Crónicas da fronteira (1): O motim


Luís Naves,

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Em Roszke, no sul da Hungria

Estou na fronteira do espaço de livre circulação a que se convencionou chamar de Schengen. Na realidade, esta é a fronteira internacional de 26 países europeus. A partir daqui não há controlos de passaportes. Nos limites da aldeia de Roszke, vê-se a nova vedação de arame farpado que impede os refugiados de entrar na Hungria a corta-mato e os conduz para sítios policiados. Num ponto do arame, da altura de um metro, vejo restos de roupa de alguém que entrou por ali. A vedação está meio levantada e não parece demasiado impressionante. Do meu lado da barreira, há campos agrícolas e a aldeia propriamente dita. As casas e as estufas estão mesmo ali ao lado, a água do regato ficou fora da nossa Europa.

A um quilómetro de distância existe um ponto de passagem sem arame farpado, a linha férrea de uma só via, por onde caminham grupos de pessoas. São apenas dois quilómetros de caminho a partir da Sérvia e, deste lado, estão os polícias húngaros, que apontam aos refugiados um campo de descanso; tem casas de banho portáteis, uma tenda com comida e água, fita a demarcar o local. Os refugiados ali deitados chegaram duas horas antes e esperam transporte. Vejo um grupo de afegãos separado, os sírios juntam-se noutra parte; famílias de um lado, homens jovens por perto. Custou quatro mil euros para se chegar aqui, vindo do outro lado, percorridos milhares de quilómetros.

Um dos jovens, de 24 anos, de olhos azuis, diz-me que se chama Ahmed, que estudou economia e fugiu da guerra em Aleppo, a mais antiga cidade do mundo ainda habitada ou pelo menos assim era conhecida, pois agora é a mais recente ruína do mundo. “Estive lá na guerra dois anos, fugimos, a minha família ficou na Turquia”, explica-me.

Os grupos chegam a pé de cinco em cinco minutos, com a pontualidade de um horário de comboios. Num só dia desembarcam em Roszke mais de mil pessoas e em toda a fronteira entre Hungria e Sérvia entram mais de 3 mil por dia. Hoje, o recorde pode ser batido. Todos os que entram dizem que são refugiados e querem asilo, embora recusem ser registados pelas autoridades húngaras. Esta multidão quer passar a fronteira na direcção da Alemanha e não aceita qualquer espera.

Do campo improvisado junto da linha férrea, os refugiados são levados para um centro de registo, mas Ahmed e os outros hoje devem esperar mais tempo, pois no campo principal rebentou uma espécie de motim. Chego num momento de alta tensão; as pessoas querem sair dali e ouvem-se gritos e vaias; os sírios fizeram um ultimato e ameaçam sair à força. Os jornalistas não se podem aproximar. Dezenas de polícias de choque chegaram em autocarros e estão a colocar-se em torno das cancelas. A polícia vai retirando mulheres e crianças, que conduz para outros autocarros. As coisas vão acalmando, mas tudo pode degenerar: se não for hoje, será amanhã ou depois. A situação parece insustentável: os refugiados não querem registar-se na Hungria, pois sabem que o seu pedido de asilo terá de ser processado pelas autoridades húngaras e isso leva meses. Por outro lado, sem papéis de registo, os refugiados não passaram legalmente a fronteira internacional. Muitos aumentam a confusão ao destruírem os seus papéis do visto de entrada. Há notícias de gente a caminhar pelas auto-estradas (não consegui confirmar), de manifestações em Budapeste, de caos nas linhas de comboio, mas a Hungria também não pode aplicar as regras do espaço Schengen sem usar a força, o que levará inevitavelmente a mais condenação externa. Enquanto o governo tenta controlar a inundação de gente, a oposição de extrema-direita exige o fecho das fronteiras e a oposição de esquerda defende a passagem livre destas pessoas.

Entretanto, os números vão somando, um pequeno grupo de cada vez: são já mais de cem mil e não querem ficar aqui. Passaram a fronteira, mas estão em lado nenhum.

Culpar o bombeiro pelos fogos


Luís Naves,

Num fim-de-semana entraram na Hungria quase 9 mil refugiados, mas os noticiários continuam a referir com escândalo que este país acabou de construir “um muro” para impedir estes migrantes de entrar. Que parte da história estará a ser mal contada? Em todas as imagens que vemos da construção, o “muro” é na realidade uma vedação de arame, aparentemente não tão sofisticada com a que vemos, por exemplo, em Ceuta ou em Calais, a proteger (e bem) o eurotúnel. Claro que países que não estão na linha da frente da calamidade migratória têm mais facilidade em dar a táctica e apontar defeitos nos procedimentos.

Conheço bem esta fronteira e parece-me fazer sentido a construção de uma barreira que na realidade canaliza os refugiados para locais onde a polícia pode ser reforçada e o fluxo de entradas minimamente controlado. Está aliás a ser construído um campo no ponto onde a fronteira húngaro-sérvia tem a sua passagem mais importante (podem reler este texto de Julho). Um facto parece evidente: sem a vedação, o poder está nas mãos dos traficantes, já que as pessoas passam a fronteira a corta-mato, dependendo de redes clandestinas de passadores.

O ministro francês referido na notícia fez comentários críticos em relação aos ‘países de leste‘ e colocou tudo no mesmo saco: estas sociedades sob o choque de mudanças rápidas constituem uma espécie de sub-Europa (‘eles’ não são como ‘nós’), o que é uma excelente forma de lançar um debate sobre migração em larga escala envolvendo populações que chegam do Médio Oriente. E no entanto os do leste é que são os maus da fita! O governo grego durou seis meses, acho que deviam mudar todos os governos que não lhes interessem, porque isto da democracia é uma chatice inaturável e bastava-nos o directório Merkoland. E há também aqueles para quem a culpa disto tudo é da Europa, argumento extraordinário, quando são europeus que recebem 9 mil refugiados num fim-de-semana, só nesta rota, embora haja mais uns milhares em Itália e Grécia, sem contabilizar as rotas que se dividem (muitos refugiados estarão a entrar via Roménia ou Eslovénia).

Os críticos dos muros nunca explicam como é que se devia fazer: passam todos ou só alguns? Só os sírios e iraquianos ou também os do Bangladesh e do Kosovo? E ninguém menciona o pormenor crucial de ser impossível manter refugiados em campos onde estes não desejam permanecer, pois as multidões põem-se em movimento logo que conseguem os papéis provisórios (que, vergonha, segundo li numa reportagem, estão escritos em húngaro), para não mencionar a forma como os traficantes fizeram a cabeça de muitos deles, que chegam exaustos, já sem dinheiro e desconfiados de qualquer ajuda. No fundo, estamos a culpar os bombeiros pelos incêndios, mas o paradoxo do muro devia fazer pensar os comentadores: o mito afirma que o betão impede a entrada, mas eles entram na mesma em quantidades extraordinárias.

Uma pitada de bom senso


Luís Naves,

Filipe Nunes Vicente tenta colocar uma pitada de bom senso na discussão, mas o exercício parece cada vez mais inútil. A culpa é da Europa porque as nossas elites atribuem por estes dias todos os males à União Europeia que verdadeiramente existe, enquanto suspiram por outra entidade imaginária que nunca existiu. Os europeus forçaram a mudança que atingiu a sociedade e isso constitui um poderoso incentivo para malhar. É assim que compreendo a recente moda de textos anti-europeus.

