Testemunhei na Hungria cenas impressionantes, milhares e milhares de pessoas a entrarem diariamente na fronteira sul, grupos de refugiados a caminharem nas auto-estradas e a paralisarem o sistema ferroviário, um motim onde foi usada a polícia de choque, acampamentos e marchas, desespero e esperança, o transporte de multidões com e sem controlo das autoridades, a conclusão da cerca de arame farpado, a chegada de centenas de pessoas exaustas que recebiam água e comida, muitas das quais tentavam não obedecer à polícia.
Vi tudo isso e, ao chegar a Portugal, ouvi muitos comentários e notícias negativas que me deixam preocupado em relação às divisões na Europa e à profunda hipocrisia das forças políticas que estão a ver esta crise a partir do camarote.
A Hungria é um pequeno país que tenta cumprir as regras de Schengen e está a ser diabolizado nos meios de comunicação. Numa reportagem de rádio, um húngaro da oposição afirmava, sem ambiguidade ou pergunta de contraditório, que o seu país não é uma democracia. Motivo? A organização de direitos humanos a que pertencia não era ouvida pelo governo. Noutra peça, era entrevistada uma ‘voluntária’ portuguesa na estação de Keleti, que fazia a extraordinária afirmação de que os refugiados preferiam regressar à Síria em vez de permanecer na Hungria (portanto, preferiam bombardeamentos, execuções sumárias, violações). No seu comentário de opinião na SIC, há poucos minutos, Francisco Louçã dizia que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, é de extrema-direita.
São apenas três exemplos, mas são também distorções da realidade. Está a ser criado um clima de hostilização a um país que se encontra na linha da frente da nossa fronteira e só vemos histórias chocantes. Segundo a CNN, o vídeo dos polícias a atirarem pão a refugiados (que com razão indignou os comentadores) foi feito em Roszke, no centro de registo local. A questão é quando. A estação americana mostrava imagens de um pavilhão azul onde teria ocorrido o incidente. Estive no local e sei que este pavilhão foi esvaziado na madrugada de sábado para domingo. Na segunda-feira, ainda estava vazio e todas as operações decorriam no novo campo. Os activistas que fizeram o filme diziam que ele foi feito na quarta-feira, mas isso não parece ser possível. Este vídeo tem pelo menos uma semana. Porque é que saiu agora? Além disso, faltava na história outro elemento, que não vi esclarecido: quanto tempo durou aquela situação?
As imagens são desagradáveis, não há dúvida, mas porque razão têm de ser coladas a imagens de polícias macedónios a distribuírem bastonadas a refugiados, numa situação que decorre 700 quilómetros a sul? Posso testemunhar que em Roszke havia (e certamente há) polícias de outras nacionalidades: no domingo passado, vi duas viaturas holandesas e, em Julho, quando estive na mesma zona e a crise não era ainda tão intensa, havia polícias austríacos, sérvios e romenos. Na esfera política, os húngaros estão a dizer aquilo que os outros europeu pensam. Na prática, não estão a agir de forma isolada. E, entretanto, os 170 mil refugiados (um terço sírios) que por ali passaram preferiam ter ido para a Síria, como se pode ver no sorriso destes que estavam a chegar na segunda-feira.
(continua)


O complexo Jornalístico-Politico só tem uma narrativa.
Todas as notícias são construídas com esse ponto de vista.
A primeira premissa é a Culpa do Ocidente. Marxismo portanto.
E tudo segue a partir daí.
Resumindo: agora a má da fita é a Merkel e o bom é o Orban. Este cumpre as regras de Schengen, aquela borrifa-se para a legalidade!!
Leia o que está escrito. Não escrevi nada disso. Quem não percebeu que a Hungria está a agir em coordenação com a Alemanha não percebeu um átomo do problema.
É isso, eu não percebi. Quem percebeu foi você e a tal jornalista. Nem todos temos a mesma capacidade para perceber.
Estive lá, vi. E sim, não percebe a questão, como verá mais à frente. E a tal jornalista é uma agente provocadora de extrema-direita, não tem nada a ver com a história, foi lá para fazer um número político.
E ainda não percebeu que eu sou um agente provocador da extrema esquerda?
Não faço ideia, é um anónimo.
Chamo-me João Sousa. Mas o problema não está no nome, está nas ideias.
Os meus parabéns por por o dedo na ferida e colocar as questões como devem ser colocadas. Sem preconceitos e de forma sintética. Não sei se é Jornalista, mas em todo o caso acho que o que escreve é verdadeiro Jornalismo.
Olho para as noticias e opiniões na comunicação social e fico estupefacto com a leveza com que se fala deste assunto e apoia a entrada descontrolada de pessoas que não sabemos quem são nem ao que vem. Como em tudo há bons e maus. E isso é apenas um facto da vida.
Mas O espaço Europeu, que eu saiba, pertence aos Europeus, e não ao mundo. Como tal as fronteiras tem de ser mantidas e se existem pessoas que precisam de ajuda devem ser acolhidas e ajudadas, o que não significa fronteiras abertas para uma entrada sem qualquer regra ou controle de pessoas vindas de outros lugares. Os países que estão na fronteira, como a Hungria, apenas estão a cumprir o seu dever, de controlar e segurar as fronteiras. Pois elas não existem dentro da Europa, mas continuam a existir para fora da Europa. Acho que toda esta situação está a ser muito mal entendida e usada de uma forma no mínimo intelectualmente pouco séria. Com que propósito (obviamente politico) não sei, mas está. Ou então talvez sejam apenas pessoas preconceitoasas… Não sei. Temos de ajudar? Temos! Temos de deixar a nossa casa ser invadida por completos estranhos que desconhecemos apenas porque alegam que estão a fugir? Acho que não…