto ser verdade? Se entraram 180 mil, como é que foram escorraçados? Na realidade, os migrantes estão todos a entrar no espaço Schengen, em locais controlados, a que as autoridades chamam ‘hotspot’. Os traficantes saíram da equação, apesar de influenciarem motins através de telemóveis, o que leva a uma questão: o que é preferível, que o trânsito de refugiados pela Hungria seja controlado pelas autoridades ou pelas máfias?

Estive no hotspot mais relevante, em Roszke, vi o que ali se passava, tirei fotografias, falei com refugiados e com polícias, conheço a Hungria, mas muitos leitores desconfiam do que escrevo. Como jornalista, estive em duas outras situações humanitárias graves: esta é a pior. Os húngaros estão a tentar cumprir as elaboradas regras de concessão de asilo previstas em Schengen, tirando impressões digitais e levando vários dias a processar a papelada, o que significa que têm mais de 20 mil pessoas no seu território, em cada momento. A alternativa a tudo isto seria a extensão do controlo do tráfico até à fronteira austríaca e o caos nas entradas das nossas fronteiras ou o fim puro e simples da zona Schengen.

 

Estamos a assistir a uma campanha organizada que visa exercer pressão política sobre os países do grupo de Visegrad (Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia), que somam os votos da França no Conselho Europeu e que, antes da cimeira europeia, se recusam a aceitar quotas permanentes de refugiados geridas por Bruxelas. Está aqui em causa um conflito que opõe os chamados ‘países do leste‘ a alguns governos ocidentais que defendem a criação de uma política comum de asilo e de imigração.

As análises sobre esta crise nunca levam em consideração a política interna húngara, com a sua crispação peculiar; nem sequer as redes de traficantes; houve, por exemplo, centenas de detenções de suspeitos, que ninguém menciona. O tráfico humano através da Hungria foi praticamente neutralizado. A excepção são centenas de voluntários austríacos que, tontamente, vão à Hungria nas suas viaturas transportar migrantes, numa acção a que podíamos chamar ‘ taxismo de tráfico humanitário’.

 

Os comentadores deviam ponderar sobre o que escrevem e explicar qual é a alternativa: se a Hungria não é uma democracia, o que está a fazer na União Europeia? O que nos leva à estranha conclusão de que os húngaros devem ser expulsos da Europa ou que o seu governo legítimo deve ser substituído sem eleições. Se a barreira é a maneira incorrecta de controlar a fronteira de Schengen, qual é a maneira certa? Se os refugiados não são registados, devem então passar com toda a liberdade pelo território húngaro? Sendo assim, quem controla o espaço de livre circulação? Cumprem-se as regras ou vamos repor as fronteiras nacionais e acabar com uma das principais liberdades da UE? E aceitamos só refugiados ou também imigrantes económicos? E quais são os poderes de Bruxelas nas duas matérias? Os países com diferentes necessidades económicas perdem a soberania nas políticas de imigração? E nas fronteiras? E os padrões para ajuda aos refugiados, serão suecos ou portugueses? Havendo padrões diferentes, como serão mantidas as pessoas no local desfavorável?

A passagem dos refugiados nunca esteve em causa, o que está mesmo a ficar em causa é a estabilidade da União Europeia e o direito dos pequenos países de decidirem sobre o que acontece no seu território.

As quotas não vão funcionar por três razões: isto é apenas o início de uma migração em larga escala que pode durar anos e os activistas vão perder o entusiasmo; os sírios não querem vir para Portugal e logo que tenham os papéis de asilo, vão usar a liberdade de circulação e instalam-se em outros países; finalmente, as necessidades demográficas e de mão-de-obra da Alemanha são um caso único, pois já não há étnicos alemães no exterior; os ‘países de leste’, que também têm crises demográficas e economias a crescer depressa, querem satisfazer a suas necessidades de população adicional em países limítrofes, absorvendo étnicos polacos da Ucrânia ou étnicos húngaros da Sérvia e Roménia. Não havendo políticas comuns na matéria, têm todo o direito de fazer as suas escolhas.

