Crónica da região saloia


cronicasnofeminino,

Entram dois homens que entabulam de imediato conversa: “E tu estás com quantos anos? 86?” O outro diz que sim. Começa também a fazer contas sobre a idade do companheiro. “Ah pois atão”. E eis que salta um terceiro ausente à conversa, um tal de João que é um ano mais novo, mas, que, segundo os dois está muito pior que ambos. ‘Na faz nada’ argumentam. O de 86 tece uma série de comentários sobre a importância de se manter activo e sai-se com uma máxima que me me fez sorrir “Rir é viver. Chorar é morrer” disse peremptório e atirou-me quando me viu sorrir “É ou não é verdade?” Concordei claro. Além de ser verdade e de descrever na perfeição o que sinto em relação à vida, que os deuses me livrassem de discordar de tão assertiva personalidade num corpo alto e ágil que não deixava adivinhar as décadas percorridas. Daí até desfilar argumentos em defesa da vida activa foi um pulinho “Ficam aí parados e depois vão à ‘fisoterapia’. Sabes qual é a minha ‘fisoterapia’? É assim ó, para cima e para baixo na horta. Essa é que é a minha ‘fisoterapia’.” E já que veio a horta ao barulho discutiram fervorosamente o andamento da de cada um, O mais baixo reclamava que a batata doce estava muito funda, uma ‘trabalhera’, claro que a culpa era dele ‘puseste-a muito fundo’,  atirou-lhe o alto, ‘na foi nada. Ela é que cresceu pra baixo e ficou funda’ discordou o baixo. Os saloios jamais concordarão enquanto tiverem voz para teimar. E têm uma voz de duração longa e convicções férreas no que se trata a não dar razão ao outro, seja lá qual e quem for esse ‘outro’. Finda a querela da batata doce, mudámos dos tubérculos para os cereais. O mais alto vangloriava-se de ter o melhor milho ‘daqui até as Caldas da Rainha’ e o pomo da discórdia foi a razão da exuberância do milho. E ó se discutiram. Era da água. ‘Na é nada!’ Era da terra? ‘Né nada da terra!’ Vim-me embora entretanto. Como dizem os alemães e se não morreram, são vivos ainda, que é como quem diz, se não se calaram entretanto, ainda lá estarão a discutir o milho entre o Dulcolax e o Paracetamol, o Aminoxil e o Trifene 200. Deve ser também isto a que chamam ‘vida activa’

0 comentários em “Crónica da região saloia”

    1. Obrigada, Pedro. A conversa foi bem longa e divertida. Achei um piadão porque fartaram-se de criticar os que iam à fisioterapia e depois se sentavam no largo da igreja a conversar em vez de se mexer. E já agora, o segredo do milho é que este ano é um ano bom de milho. Se há mérito deve ser para o São Pedro.

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