A culpa é dos europeus, naturalmente


Luís Naves,

A maior crise da Europa neste momento tem que ver com um súbito fluxo migratório, mas as histórias que encontramos na imprensa mostram sobretudo a histeria em torno de Calais (que envolve 5 mil dos mais de 200 mil ilegais que já entraram na Europa de Schengen, só este ano) ou a tragédia de Lampedusa, onde pelo menos os barcos com refugiados já estão a ser interceptados pela marinha antes de se afundarem com as suas cargas humanas.

Escrevi sobre um detalhe da rota balcânica e encontro textos como este, de Bernardo Pires de Lima, no DN, onde a culpa é dos europeus. O movimento migratório está provavelmente apenas no início e a sua causa próxima é o colapso tumultuoso de vários países, nomeadamente da Síria e do Iraque, onde as respectivas guerras civis afectam 40 milhões de pessoas. Estes Estados falhados são culpa da Europa? Eritreia, Afeganistão e Somália também? A continuar o actual fluxo de refugiados através do Mediterrâneo e dos Balcãs, em 2015 entrarão no espaço europeu mais de 400 mil ilegais, muitos sem mais lugar para onde ir (não podem voltar para trás) e alguns possivelmente com más intenções.

Isto não tem nada a ver com o fracasso das políticas europeias de vizinhança, excesso de burocracia, governos injustos, nem sequer com falta de solidariedade. A Comissão Europeia (sem grandes poderes na matéria) distribuiu pelos Estados membros da UE um lote de 40 mil refugiados, num episódio anedótico que envolveu um quinto do problema, e verificou-se que poucos países têm condições para receber tanta gente dentro da legalidade; Portugal não tem, de certeza: é preciso identificar, alimentar e dar trabalho às pessoas. Nos artigos cheios de boas intenções não consigo perceber qual é a solução: deixamos entrar toda a gente, só os do Mediterrâneo, só os dos Balcãs, os da Síria e Iraque ou nenhum deles? Os refugiados são distribuídos de forma igualitária pelos países ou pode invocar-se a crise económica? Ficam no primeiro onde entraram, em Itália, Grécia e Hungria, ou podem escolher para onde vão? E quem paga o auxílio? E proíbe-se a protecção de infra-estruturas ferroviárias ou suspende-se a soberania nacional no que respeita a fronteiras? E quando houver um milhão de refugiados, como é que se faz?

0 comentários em “A culpa é dos europeus, naturalmente”

  1. “Nos artigos cheios de boas intenções não consigo perceber qual é a solução”.

    Também não dá para perceber qual a solução que este post apresenta.

    1. Quando se critica uma política, geralmente é sugerida uma alternativa. Este post não faz uma crítica da política que está a ser seguida e procura sublinhar a dificuldade da questão.

  2. Só na aldeia dos meus pais, presumo que encontrarão trabalho uns 80 refugiados; os que ainda lá vivem começam nos 56 anos, o mais novo e jâ são poucos, mas as leiras e terras boas muitas. Nas seis aldeias que conheço perto o panorama é igual. Não podemos ou não queremos?
    As intervenções na Libia, Siria, Iraque.. pelas forças francesas. inglesas e dos EUA, não merecem que as consideremos ajuizadas, sensatas e que respeitam a defesa do ser humano; para quem gosta basta ler nas entrelinhas -quando os media falam dos 4300 mortos no Iraque referen-se a pessoas, mas esquecem os 360.ooo iraquinaos, que como é obvio, não contam como pessoas..aliás como os desgraçados que tentam atravessar mundos e fundo para encontrar segurança.
    Aqui tenho que relevar, que vivermos na melhor zona do mundo, para se ser humano; como tal devemos assumir as nossas responsabilidades!

  3. A táctica Marxista da culpa penetrou tanto na cultura jornalista Ocidental que mesmo de tipos que se dizem da suposta direita como BPL a empregam sem noção do que fazem.

    E o que se passa é uma Invasão.

    E a culpa – pois é esta palavra que está sempre presente em qualquer comunicação política – é das ideologias socialistas, neste caso o Nacional Socialismo Árabe apoiado por boa parte da Esquerda Ocidental ao longo de décadas.