 

Sei que escrever contra a generalidade dos noticiários é uma tarefa frustrante e que poucas pessoas vão ler estes textos sem preconceito. Peço desculpa por retirar espaço a outros autores do Delito, mas julgo que era importante escrever esta série (e dois textos no Observador). Considero urgente ajudar estas pessoas, descrevendo a dura e complexa realidade que testemunhei no local. Estamos perante o início de uma tragédia em larga escala e a Europa tem o dever de ajudar estes refugiados, sem ambiguidade ou hipocrisia, sem emoções dispersas, hesitações ou mitologias que nos dividam. Sou mau fotógrafo, mas gosto da foto que acompanha este texto: era um senhor muito simpático, afegão, com ar nobre e tranquilo. Espero que tenha a maior das felicidades na Europa.

A política interna também explica alguma coisa


Luís Naves,

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Na política interna húngara, a alternativa a Viktor Orbán é a verdadeira extrema-direita, o Jobbik (na oposição), partido recente que se um dia chegar ao poder não hesitará em retirar aquele país da União Europeia. A propósito, a ‘jornalista‘ que rasteirou refugiados era uma agente provocadora do Jobbik, partido extremista que defende a proibição de entrada de migrantes. O Jobbik surge nas sondagens a rondar 20% das intenções de voto: é um partido anti-europeu, anti-capitalista, xenófobo, anti-semita e sobretudo anti-cigano, com estranhas ligações ao regime de Vladimir Putin.

O conservador Fidesz, de Viktor Orbán, no poder, é favorável à entrada dos refugiados, mas sob controlo das autoridades, e tenta cumprir as convenções internacionais que o seu país assinou. Cumpre igualmente as regras de Schengen, ao proteger as fronteiras, impedindo a passagem de pessoas que tentam entrar ilegalmente e ao registar todas as entradas. Os partidos de esquerda, muito críticos de Orbán, defendem a passagem livre de todos os refugiados, mas também de todos os imigrantes. Este bloco está fraccionado, mas a maior formação é o MSzP, socialista, ou melhor, pós-comunista, que combate a direita insistindo que Fidesz é igual a Jobbik. Esta táctica de confundir a identidade política dos adversários tem tradições e foi usada pelos comunistas, no final dos anos 40, para destruir os partidos burgueses, naquilo que ficou conhecido como a ‘táctica do salame’.

O primeiro-ministro Orbán pode ser definido como um conservador e populista que antecipou o pagamento da dívida ao FMI e se atreveu a seguir uma política económica heterodoxa, fazendo a banca (dominada por instituições estrangeiras) pagar a crise e reduzindo brutalmente as rendas excessivas de monopólios que tinham sido privatizados. Neste processo, ganhou muitos inimigos externos, ao mesmo tempo que fez extensas reformas internas. Embora muito do que realizou não seja liberal, incluindo algumas nacionalizações, a Hungria tem uma economia competitiva, a crescer acima de 3%. A crise financeira provocada pelos socialistas já terminou, é muito evidente, mas as desigualdades sociais aumentaram, embora a classe média tenha sido beneficiada e o Fidesz continue a liderar as sondagens com grande vantagem.

Assim, muito do que lemos sobre a forma como esta crise está a ser gerida tem de ser interpretado com um grão de sal, tendo em conta a elevada crispação da política interna húngara. A Hungria é obviamente uma democracia e só o facto da questão ser levantada já dá que pensar: há eleições livres desde 1990 e Orbán já venceu três delas e perdeu uma, ganhando igualmente várias votações europeias e regionais. Trata-se de um regime parlamentar com um sistema eleitoral que, aliás, Portugal devia estudar. A Hungria tem liberdade de expressão, de manifestação e de imprensa e, exceptuando a discriminação dos ciganos, não tem grandes problemas sociais ou de minorias. A oposição de esquerda controla uma televisão de notícias e um dos principais jornais, tendo amplo acesso à opinião pública. Há ainda duas televisões muito críticas do primeiro-ministro. Não é democracia? Então é o quê, uma ditadura?

