A opinião pública nacional vai sendo modelada a este tema distante com um bocadinho de tiroliro e boa dose de boas intenções, tudo bem misturado com certa desinformação. O caso do ‘Muro na Hungria’ é um sintoma clássico desta inaturável hipocrisia, ignorância ou lá o que é. Quem contrarie a história dominante corre o risco de ser acusado de insensível (ou pior), mas o que ouvimos nos meios de referência não passa geralmente de preconceito e superficialidade. O caso deste texto de Patrícia Fragoso Martins, em Observador, é bem sintomático da leveza com que assuntos difíceis são abordados.
Há pior: em notícia que vi na SIC, o governo húngaro era de “extrema-direita”, assim, com esta brutalidade, o que além de ser asneira é profundamente irritante. Bastava ter consultado a internet para concluir que o governo é de direita e que a extrema-direita está na oposição, diga-se de passagem sem grande cobertura dos meios de comunicação locais. O pior do mau jornalismo é que a opinião pública acaba por não compreender os conflitos e, depois, faz péssimas escolhas.
Segundo julgo perceber no artigo de Patrícia Fragoso Martins (que usa números desactualizados), a UE devia castigar o governo húngaro, embora este esteja a exercer a sua soberania e a construir uma infra-estrutura semelhante à que já existe em Ceuta, território espanhol. De forma inacreditável, tudo isto é comparado com o muro que Israel mantém nos territórios ocupados, para proteger populações dos colonatos. Estaremos a comparar ‘territórios ocupados’ com ‘territórios nacionais’? O problema começa aliás na palavra ‘muro‘, que é imprópria, certamente por má tradução. Não existe qualquer muro, mas uma vedação em arame, um “controlo de fronteira provisório” (na expressão das autoridades) que visa travar durante algum tempo uma migração em larga escala. Não se pretende limitar o movimento das populações sérvias (que, a propósito, são étnicos húngaros que vivem do lado sérvio da fronteira e vão às compras do outro lado). E convinha explicar que a vedação está a ser construída no limite do espaço Schengen a que Portugal pertence, portanto, isto diz-nos respeito. Neste momento, por esta fronteira, entram diariamente mais de dois mil refugiados.
A vedação é uma medida paliativa para um problema europeu e para uma emigração em escala sem precedentes, que está a tornar-se um problema muito sério na Grécia. É justo dizer que esta vedação dificilmente atingirá os seus objectivos, mas altamente injusto afirmar que não tem apoios na UE ou que pretende algo contrário aos tratados. Quem entre no espaço Schengen pela fronteira húngara proveniente de zonas de guerra tem direito a asilo e não pode ser devolvido à procedência, mas os procedimentos de concessão de asilo demoram muitos meses, exigindo meios humanos e financeiros. Como estas pessoas não querem ficar na Hungria, mas seguir para a Alemanha, apanham o primeiro comboio e o problema envolve vários países. Os alemães já fazem projecções de 750 mil refugiados a entrar este ano no seu território. É uma gota de água, dirão os bem-pensantes, mas quantos estão dispostos a receber, alimentar e proteger estes refugiados? Todos ou só alguns? A manterem-se os actuais fluxos nas diferentes rotas, a crise pode implicar a nível europeu mais de um milhão de pessoas em 2015. Seguidas as proporções, Portugal deveria receber 25 mil. Temos condições para isso? A UE sobrevive a isto sem mecanismos que limitem o problema?
A maioria dos refugiados vem da Síria e do Iraque, no âmbito da desintegração daqueles dois países, calamidade política que não é da responsabilidade dos europeus (certamente não é dos húngaros ou dos gregos), mas muito mais dos americanos. Calcula-se que haja quatro milhões de refugiados no exterior da Síria e do Iraque, mais alguns milhões de deslocados internos. Ora, esta multidão está em movimento. Se as guerras se agravarem, como se espera, estamos a falar de uma população superior a 40 milhões de pessoas. Que proporção fugirá da guerra civil? Na realidade, os países europeus têm aqui duas opções: ou tentam travar a entrada destes desgraçados ou deixam-nos entrar a todos. O problema parece ter solução fácil quando chegam mil refugiados, mas a partir de certos números, estamos a falar de uma crise humanitária de grandes dimensões, com significativa vertente política. Não é, pois, assunto para pequenas redacções filantrópicas e convinha discutir seriamente a questão.

Em miúdo cheguei a conhecer tios e primos que, no tempo da 2ªGuerra, tinham recebido, em casa, refugiados ora, quando essa senhora receber alguns em casa, terá o direito de dar “umas bocas” sobre o que faz um país nas suas fronteiras.