    Os amanhãs que cantam do socialismo Árabe resultaram em sociedades arruinadas, ainda mais violentas que as tribais.

    E nem vamos falar das perseguições aos Cristãos, Assírios, Coptas etc…

    As pessoas que chegam, na sua grande maioria não têm cultura para viver no Ocidente. São racistas, sexistas, anti-semitas.

    Seria preciso um esforço de colonização para quem chega enorme que sociedades pós modernas são incapazes de fazer devido à culpa que o Marxismo como táctica lhes embutiu na cultura.

      1. Os Ocidentais( e os Alemães ainda mais por culpas históricas próprias) não se podem defender desde que o Marxismo por via do Jornalismo tomou conta das suas cabeças.

        1 milhão de brancos a emigrarem para África daria muitos textos de condenação.

        Mudando de continente isto nota-se bem como a Esquerda Americana condena a “gentrification” – bairros e comunidades na maior parte dos casos afro-americanos que são “destruídos” pela chegada de gente com dinheiro – habitualmente brancos ou mais raro asiáticos – mas quando afro-americanos chegam a um bairro branco já é racismo um protesto pela “destruição” desse bairro.

  4. Não é fácil criar uma politica para este problema. São pessoas que apenas procuram um local para viver em paz, negar-lhes isso é desumano.
    Não são eles que fazem a Guerra, são os poderosos e o seu medo de perder o poder e os ricos com a sua ganancia.
    Quanto à distribuição, devia ser feita com base no “IRS” de cada país: os mais ricos que peguem em mais e os mais pobres em menos.

    1. “São pessoas que apenas procuram um local para viver em paz, negar-lhes isso é desumano.”

      Não são. E não é. Pelo contrário. Só está a contribuir para a destruição da liberdade ocidental.

      “Não são eles que fazem a Guerra, são os poderosos e o seu medo de perder o poder e os ricos com a sua ganancia.”

      A culpa do que se passa em cada país é das pessoas desse país. Porque é que há só golpes de Estado para instituir violência e ditadura e não para acabar?

      1. Você acredita em tudo o que diz? Eu duvidaria de mim mesmo.
        Nacionalismos encapotam os medos e as amarguras de uma vida infeliz e raramente possuem moral.

        1. Internacionalismo é o maior Medo. Não tolera que alguém seja diferente.

          No fundo é o medo de ser rejeitado. Não aceita a palavra da Liberdade: Não.

          É esse medo de ser rejeitado que produz a violação do outro.

          1. Pois, o eterno choque. Já deviam ter percebido que o choque será sempre uma constante humana. É o preço a pagar pela antropofilia, é o preço a pagar pela vida.
            Agora a coisificação da Humanidade é sempre um mau prenuncio, é que outras civilizações caíram e enquanto este calhau permitir vida, outras cairão e a próxima a cair só pode ser a nossa.
            Mas como amanhã é outro dia e eu sei que um dia vou morrer, vou mas é aproveita-lo para viver. Talvez por isso eu entendo e respeito quem procura o mesmo que eu.

          2. Só mais um reparo. Se não estou enganado você vê isto como parte de um plano, uma estratégia. Talvez daquilo a que chamam de islamização da Europa. Se é realmente assim, então o Medo que sentimos chama-se Xaria. De resto eu acredito que são pessoas como eu e você, dispostas a lutar pela sua vida, mas não descarto a possibilidade de que à mistura venham pessoas em missão contra o Capitalismo e dispostas a tudo em defesa da sua doutrina.

  5. os mais de 200 mil ilegais que já entraram na Europa de Schengen, só este ano

    Porque designa o Luís essas pessoas por “ilegais”?

    Eles nada estão a fazer de ilegal: entram na Europa para pedir asilo político ou refúgio de perseguições. Isso não é ilegal, está aliás explicitamente previsto nas leis europeias.

    1. “entram na Europa para pedir asilo político ou refúgio de perseguições”

      O esperado. Mais mentira. A maior parte não pede asilo ou refugio algum.

  6. Estes Estados falhados são culpa da Europa? Eritreia, Afeganistão e Somália também?

    A Somália e a Eritreia não são culpa da Europa.