O colapso da Síria e do Iraque têm alguma coisa a ver com o diálogo no Mediterrâneo e com as políticas de Bruxelas? É evidente que não, mas estamos nos territórios míticos onde não há apenas fardos do homem branco e complexos coloniais, mas a total ausência de crítica, naquilo que podemos definir como crise silenciosa da comunicação social: irresistível superficialidade e leituras ideológicas por dá-cá-aquela-palha.

Apesar de haver autores que ainda tentam esbracejar argumentos, continua a ser difícil perceber que estamos perante uma vaga de emigração em larga escala e sem precedentes, por duas rotas, Mediterrâneo e Balcãs. A manter-se o ritmo de chegadas ao espaço Schengen, estamos a falar de um milhão de pessoas em 2015, o dobro do ano passado. Elas têm de ser protegidas e alimentadas e, em breve, chega o Inverno. Entre nós, que não sentimos o cheiro, é fácil escrever poeticamente sobre muros inexistentes e fazer comparações tolas com refugiados da Segunda Guerra. No meio da poesia, os factos tornam-se obscuros, por exemplo: a maior parte destas pessoas tem direito a asilo na UE e isso não está em causa, mas na maralha chegam emigrantes económicos que serão reenviados para os países de origem. A triagem leva tempo.

Os migrantes que fogem de guerras têm direitos que lhes são negados na Síria ou no Iraque (direito a asilo ou à própria vida, por exemplo), mas não é possível deixar esta gente entrar a corta-mato por fronteiras habitadas e até agora tranquilas, permitir que se instalem nos jardins e nas estações ferroviárias, pois no espaço Schengen há livre circulação: os refugiados têm de ser identificados e conduzidos para centros que já estão a abarrotar e cuja expansão custa dinheiro. A barreira na Hungria (entre nós sempre referida como muro) serve para organizar minimamente a maré humana, já que a fronteira é pouco policiada e os locais de entrada tornam-se restritos e mais fáceis de controlar; por sinal, este mecanismo tem tudo para falhar, pois os refugiados largam os passaportes à chegada e, logo que podem, abandonam os centros de acolhimento;  quando dispõem de papéis provisórios, ninguém os impede de apanhar o primeiro comboio rumo à Áustria e Alemanha*.

Por tudo isto, concordo com o Filipe: nesta crise, a falência da UE é conversa mole. Pelo contrário, este pode ser um dos melhores momentos da União Europeia. Em breve, haverá um milhão de refugiados e tem de ser aplicada uma política colectiva para o problema (as leis já existem), mas não consta que estas pessoas estejam a fugir na direcção da China ou da Rússia, estão a caminho da Europa, onde terão segurança e um mínimo de solidariedade e de justiça.

 

* No inverno, era já visível esta situação, mas nos últimos meses agravou-se: a estação ferroviária de Szeged, no sul da Hungria, fica a dez quilómetros da fronteira com a Sérvia. O percurso faz-se a pé. Imagine-se Coimbra com uma fronteira a dez quilómetros da universidade, numa zona de quintas e bosques pela qual se infiltram grupos de desconhecidos, sem que haja polícias suficientes para patrulhar a zona. Os comboios rápidos para Budapeste são de hora a hora e estamos num espaço de livre circulação de pessoas.  

Assuntos leves ficam sempre bem em redacções filantrópicas


Luís Naves,

A opinião pública nacional vai sendo modelada a este tema distante com um bocadinho de tiroliro e boa dose de boas intenções, tudo bem misturado com certa desinformação. O caso do ‘Muro na Hungria’ é um sintoma clássico desta inaturável hipocrisia, ignorância ou lá o que é. Quem contrarie a história dominante corre o risco de ser acusado de insensível (ou pior), mas o que ouvimos nos meios de referência não passa geralmente de preconceito e superficialidade. O caso deste texto de Patrícia Fragoso Martins, em Observador, é bem sintomático da leveza com que assuntos difíceis são abordados.

Há pior: em notícia que vi na SIC, o governo húngaro era de “extrema-direita”, assim, com esta brutalidade, o que além de ser asneira é profundamente irritante. Bastava ter consultado a internet para concluir que o governo é de direita e que a extrema-direita está na oposição, diga-se de passagem sem grande cobertura dos meios de comunicação locais. O pior do mau jornalismo é que a opinião pública acaba por não compreender os conflitos e, depois, faz péssimas escolhas.

Segundo julgo perceber no artigo de Patrícia Fragoso Martins (que usa números desactualizados), a UE devia castigar o governo húngaro, embora este esteja a exercer a sua soberania e a construir uma infra-estrutura semelhante à que já existe em Ceuta, território espanhol. De forma inacreditável, tudo isto é comparado com o muro que Israel mantém nos territórios ocupados, para proteger populações dos colonatos. Estaremos a comparar ‘territórios ocupados’ com ‘territórios nacionais’? O problema começa aliás na palavra ‘muro‘, que é imprópria, certamente por má tradução. Não existe qualquer muro, mas uma vedação em arame, um “controlo de fronteira provisório” (na expressão das autoridades) que visa travar durante algum tempo uma migração em larga escala. Não se pretende limitar o movimento das populações sérvias (que, a propósito, são étnicos húngaros que vivem do lado sérvio da fronteira e vão às compras do outro lado). E convinha explicar que a vedação está a ser construída no limite do espaço Schengen a que Portugal pertence, portanto, isto diz-nos respeito. Neste momento, por esta fronteira, entram diariamente mais de dois mil refugiados.

A vedação é uma medida paliativa para um problema europeu e para uma emigração em escala sem precedentes, que está a tornar-se um problema muito sério na Grécia. É justo dizer que esta vedação dificilmente atingirá os seus objectivos, mas altamente injusto afirmar que não tem apoios na UE ou que pretende algo contrário aos tratados. Quem entre no espaço Schengen pela fronteira húngara proveniente de zonas de guerra tem direito a asilo e não pode ser devolvido à procedência, mas os procedimentos de concessão de asilo demoram muitos meses, exigindo meios humanos e financeiros. Como estas pessoas não querem ficar na Hungria, mas seguir para a Alemanha, apanham o primeiro comboio e o problema envolve vários países. Os alemães já fazem projecções de 750 mil refugiados a entrar este ano no seu território. É uma gota de água, dirão os bem-pensantes, mas quantos estão dispostos a receber, alimentar e proteger estes refugiados? Todos ou só alguns? A manterem-se os actuais fluxos nas diferentes rotas, a crise pode implicar a nível europeu mais de um milhão de pessoas em 2015. Seguidas as proporções, Portugal deveria receber 25 mil. Temos condições para isso? A UE sobrevive a isto sem mecanismos que limitem o problema? 

A maioria dos refugiados vem da Síria e do Iraque, no âmbito da desintegração daqueles dois países, calamidade política que não é da responsabilidade dos europeus (certamente não é dos húngaros ou dos gregos), mas muito mais dos americanos. Calcula-se que haja quatro milhões de refugiados no exterior da Síria e do Iraque, mais alguns milhões de deslocados internos. Ora, esta multidão está em movimento. Se as guerras se agravarem, como se espera, estamos a falar de uma população superior a 40 milhões de pessoas. Que proporção fugirá da guerra civil? Na realidade, os países europeus têm aqui duas opções: ou tentam travar a entrada destes desgraçados ou deixam-nos entrar a todos. O problema parece ter solução fácil quando chegam mil refugiados, mas a partir de certos números, estamos a falar de uma crise humanitária de grandes dimensões, com significativa vertente política. Não é, pois, assunto para pequenas redacções filantrópicas e convinha discutir seriamente a questão.