A crise de refugiados, outra versão


Luís Naves,

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Não pretendia escrever mais sobre a crise de refugiados, mas tenho lido na imprensa algumas visões injustas e sensacionais sobre o que se está a passar. Julgo que alguns comentadores ainda não perceberam a dimensão do fluxo migratório e a maldade dos traficantes. Portugal vai receber 3 mil refugiados no âmbito de uma quota que está a ser negociada a nível europeu e que se poderá tornar permanente, quer dizer, a rondar 3% das futuras entradas. No entanto, aquilo a que estamos a assistir é apenas o início de um gigantesco movimento de gente, o que torna incompreensível a histeria de alguns activistas em relação a incidentes menores.

Quando saí da Hungria, na quinta-feira, os números oficiais eram de 178 mil entradas em 2015, mas no final desta semana podemos estar a falar de 200 mil pedidos de asilo. Ou seja, Portugal recebe um dia de entradas, esforço que rapidamente se vai revelar obsoleto. E se nos próximos dois anos chegarem 2 milhões de sírios, metade dos que estão em campos de refugiados da ONU? O número não é absurdo. O New York Times escrevia que já não há verba para alimentar os que estão em campos na Jordânia. Repito: isto é apenas o início de um movimento em larga escala; os europeus têm obrigação moral e legal de receber os refugiados que baterem à sua porta. Com uma quota de 3% e uma vaga de 2 milhões, Portugal receberia 60 mil refugiados, geralmente relutantes em permanecer no nosso país.

Estas pessoas estão em movimento, rumo à Alemanha e Suécia, mas é provável que um pequena nação como a Hungria tenha albergado, em cada dia do último mês, mais de 20 mil pessoas simultaneamente. Mesmo assim, foi possível registar, alimentar, transportar e proteger toda esta gente. Por isso, não entendo que só haja notícias negativas. O que é que se pretende, que a multidão não seja controlada? Os traficantes estão a fazer fortunas e a refinar os métodos, mas ao cumprir as regras da zona Schengen de livre circulação, a Hungria eliminou o tráfico, pelo menos no seu território, pelo que estão a surgir novas rotas, nomeadamente através da Croácia e Eslovénia.

Alguém em Portugal leu notícias sobre a detenção pela polícia húngara de dezenas de suspeitos de tráfico? E alguém pensou que teriam garantias de sobrevivência as 70 pessoas que há duas semanas morreram asfixiadas num camião conduzido por traficantes, caso fosse possível pôr o filme a andar para trás e só agora esses refugiados chegassem à Hungria?

 

Na sexta-feira passada, não entrei no pavilhão azul de Roszke onde a polícia foi filmada a lançar pão a um grupo de refugiados. Nesse dia, ocorreu um motim e houve uma fuga de centenas de migrantes, que invadiram a auto-estrada. Só uma exibição de força da polícia de choque (sem acção), acalmou a rebelião, mas assisti a momentos de grande tensão e nervosismo. O campo não tinha condições e foi abandonado no dia seguinte. Pelo que vi nesse dia, a polícia agiu de forma profissional, retirando mulheres e crianças da zona, mas vi muitas crianças na primeira fila da confusão.

É óbvio que esse protesto teria motivos, mas o facto é que o campo de registo mudou de local 24 horas depois. Segundo me disseram membros da protecção civil húngara, no novo campo havia melhor organização, comida e água. Visto do exterior, assim parecia. Tanto no antigo como no novo, havia médicos e era visível a presença de organizações internacionais, como a Cruz Vermelha. Muitos refugiados chegam doentes e com marcas de espancamentos. Alguns viajaram através dos Balcãs sob ameaça de armas de grupos de traficantes. 

 

No ponto da fronteira onde os migrantes eram recebidos, ao ar livre, todos recebiam comida e água, não havendo filas de mais de dez pessoas. Todos eram transportados em autocarros. As condições de higiene eram atrozes e os refugiados recusavam o registo e tentavam escapar, ensaiando fugas em massa que em certos casos resultaram e que a polícia húngara teve sempre dificuldade em controlar, mas não assisti a nenhum incidente de agressão, apesar de alguns agentes terem dito que não eram rendidos há três dias.

