Escrevi em post anterior que nos meios de comunicação cresce uma tese sobre a situação europeia que nos leva a conclusões perigosas. A ideia, relativamente simples, está bem patente nos textos que Sérgio de Almeida Correia tem seleccionado na série Nada Disto é Inocente, que devem ler mais abaixo. Hoje, na rádio, ouvi a eurodeputada socialista Ana Gomes dizer que não queria ‘a Europa da Alemanha’, embora a crónica soasse mais a ‘não quero a Alemanha na Europa’. A tese que circula é um pouco contraditória: existe hegemonia alemã, mas a união está sem liderança; uma variante diz que a Alemanha está a destruir a zona euro, apesar de o último Conselho Europeu ter decidido manter a Grécia na moeda única. Outros autores, como por exemplo Viriato Soromenho Marques, fazem comparações históricas, ligando este caso ao uso de armas nucleares na Guerra Fria, o que sem dúvida deve impressionar as senhoras marquesas na conversa do chá das cinco*.
O que se passou no Conselho
Na realidade, com base nos relatos de jornais bem informados, no último Conselho Europeu opunham-se duas teses: a primeira, liderada pela Alemanha, queria o Grexit; a segunda, liderada pela França, queria manter a Grécia na zona euro. Do lado alemão, estavam países como Finlândia (cuja crise nos anos 90 não mereceu ajuda europeia) ou Eslováquia (cujo governo foi derrubado após a votação do primeiro pacote para a Grécia) e ainda Holanda, Áustria e os três bálticos (estes últimos enviaram a Atenas a factura pelo que consideraram ser falta de solidariedade da Grécia em relação ao seu problema com a Rússia). Do lado francês, estiveram países que não queriam arriscar o Grexit: a Itália de forma ruidosa, Espanha e Portugal mais discretos, Chipre, Comissão Europeia, e talvez FMI e BCE (as instituições são ouvidas). A França tinha forte motivo para defender a Grécia: a extrema-direita quer abandonar a zona euro, o que de facto romperia a união monetária de forma irreversível. Não sei quando foram formados os blocos que a imprensa referia, mas as votações devem ter sido desde o início com maioria a favor da posição francesa e a Alemanha em minoria. Como sabemos agora, Paris venceu, ultrapassando a resistência da minoria de bloqueio.
Esta enumeração dos factos conhecidos é incompatível com aquilo que anda a ser escrito sobre a suposta hegemonia alemã ou sobre a hipotética Europa da Alemanha. É evidente que a negociação não foi só sobre o que fazer com a Grécia e haverá novos episódios, mas não se consegue perceber como é que o derrotado é também aquele que impõe a sua visão. Ninguém pode garantir que o euro sobreviva a esta crise e os projectos políticos não são seguramente eternos, mas muitos analistas estão a ver um colapso europeu que não existe nem se vislumbra, repetindo com vigor argumentos dos partidos populistas e dos extremos políticos, segundo os quais esta Europa não interessa aos povos. Nenhum dos comentadores explica qual era exactamente a alternativa entre Grexit e terceiro resgate?
Mais um argumento, aqui.
*Este artigo é todo um programa: de um lado, temos a dissuasão, do outro a vingança.


http://observador.pt/opiniao/eu-culpo-fr ancois-hollande/
Os syricusas lá na deles julgaram que vinham revolucionar a Europa: Pôr tudo de pantanas, … Como se enganaram redondamente, estão de cabeça perdida… pior que o sr Stripas….
não se consegue perceber como é que o derrotado é aquele que impõe a sua visão
As decisões no Eurogrupo são tomadas por consenso, o que significa que também os derrotados influenciam a decisão final.
Não há derrotados e vencedores na decisão final. Há uma decisão tomada por consenso, consenso esse que é formado através da influência de todos.
Houve consenso, mas a minoria de bloqueio teve de ceder e perdeu, pois defendia o Grexit imediato. Saiu vencedora a tese francesa, é muito claro.
E estou a falar do que conta, o Conselho Europeu, que tomou a decisão política…
Sempre foi a táctica dos marxistas “criar um clima”.
Os factos não interessam nem nunca interessaram. E a sem vergonha também.
Veja-se o nível de argumentos: Quem não nos dá dinheiro é Nazi.
Sendo que o Governo Grego que está mais próximo dos Nazis que qualquer outro Governo Europeu.
Luís,
Para o The Guardian o alinhamento de Portugal foi outro: 5/jul/12/eurozone-crisis-which-countries-a re-for-or-against-grexit?CMP=share_btn_f b
http://www.theguardian.com/business/201
Abraço,
Há aqui uma subtileza. Portugal defendeu reformas e afirmou ser contra qualquer perdão da dívida grega. É isto que consta do artigo do Guardian , a meu ver correctamente. No entanto, foi isto mesmo que ganhou no acordo final. Não consta que Portugal, em alguma ocasião, tenha defendido o Grexit . Claro que não sabemos ao certo como é que se votou nos momentos decisivos, mas venceu aquilo que o País defendia, logo presume-se que houve voto favorável à posição francesa. Aliás, Portugal votou ao lado da Espanha e esta apoiou Paris. Não há perdão de dívida e está a ser preparado um pacote de reformas. Não confundir perdão de dívida com reestruturação (maturidades mais longas, juros mais baixos). Isso foi e vai ser feito ainda mais para a Grécia, como aliás está a ser permitido a Portugal.
Eu gabo-lhe a insistência em trazer os factos reais para o juízo dos leitores; mas como sabe melhor que eu, as narrativas destes “democratas” que mencionou não têm pejo (até insistem) em torcer os factos quando não encaixam nas narrativas que já têm prontas. A razão é misteriosa e só eles um dia nos poderão elucidar porque não têm vergonha em escamotear a realidade para bater bem com as tretas que defendem.