Ficar bem na fotografia


Luís Naves,

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A questão da posteridade tem imenso interesse para os artistas. Alguns admitem que o problema já deixou de existir, que a modernidade é demasiado efémera, mas estes são provavelmente raros, havendo outros que têm uma visão algo desmedida das suas qualidades, pelo que se imaginam temas de estátua na praça do rossio daqui a 500 anos. Mas, enfim, toda a gente sonha pelo menos em ser nome de rua, rezando que não lhe calhe em sorte algum beco manhoso e de má fama.

Para nós, mortais, o problema da posteridade coloca-se de outra forma: trata-se de tentar ficar na fotografia de alguém de cuja grandeza nunca suspeitámos, um pouco ao lado dele, à esquerda ou direita, pouco importa, mas em fila onde se consiga ver a nossa cara, de preferência a sorrir; trata-se acima de tudo de não ficar mal na fotografia, de não ser o gajo de quem toda a posteridade se rirá um dia.

O facto é que raramente os contemporâneos acertam nos artistas do seu tempo e que, no futuro, serão considerados grandes. Há preconceitos, invejas, miopia ou simples incompreensão. Há também exemplos de estupidez e essa é sempre lamentável. Recentemente, li o texto de um escritor famoso que se queixava de uma crítica ideológica da autoria de um escriba irreflectido e presunçoso, que lhe antecipou um futuro de esquecimento. O escritor, muito indignado com o poder da polícia do pensamento que o condenava de forma tão injusta, fez no seu diário a demolição do atrevido. Ora, o diário ficou na biblioteca, a recensão já ninguém se lembra dela. Em resumo, o escriba ficou com o nome associado, talvez durante séculos, a uma imbecilidade.

Se soubéssemos que escritor do nosso tempo será o mais famoso daqui a cinquenta anos (o coiso? esse ignorante que mal sabe assinar o nome? não é possível!) teríamos o cuidado de lhe emprestadar dinheiro de vez em quando, de tentar curar-lhe as várias tóxico-dependências, de o convidar para umas jantaradas (ajudando a matar-lhe a fome), de escrever uns elogios à obra (enfim, não compreendi lá muito bem, mas é óptimo), talvez até financiar a auto-publicação do talentoso autor, na esperança de que ele deixasse referências simpáticas em eventuais diários, espólios de cartas ou de e-mails, qualquer coisa do género: “o naves, lá no blogue dele, escreveu hoje uma coisa porreira sobre a minha obra e ainda me emprestou guito, que gastei em vinho”. Ou ainda melhor: “não sei porquê, mas o naves é o único que me compreende”.

O planeta Saudade


Luís Naves,

Se dependesse de mim, o quarto planeta conhecido do sistema planetário da estrela μ Arae (na constelação Ara) seria baptizado Saudade. Assim votei neste site, onde podemos escolher os nomes de 32 exo-planetas (todos de grande dimensão, geralmente verdadeiros colossos gasosos). Na mesma opção (uma lista), o mais promissor dos planetas do sistema ficaria conhecido por Adamastor: que nome perfeito para um gigante dez vezes maior do que a Terra! Tudo isto fica a 50 anos-luz de nós. Há também um Lusitânia e um planeta Esperança, dois outros nomes que constam da escolha onde votei. Aproveito para agradecer aos astrónomos que proporcionaram esta votação e serve o post para vos convencer a votar no planeta Saudade…

Umas notas sobre o desemprego


Luís Naves,

A divulgação de números sobre o emprego tem motivado uma surpreendente vaga de afirmações demagógicas e de interpretações hipócritas. Ninguém escapa à tentação de enganar os eleitores. O governo diz que baixou o desemprego e que criou emprego, e isso é apenas meia verdade, pois na totalidade do mandato foram destruídos 300 mil postos de trabalho (o que não pode surpreender ninguém, já que o PIB caiu 6% e levará anos a recuperar os valores anteriores ao programa de ajustamento).

A demagogia dos partidos da oposição insiste em dois pontos, o primeiro de profunda hipocrisia, o segundo baseando-se numa mentira mil vezes repetida. Partidos que sempre foram a favor de políticas activas de emprego ficam zangados pelo facto deste governo ter usado políticas activas de emprego. Há dinheiro europeu disponível, fazem-se programas de estágios, onde é que a esquerda encontra um problema? Também é falso que todos os empregos novos resultem destes programas, já que a ainda tímida criação de novos empregos está igualmente distribuída por contratos a termo e sem termo, beneficiando trabalhadores mais velhos, que são também os mais afectados pelo fenómeno do desemprego. Como é que as pessoas pouco qualificadas regressam ao mercado de trabalho? Programas activos de emprego, com o governo a ser criticado se estes não resultarem.

Mas há outros dados interessantes nas estatísticas do INE. Em quatro anos, a população activa reduziu-se em 367 mil pessoas, mas a estimativa de população só se reduziu em 300 mil. Isto indica que a imigração é menor do que se diz. Já ouvi números absurdos, mas na verdade 300 mil é o número máximo, em quatro anos, o que daria uma média anual de 75 mil. A ser verdade, é muita gente, mas a oposição usa habitualmente a bandeira dos 150 mil por ano. O valor real deve ser de metade daquele que é mais citado, pois muitos emigrantes portugueses são contabilizados em cada ano nos países para onde vão e o próprio governo, de maneira ingénua, recolhe metodicamente os dados e soma colunas que não pode somar. O mesmo imigrante, com contratos precários no país de destino, é contado três, quatro vezes.

Podemos usar outra via para obter uma ideia mais precisa: entre o segundo semestre de 2014 e o segundo semestre deste ano, o desemprego reduziu-se em cerca de cem mil pessoas, com o aumento do emprego a rondar 60 mil. Ou seja, neste caso, a imigração não poderá ser superior a 40 mil. A vaga de imigração nunca foi tão grande como se dizia ou está a abrandar.

Nas estatísticas de emprego deve olhar-se sobretudo para a estimativa de quantas pessoas trabalham e devem ser comparados os trimestres homólogos. A queda deste indicador foi abrupta até 2013, com a destruição de quase 400 mil postos de trabalho em apenas dois anos. Nos dois anos seguintes, o valor subiu de forma lenta, com ligeira aceleração no segundo ano. O desemprego está em queda? Sim, como está em queda a população activa e como está em queda a própria população total. O emprego está a recuperar? Sim, mas devagar e ainda longe de ter recuperado o que perdeu nos primeiros dois anos do ajustamento. No último ano foram criados 60 mil empregos, o que dá cerca de 5 mil por mês. É suficiente? Não. 

A culpa é dos europeus, naturalmente


Luís Naves,

A maior crise da Europa neste momento tem que ver com um súbito fluxo migratório, mas as histórias que encontramos na imprensa mostram sobretudo a histeria em torno de Calais (que envolve 5 mil dos mais de 200 mil ilegais que já entraram na Europa de Schengen, só este ano) ou a tragédia de Lampedusa, onde pelo menos os barcos com refugiados já estão a ser interceptados pela marinha antes de se afundarem com as suas cargas humanas.

