Está a ser criado um clima (I)


Luís Naves,

Os comentadores nem parecem notar a própria contradição: numa frase insurgem-se contra a hegemonia alemã na Europa, na frase seguinte concluem os raciocínios a afirmar que a Europa está sem rumo. A liderança alemã é sufocante, mas por qualquer razão não há liderança. Os países, dizem, estão todos a tratar da sua vidinha e isso destrói o projecto, mas a Alemanha tem mesmo assim hegemonia que, embora não mande nada, também não deixa de ser decisiva. Existe até uma misteriosa técnica de tortura que permite aos alemães hipnotizar países inteiros, obrigando-os a ter opiniões idênticas.

Este tipo de conversa absurda enche diariamente as nossas televisões e os textos de opinião dos jornais de referência. São os mesmos analistas que há seis meses previam uma estrondosa revolução nas coisas europeias liderada pelo Syriza, que há uma semana elogiavam a forma decisiva e digna como o povo grego enfrentava a ditadura da chanceler alemã, que aliás não é chanceler, mas apenas senhora Merkel (ao contrário do senhor Gabriel, que é sempre vice-chanceler).

Para mim, estes exemplos mostram sobretudo como o discurso anti-europeu se tornou hegemónico no espaço público nacional. A união monetária é uma calamidade, as políticas austeritárias produzem fantasmas de extrema-direita neo-fascista (onde?), por isso o euro acaba na próxima semana e a senhora Marine Le Pen será eleita presidente da França. É algo inevitável e só existe um beneficiário da destruição sistemática da Europa mítica: a Alemanha, claro. Nos blogues sofisticados, reflexões profundas são ilustradas com fotografias de militares nazis a passear na Acrópole e a sacudir a poeira das botas. E, curiosamente, em todas estas análises certeiras, ninguém extrai o óbvio corolário: se a Europa é assim tão má, então Portugal, que entra mudo e sai calado, devia ponderar a respectiva presença no clube. Não queremos estar do lado dos maus. Voltemos por isso ao velho império africano ou tentemos a via revolucionária do PREC, onde as nossas boas elites poderiam pastorear o povo em paz e sossego. Seria bom termos também filas em frente ao multibanco, restaurantes vazios, casamentos adiados, falta de medicamentos e de carne de porco, cofres com teias de aranha e velhinhos ansiosos pelo pagamento das pensões do próximo mês. Tudo será melhor do que a senhora Merkel a mandar num sítio caótico onde afinal quem manda é o outro maluquinho alemão das finanças, que também não percebe nada de geo-estratégia.

 

* Não é só cá. Só depois de escrever este post vi o texto de Emmanuel Todd que o Sérgio cita um pouco mais abaixo sobre a loucura alemã que nos arrasta tão sistematicamente para grandes desastres; Napoleão, naturalmente, era um bocadinho alemão na perna esquerda e as grandes calamidades das guerras dos 30 anos, 100 anos e das cruzadas são exclusivamente da responsabilidade teutónica. Isto de ser credor e ter parlamento não parece ser fácil… 

0 comentários em “Está a ser criado um clima (I)”

  1. Bravo! chega de infantilidades.
    Há um país que nos pede dinheiro, não temos o direito de perguntar como nos vão pagar de volta?
    Esse país anuncia que quer o dinheiro porque não consegue pagar o último e o anterior e que de resto é improvável que alguma vez nos pague o próximo. Berra e ameaça que se não “emprestarmos” vamos todos ao fundo.
    Empresta quem quer, a Alemanha só responde pela que seria a sua parte nesses empréstimos, nada impede outros países de se chegarem à frente.
    Quase me convencem de que a única coisa que impede os meus impostos de serem directamente canalizados para o Syriza é a “obstinação” de Angela Merkel. Como se fosse preciso algum argumento para eu preferir votar numa mulher doutorada em Física em vez dos jotinhas que me apresentam no boletim…

  2. Não é por nada, mas quanto está Portugal a receber (e quanto mais irá embolsar) no âmbito do(s) quadro(s) comunitário(s) de apoio?

  3. “Mas não foi só a brutalidade que se destacou, nem mesmo a capitulação total da Grécia. A mudança real foi que a Alemanha propôs formalmente um mecanismo de saída. No Sábado, Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças, insistiu numa saída temporária – um timeout (intervalo), como ele lhe chamou. Já ouvi uma boa quota de propostas loucas ao longo do tempo e esta é sem dúvida uma delas. Um Estado membro fez pressão para a expulsão de outro. Este foi o verdadeiro golpe do fim-de-semana: a mudança de regime na zona euro.”
    in: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4678961&seccao=Wolfgang%20M%C3%BCnchau&page=-1

    A Alemanha quer dominar a Europa e faz o que for preciso para colocar cada país “no seu lugar”, mesmo que arrisque perder o dinheiro que emprestou. Porque, depois de tão forte exemplo, quem se atreverá a contestar a sua hegemonia?

    Já a ideia da União Europeia é a de uma coligação de vários países, em cada cada um é considerado um parceiro, face a um ideal comum. Essa UE não tem rumo assumido em questões de política externa comum: migrações, conflitos armados, alterações climáticas, etc..

    A ideia da União Europeia está fortemente ameaçada, como Wolgang Münchau descreve. Aconselho vivamente a leitura do seu artigo para se ter uma ideia do que se está a passar.

  4. Mas olhe que para quem escreve post é mais ego- reconfortante ter 60 trolls a debitar as mais incríveis pragas contra os nazis. Muitos percebo, que o mundo se centra nas suas narrativas; e não se poupam a esforços para torcer os factos para que encaixem nas narrativas; para gáudio da turba trolleira que gosta mais assim do conto.

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