    No entanto, o Iraque, a Síria e o Afeganistão são parcialmente culpa da Europa. São Estados que funcionavam, estavam estáveis e dominavam o seu território, mas que foram desestabilizados com a ajuda ou o consentimento cúmplice da Europa.

    1. O Iraque partido em 3 em guerra civil larvar com as zonas – Sunitas, Curdos, Xiitas, o Afeganistão dos Taliban eram estados “estáveis” e dominavam o seu território.

      Fantástico. Newspeak da mais alta qualidade. Orwell reconheceria.

  7. em 2015 entrarão no espaço europeu mais de 400 mil ilegais

    Mais uma vez no post, o Luís volta a designar as pessoas que entram na Europa como “ilegais”.

    Mas agora eu pergunto: qual é a tragédia de entrarem na Europa 400 mil pessoas, quando o défice demográfico na Europa é certamente superior a esse número? (Veja post, com a data de ontem, no meu blogue para encontrar uma estimativa do défice demográfico europeu.)

    1. “volta a designar as pessoas que entram na Europa como “ilegais”.”

      Típico da esquerda marxista mentir usando a táctica do politicamente correcto.

      São ilegais.

      “quando o défice demográfico na Europa”

      Que raio quer dizer défice demográfico? Pelos vistos a Europa teve défice demográfico desde sempre. Até hoje. Porque hoje por motivos políticos do Luís Lavoura é preciso ter défice demográfico. Até quando deixar de ser conveniente.
      Por exemplo se 400000 membros da Direita Americana resolverem imigrar para a Europa.

  8. Isto não tem nada a ver com o fracasso das políticas europeias de vizinhança

    Designa por “política europeia de vizinhança” a política de bombardear a Líbia para ajudar ativamente o derrube do seu governo, e de aplaudir freneticamente os países árabes que apoiam os rebeldes sírios? Isto é que são políticas de vizinhança – procurar derrubar os governos de países vizinhos?

    1. A política de vizinhança envolve apoio financeiro a países limítrofes da UE e a frase comenta o artigo de Bernardo Pires de Lima; o colapso da Síria não é certamente culpa do fracasso da política de vizinhança da UE…

      1. o colapso da Síria não é certamente culpa do fracasso da política de vizinhança da UE

        Permita-me discordar. A Síria colapsou por via de rebeliões que foram desde o seu princípio apoiadas moralmente pelos principais países europeus e materialmente por países árabes (Jordânia, Arábia Saudita, Qatar), alguns dos quais (nomeadamente a Jordânia) são fortemente influenciáveis pela Europa.

        Ou seja, ao contrário de uma política de boa vizinhança e de elementar prudência – que obrigaria a Europa a apoiar o governo sírio em funções e a desencorajar rebeliões contra ele – a Europa teve uma políica de má vizinhança – hostil contra o governo legítimo de um país vizinho.

  9. poucos países têm condições para receber tanta gente dentro da legalidade; Portugal não tem, de certeza: é preciso identificar, alimentar e dar trabalho às pessoas

    Que disparate! Portugal recebeu nos últimos anos centenas de milhares de imigrantes do Bangladeche, do Paquistão, do Brasil, da Ucrânia e sabe-se lá de que mais países. Esses imigrantes arranjaram eles próprios o seu trabalho e alimentam-se a si mesmos.

    1. Os seus comentários mostram que não compreendeu inteiramente o texto, mas tem razão num ponto: a palavra ‘ilegais’ é forte e esta é na realidade uma crise de refugiados. Há uma emigração legal na Europa, de grande dimensão, que não é aqui comentada. Existe também um fluxo de emigração em aumento rápido e que respeita a migrantes ilegais que pedem asilo na Europa (concordo, a palavra é carregada, mas muitos nem sequer têm papéis de identificação). São portanto refugiados e o destino preferencial é a Alemanha. No ano passado, a Europa recebeu mais de 600 mil pedidos de asilo; muitos dos refugiados têm direito a asilo, pois estão a fugir de guerras civis; estes pedidos devem ser processados de acordo com o princípio humanitário de protecção destas pessoas. São as as regras que constam dos tratados, mas os países envolvidos estão em dificuldade para cumprir a lei. A Alemanha recebeu um terço do total, mais de 200 mil refugiados em 2014, mas este valor era já quase o dobro do que se verificara em 2013. Ao ritmo do primeiro semestre de 2015, é provável que o número de refugiados aumente outra vez para o dobro. A Alemanha estará à espera de 450 mil (li numa fonte alemã credível). Se isso for um terço do total da crise, estamos a falar de 1,2 milhões de pessoas. Os números podem nem ser tão dramáticos, mas cada refugiado exprime um drama individual. Os Sírios não têm para onde ir. Cerca de 1,5 milhões estão na Turquia, em campos de deslocados, à espera que a guerra civil acabe: e se começam a caminhar na direcção da Europa?