Escrevi sobre um detalhe da rota balcânica e encontro textos como este, de Bernardo Pires de Lima, no DN, onde a culpa é dos europeus. O movimento migratório está provavelmente apenas no início e a sua causa próxima é o colapso tumultuoso de vários países, nomeadamente da Síria e do Iraque, onde as respectivas guerras civis afectam 40 milhões de pessoas. Estes Estados falhados são culpa da Europa? Eritreia, Afeganistão e Somália também? A continuar o actual fluxo de refugiados através do Mediterrâneo e dos Balcãs, em 2015 entrarão no espaço europeu mais de 400 mil ilegais, muitos sem mais lugar para onde ir (não podem voltar para trás) e alguns possivelmente com más intenções.

Isto não tem nada a ver com o fracasso das políticas europeias de vizinhança, excesso de burocracia, governos injustos, nem sequer com falta de solidariedade. A Comissão Europeia (sem grandes poderes na matéria) distribuiu pelos Estados membros da UE um lote de 40 mil refugiados, num episódio anedótico que envolveu um quinto do problema, e verificou-se que poucos países têm condições para receber tanta gente dentro da legalidade; Portugal não tem, de certeza: é preciso identificar, alimentar e dar trabalho às pessoas. Nos artigos cheios de boas intenções não consigo perceber qual é a solução: deixamos entrar toda a gente, só os do Mediterrâneo, só os dos Balcãs, os da Síria e Iraque ou nenhum deles? Os refugiados são distribuídos de forma igualitária pelos países ou pode invocar-se a crise económica? Ficam no primeiro onde entraram, em Itália, Grécia e Hungria, ou podem escolher para onde vão? E quem paga o auxílio? E proíbe-se a protecção de infra-estruturas ferroviárias ou suspende-se a soberania nacional no que respeita a fronteiras? E quando houver um milhão de refugiados, como é que se faz?

Vislumbre da grande crise


Luís Naves,

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Fala-se muito dos problemas do euro e da Grécia, mas a crise mais dramática da Europa de hoje está provavelmente na vaga de refugiados em busca de segurança. No sábado, estive em Roszke, pequena vila húngara colada à fronteira com a Sérvia, nos arredores da cidade de Szeged, no sul da Hungria. A ocasião era o casamento da minha sobrinha, que decorreu no centro cultural da vila, um velho edifício em frente à torre da igrejinha católica na imagem*. O local da boda não foi a primeira escolha do casal: era o único que restava, num dia em que houve muitos casamentos.

Fomos para Roszke pela estrada principal, que conduz até à maior passagem para a Sérvia naquela parte do país e como havia por ali patrulhas da polícia não vimos colunas de refugiados. À vinda, às duas da manhã, em vez de seguirmos pela estrada curta, demos de novo a volta, atrás do carro de uns amigos, que disseram logo que escolhiam o caminho longo para evitar os peões que provavelmente caminhavam na via menos vigiada. À noite, disseram os meus amigos, havia grande perigo de acidente e ninguém queria arriscar um atropelamento.

No hotel em que fiquei, em Szeged, o único sinal da crise eram os jipes da polícia da Sérvia e da Roménia que estavam daquele lado da fronteira a cooperar com a polícia húngara, na tentativa de controlar o fluxo migratório. Vimos também patrulhas conjuntas e a situação contrastava um pouco com o cenário do Natal, quando nas noites geladas já eram visíveis grossas filas de gente a caminhar pelas estradas. Nessa altura, o policiamento pareceu-me mínimo, mas a maré de refugiados subia depressa, embora ainda ninguém falasse em erguer uma barreira.

 

A crise decorre agora em plena canícula. No domingo, o dia seguinte à boda, as notícias sublinhavam que na véspera tinham sido interceptados mais de 1300 ilegais na fronteira com a Sérvia. Não foi um dia excepcional. Estes refugiados precisaram de caminhar dezenas de quilómetros num calor insuportável, isto após a longa travessia dos Balcãs, de comboio, a pé e de autocarro, que os grupos fazem ao longo de dias ou até talvez semanas, ignorados pelas autoridades locais, que deixam passar a onda para se verem livres dela.

Na sua maioria, estas pessoas são vítimas da guerra da Síria, mas há numerosos afegãos, iraquianos e também africanos em fuga de zonas de conflito, nomeadamente Somália, Sudão ou Eritreia. As vagas de gente atravessam a Turquia, a Bulgária, muitos tentam entrar na Grécia, outros seguem pela Macedónia e Sérvia, até chegarem à fronteira húngara, que é também a fronteira do espaço Schengen, onde podem pedir asilo e, por lei, têm de ser protegidos e alimentados. De acordo com a regras europeias, o custo diário per capita para alimentar os refugiados ascende a 20 euros e o processamento dos pedidos de asilo pode durar meses. Isto introduz ainda maior desespero nos imigrantes, pois o seu destino final, em quase todos os casos, é a Alemanha ou a Áustria.

 

A dimensão do problema

Ninguém sabe ao certo quantas pessoas estão em movimento, mas há quem fale em 4 milhões, só no Médio Oriente, com 10% a chegarem aos países Schengen, nomeadamente Itália, Grécia e Hungria, o que permite calcular um número possível de 400 mil refugiados em 2015, sobretudo em duas rotas, uma pelo Mediterrâneo e outra pelos Balcãs. Alimentar estas pessoas, caso se confirmem os números, custará 8 milhões de euros diários (cerca de 3 mil milhões de euros anuais), sendo necessário construir campos e arranjar trabalho. A Hungria, com população semelhante à de Portugal, afirma ter quase 100 mil refugiados, pois só entre Janeiro e Julho chegaram 80 mil. Em Itália e Grécia, o número é semelhante, mas muitos passam pelas malhas da vigilância policial e são detectados apenas na Áustria e Alemanha: legalmente, têm de ser devolvidos ao primeiro país do espaço Schengen por onde passaram, o que cria conflitos adicionais. Entretanto, um plano da Comissão Europeia propôs a distribuição pelos restantes países da UE de uma pequena quantidade dos refugiados que entraram pela Grécia e Itália, aumentando as divisões sobre o assunto (a Hungria não foi incluída e leia-se, a propósito, este artigo).

Num desenvolvimento controverso, Budapeste aprovou recentemente a construção de uma vedação que está a ser contestada pelos parceiros europeus, apesar de já haver algo semelhante em Ceuta. O design encontra-se em fase de testes, mas poderá consistir numa cerca em arame, com altura de quatro metros e o topo em arame farpado, a instalar apenas na fronteira com a Sérvia, sobretudo em bosques e zonas rurais isoladas, no exterior das passagens oficiais, que são mais policiadas. Estão também a ser instaladas sofisticadas câmaras de vigilância, mas é provável que a vedação falhe o objectivo, pois os refugiados tentarão entrar na Hungria através da Roménia e da Croácia, que são membros da UE mas não pertencem ao espaço Schengen, passando depois pela fronteira húngara com estes países, muito mais extensa do que a fronteira com a Sérvia. Assim, ao chegar à cerca, a rota de migração em massa vai partir-se em duas menores, que tentarão flanquear o obstáculo. Na Hungria, o processo de construção da vedação é pacífico e só ouvi elogios; a oposição socialista foi inicialmente contra, mas entretanto calou-se.

Alguns artigos portugueses sobre o tema fazem comparações absurdas, por exemplo com o muro de Israel erguido nos territórios ocupados ou a equivalência com a Cortina de Ferro, que visava manter pessoas dentro, não de as impedir de entrar**. O governo português também fez considerações politicamente correctas, mas assumindo parte limitada de responsabilidade por um problema que obviamente é europeu. Veremos o que será dito quando a crise se agravar, enquanto não existe vedação e ainda estiver bom tempo, tornando-se inevitável que os números aumentem e seja necessário partilhar o esforço de receber estas pessoas. Em tudo isto, há apenas uma certeza: a massa humana que caminha na direcção da Europa está em desespero e não tem mais nenhum sítio para onde ir***.

