Outra Europa


Luís Naves,

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Ao ler a Imprensa de referência e ao concluir a consulta diária de blogues nacionais, constatei a certo ponto que já tinha passado a barreira da dezena de textos de opinião totalmente hostis à Europa. As teses eram semelhantes: a União Europeia é uma construção em colapso, tendo atraiçoado um mítico plano original que os autores têm sempre dificuldade em definir. Ao comentarem o caso da Grécia, estas prosas falam invariavelmente da falta de solidariedade, da mesquinhez dos líderes e da total ausência de democracia nas instituições.

O facto é que a Europa sonhada pelos comentadores nunca existiu. As utopias federalistas são irrealizáveis e o ‘directório’ não vai além dos que pagam a factura. A UE acomoda os interesses nacionais dos diferentes Estados, numa negociação permanente que não recua nos pontos onde já houve acordo. Esta construção substituiu o sistema de equilíbrio de poder entre alianças rivais que conduziu ao desastre de 1914-1945, tendo evitado durante 60 anos os conflitos crónicos do continente, criando um espaço de liberdade, segurança e riqueza.

Os europeus nunca foram tão livres e tão ricos como agora e isso aplica-se também aos portugueses, embora a narrativa dominante na Imprensa seja de que estamos muito mais pobres do que há 30 anos, que a Europa está mais dividida e os dirigentes não são credíveis, para não mencionar as ideias quase consensuais da impotência política e da democracia em declínio. Este mito da regressão é alimentado em todos os países pelas forças demagógicas que apostam na destruição da UE, no proteccionismo de mercado e na instigação do nacionalismo extremo. Basta fazer um exercício de imaginação, pensando numa Europa governada por Marine Le Pen, Pablo Iglésias, Alexis Tsipras ou onde participavam em governos partidos como Frente Nacional, UKIP, Podemos, Bloco de Esquerda, Alternativa para a Alemanha, Jobbik. Nessa Europa não comunitária surgiriam rapidamente divisões ideológicas e rivalidades chauvinistas, talvez até conflitos militares, as periferias perderiam as ajudas e as instituições de Bruxelas eram provavelmente extintas.

As forças centrífugas têm na Europa que existe o seu maior inimigo, pela razão simples deste ser um projecto de poder que as exclui. Por isso, contestam a moeda única e as regras do Tratado Orçamental, são adversárias do comércio livre e do capitalismo, acusam os líderes de traição aos interesses nacionais. No fundo, estes são os argumentos que entre nós começam a dominar o espaço público.

0 comentários em “Outra Europa”

  1. Muito bem, Luís. O nacionalismo, alimentado pelas pulsões xenófobas e pelo populismo mais rasteiro, conduziu várias vezes a Europa ao desastre. Tudo se repete: a década de 30 esteve cheia de “pensadores” que exaltavam as bandeiras do extremismo, à esquerda e à direita, enquanto ridicularizavam as forças não-extremistas, considerando que não sabiam auscultar as vozes da rua. Sabemos onde estes ímpetos tão inflamados conduziram a humanidade, aliás imitando as bravatas identitárias dos anos que antecederam a I Guerra Mundial.
    Que depois de tudo isto haja tanta gente incapaz de entender as mais elementares lições da História é algo que não cessa de me espantar.

  2. Como disse (o óbvio) o deputado belga que envergonhou o Tsipras: esta forma de incompetência do governo grego, tem acicatado mais a divisão e falta de solidariedade do que todas as dificuldades e divergências da UE passadas.
    Resultado da sondaegem: 85% dos alemães desejam a saída da Grécia da zona euro.

  3. Ninguem quer o Euro.

    Os ingleses não querem, os Americaanos e Russos idem aspas,

    Eles não querem a moeda de Napoleão, de Hitler e de Átila.

    Têm medo, cagufo, borram-se todinhos.

  4. Tivemos o argumento Neo-Comunista – o autor nem sequer o percebe – que para não haver conflitos devemos ser todos iguais. Totalitário.

    A União Europeia é um projecto totalitário. E os projectos do Syriza & Co. Totalitários são.

    A farsa dos correspondentes europeus dos media que nunca dizem nada critico da União deixa muito claro como funciona o Clube Unionista.

    Já os Marxistas são menos soft, já temos as investigações sobre os jornalistas Gregos traidores:

    http://www.theage.com.au/world/greek-debt-crisis-journalists-who-criticised-syriza-investigated-by-government-agencies-20150709-gi84l1

  5. Ninguém diz que estamos mais pobres do que há 30 anos.

    O que se diz, e é verdade, é que estamos a empobrecer neste momento e que o caminho radioso mostrado pela Europa é que temos de empobrecer mais. A famosa frase de que os salários portugueses estão 30% altos, que o nosso 1º subscreveu, são uma convicção desta Europa.

    Qual é a solidariedade que existe entre países quando se declara que os mais pobres têm de ser mais pobres, para os ricos não perderem as suas fortunas?

    Claro que podemos dizer que os povos do norte são mais inteligentes e mais honestos que nós, mas isso é conversa de gente que é pouco inteligente.

    O problema é que a Europa foi uma coisa há 80 anos e outra muito diferente há 30. E estes políticos parecem mais saudosistas da Europa de 35 do que da CEE.

    1. “Ninguém diz que estamos mais pobres do que há 30 anos.”

      O quê?! estamos muito mais ricos que há 30 anos.
      Regresse há 30 anos atrás e tente comprar um medidor de tensão ou um telemóvel…

      1. Foi isso que eu disse: Estamos mais ricos que há 30 anos.

        E temos uma “elite” política e financeira que não está satisfeita com esse facto e, apesar de haver mais riqueza, está a alterar o modo de repartição da mesma a favor dos ricos.

  6. Já reparou no que dá quando se deixa a Alemanha comandar as coisas. A França mais uma vez foi anexada e a Europa, os povos, está a bater-se contra aquela nomenclatura alemã que não se vê.

    Só vai haver unidade depois de eles capitularem. Fique atento.

  7. No meio disto tudo, eu tenho um critério, muito simples: quando oiço alguém do BE apoiar o que quer que seja fico logo de pé atrás. Se eles ou o PCP se encarniçam contra algo então eu concluo: Deve ser bom!…

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