Os fugitivos tentavam evitar o registo e seguiam pelas estradas, a pé, até serem interceptados. Nas zonas em redor, nomeadamente na estrada para Szeged e na auto-estrada para Budapeste, os condutores húngaros guiavam com a máxima prudência, o que não evitou atropelamentos fatais.

A vedação a que toda a gente chama muro serviu para dar alguma ordem à entrada caótica de 3 ou 4 mil pessoas diárias, mas não reduziu o fluxo. Na realidade, este está a aumentar e os críticos deviam colocar-se a seguinte questão: estaria Portugal em condições de enfrentar uma situação destas?

A opinião pública mal informada faz péssimas escolhas


Luís Naves,

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Testemunhei na Hungria cenas impressionantes, milhares e milhares de pessoas a entrarem diariamente na fronteira sul, grupos de refugiados a caminharem nas auto-estradas e a paralisarem o sistema ferroviário, um motim onde foi usada a polícia de choque, acampamentos e marchas, desespero e esperança, o transporte de multidões com e sem controlo das autoridades, a conclusão da cerca de arame farpado, a chegada de centenas de pessoas exaustas que recebiam água e comida, muitas das quais tentavam não obedecer à polícia.

Vi tudo isso e, ao chegar a Portugal, ouvi muitos comentários e notícias negativas que me deixam preocupado em relação às divisões na Europa e à profunda hipocrisia das forças políticas que estão a ver esta crise a partir do camarote.

A Hungria é um pequeno país que tenta cumprir as regras de Schengen e está a ser diabolizado nos meios de comunicação. Numa reportagem de rádio, um húngaro da oposição afirmava, sem ambiguidade ou pergunta de contraditório, que o seu país não é uma democracia. Motivo? A organização de direitos humanos a que pertencia não era ouvida pelo governo. Noutra peça, era entrevistada uma ‘voluntária’ portuguesa na estação de Keleti, que fazia a extraordinária afirmação de que os refugiados preferiam regressar à Síria em vez de permanecer na Hungria (portanto, preferiam bombardeamentos, execuções sumárias, violações). No seu comentário de opinião na SIC, há poucos minutos, Francisco Louçã dizia que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, é de extrema-direita.

São apenas três exemplos, mas são também distorções da realidade. Está a ser criado um clima de hostilização a um país que se encontra na linha da frente da nossa fronteira e só vemos histórias chocantes. Segundo a CNN, o vídeo dos polícias a atirarem pão a refugiados (que com razão indignou os comentadores) foi feito em Roszke, no centro de registo local. A questão é quando. A estação americana mostrava imagens de um pavilhão azul onde teria ocorrido o incidente. Estive no local e sei que este pavilhão foi esvaziado na madrugada de sábado para domingo. Na segunda-feira, ainda estava vazio e todas as operações decorriam no novo campo. Os activistas que fizeram o filme diziam que ele foi feito na quarta-feira, mas isso não parece ser possível. Este vídeo tem pelo menos uma semana. Porque é que saiu agora? Além disso, faltava na história outro elemento, que não vi esclarecido: quanto tempo durou aquela situação?

As imagens são desagradáveis, não há dúvida, mas porque razão têm de ser coladas a imagens de polícias macedónios a distribuírem bastonadas a refugiados, numa situação que decorre 700 quilómetros a sul? Posso testemunhar que em Roszke havia (e certamente há) polícias de outras nacionalidades: no domingo passado, vi duas viaturas holandesas e, em Julho, quando estive na mesma zona e a crise não era ainda tão intensa, havia polícias austríacos, sérvios e romenos. Na esfera política, os húngaros estão a dizer aquilo que os outros europeu pensam. Na prática, não estão a agir de forma isolada. E, entretanto, os 170 mil refugiados (um terço sírios) que por ali passaram preferiam ter ido para a Síria, como se pode ver no sorriso destes que estavam a chegar na segunda-feira.

 

(continua)

Crónicas da fronteira (4): O sistema europeu


Luís Naves,

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Em Szeged, sul da Hungria

Ao gerir a primeira fronteira da zona Schengen da rota balcânica, a Hungria está a ser afectada na sua vida quotidiana, pois os procedimentos de registo levam tempo e torna-se difícil gerir uma multidão de dezenas de milhares de pessoas que desconfiam de cada obstáculo oficial: o transporte ferroviário tornou-se caótico, as fronteiras ocidentais têm engarrafamentos de quilómetros e pequenos grupos de migrantes acampam sem controlo.