 

* foto da minha autoria

**Esta equivalência é particularmente absurda, pois foi exactamente na Hungria que começou a ser desmantelada a Cortina de Ferro, iniciando uma transição onde o actual primeiro-ministro Viktor Orbán teve um papel corajoso.

*** Este texto não é reportagem nem crónica. Resulta de impressões dos poucos dias em que estive em Szeged, sobretudo na qualidade de tio mais preocupado com assuntos de família.

 

A vanguarda


Luís Naves,

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Qs debates políticos em Portugal estão contaminados pelas eleições, o que explica a forma previsível como foi recebida a proposta francesa de criar uma vanguarda de países na zona euro, com a tradicional indignação dos radicais e o silêncio evasivo dos partidos de poder. A proposta é obviamente um começo de conversa e François Hollande deve ter consultado os parceiros envolvidos. Como escrevi no Delito, por exemplo, a 28 e 22 de Junho, a maior consequência da crise na zona euro será a aceleração da integração europeia, aquilo que em linguagem comunitária se chama “aprofundamento”.

É necessário compreender que falta à moeda única uma dimensão política, ou seja, instituições eleitas que possam exercer funções orçamentais. O Eurogrupo tem escassos poderes, o BCE possui limitações estatutárias, à Comissão falta músculo financeiro, o Parlamento Europeu é caótico e o Tratado Orçamental não passa de um remendo que evitou o naufrágio mas não evitará futuras crises. Renasce assim a ideia de criar um governo europeu limitado a grupo restrito de países e a um mercado muito integrado de 200 milhões de pessoas, certamente com orçamento próprio e fiscalizado por um senado.

Nos próximos dois ou três anos, os países do núcleo duro do centro da Europa vão debater esta questão (que os franceses defendem desde 1989), mas agora com um motivo bem mais poderoso: todos compreenderam que sem união política o euro terá escassas hipóteses de sobrevivência a prazo. O processo levará anos. Os tratados europeus permitem as chamadas cooperações reforçadas (que exigem nove membros e não podem ser exclusivas). Desta forma, o núcleo duro pode avançar para mecanismos de união política que incluam governo e parlamento, com poderes para interferir nos orçamentos, harmonizar impostos, controlar despesa pública e (talvez) partilhar e reduzir dívidas nacionais. No fundo, existiria um euroA e um euroB, o segundo com taxas de juro mais altas e capacidade de desvalorizar em relação ao primeiro.

A Europa já é uma construção flexível a várias velocidades, onde existem exemplos de cooperações reforçadas (zona euro, espaço Schengen). Os países têm a opção de entrada, desde que cumpram as regras do clube*. A ser criada uma zona euro a duas velocidades, a primeira com instituições democraticamente eleitas, a Europa resultante seria radicalmente diferente. Além dos seis fundadores (França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo), os candidatos óbvios ao núcleo duro são Áustria, Espanha e Finlândia. Portugal terá dificuldade em conseguir ficar neste grupo da vanguarda, mas a recente retórica anti-europeia dos comentadores de referência e dos partidos da esquerda torna ainda mais difícil a tarefa. O populismo eleitoral que acredita ter na crítica à Europa um trunfo irresistível só nos tornará mais periféricos, aumentando o risco de ficarmos a ver navios.

 

* A zona euro é diferente, pois os países que aderiram à UE depois da criação da moeda única têm a obrigatoriedade de entrar.

Está a ser criado um clima (II)


Luís Naves,

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Escrevi em post anterior que nos meios de comunicação cresce uma tese sobre a situação europeia que nos leva a conclusões perigosas. A ideia, relativamente simples, está bem patente nos textos que Sérgio de Almeida Correia tem seleccionado na série Nada Disto é Inocente, que devem ler mais abaixo. Hoje, na rádio, ouvi a eurodeputada socialista Ana Gomes dizer que não queria ‘a Europa da Alemanha’, embora a crónica soasse mais a ‘não quero a Alemanha na Europa’. A tese que circula é um pouco contraditória: existe hegemonia alemã, mas a união está sem liderança; uma variante diz que a Alemanha está a destruir a zona euro, apesar de o último Conselho Europeu ter decidido manter a Grécia na moeda única. Outros autores, como por exemplo Viriato Soromenho Marques, fazem comparações históricas, ligando este caso ao uso de armas nucleares na Guerra Fria, o que sem dúvida deve impressionar as senhoras marquesas na conversa do chá das cinco*.

 

O que se passou no Conselho

Na realidade, com base nos relatos de jornais bem informados, no último Conselho Europeu opunham-se duas teses: a primeira, liderada pela Alemanha, queria o Grexit; a segunda, liderada pela França, queria manter a Grécia na zona euro. Do lado alemão, estavam países como Finlândia (cuja crise nos anos 90 não mereceu ajuda europeia) ou Eslováquia (cujo governo foi derrubado após a votação do primeiro pacote para a Grécia) e ainda Holanda, Áustria e os três bálticos (estes últimos enviaram a Atenas a factura pelo que consideraram ser falta de solidariedade da Grécia em relação ao seu problema com a Rússia). Do lado francês, estiveram países que não queriam arriscar o Grexit: a Itália de forma ruidosa, Espanha e Portugal mais discretos, Chipre, Comissão Europeia, e talvez FMI e BCE (as instituições são ouvidas). A França tinha forte motivo para defender a Grécia: a extrema-direita quer abandonar a zona euro, o que de facto romperia a união monetária de forma irreversível. Não sei quando foram formados os blocos que a imprensa referia, mas as votações devem ter sido desde o início com maioria a favor da posição francesa e a Alemanha em minoria. Como sabemos agora, Paris venceu, ultrapassando a resistência da minoria de bloqueio.

Esta enumeração dos factos conhecidos é incompatível com aquilo que anda a ser escrito sobre a suposta hegemonia alemã ou sobre a hipotética Europa da Alemanha. É evidente que a negociação não foi só sobre o que fazer com a Grécia e haverá novos episódios, mas não se consegue perceber como é que o derrotado é também aquele que impõe a sua visão. Ninguém pode garantir que o euro sobreviva a esta crise e os projectos políticos não são seguramente eternos, mas muitos analistas estão a ver um colapso europeu que não existe nem se vislumbra, repetindo com vigor argumentos dos partidos populistas e dos extremos políticos, segundo os quais esta Europa não interessa aos povos. Nenhum dos comentadores explica qual era exactamente a alternativa entre Grexit e terceiro resgate?

Mais um argumento, aqui.

 

*Este artigo é todo um programa: de um lado, temos a dissuasão, do outro a vingança.

Está a ser criado um clima (I)


Luís Naves,

Os comentadores nem parecem notar a própria contradição: numa frase insurgem-se contra a hegemonia alemã na Europa, na frase seguinte concluem os raciocínios a afirmar que a Europa está sem rumo. A liderança alemã é sufocante, mas por qualquer razão não há liderança. Os países, dizem, estão todos a tratar da sua vidinha e isso destrói o projecto, mas a Alemanha tem mesmo assim hegemonia que, embora não mande nada, também não deixa de ser decisiva. Existe até uma misteriosa técnica de tortura que permite aos alemães hipnotizar países inteiros, obrigando-os a ter opiniões idênticas.