África tem 54 países e, infelizmente, quase todos têm conflitos, guerras… um sem número de problemas e, não podemos esquecer que é um continente com uma população de 1.033 Bilhões de pessoas, ora acrescentando os problemas no Médio Oriente, temos uma das situações mais complicadas e perigosas que não tem comparação possível a algo que se tenha visto.
Entre problemas de segurança e de saúde (muitos nem sabem que, em julho deste ano, foi detectado um caso de MERS num hospital britânico, um dos mais de 50 vírus com elevadas taxas garantidas de mortalidade, para os quais tem de estar preparados meios para tentar evitar pandemia) isto de ouvir falar que a U. E. faz pouco, no entanto, não ouço falar sobre o que faz a U.A. porque também há uma União Africana que nem comparece aos encontros para resolver o problema com a U.E.
No entanto, há quem fale disso em jornais africanos e deixo aqui algumas referências:
O jornal The Observer, de Uganda, sente falta de uma atitude clara e conjunta na África. “A realidade nos faz perguntar se os líderes africanos são capazes de controlar o destino do continente, de modo que já não sejamos mais a chacota do mundo. Lamentavelmente, a reação deles até agora dá pouco motivo para esperança. A União Africana não age como deveria, e sequer um único líder nacional, com exceção de Robert Mugabe, abre a boca. Onde e quando a UA convocará uma cúpula sobre os refugiados? Qual é o plano mestre da UA com relação à migração? Onde está a obrigação comum dos líderes africanos de acabar com o sofrimento de seu povo?”
O tema também é comentado pelo La Nouvelle Tribune, de Benin. “A chamada União Africana deveria simbolizar a unidade dos africanos e seu futuro cheio de esperança. Mas ela permanece em silêncio, está completamente ausente em questões importantes”, analisa.
“Centenas e centenas de africanos fogem de conflitos e da pobreza causados por seus próprios governos para morrerem no mar. Se a Europa procura uma solução, é apenas por interesse próprio: para evitar uma invasão de imigrantes”, continua. “Quem pode culpar a UE? Mas neste debate também está óbvio que justamente a UA, que é a mais afetada pelo drama, está ausente. Esta situação intolerável faz os africanos se perguntarem: para que precisamos da UA?”
Portanto, nada é tão simples como alguns querem fazer parecer e, se algo correr mal, seja por motivos de segurança ou saúde, quem vai acabar por ganhar são os movimentos de extrema direita pois, nessa altura, vão arranjar muitos seguidores que quererão culpar os que abriram as fronteiras e deixaram entrar toda a gente.
Esta gentinha que fala sem ter noção das responsabilidades e implicações de tudo o que está em causa, só me faz perguntar e depois? Os europeus fogem para onde?
É mandar um C.V. para o Observador e oferecer os seus préstimos enquanto redactor de noticias (jornalista).
Já enviei
“Estaremos a comparar ‘territórios ocupados’ com ‘territórios nacionais’?”
“Territórios Ocupados”!?
A Istria foi ocupada? o Monte Chaberton foi ocupado? Angola e Moçâmbique foram ocupados? Kosovo foi ocupado?
Não há diferença alguma no Muro em Israel e o muro na Hungria.
Já aqui, caro Naves, tinha comentado a tragédia que se anuncia na Europa. O juízo binário, sobre o já trágico êxodo, deve sintetizar-se em breve, se o não for já, entre o 0 e o infinito!! A peça que aponta é mais um exemplo da preguiça instintual que se lê em todos os jornais e em opinião publicada! O problema é complexíssimo…Os valores em ponderação e os juízos de prudência testam a tangente! Temo pela tal redacção filantropa e por todas as futuras vítimas da filantropia!
Apoiado. A inercia da UE, não augura nada de bom e como sabemos, muitos governantes nem os problemas normais do país , conseguem resolver, quanto mais este que ultrapassa tudo o que vimos até agora. Ou a UE vai para o terreno com delegações oficiais e tenta controlar a emigração por meios legais(formação profissional antes do embarque, ensino da língua e das leis..) tentando desarmar os passadores, ou a coisa continua a trouxe mouche e com as posições habituais da Inglaterra e França, com a sua proverbial fuga de muitas responsabilidades que devem assumir. No meio fica uma Alemanha, que vai integrando os que entram com o ensino obrigatório da língua e apoio no alojamento e o dolce far niente de italianos e gregos; e outros nem piam; mas o problema está cá e vai agravar-se.