Números oficiais: só este ano, já entraram na Hungria 167 mil migrantes. Amanhã, a soma dará 170 mil.

Atravessar as fronteiras de 26 países sem necessitar de visto é uma das liberdades cruciais do projecto europeu, mas o usufruto deste espaço pressupõe controlo fronteiriço garantido pelos países da primeira linha, neste caso a Hungria, a quem cabe em situações normais impedir contrabando, imigração ilegal ou a passagem de indivíduos que não disponham de visto de entrada ou representem riscos de segurança. O sistema funciona em tempos normais, mas numa crise humanitária os europeus garantem asilo às vítimas de conflitos armados e esta é exactamente a situação a que estamos a assistir. Ninguém é rejeitado na fronteira húngara, algo que muitos comentadores ainda não perceberam.

A polícia está mobilizada em toda a sua força, mas a actuação tem sido tranquila, embora firme. Num incidente a que assisti foi eficaz a forma como a polícia controlou uma situação potencialmente explosiva. Há outro mito que convém desfazer: os migrantes são alimentados e há organizações humanitárias no terreno, sendo distribuída água engarrafada. As informações de tratamento desumano são falsas.

Não parece fácil a um país da dimensão de Portugal gerir uma crise humanitária súbita que envolve 3 mil refugiados diários a entrarem de forma descontrolada pelas suas fronteiras. O governo húngaro podia não cumprir os tratados europeus e deixar passar estas pessoas, tal como aqui defendem os partidos da oposição de esquerda, que estão a aproveitar a crise, tal como faz a oposição de extrema-direita, a qual exige a rejeição pura e simples de todas as entradas. O governo conservador (criticado por toda a gente) optou pelo cumprimento das regras europeias e já legislou para reduzir o tempo de espera dos procedimentos que permitem aos refugiados circular livremente.

 

Actualização: 6500 migrantes saíram hoje da Hungria para a Áustria; um comboio com 800 pessoas está a caminho e deverá partir ainda outro; hoje, em Roszke, um dos pontos de entrada na fronteira sul, chegaram mais de 1300 pessoas, indicando um aumento da quantidade diária em um terço; muitos destes migrantes recusam-se a entrar no centro de registo e estão no exterior, onde provocaram ao fim da tarde a maior confusão, inclusivamente tentando tomar um autocarro local; a situação neste centro de registo é tensa; em vários locais, há grupos que abandonaram os campos de refugiados (há oito a funcionar, com capacidade para 1800 pessoas, em Debrecen, Bekescsaba, entre outras cidades, e estão previstos 17 centros ainda este ano); não se sabe quantas pessoas avançam a pé rumo à Alemanha. No meio disto, acontecem pequenas histórias divertidas: em Budapeste, na estação de Keleti, houve grande confusão quando partia o comboio para a cidade de Pecs (em húngaro, Viena é Becs e os migrantes confundiram os nomes e pensaram que era um comboio para a Áustria).

Crónicas da fronteira (3): Sem destino


Luís Naves,

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Em Szeged, sul da Hungria

O tsunami humano rumo à Europa está a engrossar e torna-se cada vez mais difícil de controlar na Grécia ou Macedónia, de onde chegam imagens de multidões impacientes e desesperadas. Na Hungria, onde as autoridades começam a controlar o fenómeno, há mesmo assim notícias de pequenos grupos que se põem em marcha, rumo à Alemanha. Um destes, há poucas horas, conseguiu sair do campo de registo de Roszke, nos arredores de Szeged, e avançou durante algum tempo pela auto-estrada, até ser interceptado pela polícia. Em Budapeste, na estação de Keleti, onde há muito menos gente do que ontem, um grupo de 150 pessoas também se pôs em marcha.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros europeus estão a negociar em Bruxelas um sistema de quotas para minorar a crise, mas os números sobre a mesa nem sequer resolvem a questão dos que já entraram este ano na Europa de Schengen, talvez mais de 300 mil migrantes (sobretudo na Itália, Grécia e Hungria). A discussão dos números é acompanhada de promessas de serem apenas recebidos os provenientes de países em conflito, portanto, apenas os sírios e afegãos, que serão talvez metade da vaga.