Este tipo de conversa absurda enche diariamente as nossas televisões e os textos de opinião dos jornais de referência. São os mesmos analistas que há seis meses previam uma estrondosa revolução nas coisas europeias liderada pelo Syriza, que há uma semana elogiavam a forma decisiva e digna como o povo grego enfrentava a ditadura da chanceler alemã, que aliás não é chanceler, mas apenas senhora Merkel (ao contrário do senhor Gabriel, que é sempre vice-chanceler).

Para mim, estes exemplos mostram sobretudo como o discurso anti-europeu se tornou hegemónico no espaço público nacional. A união monetária é uma calamidade, as políticas austeritárias produzem fantasmas de extrema-direita neo-fascista (onde?), por isso o euro acaba na próxima semana e a senhora Marine Le Pen será eleita presidente da França. É algo inevitável e só existe um beneficiário da destruição sistemática da Europa mítica: a Alemanha, claro. Nos blogues sofisticados, reflexões profundas são ilustradas com fotografias de militares nazis a passear na Acrópole e a sacudir a poeira das botas. E, curiosamente, em todas estas análises certeiras, ninguém extrai o óbvio corolário: se a Europa é assim tão má, então Portugal, que entra mudo e sai calado, devia ponderar a respectiva presença no clube. Não queremos estar do lado dos maus. Voltemos por isso ao velho império africano ou tentemos a via revolucionária do PREC, onde as nossas boas elites poderiam pastorear o povo em paz e sossego. Seria bom termos também filas em frente ao multibanco, restaurantes vazios, casamentos adiados, falta de medicamentos e de carne de porco, cofres com teias de aranha e velhinhos ansiosos pelo pagamento das pensões do próximo mês. Tudo será melhor do que a senhora Merkel a mandar num sítio caótico onde afinal quem manda é o outro maluquinho alemão das finanças, que também não percebe nada de geo-estratégia.

 

* Não é só cá. Só depois de escrever este post vi o texto de Emmanuel Todd que o Sérgio cita um pouco mais abaixo sobre a loucura alemã que nos arrasta tão sistematicamente para grandes desastres; Napoleão, naturalmente, era um bocadinho alemão na perna esquerda e as grandes calamidades das guerras dos 30 anos, 100 anos e das cruzadas são exclusivamente da responsabilidade teutónica. Isto de ser credor e ter parlamento não parece ser fácil… 

Parar para pensar


Luís Naves,

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Nos últimos dias, quando já era óbvio que a Grécia teria de fazer transformações difíceis ou escolher o caminho do isolamento, os comentadores nacionais continuavam a fazer observações que não resistiam a poucos segundos de análise. A comunicação social tem de parar para pensar: ontem, nas televisões, eram poucas as opiniões informadas e sensatas, foram frequentes as patetas. Nos jornais, para a maior parte dos comentadores, havia bravos gregos contra tenebrosos imperialistas. Ninguém parecia saber como funcionam estas negociações multilaterais e proliferavam interpretações nacionalistas, ideias anti-alemãs, comparações absurdas, como se a Grécia (que deve uma fortuna e pedia uma pipa de massa) estivesse a ser forçada a tomar cicuta.

A opinião pública teve certamente dificuldade em perceber o que ia acontecendo e está explicada a crise na nossa Imprensa. Os que não têm acesso a fontes em outras línguas ficaram com uma ideia distorcida dos factos (basta consultar o essencial dos comentários no Facebook), mas houve mais aspectos significativos, como o anti-europeísmo feroz de muitos dos comentários e o desaparecimento dos partidos que até agora descreviam Alexis Tsipras como semi-Deus.

O acordo da madrugada terá difícil aplicação, mas para já salva a Grécia da queda imediata no abismo. Como diziam os responsáveis europeus, numa interpretação pouco seguida entre nós, o problema dos gregos está no modelo de sociedade e numa economia dependente de um sistema político disfuncional. No fundo, em troca do terceiro resgate, esgotada a confiança dos credores, Atenas teve de aceitar uma profunda transformação nos seus hábitos económicos e da própria forma de funcionamento do Estado. Em troca de ajuda financeira em larga escala, serão efectuadas várias reformas estruturais que estavam por fazer e haverá maior vigilância dos credores. Só isto explica as exigências de fazer tudo muito depressa, na realidade em escassos dias: vem nos livros, as mudanças sistémicas fazem-se em processo de choque e pavor.

Outra Europa


Luís Naves,

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Ao ler a Imprensa de referência e ao concluir a consulta diária de blogues nacionais, constatei a certo ponto que já tinha passado a barreira da dezena de textos de opinião totalmente hostis à Europa. As teses eram semelhantes: a União Europeia é uma construção em colapso, tendo atraiçoado um mítico plano original que os autores têm sempre dificuldade em definir. Ao comentarem o caso da Grécia, estas prosas falam invariavelmente da falta de solidariedade, da mesquinhez dos líderes e da total ausência de democracia nas instituições.

O facto é que a Europa sonhada pelos comentadores nunca existiu. As utopias federalistas são irrealizáveis e o ‘directório’ não vai além dos que pagam a factura. A UE acomoda os interesses nacionais dos diferentes Estados, numa negociação permanente que não recua nos pontos onde já houve acordo. Esta construção substituiu o sistema de equilíbrio de poder entre alianças rivais que conduziu ao desastre de 1914-1945, tendo evitado durante 60 anos os conflitos crónicos do continente, criando um espaço de liberdade, segurança e riqueza.

Os europeus nunca foram tão livres e tão ricos como agora e isso aplica-se também aos portugueses, embora a narrativa dominante na Imprensa seja de que estamos muito mais pobres do que há 30 anos, que a Europa está mais dividida e os dirigentes não são credíveis, para não mencionar as ideias quase consensuais da impotência política e da democracia em declínio. Este mito da regressão é alimentado em todos os países pelas forças demagógicas que apostam na destruição da UE, no proteccionismo de mercado e na instigação do nacionalismo extremo. Basta fazer um exercício de imaginação, pensando numa Europa governada por Marine Le Pen, Pablo Iglésias, Alexis Tsipras ou onde participavam em governos partidos como Frente Nacional, UKIP, Podemos, Bloco de Esquerda, Alternativa para a Alemanha, Jobbik. Nessa Europa não comunitária surgiriam rapidamente divisões ideológicas e rivalidades chauvinistas, talvez até conflitos militares, as periferias perderiam as ajudas e as instituições de Bruxelas eram provavelmente extintas.

As forças centrífugas têm na Europa que existe o seu maior inimigo, pela razão simples deste ser um projecto de poder que as exclui. Por isso, contestam a moeda única e as regras do Tratado Orçamental, são adversárias do comércio livre e do capitalismo, acusam os líderes de traição aos interesses nacionais. No fundo, estes são os argumentos que entre nós começam a dominar o espaço público.

A esquerda dividida


Luís Naves,

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Se a Grécia não apresentar um plano que inclua reformas impopulares, o acordo com os credores será impossível e a situação deverá piorar de forma dramática. Haja ou não entendimento, o referendo grego já mostrou a divisão da esquerda europeia, com a formação de dois blocos irreconciliáveis. Nos países da zona euro crescem os populistas eurocépticos, num processo gradual que torna cada vez mais pequena a aliança central (e tradicional no poder) de conservadores e socialistas.

