Crónicas da fronteira (3): Sem destino


Luís Naves,

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Em Szeged, sul da Hungria

O tsunami humano rumo à Europa está a engrossar e torna-se cada vez mais difícil de controlar na Grécia ou Macedónia, de onde chegam imagens de multidões impacientes e desesperadas. Na Hungria, onde as autoridades começam a controlar o fenómeno, há mesmo assim notícias de pequenos grupos que se põem em marcha, rumo à Alemanha. Um destes, há poucas horas, conseguiu sair do campo de registo de Roszke, nos arredores de Szeged, e avançou durante algum tempo pela auto-estrada, até ser interceptado pela polícia. Em Budapeste, na estação de Keleti, onde há muito menos gente do que ontem, um grupo de 150 pessoas também se pôs em marcha.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros europeus estão a negociar em Bruxelas um sistema de quotas para minorar a crise, mas os números sobre a mesa nem sequer resolvem a questão dos que já entraram este ano na Europa de Schengen, talvez mais de 300 mil migrantes (sobretudo na Itália, Grécia e Hungria). A discussão dos números é acompanhada de promessas de serem apenas recebidos os provenientes de países em conflito, portanto, apenas os sírios e afegãos, que serão talvez metade da vaga.

Como contei em crónica anterior, os migrantes pagaram a redes de tráfico 4 mil euros por cabeça para viajarem da Turquia até à Hungria. Em apenas hora e meia, assisti à chegada de uma centena de pessoas naquele local, o que dava 400 mil euros de negócio para os traficantes. Talvez isto explique que as quantidades estejam a aumentar, havendo outra razão provável: em breve, chega o mau tempo e a travessia para as ilhas gregas e através dos Balcãs será ainda mais difícil. Vamos assistir a cenas humanitárias mais graves, já que nos campos de refugiados da Turquia, Líbano e Jordânia estão ainda milhões de sírios. São refugiados, pessoas sem destino, não têm para onde ir.

 

Imagem da minha autoria, mostra a chegada de um grupo proveniente do lado sérvio da fronteira, em Roszke.

0 comentários em “Crónicas da fronteira (3): Sem destino”

  1. Tenho um mau pressentimento, de que a inercia da UE, ao deixar os refugiados nas mãos dos passadores, arranjou um bico de obra para si própria; parece-me que ingenuidade destes refugiados, ao rejeitarem o controle húngaro, pensam que na Alemanha vão encontrar, bons empregos e tudo o que desejam. A realidade vai ter que ser acompanhada de medidas de segurança e controle, se não queremos ter dramas; esta gente vivia tu cá tu lá com as kalashnikov e granadas, coisa que a maioria dos europeus só sabe o nome.

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