Durante uma geração, Portugal tirou grandes vantagens da integração europeia, mas começam a surgir no debate público artigos como este, de João Cardoso Rosas no Diário Económico, onde se defende a ‘desconstrução da Europa’, ideia baseada numa suposta traição ao projecto inicial*.
O caso da bancarrota grega levou os meios de comunicação de referência a uma onda de interpretações abertamente anti-alemãs (por vezes, sem esconder incompreensível grau de xenofobia em relação a cabeleiras loiras). As lideranças europeias são acusadas de chantagem, arrogância, maldade e estupidez, apesar de, como bem nota Luís Menezes Leitão em texto mais abaixo, o Governo de Atenas ter aparente intenção de abandonar a zona euro. A propósito, deixo aqui o link de um texto que escrevi a 14 de Abril.
São tão evidentes as vantagens que Portugal extraiu da integração europeia, que devia ser inútil elaborar listas. Durante quatro décadas, em cada ano, o país foi subsidiado em cerca de 3% do seu produto. Investiu-se em educação, transportes, saúde, tecnologia, infra-estruturas, cultura. As empresas modernizaram-se e têm hoje acesso a um mercado único gigantesco. Esta nova realidade nada tem a ver com a dos anos 80. A preços constantes e apesar da crise, o PIB per capita aumentou 75% desde a adesão. Os portugueses vivem numa zona de prosperidade e segurança, tendo adoptado legislação comunitária de qualidade e construído uma rede social assinalável. Houve também ilusões e até erros imbecis, mas a nossa sociedade sofreu transformações profundas e parece insensato defender o regresso a um passado de isolamento e melancolia.
No entanto, lendo e ouvindo muitos políticos portugueses, inclusivamente com responsabilidades a nível europeu, a Europa está à beira do colapso, perdeu o elemento da solidariedade e tem uma liderança alemã ilegítima. As decisões das instituições são consideradas anti-democráticas (mesmo quando se limitam a cumprir os tratados) e há em pano de fundo certa nostalgia pelo paraíso perdido, essa Europa mítica ‘baseada na coesão e na solidariedade’, como se agora se diz, em formulação suficientemente vaga. O discurso anti-europeu cresce nas franjas do descontentamento, à direita e à esquerda, tendo já conquistado a conversa quotidiana, onde há sempre dois pesos e duas medidas, conforme a origem da crítica. Enfim, os europeus são os maus e quem resista à colonização é o virtuoso. O caso contra a Europa tem sempre poucos factos e muita retórica, indignações difusas e distorções elaboradas. Visa naturalmente pôr o relógio a andar para trás.
* O artigo é contraditório, pois admite que o projecto inicial tinha o objectivo de garantir a paz na Europa, algo que foi amplamente conseguido.


O facto da integração na Europa ter sido vantajosa não quer dizer que não pode ser melhorada. Nem que o projeto inicial não tenha sido desvirtuado.
Custa-me a acreditar que é benéfico para um país, reduzir salários, pensões e os serviços sociais prestados à população, sem haver nenhuma contrapartida (a dívida continua a aumentar, os cortes têm de se repetir todos os anos e andamos às ordens de funcionários não eleitos que parecem só querer esconder a sua desorientação).
Os processos políticos são dinâmicos, só os ditadores e os arrogantes que presumem que têm todas as certezas do mundo é que dizem que não se deve discutir algo hoje porque já foi bom no passado.
A pergunta que deve fazer não é se a integração europeia foi vantajosa para conjunto da Europa. É se é vantajosa para o conjunto da Europa agora.
E a pergunta que vale o prémio é se esta Europa da austeridade nos interessa a nós e se vai continuar a interessar no futuro.