Entre nós, nos meios de comunicação de referência, triunfou uma retórica que define o lado europeu como sendo neo-liberal e subserviente dos interesses do governo alemão, liderado pelos conservadores Angela Merkel e Wolfgang Schauble. Esta caricatura é infeliz. No Conselho Europeu há socialistas, como François Hollande ou Matteo Renzi, cruciais no processo de decisão, como serão importantes os social-democratas alemães (Sigmar Gabriel, Martin Schulz) ou o trabalhista holandês Jeroen Dijsselbloem*, cujos partidos fazem parte da bancada socialista do Parlamento Europeu, também vital para qualquer decisão.

A Espanha ilustra bem a nova clivagem no eleitorado esquerdista, com PSOE e Podemos a fazerem interpretações opostas do caso grego. Segundo as sondagens, os dois partidos deveriam formar uma aliança de poder pós-eleitoral, mas as divisões sobre como prosseguir com a moeda única dificultam esse resultado. Em Portugal, o PS tem a fractura exposta, com dirigentes de topo a fazerem discursos alinhados com o Syriza e a liderança a tentar um meio termo que permita criticar as políticas de austeridade sem inviabilizar a solução europeia onde participam os partidos homólogos. A ambiguidade pode custar votos a António Costa, cuja posição relativamente alinhada com a Europa contrasta com a de muitos membros do seu partido, mais próximos do discurso do Bloco de Esquerda e do PCP favorecido pelo coro grego dos analistas mediáticos. O problema dos socialistas é que será a conquista dos eleitores do centro a decidir as legislativas e, caso se confirme o Grexit, os portugueses vão assustar-se com as imagens do colapso financeiro e da crise humanitária que se vai seguir, com a moeda paralela, bancos estoirados, prateleiras vazias e falta de gasolina.

 

*Não confundir esta formação social-democrata com os socialistas holandeses, que estão na oposição, ocupando no Parlamento europeu lugares na bancada onde também se sentam Syriza, Bloco de Esquerda ou PCP.

A morte do Minotauro


Luís Naves,

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Acelerando o que decorria em câmara lenta, a resposta popular ao referendo na Grécia aumentou a probabilidade de Atenas abandonar a zona euro e tornou menos provável que os líderes europeus continuem a lutar contra esse desfecho. Um acordo entre as partes é ainda possível, mas parece ilusório: o Syriza dificilmente trocará a sua vitória nas urnas por cedências aos europeus e estes terão dificuldade em ratificar nos parlamentos nacionais um terceiro resgate sem as devidas contrapartidas gregas.

Através de um Grexit ou reforçando a integração, a união monetária vai mudar nos próximos meses, embora não da forma que muitos comentadores julgam ser inevitável, ao narrarem estes acontecimentos como a chacina do Minotauro: a Europa não consentirá em pagar a factura da dívida grega sem garantias de que Atenas está disposta a fazer reformas. A Grécia acumulou uma dívida insustentável e não tem condições de permanecer na moeda única mantendo a sua economia disfuncional, mas a votação reforçou o governo de esquerda, que não aceitará fazer as alterações exigidas pelos seus parceiros. Já houve dois resgates e uma reestruturação da dívida, e não será por aí que se encontra a solução mágica, pois Atenas paga 3,5% do PIB em serviço da dívida, percentagem semelhante a muitos países sem problemas. Portugal deve menos, paga 5% e por enquanto financia-se nos mercados.

Mesmo com um acordo óptimo, a Grécia regressaria em breve à protecção dos credores, entrando numa lógica de eterna dependência. Não faz sentido que países pobres como a Eslováquia estejam a subsidiar uma sociedade mais avançada que não influenciam. E manter a situação de agonia incentiva por todo o lado formações populistas anti-europeias que contestam as chamadas ‘políticas de austeridade’, ou seja, contestam as medidas de rigor orçamental que os pró-europeus exigem em troca do dinheiro dos seus contribuintes. Pagar o preço de manter a fachada da união monetária abre caminho à reivindicação permanente dos devedores, pois compensa não cumprir as regras e há sempre um referendo para contrariar as retaliações.

Por estas razões, entre outras que José António Abreu muito bem assinala mais abaixo, o resultado de ontem reforçou indirectamente as facções europeias que antes defendiam a saída da Grécia. Os gregos votaram pela ruptura e os europeus tendem cada vez mais a concordar. As próximas discussões serão provavelmente sobre se o processo vai ser controlado ou caótico. A Europa cometeu muitos erros, sobretudo perdeu tempo e não rectificou os seus lapsos, mas esta crise revela o absoluto falhanço da classe política grega. Todos os partidos mentiram aos eleitores e vimos a fuga para a frente de uma equipa que levou goleadas sistemáticas e mudou sempre para treinadores piores, sem nunca aceitar que o seu problema era a exigência elevada do campeonato onde jogava.

O discurso anti-europeu


Luís Naves,

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Durante uma geração, Portugal tirou grandes vantagens da integração europeia, mas começam a surgir no debate público artigos como este, de João Cardoso Rosas no Diário Económico, onde se defende a ‘desconstrução da Europa’, ideia baseada numa suposta traição ao projecto inicial*.

O caso da bancarrota grega levou os meios de comunicação de referência a uma onda de interpretações abertamente anti-alemãs (por vezes, sem esconder incompreensível grau de xenofobia em relação a cabeleiras loiras). As lideranças europeias são acusadas de chantagem, arrogância, maldade e estupidez, apesar de, como bem nota Luís Menezes Leitão em texto mais abaixo, o Governo de Atenas ter aparente intenção de abandonar a zona euro. A propósito, deixo aqui o link de um texto que escrevi a 14 de Abril.

São tão evidentes as vantagens que Portugal extraiu da integração europeia, que devia ser inútil elaborar listas. Durante quatro décadas, em cada ano, o país foi subsidiado em cerca de 3% do seu produto. Investiu-se em educação, transportes, saúde, tecnologia, infra-estruturas, cultura. As empresas modernizaram-se e têm hoje acesso a um mercado único gigantesco. Esta nova realidade nada tem a ver com a dos anos 80. A preços constantes e apesar da crise, o PIB per capita aumentou 75% desde a adesão. Os portugueses vivem numa zona de prosperidade e segurança, tendo adoptado legislação comunitária de qualidade e construído uma rede social assinalável. Houve também ilusões e até erros imbecis, mas a nossa sociedade sofreu transformações profundas e parece insensato defender o regresso a um passado de isolamento e melancolia.

No entanto, lendo e ouvindo muitos políticos portugueses, inclusivamente com responsabilidades a nível europeu, a Europa está à beira do colapso, perdeu o elemento da solidariedade e tem uma liderança alemã ilegítima. As decisões das instituições são consideradas anti-democráticas (mesmo quando se limitam a cumprir os tratados) e há em pano de fundo certa nostalgia pelo paraíso perdido, essa Europa mítica ‘baseada na coesão e na solidariedade’, como se agora se diz, em formulação suficientemente vaga. O discurso anti-europeu cresce nas franjas do descontentamento, à direita e à esquerda, tendo já conquistado a conversa quotidiana, onde há sempre dois pesos e duas medidas, conforme a origem da crítica. Enfim, os europeus são os maus e quem resista à colonização é o virtuoso. O caso contra a Europa tem sempre poucos factos e muita retórica, indignações difusas e distorções elaboradas. Visa naturalmente pôr o relógio a andar para trás.

 

* O artigo é contraditório, pois admite que o projecto inicial tinha o objectivo de garantir a paz na Europa, algo que foi amplamente conseguido.