  10. não consigo perceber qual é a solução: deixamos entrar toda a gente

    Não. Fazemos quotas. tal e qual como os Estados Unidos da América, a Austrália, o Canadá e outros países sempre fizeram. Dizemos que podem entrar anualmente N imigrantes sírios, sendo que eles serão sorteados de entre todos os que requererem a entrada.

    1. Mais newspeak…

      Para começar as quotas Americanas são sabotadas por Obama – já o eram em menor grau por Bush, e boa parte da elite americana deu ordens ao próprio Estado para violar as Leis.

      A maior parte dos imigrantes são ilegais.

      Quotas ou não quotas nada tem que ver com o problema. Quem entra não liga a papeis.

      Por isso só muros e retornar aqueles que entram – a palavra retornar já passou a ser má? Quando são expulsos por marxistas é bom?

  11. quem paga o auxílio?

    Pagamos nós, da mesma forma que pagamos a educação e a saúde de crianças nascidas em Portugal. Se temos dinheiro para pagar isso, como não teremos dinheiro para pagar a educação e a saúde dessas pessoas, que apenas correspondem ao menor número de crianças que hoje nascem?

  12. Há milhões de jovens nas capitais dos novos países africanos, vagueando pelas ruas, sem qualquer prespectiva de vida.

    Não sabem regressar às raízes e não se conseguem libertar dessas mesmas raízes.

    Mas não são vítimas apenas da colonização/descolonização europeia.

    Mas vai ser a Europa a suportar com o maior fardo deste problema.

    A ONU, URSS e USA e CHINA deviam assumir parte do fardo.

    Portugal teve um papel muito crítico quanto ao desfecho da descolonização.

    Salazar e os retornados sabiamos que ia ser uma merda!

    1. Singapura, em 40 anos passou a ser um dos países mais ricos, Israel construíu-se em décadas e está cada vez mais a anos-luz dos vizinhos, a Coreia do Sul um dos países mais pobres no fim da Segunda Guerra Mundial hoje está no topo.
      A Alemanha destruída pela Segunda Guerra Mundial nos anos 70 ou seja em meros 30 anos já era mais rica que a Inglaterra vencedora e desperdiçada em teorias e nacionalizações socialistas.
      O Japão em 30, 40 anos transformou-se num país de topo.

      A qualidade das pessoas e da cultura é que formam um país.
      Como a descolonização Africana foi feita pela Cultura da Esquerda não é de admirar que tenha sido um desastre.

  13. A Europa tem de receber os refugiados e proporcionar encontros diplomáticos, com outros países, para todos estudarem, a maneira, de acolherem aqueles que hoje buscam a paz e não a têm. Não nos podemos esquecer quem provocou toda a desgraça no Iraque e aí, aqueles que mentiram, ao mundo, são os responsáveis das barbaridades que por lá se passam, logo resolvam a situação. Quanto ao não haver trabalho, pode haver solução, é preciso é querer e aqui, é que está o busílis da questão. Não há trabalho na Europa, logo, as empresas europeias, não podem sair para países de mão de obra barata, se saírem, pagarão altos impostos na entrada dos seus produtos. Haveria trabalho para europeus e para aqueles que sofrem horrores nos seus países. Nunca sabemos se hoje são eles e amanhã somos nós. Isto, a que assistimos, é a degradação dos sentimentos humanos, é o salve-se quem puder. Não pode ser este mundo que ambicionamos, mas um mundo onde a solidariedade seja visível e real.

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