Como contei em crónica anterior, os migrantes pagaram a redes de tráfico 4 mil euros por cabeça para viajarem da Turquia até à Hungria. Em apenas hora e meia, assisti à chegada de uma centena de pessoas naquele local, o que dava 400 mil euros de negócio para os traficantes. Talvez isto explique que as quantidades estejam a aumentar, havendo outra razão provável: em breve, chega o mau tempo e a travessia para as ilhas gregas e através dos Balcãs será ainda mais difícil. Vamos assistir a cenas humanitárias mais graves, já que nos campos de refugiados da Turquia, Líbano e Jordânia estão ainda milhões de sírios. São refugiados, pessoas sem destino, não têm para onde ir.

 

Imagem da minha autoria, mostra a chegada de um grupo proveniente do lado sérvio da fronteira, em Roszke.

Crónicas da fronteira (2): Confusão


Luís Naves,

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Em Szeged, sul na Hungria

A crise de refugiados está a gerar vários incidentes em toda a Hungria. Em Roszke, junto à fronteira, a polícia controlou um motim no centro onde são concentrados os pedidos de asilo, mas antes do reforço policial surgir no terreno, um grupo de 300 pessoas fez-se à estrada, tendo estes migrantes não registados sido interceptados quilómetros mais à frente, já junto a Szeged. Perto do local, está a ser construída uma expansão mais adaptada às condições de clima, que se vão agravar nas próximas semanas.

As televisões húngaras estão a emitir directos de incidentes em vários locais. Centenas de pessoas partiram da estação de Keleti e caminham na auto-estrada, rumo à fronteira austríaca. Neste momento, sem conflito, o grupo encontra-se a 25 quilómetros de Budapeste, protegido pela polícia e felizmente num tempo invulgarmente quente. Alguns veículos param junto aos refugiados para distribuir água e comida.

Na estação ferroviária de Bicske, perto de Budapeste, um comboio foi parado pelas autoridades e centenas de pessoas escaparam, enquanto muitas outras aceitaram ser levadas para centros de registo. Não houve resistência ao transporte em autocarros. Foi explicado a estes migrantes que após o registo, obrigatório pelas leis de Schengen, os campos de refugiados não serão prisões e estão efectivamente abertos à livre circulação. A situação é confusa e parece estar ligada à necessidade de travar a viagem descontrolada de dezenas de milhares de pessoas. A confusão beneficia os traficantes e prejudica todos os outros envolvidos.

A Hungria tenta desesperadamente segurar a sua fronteira e cumprir as regras do espaço de livre circulação, ou seja, registar os migrantes e iniciar o procedimento de asilo para aqueles que têm direito a esse estatuto. Nem todos fugiram de conflitos e o governo húngaro, apoiado pelos seus congéneres do grupo de Visegrad (que tem bastantes votos no Conselho Europeu), recusa a imigração económica, garantindo asilo apenas aos refugiados de guerras. Por outro lado, é difícil resistir aos apelos para deixar passar os refugiados sem o devido registo, o que não seria aceitável para os países a jusante deste rio de gente, ou seja, para Áustria e Alemanha.

Esta crise humanitária coloca em causa a actual configuração das políticas de fronteira na Europa, bem como as de imigração e asilo. Cada país tem o seu modelo, mas o horror das imagens de naufrágios no Mediterrâneo e o desespero de muitas destas pessoas reforçam as teses federalistas de que é necessária uma política comum para todas estas áreas. No plano político, colocam-se questões de soberania e a diferença de padrões (por exemplo, subsídios) explica que os migrantes queiram ir para a Alemanha sem serem registados no primeiro país onde chegam. É sobretudo isto que está na mesa das negociações entre os países europeus, pois no futuro seria sempre Bruxelas a decidir quantos imigrantes cada país receberia, algo que aqui, na linha da frente, é considerado inaceitável.

 

Foto minha: refugiados que chegaram hoje a Roszke.