O debate sobre a Grécia


Luís Naves,

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É difícil escrever contra a corrente dominante e contra mitos instalados. Nos últimos dias, triunfou no discurso público uma interpretação da crise grega que torna quase impossível apresentar um ponto de vista alternativo: venceu a ideia falsa de que a Europa é um espaço anti-democrático em colapso, onde Portugal já não cabe; a crise em Atenas tem a ver com imposições tecnocráticas e ignorância política. Embora a teoria não resista a cinco segundos de análise, ela é hoje dominante nos meios de comunicação.

Em textos anteriores, tentei explicar que esta crise é política. A União Económica e Monetária (UEM) nasceu com uma falha de concepção e os resgates foram mal desenhados, num contexto de pânico financeiro que os tornou inflexíveis. Qual é a falha da UEM? A ausência de união política, o que se traduz no seguinte: o eleitor do país A não se pronuncia sobre o governo do país B e, no entanto, o governo do país B pode tomar decisões que prejudicam a prosperidade do eleitor do país A.

É este o caso da Grécia, onde o governo populista de esquerda quer sair da zona euro, mas culpando os europeus pelo resultado. Com a saída, o Syriza podia nacionalizar a banca e imprimir dinheiro, libertando-se de medidas impopulares que não tem condições para aplicar, como cortes nas pensões. As poupanças dos gregos serão destruídas, mas o Syriza é um partido da esquerda radical e não está interessado na classe média. Tsipras mentiu ao seu eleitorado sobre a saída da zona euro e precisa de um bode expiatório. O verdadeiro jogo é sobre a culpa.

Na Europa há também a intenção de tirar a Grécia da zona euro, embora não a de arcar com a responsabilidade. O incumprimento e a desvalorização da nova moeda permitiriam reestruturar a dívida grega e recuperar a economia, sobretudo se houver uma ajuda em larga escala. Em vez de uma agonia lenta e de um terceiro resgate que talvez não passe nos parlamentos, a Grécia podia ser colocada num programa temporário de recuperação, suspendendo a sua participação na UEM. Há outra vantagem: a saída (ou meia-saída) permite resolver de vez a falta de união política, pois quem fica sabe que a falta de disciplina orçamental terá a punição grave do eventual afastamento da UEM.

O debate nacional ignora tudo isto. Os mesmos que fazem previsões catastróficas sobre o futuro de Portugal na moeda única criticam de forma ácida qualquer declaração sobre as dificuldades de Atenas, como se Portugal não fosse uma democracia. Cada vez que o governo português se pronuncia sobre um assunto com potencial para nos afectar, surge logo um coro de indignação, que deviam estar calados ou que deviam apoiar Tsipras. E, no entanto, quanto mais conseguir destruir as minhas poupanças, melhor negócio terá a Grécia, embora o meu protesto seja visto como um atentado à democracia e àquela Europa mítica que nunca existiu e não existe.

E agora o desconhecido


Luís Naves,

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A Grécia e os seus credores estavam à beira de um acordo, quando houve ruptura inesperada das negociações. O Eurogrupo chegou a propor condições mais generosas do que as que foram oferecidas a Portugal há dois anos e que permitiriam a Atenas prolongar por cinco meses o actual programa e negociar tranquilamente o terceiro resgate. A atitude dos negociadores gregos sugere que o governo de Alexis Tsipras não conseguiu convencer os membros mais radicais do Syriza ou, em alternativa, pretendia desde o início abandonar a União Económica e Monetária (UEM), culpando os europeus pelo desfecho. No comentário nacional, há observadores que acreditam na culpa exclusiva dos dirigentes europeus, ou seja, a estratégia teve êxito.

Entre os credores havia quem defendesse a saída da Grécia, sublinhando que podia facilitar a reparação da própria zona euro. O Grexit implica horrores económicos e riscos políticos, mas o copo pode ser visto meio cheio, pois a partir de agora quem não cumprir o Tratado Orçamental será vítima de gradual afastamento dos mercados, o que leva à porta de saída. Acabaram as ilusões: esta circunstância tem mais força do que a união política, cuja ausência no projecto inicial da UEM se revelou tão desastrosa.

Nos próximos dias, tudo o indica, assistiremos ao colapso financeiro que levará a Grécia a impor controlos de capital e a introduzir uma moeda paralela para pagar salários e pensões. A desvalorização dessa moeda permitirá recuperar a competitividade, mas entretanto haverá falências e serão destruídas as poupanças da classe média, que tem grandes quantidades de dinheiro debaixo dos colchões e, assim, poderá resistir durante alguns meses. O governo de esquerda pode finalmente cumprir as promessas eleitorais, acabar com a austeridade, imprimir dracmas, aplicar um programa radical. A Grécia empobrecerá ainda mais e a Europa (incluindo os contribuintes portugueses) pagará os incumprimentos gregos e correrá certo risco de perturbação nos mercados de dívida, mas do ponto de vista político tudo avançará mais depressa: nos próximos dois anos serão definidos mecanismos de maior integração e haverá mudanças fundamentais na UE, com a renegociação da relação dos britânicos e uma nova geração de líderes na Alemanha e talvez também em França, resultando num núcleo mais forte de países e em periferias mais distantes.

Acelera a agonia da Grécia


Luís Naves,

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As últimas semanas demonstraram que na zona euro não se negoceiam apenas doses de austeridade, mas o que parece mesmo estar em causa é ficar ou sair. A insistência em ‘outros caminhos’ ou na necessidade de ‘mudar de políticas’ é uma mera ilusão e não imagino como a esquerda portuguesa ou os comentadores habituais vão explicar a calamidade que se adivinha.

Em Portugal, muitos acreditaram erradamente que o governo grego podia impor aos credores europeus uma alteração fundamental nos tratados e no funcionamento da moeda única. Como aliás acreditaram erradamente que o cumprimento das regras impostas pelos credores levava à espiral recessiva. Durante cinco meses, o governo de esquerda liderado pelo Syriza tentou obrigar os países europeus a prolongarem as ajudas sem se comprometer com um programa de reformas e, no entanto, crivada de dívidas e sem soberania financeira, a Grécia só agravou a situação económica, invertendo o pequeno crescimento que conseguira. Agora, se quiser ficar na zona euro, terá de aceitar medidas duras que abrem caminho à negociação do terceiro resgate; e só depois se falará em alívio da dívida. O pacote é semelhante ao que Portugal aplicou há dois anos, apesar de haver comentadores que, ignorando estes factos, continuam a considerar errada a estratégia de credibilidade seguida pelo governo português, que permitiu o regresso aos mercados e ao crescimento.

Não podendo cumprir as promessas eleitorais, o primeiro-ministro grego ensaia o que parece ser uma fuga para a frente, anunciando um referendo com escassos dias para pensar. Votar nestas circunstâncias mostra que existe aqui sobretudo um problema político, pois todas as combinações partidárias anteriores falharam na Grécia. Chamam-lhe democracia madura e modelo a seguir. Este foi o outro grande erro de avaliação da esquerda portuguesa, ao contar a história como se estivéssemos perante a resistência de uma democracia que enfrenta o cruel império neo-liberal, interpretação em que os diferentes governos da zona euro não tinham legitimidade nas urnas e nunca respondiam perante os seus eleitores. Talvez a saída da Grécia da zona euro seja o plano mais lógico ou até o plano em aplicação pelas partes, mas será sempre um golpe fatal no radicalismo de esquerda a nível europeu. Quem, no seu perfeito juízo, quererá seguir por este caminho?